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	<title>Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
	<lastBuildDate>Wed, 20 May 2026 16:15:14 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Blog IJEP</title>
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		<title>Será que é tudo Culpa dos Pais?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Leonardo Torres]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 20 May 2026 12:42:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Pais e Filhos]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[análise junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Arquétipos]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
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		<category><![CDATA[setting analítico]]></category>
		<category><![CDATA[setting terapeutico]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A pergunta “é tudo culpa dos pais?” frequentemente emerge diante do sofrimento psíquico infantil, sustentando uma visão causal e moralizante. A Psicologia Analítica propõe um deslocamento dessa lógica, enfatizando que a influência parental se dá sobretudo em nível inconsciente. Leia o artigo aqui.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/sera-que-e-tudo-culpa-dos-pais/">Será que é tudo Culpa dos Pais?</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:20px"><strong>Um olhar junguiano sobre a culpabilidade dos pais na personalidade dos filhos</strong></p>



<p><strong>Resumo</strong>: A pergunta “<strong>é tudo culpa dos pais</strong>?” frequentemente emerge diante do sofrimento psíquico infantil, sustentando uma visão causal e moralizante. A Psicologia Analítica propõe um deslocamento dessa lógica, enfatizando que a influência parental se dá sobretudo em nível inconsciente. A criança, em estado de participação mística, encontra-se imersa no campo psíquico dos pais, sendo profundamente afetada por seus conflitos não elaborados, afetos reprimidos e vidas não vividas. A compreensão de que o inconsciente dos pais atua como um solo invisível na constituição da psique infantil, desloca a noção de culpa para a de responsabilidade psíquica. Ainda assim, a criança não é determinada exclusivamente por esse campo, sendo também atravessada pelo inconsciente coletivo e pelo seu próprio processo de individuação</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-pergunta-sera-que-e-tudo-culpa-dos-pais-emerge-com-frequencia-tanto-na-clinica-quanto-no-discurso-cultural-contemporaneo" style="font-size:18px"><strong>A pergunta: “Será que é tudo culpa dos pais?” emerge com frequência tanto na clínica quanto no discurso cultural contemporâneo.</strong></h2>



<p>Diante do sofrimento psíquico, é comum buscar causas objetivas e responsáveis diretos (e externos). Muito frequentemente, procura-se culpabilizar os pais por todo sofrimento psíquico dos filhos, muitas vezes não levando em conta as dinâmicas inconscientes &#8211; pessoais e coletivas &#8211; que nos tomam a todos de assalto. Essa busca constante por um culpado, no entanto, tende a simplificar a imensa complexidade da alma humana.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-psicologia-analitica-oferece-uma-perspectiva-distinta-dessa-logica-reducionista-causal-e-moralista-deslocando-a-nocao-de-culpa-para-uma-compreensao-simbolica-e-relacional-do-desenvolvimento-psiquico" style="font-size:16px">A Psicologia Analítica oferece uma perspectiva distinta dessa lógica reducionista, causal e moralista, deslocando a noção de culpa para uma compreensão simbólica e relacional do desenvolvimento psíquico.</h2>



<p>Jung reconhece a profunda influência dos pais na constituição da psique infantil, mas recusa a ideia de uma determinação mecânica ou de uma culpabilização consciente; até porque ninguém nasce como uma tábula rasa. Para ele, a criança não é afetada apenas pelos comportamentos explícitos dos pais, mas sobretudo pelo estado inconsciente de suas almas. Assim, a questão central deixa de ser a culpa e passa a ser a responsabilidade psíquica. Afinal, <strong>o inconsciente parental atua como um terreno invisível, onde a semente da psique infantil irá, inevitavelmente, germinar</strong>.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-default is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:18px">
<p style="font-size:17px;line-height:1.4"><em>Também não está resolvido o assunto se os pais apenas procuram viver de acordo com os valores morais geralmente aceitos, porque o cumprimento de costumes e leis pode servir&nbsp; igualmente para encobrir uma mentira de tal modo sutil que, por isso mesmo, escape à percepção de outras pessoas. (JUNG, 2013, p. 49)</em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-obra-o-desenvolvimento-da-personalidade-jung-afirma-que-a-crianca-vive-inicialmente-em-um-estado-de-profunda-indiferenciacao-em-relacao-ao-mundo-dos-pais" style="font-size:17px">Na obra “<strong>O Desenvolvimento da Personalidade</strong>”<em>,</em> Jung afirma que a criança vive inicialmente em um estado de profunda indiferenciação em relação ao mundo dos pais.</h2>



