Resumo: Não faz muito tempo, as imagens fotográficas eram “escritas à luz”. Era um tempo de menos telas. A revelação era uma verdadeira cura, no sentido de cuidado e transformação. Primeiro, as máquinas fotográficas captavam a imagem num filme, onde luz e sombra se invertem. Por isso, o filme também era chamado de negativo. Depois, na penumbra de uma câmara escura, a imagem florescia positiva, em meio à sombra e à luz. Neste ensaio, faço um paralelo entre o processo analítico e o antigo jeito de revelar imagens. Procuro mostrar que tanto analista quanto analisando têm como missão, por meio de ampliações simbólicas e uma atenta e reveladora curadoria de luz e sombra, fazer do negativo, que obscurece a alma, algo positivo.
Sou do tempo em que as fotos para serem reveladas passavam antes por um processo de cura. E aqui se deve entender cura em seu sentido original, de cuidado, e também no mesmo sentido da psicologia analítica e dos queijeiros: de transmutação ou de maturação.
Assim como na análise, a fotografia antes também precisava ser “curada” nas sombras. Mas no que consistia tal cura? Em transformar o negativo, o filme, em positivo, a foto propriamente dita. Essa cura começava por meio de um instrumento chamado ampliador. Na análise, é por meio de um método chamado ampliação simbólica que trazemos experiências “negativas” das sombras do inconsciente para se tornarem, pouco a pouco, “positivas” à luz (photon) da consciência.
Na faculdade de jornalismo, lembro de frequentar uma câmara escura — onde a reveladora alquimia da imagem se dava. Pela penumbra avermelhada, o lugar lembrava um bordel silencioso, o que, aos meus sentidos, dava a impressão de enigma, mistério e religiosidade. A revelação de uma imagem cheia de memória e significado precisava ser feita nesse lusco-fusco, porque, sob intensa luz e durante boa parte do processo, o filme e também o papel fotográfico, no qual seria projetada e fixada a imagem positiva, poderiam “queimar”.
Ter o “filme queimado”, expressão que até hoje se usa, significa ter uma imagem manchada, que depõe contra o retratado.
Objetivamente, um filme queimado nada revela ou revela apenas parcial e insatisfatoriamente o que deve ser revelado. Uma mancha cinza ou embranquecida se apodera da imagem, provando que, quando se trata de revelação, muita luz ofusca e esconde em vez de mostrar. Na análise, também é preciso calma e cuidado com a luz. Nem tudo que está no negativo está pronto para ser revelado rapidamente.
Quem não sabe deve supor, mas o negativo se caracteriza por ser o inverso da imagem revelada. Tudo o que tem luz, no negativo, estará escuro na imagem; tudo o que está claro, por outro lado, se revelará sombrio. Psicologicamente, não é incomum que características que trazemos conosco, mas que não queremos aceitar apareçam nos outros como aspectos obscuros. Não é incomum que esses defeitos projetados justifiquem que eu me comporte como se comportam aqueles que eu critico, embora eu não me dê conta disso. Estamos falando de projeções de sombra.
Jung (2008, p. 152-4) escreve que a sombra se constitui da força de “aspectos ocultos reprimidos e negativos (ou nefandos)” da personalidade projetada pela mente consciente do indivíduo.
Faz parte do trabalho do analista ampliar e refletir a imagem negativa projetada, de modo que o cliente descubra que há nele próprio mais coisas em comum com aquele que julga mal do que pode imaginar. Eis o começo do processo que revela ao cliente haver, em si, mais imagens do que apenas aquela com a qual ele se identifica. Se essas imagens rejeitadas não forem consideradas pela consciência com o poder que têm, o cliente se confundirá inconscientemente com o negativo delas, tornando-se igualmente sombrio.
Retirando o véu de inconsciência
A palavra revelar é oriunda do latim re-(tirar) e velare (véu), ou seja, revelar é tirar o véu. Considerando o antigo método de revelação, na câmera escura, depois que o filme é ampliado e escrito com luz nos cristais de prata do papel fotográfico — constituído também fibra e sulfato de bário, que funciona como espelho —, ainda não é possível ver a imagem positiva. A imagem está lá, mas apenas de forma latente, ou seja, ainda inconsciente.
Para que ela possa ser trazida à luz como positivo, é preciso retirar o “véu”, o que é feito por meio de três banhos químicos. No primeiro, a solução, que se chama “revelador”, dissipa a “névoa” branca do papel fotográfico que envolve a imagem latente; assim, permite que ela seja vista. No segundo banho, o efeito do revelador é interrompido pelo “interruptor”. Sem ele, o excesso de revelador tornará a imagem escura, pesada e sem contornos, enfim, morta. No terceiro, chamado de banho “fixador”, o objetivo é fixar a imagem revelada, tornando-a resistente ao contato com a luz e os olhos do mundo.
