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E se estivermos a caminho do nosso próprio fim?

sobrevivência da nossa espécie

sobrevivência da nossa espécie

O ser humano não é adepto de situações de incerteza. Quando vivíamos em savanas, a céu aberto ou em cavernas, o medo constante determinava três padrões de comportamento que deviam ser seguidos para garantir a sobrevivência da prole e dos membros do grupo: era preciso estar sempre alerta, fugir dos predadores ou, não tendo alternativa, partir para o combate. Se algo ao longe parecesse com um predador, já se considerava que fosse um predador. Não existia o benefício da dúvida e nem a possibilidade de se viver distraído ou envolto em questões subjetivas. O acaso não protegia aqueles que se permitissem sonhar acordado ou até mesmo dormir profundamente. A dúvida, o questionamento e a distração traziam a morte certa.

Nossa vida e cultura mudaram significativamente desde aqueles tempos pré-históricos. Já não sabemos lidar com o medo do mesmo modo assertivo e, muitas vezes, pragmático de nossos ancestrais. Muitos não conseguem mais enxergar perigos visíveis, invisíveis ou possíveis, pois os instintos estão meio que adormecidos, entraram em estado de latência, digamos assim, pois vivemos hoje muito distantes daquelas condições de exposição constante ao perigo externo. Cercados de “mecanismos” de segurança, somos levados a acreditar que principalmente o dinheiro é capaz de solucionar tudo, mas também o exercício físico, a alimentação saudável ou, até mesmo, São Jorge podem blindar nosso corpo. Achamos que somos quase imortais. Acreditamos que já enfrentamos tantos perigos e desgraças que não será uma ameaça invisível que irá nos derrubar. Pensamos assim tanto como indivíduos quanto como espécie. Ao longo dos séculos, passamos a reverenciar os “poderes sobrenaturais” do dinheiro, da fé, da ciência e do desenvolvimento industrial, ou os “poderes de blindagem” de muros, armas, guerras e rezas, esquecendo-nos de considerar a realidade inexorável e possível da morte em massa ou até mesmo da extinção de nossa espécie nesse planeta.

Paolo Rognini é autor de um estudo sobre o comportamento humano onde apresenta uma nova perspectiva e abordagem sobre esse, cada vez menos absurdo, mito da extinção da espécie humana. Ele desenvolveu um paradigma, segundo o qual os seres humanos têm uma tendência natural a manter e repetir certos comportamentos, mesmo quando as causas desencadeadoras já não existam mais. Essas condutas foram denominadas por Rognini de Vestigial Drifting Drives ou (VDDs). Atitudes humanas que antes eram vistas como qualidades e vantagens, e que contribuíram para a capacidade de adaptação e sobrevivência da nossa espécie, como a dominação e exploração de outras espécies e do meio-ambiente e seus recursos, se tornaram disfuncionais e obsoletas no atual contexto de crise ecológica. Foram esses comportamentos assumidos que nos afastaram, ao longo dos milênios, dos nossos mais básicos instintos. Os seres humanos se tornaram repositórios de VDDs, tornando-se a própria ameaça de auto extinção.

Dialogando muito pouco com os instintos e preferindo ignorar sinais e alertas, mesmo quando esses são repetidos todos os dias pelos fatos e pelas notícias veiculadas nos meios de comunicação, estando bem embaixo de nossos narizes ou bem diante de nossos olhos, os seres humanos, como repositórios de VDDs, continuam escolhendo um tipo de comportamento perigosamente baseado nas relações de desigualdade, exploração, dominação, consumo e injustiça. Vivemos ao lado de uma bomba relógio pronta para explodir a qualquer momento e ela pode ser detonada tanto pela grande massa de seres humanos cruelmente explorados e esquecidos quanto pela natureza aviltada sem dó nem piedade por uma minoria ávida e insaciável de poder e capital.

Visto que a última grande ameaça global na forma de uma pandemia ocorreu em 1918, esquecemos e ficamos desacostumados do poder do invisível, que pode até ser conhecido pela ciência, mas está longe de ser controlado por esta e compreendido totalmente por nós. E diante de todas as mudanças de atitude necessárias à situação atual, muitos preferem negar. Até porque as mudanças de comportamento determinadas por uma situação extrema nos trazem de volta a necessidade de agir como nossos ancestrais que reverenciavam e respeitavam o medo como algo muito útil, pois este os ajudava a reconhecer adversários e a tomar as decisões mais difíceis, como por exemplo, convocar todo o grupo para uma migração de centenas de quilômetros, se isso representasse a segurança de todos. 