<p>Ele descreve essa condição como uma  participação mística, na qual a criança não se percebe como um eu separado. Nesse contexto, os conteúdos inconscientes dos pais, seus conflitos não elaborados, medos, expectativas e frustrações, exercem influência direta sobre a psique infantil. Jung enfatiza que a criança é particularmente sensível não ao que os pais dizem, mas ao que eles são. Nas palavras do autor:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:17px;line-height:1.4">
<p><em>O exemplo é o melhor dos mestres! Isto se verifica aqui como uma verdade, que já a muito é conhecida e que ao mesmo tempo é inexorável. Neste sentido o que importa não são palavras boas e sábias, mas tão somente o agir e a vida real dos pais. (JUNG, 2013, p. 49)</em></p>
</blockquote>



<p>Essa ideia desloca nossa reflexão do campo moral para o campo simbólico e inconsciente, indicando que o sofrimento infantil muitas vezes expressa aquilo que não foi simbolizado ou integrado pelos adultos responsáveis. As crianças, com sua sensibilidade aguçada, ou em termos junguianos, ainda imersas no inconsciente dos pais, frequentemente atuam como &#8220;antenas&#8221; emocionais, absorvendo as tensões não ditas do sistema familiar.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-outras-palavras-as-dinamicas-inconscientes-dos-pais-deveriam-receber-uma-maior-atencao-em-favor-da-qualidade-de-vida-dos-filhos-e-ate-certo-ponto-para-lhes-garantir-a-liberdade-de-viverem-suas-proprias-vidas" style="font-size:16px">Em outras palavras, as dinâmicas inconscientes dos pais deveriam receber uma maior atenção em favor da qualidade de vida dos filhos, e até certo ponto, para lhes garantir a “liberdade” de viverem suas próprias vidas.</h2>



<p>De acordo com Jung (2013, p. 52, § 87), via de regra,  o fator que atua psiquicamente de um modo mais intenso sobre a criança é a vida que os pais ou antepassados não viveram. Isso nos mostra que nossos sonhos engavetados e frustrações não elaboradas podem se tornar literalmente o “peso nos ombros” da geração seguinte.</p>



<p>Jung é cuidadoso ao falar de culpa moral dos pais. Em seus textos sobre educação e psicoterapia, ele ressalta que muitos adultos carregam complexos não elaborados que inevitavelmente se manifestam na relação com os filhos, sem que haja nenhuma intenção consciente. Em vez de falar de culpa, Jung traz o conceito de responsabilidade psíquica, que não implica acusação, mas o reconhecimento das limitações e dificuldades dos próprios cuidadores.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-assumir-essa-responsabilidade-exige-profunda-coragem-para-olhar-para-dentro-e-acolher-as-proprias-imperfeicoes" style="font-size:17px">Assumir essa responsabilidade exige profunda coragem para olhar para dentro e acolher as próprias imperfeições.</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:17px;line-height:1.4">
<p style="font-size:17px"><em>Não é importante que os pais nunca cometam erros, isso seria impossível para seres humanos, mas que os reconheçam como erros. Não é a vida que deve ser detida, mas a nossa inconsciência; primeiramente a do educador, isto é, a própria, pois cada um é educador do seu próximo tanto para o bem quanto para o mal. (JUNG, 2013, p. 90, § 155)</em><em></em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nos-que-somos-pais-sentimos-na-pele-a-dificuldade-e-a-bencao-que-e-a-criacao-de-filhos" style="font-size:17px">Nós, que somos pais, sentimos na pele a dificuldade e a bênção que é a criação de filhos.</h2>



<p>Entendemos, no amor e na dor, que um filho é completamente diferente do outro, e que a mesma educação não traz os mesmos resultados para ambos. Na minha experiência como mãe, tenho duas filhas com uma diferença de seis anos entre elas. Entre os dois nascimentos, vivenciei duas gestações perdidas, episódios de dor que naturalmente deixaram suas marcas.</p>



<p>A primeira nasceu com um temperamento completamente diferente da segunda. Claro que as experiências e a visão de mundo delas dependeram de mim: tanto das minhas próprias vivências em diferentes momentos das gestações quanto durante os primeiros anos de suas vidas. A primeira teve sete meses de atenção minha exclusivamente dedicados a ela.</p>