Os líquidos, sobretudo a água, são simbólica e historicamente associados às emoções e aos sentimentos e, na análise, é preciso entrar em contato com o que nos afeta nessas dimensões. Ou seja, ainda na penumbra, deve-se mergulhar em emoções e sentimentos as imagens projetadas que já começam a se revelar positivas, mas que, em alguma medida, ainda assustam, pois carregam consigo uma carga significativa de negatividade.
Na psicologia analítica, os negativos também trazem em si um positivo latente e podem ser chamados de complexos constelados.
Eles funcionam como imagens vivas, com caráter próprio e capacidade de governar as nossas ações caso não os revelemos a nós mesmos. A sombra, da qual falamos acima, é constituída por complexos. Por isso, ela carrega o que é indispensável para o autoconhecimento e para a transformação do indivíduo (Cf. Jung, 2011a, p. 19).
O caso do menino “burro”
Para entender melhor sobre a sombra e os complexos, imagine um menino que foi chamado de burro por uma professora na pré-escola por ter errado um exercício. O garoto se negaria a retornar à escola e nem as medidas tomadas pela diretora, como a demissão da professora, seriam suficientes para levá-lo a colocar os pés naquela sala de aula de novo. Considere que ele tinha dificuldades com o pensamento técnico e matemático, enquanto seus familiares eram bons nessas áreas e que levava mais tempo para pegar a malícia nas falas dos mais velhos do que seus coleguinhas.
Imagine agora que, já na adolescência, ele ouviria de uma professora da época da segunda série que, na infância, ele era banzo. Ele perguntaria, na ocasião, a um colega mais inteligente o que era banzo e ouviria que devia ser o mesmo que “burro”. Só depois descobriria que a palavra significa, na verdade, algo como um tristonho pensativo.
Perceba que as experiências de infância, nesse sentido, formavam uma imagem latente na cabeça do adolescente que havia se tornado.
Pouco a pouco, contudo, ao longo da juventude, ele foi percebendo que ia bem no mundo das metáforas e do pensamento filosófico. Logo, se entrincheiraria atrás de livros, disposto a disparar arrogância literária contra quem quer que ousasse diminuir sua inteligência. A descoberta de um gosto e de um lugar onde não era burro lhe dava a oportunidade de se defender da própria burrice. O complexo de inferioridade estava constelado; não porque ele foi o único a passar por situações como as descritas, mas pela maneira como as havia interpretado.
Essa conduta defendida chegou ao ponto de, no ambiente de trabalho, já na vida adulta, num momento de papo descontraído, ter uma reação desproporcional quando a chefe lhe chamou despretensiosamente de burro. Ele saiu de si, até porque estava conscientemente convencido de que se havia alguém burro naquela conversa era ela. Ergueu-se da cadeira em que estava sentado e, com o dedo em riste na direção dela, embora de longe, disse: “Burro é você! Burro é você”. Assim mesmo, no gênero masculino, como a criança que literaliza as expressões e enxerga o animal em espécie à sua frente.
Outros episódios parecidos viriam depois desse, sempre lhe deixando um gosto amargo de arrependimento. Ele sabia que, em algum sentido, estava errado, estava em desacordo consigo mesmo e, de quebra, não raramente, magoava outras pessoas. Perceberia, assim, que não era natural sua irritabilidade e sua agressividade excessivas diante em algumas situações. Notou que, com algumas exceções, não inspirava admiração nem carinho, mas temor e antipatia nas pessoas. Nalguns momentos de sensatez, pensava: “Não é possível que só eu esteja certo e todo o resto do mundo seja burro ou mal-intencionado”.
Algo precisava ser revelado a si mesmo. Noutras palavras, era preciso encontrar o positivo dessas projeções negativas de sua intimidade. Assim, o menino crescido empreendeu um longo processo de autoanálise…
As etapas da análise e da revelação
A partir daqui, é interessante traçar um paralelo entre as etapas do processo analítico e os banhos no papel fotográfico. As memórias de infância do nosso personagem começaram a ser resgatadas na análise a partir de técnicas de ampliação simbólica e, aos poucos, deixaram uma impressão na consciência que ainda não podia ser vista com clareza, mas que já se deixava entrever. A carga afetiva que as memórias traziam banhou a imagem latente num sentimento revelador. Na análise, seria o que Jung chamou de etapa da confissão: quando o cliente revela, não ao terapeuta, mas a si mesmo, o que estava escondido em sua inconsciência — o sentimento de inferioridade intelectual que o perturba.