Hoje em dia, diante de uma pandemia, para alguns, a obrigação de usar máscara ao sair de casa, álcool em gel em supermercados, manter distância, cumprir a quarentena, assumir os riscos financeiros decorrentes desta, abrir mão de suas comodidades do dia-a-dia, como passear no calçadão, fazer ginástica na academia, tomar um chopinho no bar, etc., representam um esforço hercúleo e, até mesmo, um absurdo! Já para os que, em meio à nossa sociedade cruelmente desigual, cresceram enfrentando o medo e os riscos conhecidos e declarados, o respeito e a reverência ao inimigo, mesmo sendo este agora invisível e desconhecido, parecem maiores. São aqueles que não podem se permitir uma quarentena e, muito menos, uma doença, pois já sabem que, diante das desgraças que sempre espreitaram por detrás de suas portas – a morte e o descaso – o único a ser feito é usar de todos os recursos de que dispõem para garantir sua sobrevivência e a de membros da família e da comunidade. 

Diante da nossa sociedade ultramidiática, todos querem ter voz e poucos se dispõem a escutar. Os direitos individuais estão sempre sendo ameaçados, mas dos deveres de cada um, ninguém fala. É a sociedade dos direitos garantidos por lei e dos deveres esquecidos por todos. Só resta aos que reverenciam e respeitam o medo nesse momento de extrema delicadeza, se calar diante das “desobediências” dos que insistem em continuar na negação. Abaixar a cabeça, se desviar, mudar de calçada ao avistar um desses representantes da rebeldia sem causa que insistem em espalhar seus perdigotos por aí, porque claramente é impossível estabelecer uma comunicação construtiva com a maioria deles, muito menos não violenta.

Caberia ao Estado estabelecer as regras e as punições? Talvez sim. Talvez não. Mas certamente caberia ao Estado um papel muito diferente daquele que está sendo assumido e ações muito mais eficazes do que aquelas que estão sendo colocadas em prática. Desde o início desta pandemia, estamos numa corrida contra o tempo, contra a carência de leitos em hospitais, contra as mortes, contra a fome, contra a pobreza decorrente da situação, contra a perda de profissionais da saúde…. No entanto, muitos continuam reproduzindo discursos e comportamentos que só confirmam a teoria de Rognini: parece que nossos crânios abrigam cérebros que ainda não se adaptaram à realidade atual.

Jung, em sua obra A Natureza da Psique, diz o seguinte a respeito das nossas “atitudes”, isto é, nossas ações e reações:

Quer dizer, nossas ações não são inteiramente simples, reações isoladas, para assim dizermos, a um determinado estímulo. Pelo contrário, cada uma de nossas reações e ações se processa sob a influência de fatores psíquicos complicados. Utilizando a analogia militar, poderíamos comparar estes processos com a situação de um quartel-general. Para o soldado ordinário, pareceria que o exército bateu em retirada por ter sido atacado, ou que se lançou um ataque, porque se avistou o inimigo. Nossa consciência está sempre disposta a desempenhar o papel do soldado comum e a acreditar na simplicidade de suas ações. Na realidade, porém, a luta foi travada neste determinado lugar e neste dado momento, porque havia, já com vários dias de antecedência, um plano geral de ataque que deslocou o soldado comum para este ponto. E este plano geral, por sua vez, não é simplesmente uma reação a informes de reconhecimento, mas uma iniciativa criadora do comandante, condicionada também pela ação do inimigo e talvez também por considerações políticas inteiramente de natureza não militar e desconhecida totalmente do soldado comum. Estes últimos fatores são muito complexos e escapam quase de todo à compreensão do soldado comum, embora possam ser totalmente claros para o comandante do exército. (JUNG, C. G – A Natureza da Psique, Ed. Vozes, Vol. XVIII/2, 1971).

Os que permanecem na rebeldia e na negação dos fatos em momentos de incerteza como este que vivemos dizem agir de acordo com a lei do livre arbítrio e em respeito aos seus valores, princípios e visões de mundo, conclamando com todas as letras seus direitos individuais e sua “liberdade” de ir e vir que devem ser preservados acima de tudo e, nesse caso, contra todos. Ignorantes de todos os mecanismos que se operam por trás de suas atitudes, essas pessoas têm a ilusão de serem “comandantes” de suas próprias ações e reações, sendo que agem como indivíduos manipulados pelos comportamentos adquiridos ao longo do tempo que teimam em se repetir, fazendo com que permaneçam rodopiantes feito soldados sem comando em meio a um tiroteio, prontos para agarrar e reproduzir o discurso de qualquer um que venha a corroborar com seu processo de negação e resistência.