<p>A segunda, infelizmente, foi privada dessa atenção exclusiva, uma vez que, aos seus 40 dias de vida, precisei voltar ao trabalho; e, embora minha casa fosse ao lado do trabalho, não pude dar a ela a mesma presença. Mesmo tentando dar a ambas a mesma educação, eu já não era a mesma pessoa seis anos após a primeira gestação.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nesse-sentido-fica-evidente-que-todas-as-experiencias-vividas-por-nos-e-pelos-filhos-parecem-determinar-sensibilidades-futuras" style="font-size:16px">Nesse sentido, fica evidente que todas as experiências vividas por nós e pelos filhos parecem determinar sensibilidades futuras.</h2>



<p>Para mim, se fortalece o conceito de inconsciente coletivo e pessoal quando, independentemente do mesmo estímulo, cada um reage a seu modo. Somado a toda essa revisão do contexto da maternagem se encontram também todas as minhas quinas, curvas e pontos cegos da minha própria personalidade e dos conflitos conscientes e inconscientes que estavam em curso. <strong>Não somos mesmo tábula rasa</strong>; e aqui trago também minha percepção da espiritualidade manifestada em cada um de forma única e autônoma, confirmando que somos singulares e temos, cada um, um <em>dharma </em>a ser cumprido. Essa dimensão espiritual dialoga com o processo de individuação, no qual a alma busca seu propósito e sua totalidade.</p>



<p>Voltando para Jung, ele reconhece a força das influências parentais, mas não considera o indivíduo condenado a elas. Cada um tem seu universo único e trilha seu caminho de evolução de forma independente. O  processo de individuação pode representar a possibilidade de diferenciação da psique em relação às imagos parentais e aos complexos herdados. O desenvolvimento da consciência e a percepção de nossa luz e sombra permite uma relação mais honesta com os conteúdos inconscientes. Assim a Psicologia Analítica não busca apontar culpados, mas favorecer a integração simbólica das experiências vividas, possibilitando que o indivíduo assuma sua própria trajetória psíquica. Talvez aqui a pergunta “Será que é tudo culpa dos pais?” se transforme em outra: <strong>O que pode ser conscientizado, elaborado e transformado</strong>?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-capacidade-de-tomar-consciencia-de-nossas-sombras-e-o-primeiro-passo-para-alcancar-a-tao-almejada-evolucao" style="font-size:17px">A capacidade de tomar consciência de nossas sombras é o primeiro passo para alcançar a tão almejada evolução.</h2>



<p>Também devemos nos lembrar que a individuação não é um processo linear. Somos apenas humanos e cometeremos erros ao longo do caminho. A escada é infinita e eventualmente daremos passos para trás. Autossabotagem, percursos equivocados, tudo parte do processo evolutivo da nossa longa jornada rumo à individuação. Reconhecer essas falhas, sem autojulgamento destrutivo, é essencial para continuarmos avançando.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-luz-da-psicologia-analitica-a-relacao-entre-pais-e-filhos-revela-se-complexa-simbolica-e-bastante-inconsciente" style="font-size:17px">À luz da Psicologia Analítica, a relação entre pais e filhos revela-se complexa, simbólica e bastante inconsciente.</h2>



<p>Jung reconhece a profunda influência dos pais no desenvolvimento psíquico dos filhos, mas não abraça explicações simplistas baseadas na culpa. A criança não sofre apenas por falhas objetivas, mas também por aquilo que circula silenciosamente no campo familiar.</p>



<p>Dessa forma a contribuição junguiana permite uma abordagem não acusatória, na qual pais e filhos são compreendidos como participantes de um processo relacional mais amplo. Nesse sentido, à medida que vamos caminhando rumo a nós mesmos, o processo de individuação traz como possibilidade atravessar e transformar essas heranças, além de proporcionar uma compreensão do outro de maneira mais inteira e respeitosa. Desta maneira, abre-se espaço para uma relação mais consciente e mais empática, que compreende as influências das dimensões inconscientes e o destino psíquico que nos cabe e que cabe ao outro, tomando para nós o que é nosso e devolvendo ao outro o que a ele pertence.</p>



<p>Conduzir a educação dos filhos é, afinal, conduzir o nosso próprio caminho. Percebo que muito mais do que ensinamos aprendemos com eles. Talvez eles não tenham vindo apenas aprender conosco, mas sim nos ensinar a caminhar com mais leveza e finalmente fluir como o rio. Costumo usar a seguinte metáfora na clínica: deite de costas sobre as águas do rio e se deixe flutuar, ele sabe o caminho e inevitavelmente chega lá. Nadar contra a correnteza com certeza não é uma boa ideia!</p>