A necessidade de ver com clareza a imagem que emergiu o leva a registrar, com expressões criativas, o que vê. Agora, mais importante do que seguir revelando, é se concentrar no númen provocado pela imagem. É preciso interromper o processo revelador e dar consistência aos contornos da imagem nascida. Na análise, trata-se da etapa do esclarecimento, quando o cliente compreende que está agindo a partir de uma imagem negativa e incompreendida que existe nele, ou seja, que é dominado por um complexo constelado, no caso, o de inferioridade.
Contudo, foram anos agindo a partir dos desígnios desse complexo. Por isso, não é fácil mudar só porque tomou consciência do funcionamento até então inconsciente. A tomada de consciência é só o primeiro passo. Entra em cena a fase da educação, quando é preciso se auto-observar, perceber a repetição do padrão e tentar, deliberadamente, agir de maneira mais apropriada à nova disposição de consciência que se quer alcançar. É preciso um grande esforço de fixação da nova imagem positiva que se revelou.
Jung (2013b, p. 82) escreve que “a cada fase da evolução da nossa psicologia pertence algo definitivo”.
Assim, na confissão, “somos levados a crer: pronto, agora tudo veio à tona, tudo saiu, tudo ficou conhecido, todo o medo foi vivido, toda lágrima foi derramada, daqui para frente tudo vai correr às mil maravilhas”. No esclarecimento, segundo ele, “sabemos o que provocou a neurose […] o caminho para uma vida sem ilusões está desimpedido”. Mas aí vem a educação “e mostra que uma árvore que cresceu torta não endireita com uma confissão, com o esclarecimento, mas que ela só pode ser aprumada pela arte e técnica de um jardineiro”.
No nosso caso, precisamos da arte de um bom revelador, cujo resultado final do trabalho deve ser a foto no porta-retrato. Na análise, o resultado final, a última etapa do processo, é a transformação, a cura que permite ao analisando se sentir mais íntegro, mais adaptado a si mesmo e, por isso, mais capaz de lidar com os desafios da vida e do mundo.
A identidade revelada
Nessa história, nosso personagem conseguiu aceitar, em alguma medida, o burro que havia nele e percebeu que essa aceitação era vital para que pudesse se relacionar de forma mais saudável com os outros, sem projetar neles a “imperfeição” que não podia aceitar em si mesmo.
Uso a imperfeição entre aspas porque o “burro” que rejeitava era, em grande medida, a sua criança frágil e humilhada. Era ela a identidade secreta que não queria que fosse revelada, sob o risco de queimar seu filme. Ironicamente, essa mesma fragilidade, ao ser negada, foi o que o levou a um lugar de conhecimento e desenvolvimento pessoal de que se orgulhava. A maneira traumática com que vivera a experiência pré-escolar e outras foi um fardo, mas, de alguma forma, também foi um desafio que o estimulou a vencer boa parte da vida adulta, buscando se desenvolver intelectual e profissionalmente.
Agora, porém, não fazia mais sentido seguir da mesma forma: a mágoa precisava dar lugar a uma imagem autorrevelada. Deveria ver o aspecto positivo do burro. Assim, estaria livre para sepultar a visão de mundo pela qual se norteou até ali, poderia descortinar novos horizontes e perspectivas, mais alinhados com quem ele precisava ser no futuro…
Mas, antes do ponto final, vale mais uma revelação: essa história é autobiográfica. Escrevi em terceira pessoa porque me pareceu mais fácil e, ironicamente, mais preciso. Ampliá-la, projetá-la e vê-la dissociada de mim foi menos incômodo e, mais do que isso, contemplou o fato de a minha memória ser parcial e imprecisa. Lembrar é imaginar. Por isso, consigo, com este ensaio, imaginar uma bela foto antiga exposta num porta-retrato na sala de casa.
Wagner H P Borges — Analista em Formação pelo IJEP
Dra. E. Simone Magaldi — Analista Didata do IJEP
Bibliografia:
HILLMAN, James. O Código do Ser — uma busca do caráter e da vocação pessoal. Rio de Janeiro: Objetiva, 1997.
JUNG, Carl G. O homem e seus símbolos. 2ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.
_________. Aion — estudo sobre o simbolismo do Si-mesmo. 8ª ed. Petrópolis: Vozes, 2011a.
_________. A natureza da psique. 10ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013a.
_________. A prática da psicoterapia. 16ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013b.