Dormimos com declarações absurdas sobre a pandemia e acordamos com demissões de ministros da saúde, um após o outro, espalhando mais medo e mais incerteza em meio à já sofrida população. O número de mortes se multiplica, triplica, cresce exponencialmente mais uma vez, conforme previsto, mas negado por autoridades e seus cegos seguidores. Diante de um inimigo impossível de ser vencido com as armas que temos e conhecemos no momento, o mecanismo de fuga de nossos ancestrais se mostra ineficaz e somos obrigados a parar e nos proteger da melhor maneira possível. A sensação de impotência decorrente da imobilidade, do isolamento, da incerteza e da desilusão traz consigo uma ansiedade manifesta num nível tão alto que pode até causar uma paralização total, tanto física quanto psíquica, ou a produção de sintomas que nada têm a ver com nosso inimigo invisível do momento, mas sim com algo maior, isto é, a grande questão do nosso tempo presente: “E se estivermos a caminho do nosso próprio fim?”

Jung, ao falar de “doença” ou “sintoma”, amplia esses conceitos, colocando-os como fatores que estão além do indivíduo. As patologias em geral são influenciadas e, muitas vezes, determinadas pelo contexto e os sintomas são, também, manifestações de seu tempo. Dentro desse quadro pandêmico, tanto o indivíduo que nega quanto aquele que entra em pânico trazem notícias de questões subjetivas e objetivas que estão em jogo na sociedade pós-contemporânea. 

Já há algum tempo, estamos percebendo que nós, humanos, não mais controlamos tudo ao redor, ou melhor, estamos perdendo com incrível velocidade a antiga ilusão de que, um dia, controlamos algo. Com o advento da Internet e do Cyberspace e todas as narrativas digitais decorrentes, uma nova ferida narcísica se instalou em nossos egos dominadores, sendo que esta não tem previsão de cicatrizar, muito ao contrário, parece mais profunda do que 20 anos atrás e a tendência é piorar. 

Vemos, a cada dia, a realidade fugir completamente ao nosso controle, trazendo questões como: “Em quem ou no quê eu devo acreditar?”; “Quem está por trás de tudo isso?”; “Vale à pena continuar a fazer as coisas como sempre fiz?”; “Minhas ações fazem alguma diferença num mundo controlado por algoritmos?”; “Afinal, será que nós humanos devemos continuar nesse planeta?”; “Será que a extinção da espécie humana se dará através da confirmação de nossa completa inutilidade?”.

Não temos respostas para tais perguntas, mas podemos nos esforçar para continuar por aqui, pela área, contrariando os objetivos de movimentos como o VHEMT (em inglês: Voluntary Human Extinction Movement – Movimento pela Extinção Humana Voluntária, https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Movimento_pela_Extin%C3%A7%C3%A3o_Humana_Volunt%C3%A1ria) que advoga que devemos renunciar à reprodução humana de modo a causar sua extinção voluntária e gradualmente, e que essa seria a única forma de salvar o planeta Terra.

A tentativa, por parte do indivíduo e do coletivo, de alcançar alguma superação ou, pelo menos, do início de cicatrização dessa ferida narcísica causada pela consciência de nossa total inutilidade nesse planeta, deverá passar pela aceitação das inevitáveis mudanças que devemos empreender em nossas atitudes e pela compreensão do fato de que não temos, nunca tivemos e nunca teremos controle de todos os aspectos da realidade. É preciso abandonar esse estado de conflito e eterno convite à guerra contra realidades irrefutáveis, ainda mais agora quando elas se apresentam de modo tão claro e absoluto através das catástrofes ecológicas a nível planetário. A necessidade de uma mudança de mentalidade urge, grita, se escabela diante de nós, não temos mais como ignorá-la.

Devemos nos permitir acreditar num devir, numa abertura para o novo, abandonando comportamentos e crenças que, claramente, já não nos servem mais. A pandemia e suas feridas abertas deverão ser nossas aliadas no processo coletivo de cura e regeneração. Devemos acreditar na possibilidade de promover um modo de vida mais criativo, mais sustentável, mais justo e mais igualitário. Após esse período no qual somos obrigados a encarar nossos conteúdos sombrios individuais e coletivos, no qual tivemos que começar a lamber nossas feridas, a olhar para tantos aspectos não integrados e negados de nossa psique, temos que manter a esperança de que também eles sairão de suas casas banhados de uma nova luz, de um pouco mais de calma e de uma pausa mais que necessária, como nos diz Vicka, na sua canção Pausa :

Será que tem remédio pra curar meu tédio?

Será que existe cura pra toda essa loucura?

Calma, o mundo precisa de pausa

Será que estava escrito em algum livro antigo

Se foi premeditado ou coisa do acaso?

Calma, o mundo precisa de pausa

No fim tudo volta ao seu lugar

Talvez seja hora pra pensar

Nem tudo se pode controlar

O que será que o mundo tem a falar?

Calma… calma… calma…

O mundo precisa de pausa

Isa Carvalho – Membro Analista em Formação pelo IJEP

isafvc2@gmail.com

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

JUNG, C.G. Vol. 8/2 – A natureza da psique – Obras Completas – Ed. Vozes. 

COYNE, R.

ROGNINI, P.

Isa Carvalho

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