<p><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/andreia-guiotti-di-gregorio/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/andreia-guiotti-di-gregorio/">Andreia Guiotti di Gregório &#8211; Membro Analista em Formação do IJEP</a></strong></p>



<p><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi &#8211; Membro Didata do IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencia-bibliografica" style="font-size:17px"><strong>Referência bibliográfica</strong>:</h2>



<p>JUNG, C. G. <em>O desenvolvimento da personalidade</em>. 14. ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p></p>
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		<item>
		<title>As múltiplas faces da traição</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/as-multiplas-faces-da-traicao/</link>
					<comments>https://blog.ijep.com.br/as-multiplas-faces-da-traicao/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leonardo Torres]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 19 May 2026 18:49:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Não Categorizado]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Relacionamentos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Poucas experiências humanas são tão dilacerantes quanto a traição. Seja no campo amoroso, familiar, financeiro, profissional ou nas amizades, ela reverbera na alma com uma dor profunda e persistente. No entanto, a traição não se limita ao eixo entre o "eu" e o "outro"; ela ocorre, muitas vezes, de forma interna e silenciosa. Traímos a nós mesmos quando nos submetemos a situações onde não gostaríamos de estar, ou quando nos obrigamos a permanecer em locais e conviver com pessoas que não ressoam com nossa verdade, sacrificando nossa integridade em nome de uma falsa estabilidade.</p>
<p>Para além do moralismo, este ensaio propõe um olhar cuidadoso da complexidade psíquica que envolve este tema tão dolorido. </p>
<p>Num encontro entre Jung, Nilton Bonder e Emma Bovary, abrimos um diálogo provocativo em que a traição pode vir a se tornar um rito de passagem.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>Resumo</strong>: Poucas experiências humanas são tão dilacerantes quanto a traição. Seja no campo amoroso, familiar, financeiro, profissional ou nas amizades, ela reverbera na alma com uma dor profunda e persistente. No entanto, a traição não se limita ao eixo entre o &#8220;eu&#8221; e o &#8220;outro&#8221;; ela ocorre, muitas vezes, de forma interna e silenciosa. Traímos a nós mesmos quando nos submetemos a situações onde não gostaríamos de estar, ou quando nos obrigamos a permanecer em locais e conviver com pessoas que não ressoam com nossa verdade, sacrificando nossa integridade em nome de uma falsa estabilidade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-alem-do-moralismo-este-ensaio-propoe-um-olhar-cuidadoso-da-complexidade-psiquica-que-envolve-este-tema-tao-dolorido" style="font-size:17px">Para além do moralismo, este ensaio propõe um olhar cuidadoso da complexidade psíquica que envolve este tema tão dolorido. </h2>



<p>Num encontro entre Jung, Nilton Bonder e Emma Bovary, abrimos um diálogo provocativo em que a traição pode vir a se tornar um rito de passagem.</p>



<p>Poucas experiências humanas são tão dilacerantes quanto a traição. Seja no campo amoroso, familiar, financeiro, profissional ou nas amizades, ela reverbera na alma com uma dor profunda e persistente. No entanto, a traição não se limita ao eixo entre o &#8220;eu&#8221; e o &#8220;outro&#8221;; ela ocorre, muitas vezes, de forma interna e silenciosa. Traímos a nós mesmos quando nos submetemos a situações onde não gostaríamos de estar, ou quando nos obrigamos a permanecer em locais e conviver com pessoas que não ressoam com nossa verdade, sacrificando nossa integridade em nome de uma falsa estabilidade.</p>



<p>Para além da dimensão moral ou social, existe um fenômeno psíquico complexo nas traições. &nbsp;Quando a confiança se rompe e o pacto simbólico da relação se desfaz, instala-se uma crise que atravessa dimensões afetivas e existenciais. Por causa dos impactos dolorosos, a traição desencadeia perturbações psíquicas, constelações de complexos e projeções sombrias de forma literal. Afinal, para que haja traição, precisa existir a confiança e por isso, quando o pacto se quebra, a dor torna-se por vezes insuportável. Aquele que antes era amado passa a ser percebido como uma profunda decepção (por vezes como inimigo), despertando desejos de vingança, ódio, mágoas e a dificuldade de elaborar um perdão em meio ao desespero.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-arte-universal-dialoga-com-essa-potencia-dramatica" style="font-size:17px">A arte universal dialoga com essa potência dramática.</h2>



<p>Desde os mitos gregos até os romances modernos, filmes, peças de teatro, músicas e tantas outras expressões artísticas, a traição aparece como força narrativa capaz de revelar as contradições do desejo humano. Contudo, quando observada pela lente da Psicologia Analítica, adquire uma densidade simbólica como manifestação de conteúdos inconscientes que irrompem no tecido das relações.</p>



<p>Em seu livro <em><strong>A Alma Imoral</strong></em>, o rabino Nilton Bonder reflete sobre a natureza subversiva da traição na condição humana. Através de uma lente que funde a mística judaica à psicanálise e à biologia, Bonder desconstrói a percepção binária de bem e mal, e revela que a preservação da vida depende, paradoxalmente, da nossa capacidade de traí-la. Na tensão dialética entre o <em>corpo</em> e a <em>alma</em><strong>, </strong>o corpo é apresentado como a entidade conservadora numa espécie de “zelador dos costumes” e o reprodutor da espécie, como numa função de permanência.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-alma-e-apontada-como-a-forca-da-mutacao-o-impulso-indomavel-que-busca-o-desconhecido-e-o-novo-se-o-corpo-e-o-porto-seguro-da-moralidade-a-alma-e-a-navegante-imoral-que-se-atreve-a-cruzar-mares-proibidos" style="font-size:17px">A alma é apontada como a força da mutação, o impulso indomável que busca o desconhecido e o novo. Se o corpo é o porto seguro da moralidade, a alma é a navegante imoral que se atreve a cruzar mares proibidos.</h2>



<p>Nesse cenário, a traição é elevada ao status de necessidade existencial, ou seja, para que a cultura e a espiritualidade evoluam, o indivíduo deve ser capaz de trair o conformismo de sua família, sociedade, religião etc., para honrar o chamado da própria verdade interna.</p>



<p>Para exemplificar a potência transformadora da traição, trago à reflexão duas passagens bíblicas. Em Gênesis 3:6, ao comer o fruto proibido e depois oferta-la ao marido, Eva “trai” as diretrizes de Deus e, juntamente com Adão, são expulsos do paraíso, inaugurando a humanidade. De forma análoga, em Mateus 26:14-50, ao trair Jesus e desencadear sua morte, Judas é um importante catalisador que impulsiona a mudança de uma Era por ser corresponsável pela morte de Cristo e possibilitar Sua posterior ressurreição.&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-outro-ponto-destacado-por-bonder-e-a-diferenca-entre-a-moral-e-a-etica" style="font-size:18px">Outro ponto destacado por Bonder é a diferença entre a Moral e a Ética.</h2>



<p>Para ele, a moral pertence ao corpo social, um conjunto de regras para garantir a ordem e a segurança; a ética é o território da alma, onde o compromisso maior é com o sentido da vida. Ser fiel à própria alma exige a coragem de ser &#8220;imoral&#8221; perante as regras estabelecidas. É o que Bonder denomina de &#8220;traição sagrada&#8221;, ou seja, o rompimento necessário com o passado para que o futuro ganhe espaço para florescer.</p>



<p>Por isso a obediência absoluta pode ser uma forma de paralisia, pois a vida que se limita as repetições e a estabelecer-se imovelmente à zona de conforto, abdica da sua centelha divina. A verdadeira espiritualidade habita na transgressão consciente, naquela que reconhece que a fidelidade à tradição só faz sentido se permitir que a alma continue sua jornada de mutação e descoberta. Trair, sob esta ótica, deixa de ser um pecado para tornar-se o motor da evolução humana.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-que-bonder-traz-encontra-ressonancia-com-a-cosmovisao-de-jung-onde-ele-aponta-que-para-o-processo-de-individuacao-devemos-servir-ao-self-si-mesmo-numa-entrega-incondicional" style="font-size:16px">O que Bonder traz encontra ressonância com a cosmovisão de Jung, onde ele aponta que, para o Processo de Individuação, devemos servir ao Self (Si-mesmo), numa entrega incondicional.</h2>



<p>Quem não consegue ser fiel a esse chamado interior falha na tarefa mais importante da existência humana, permanecendo apenas como um fragmento da coletividade sem nunca atingir a maturidade da alma. Servir ao Si-mesmo exige deixar de ser um rascunho ressonante do coletivo para se tornar a obra final e, por isso mesmo,a individuação é um processo &#8220;imoral&#8221;, onde traímos as expectativas externas (o corpo social) para manter a fidelidade à própria alma (o Self). É o caminho de quem aceita o risco de ser único em vez de buscar a segurança de ser igual.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="line-height:1.4">
<p style="font-size:16px"><em>Individuação significa tornar-se um ser único, na medida em que por “individualidade” entendermos nossa singularidade mais íntima, última e incomparável, significando também que nos tornamos o nosso próprio si-mesmo. Podemos pois traduzir “individuação” como “tornar-se si-mesmo” (Verselbstung) ou “o realizar-se do si-mesmo” (Selbstverwirklichung). (JUNG, OC 7/2, §266)</em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-seguindo-a-diante-na-reflexao-acerca-da-traicao-para-a-psicologia-analitica-as-relacoes-amorosas-tendem-a-se-estruturar-a-partir-de-projecoes-inconscientes" style="font-size:16px">Seguindo a diante na reflexão acerca da traição, para a Psicologia Analítica, as relações amorosas tendem a se estruturar a partir de projeções inconscientes.</h2>



<p>Jung observa que figuras arquetípicas como a anima e animus tendem a ser projetadas sobre o parceiro amoroso, produzindo intensa idealização.</p>



<p>De modo breve, para Jung (OC 7/2, §297), nenhum homem é inteiramente “masculino” em termos psíquicos, pois carrega em si a anima, a dimensão feminina inconsciente. Como a cultura historicamente incentivou os homens a reprimirem seus sentimentos, sensibilidades e afetos, esses conteúdos tendem a ser suprimidos e deslocados para o inconsciente, moldando a imagem interna do feminino e influenciando suas escolhas amorosas. Dessa forma, o homem tende a se sentir atraído pela <em>imago</em> feminina, projetando nela aquilo que não reconhece em si mesmo. Quando a escolha é guiada pela projeção de aspectos não integrados, essa dinâmica pode gerar relações intensas e vínculos frágeis, e o outro deixa de ser percebido como pessoa concreta e encarna uma imagem idealizada. O mesmo acontece com o animus, a contraparte masculina da consciência feminina.</p>



<p>Não podemos esquecer que toda projeção carrega em si a semente da desilusão. À medida que o relacionamento se desenvolve, o parceiro real diverge daquela imagem concebida trazendo frustrações e conflitos, e a traição pode surgir exatamente nesse ponto crítico do processo. Quando a projeção se desloca para uma terceira pessoa (um amante, por exemplo), o indivíduo experimenta novamente o fascínio do encontro arquetípico, onde o “novo amor” aparece revestido da aura perdida do encantamento inicial. Nesse sentido, a infidelidade está além da busca por sexo ou prazer, pode ser uma tentativa inconsciente de recuperação da intensidade simbólica do Eros perdido.</p>



<p>Para a traição se realizar, precisa necessariamente haver um elo de confiança e, na alteridade com o outro, as identificações são muitas mas as diferenças também se fazem presente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-quando-conteudos-internos-nao-integrados-emergem-o-outro-se-torna-um-espelho-refletor-de-nossas-proprias-imperfeicoes" style="font-size:18px">Quando conteúdos internos não integrados emergem, o outro se torna um espelho refletor de nossas próprias imperfeições.</h2>



<p>Para Jung, a sombra é um conjunto de conteúdos psíquicos que o ego rejeita, recalca, nega ou não reconhece como pertencentes a nós. É nosso lado obscuro, que está em conflito com os aspectos morais da consciência, que se manifestam de forma indireta ou impulsiva (JUNG, OC 9/2, §14).</p>



<p>A traição, nesse contexto, pode aparecer como atuação desses elementos reprimidos pois, paradoxalmente, aquilo que o ego tenta excluir frequentemente retorna de forma intensificada projetada no outro. Assim, a traição pode revelar conflitos que permaneciam ocultos na dinâmica da relação e pode vir, por exemplo, em forma de quebras de acordos (amorosos ou não), golpes financeiros, rasteiras no trabalho, apropriações intelectuais, sabotagens, revelações de segredos, mentiras e manipulações, expondo a face crua de uma convivência que se mantinha através de pactos sombrios inconscientes e expectativas não ditas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-literatura-sempre-explorou-a-traicao-para-revelar-a-complexidade-da-alma-humana-e-personagens-marcados-pela-infidelidade-frequentemente-encarnam-conflitos-entre-desejo-convencao-social-complexos-sombras-e-auto-traicao" style="font-size:16px">A literatura sempre explorou a traição para revelar a complexidade da alma humana, e personagens marcados pela infidelidade frequentemente encarnam conflitos entre desejo, convenção social, complexos, sombras e auto traição.</h2>



<p>Flaubert nos convida a refletir este processo em Madame Bovary (2014). A personagem principal Emma Bovary, encarna uma forma particularmente sofisticada da traição, aquela que brota de uma cisão interna entre a vida vivida e a vida imaginada. Sua infidelidade está além do campo moral, onde expressa um movimento psíquico de busca por uma intensidade de vida que a realidade não sustenta.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-numa-analise-livre-e-hermeneutica-arrisco-a-dizer-que-emma-bovary-esta-arquetipicamente-identificada-com-o-puer-aeternus-ou-seja-uma-puella-aquela-que-anseia-pelo-extase-pelo-extraordinario-a-promessa-de-uma-vida-mais-dinamica-divertida-aventureira-e-arrebatadora" style="font-size:16px">Numa análise livre e hermenêutica, arrisco a dizer que Emma Bovary está arquetipicamente identificada com o <em>puer aeternus</em>, ou seja, uma <em>puella</em>, aquela que anseia pelo êxtase, pelo extraordinário, a promessa de uma vida mais dinâmica, divertida, aventureira e arrebatadora.</h2>



<p>Emma é casada com Charles, um pacato médico reconhecido por sua estabilidade e simplicidade. Pelos olhos do coletivo, Emma fez um ótimo casamento, tem um bom marido, uma vida confortável e tranquila. Mas há nela uma recusa silenciosa da banalidade do cotidiano. O casamento com Charles torna-se um espaço árido e anti-erótico, incapaz de dar vazão as suas fantasias. Impossibilitada de se separar devido ao tabu do Espírito da Época, Emma trai a si mesma.</p>



<p>De modo sombrio e alimentado por narrativas românticas, seu ego inflaciona e se distancia da realidade, passando a habitar um campo imaginal onde o desejo encontra o reflexo de suas próprias projeções. Cada amante surge como imagem simbólica da excitação, novidade e promessa de completude. Ao viver o romance e lidar com as diferenças, a realidade se impõe, a projeção colapsa, e o vazio retorna com ainda mais força.</p>



<p>Esvaziada de si mesma, distante da alma e tomada pela sombra, sua psique traidora revela uma dinâmica de insaciabilidade. Ela procura no outro o que não acha em si mesma, e o desejo se orienta para a manutenção de um falso estado interno de encantamento, numa dificuldade de metabolizar a frustração. Ela tenta preencher seu vazio existencial com a fantasia de um falso Eros (do amor carnal) e não pela <em>coniunctio</em> (união) da alma. Emma se move entre picos de exaltação e quedas abruptas, numa oscilação que denuncia a ausência de enraizamento psíquico.</p>



<p>Podemos também reconhecer nela a atuação de um animus não integrado que a captura em discursos idealizados e a projeta em busca de realização no objeto externo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-energia-erotica-que-poderia-se-configurar-como-via-de-transformacao-simbolica-torna-se-literalizada-na-repeticao-de-relacoes-que-tentam-preencher-um-vazio-existencial" style="font-size:16px">A energia erótica, que poderia se configurar como via de transformação simbólica, torna-se literalizada na repetição de relações que tentam preencher um vazio existencial.</h2>



<p>Emma parece buscar uma experiência de alma que dê sentido à existência, mas se afasta de si mesma ao projetar essa busca exclusivamente no mundo exterior. Nesse sentido, sua auto traição pode ser lida como uma tentativa fracassada de viver e realizar o desejo de uma vida mais viva, mas que se perde por não encontrar mediação simbólica.</p>



<p>Apesar de seu potencial dolorido e por vezes destrutivo, a traição também pode desencadear processos de reflexão e transformação. A ruptura da confiança gera uma quebra das idealizações e obriga os envolvidos a confrontar conteúdos que permaneciam inconscientes.</p>



<p>Por isso, apesar de todo o sofrimento gerado e do abalo sísmico que a quebra de confiança provoca, o grande desafio é analisar simbolicamente o papel da traição, e o que ela tem para revelar sobre nosso processo. A traição atua como um “divisor de águas” que rompe com as identificações infantis e as projeções idealizadas, forçando o indivíduo a retirar o véu da ilusão que lançava sobre o outro.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-simbolicamente-devemos-perguntar-o-que-em-mim-morreu-e-o-que-agora-tem-a-oportunidade-de-renascer-em-que-aspecto-me-auto-trai-para-que-estabeleci-elos-de-lealdade-a-partir-de-idealizacao-do-outro" style="font-size:17px">Simbolicamente devemos perguntar: o que em mim morreu e o que agora tem a oportunidade de renascer? Em que aspecto me auto traí? Para que estabeleci elos de lealdade a partir de idealização do outro?</h2>



<p>Apesar de toda dor, ao transcendermos o julgamento moralista de &#8216;certo&#8217; ou &#8216;errado&#8217;, a traição pode vir a se tornar um rito de passagem, uma espécie de &#8216;traição sagrada&#8217;, como propõe Nilton Bonder, e sermos impulsionados em direção a fidelidade ao Self.</p>



<p>Talvez, se Emma Bovary tivesse tido a coragem para escolher a separação e atravessar as dores que dela adviriam, a morte de suas ilusões se instauraria, abrindo caminho para um renascimento em maior consonância com a verdade de sua alma.</p>



<p><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/daniela/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/daniela/">Me. Daniela Euzebio – Analista Didata em formação IJEP</a></strong></p>



<p><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi – Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:17px">Referências:</h2>



<p>FLAUBERT, Gustave. <em>Madame Bovary</em>. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.</p>



<p>GUARNIERI, Milena Neri. <em>Um estudo sobre a traição amorosa e a resiliência na perspectiva da psicologia analítica</em>. São Paulo: PUC-SP, 2014.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. O Eu e o Inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2016 (OC 7/2).</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. Aion &#8211; Estudos sobre o simbolismo do si-mesmo. Petrópolis: Vozes, 2013 (OC 9/2).</p>



<p><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>
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		<title>O Bem-Viver, o Amor e a Consciência Contemporânea</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Leonardo Torres]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 18 May 2026 00:01:18 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Observando a situação em que Gaia se encontra atualmente, esse artigo propõe uma pequena reflexão sobre uma mudança de paradigma embasando-se em conceitos da Psicologia Junguiana (soberania da consciência, o rebaixamento do inconsciente, a antinomia poder – amor) e do Bem-Viver (filosofia ancestral dos povos originários). Esse artigo reflete sobre a soberania da consciência e o consequente rebaixamento inconsciente, a antinomia poder-amor, conforme C.G. Jung, e a filosofia do Bem-Viver.</p>
<p>Ao conhecer o conceito Tekoá-porã - termo guarani, que significa Bem-Viver - não pude deixar de pensar sobre o que estamos presenciando atualmente em relação ao mundo natural. Embaso-me na Psicologia Junguiana para fazer uma pequena reflexão sobre esse tema tão importante para o contexto atual da humanidade onde Gaia se encontra ameaçada.</p>
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<p><strong>Resumo: </strong>Observando a situação em que Gaia se encontra atualmente, esse artigo propõe uma pequena reflexão sobre uma mudança de paradigma embasando-se em conceitos da Psicologia Junguiana (soberania da consciência, o rebaixamento do inconsciente, a antinomia poder – amor) e do Bem-Viver (filosofia ancestral dos povos originários). Esse artigo reflete sobre a soberania da consciência e o consequente rebaixamento inconsciente, a antinomia poder-amor, conforme C.G. Jung, e a filosofia do Bem-Viver.</p>



<p>Ao conhecer o conceito <em>Tekoá-porã</em> &#8211; termo guarani, que significa Bem-Viver &#8211; não pude deixar de pensar sobre o que estamos presenciando atualmente em relação ao mundo natural. Embaso-me na Psicologia Junguiana para fazer uma pequena reflexão sobre esse tema tão importante para o contexto atual da humanidade onde Gaia se encontra ameaçada.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-bem-viver"><em>O Bem-Viver</em></h2>



<p>Para os povos originários <em>tekoá-porã</em> (em guarani), <em>sumak kawsay</em> (em quéchua), <em>suma-qamana</em> (em <em>aymara</em>) e bem-viver (em português), significa um modo de viver em harmonia consigo próprio, com o mundo natural e com todos os seres humanos e não humanos, respeitando-se a ancestralidade &#8211; que, para os povos originários, inclui todos os seres humanos e mais-que-humanos. (WERÁ, 2024) <em>Tekoa-porã</em> é uma filosofia ancestral milenar que “encapsula a arte do bem-viver” (WERÁ, 2024, p.18). O bem-viver:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="line-height:1.4"><em>é alcançado pelo reconhecimento de nossa essência ancestral, que transcende nossa existência material e se desdobra no tempo e no espaço como experiência de vida, manifestando-se na maneira como nos conectamos com o lugar que habitamos.</em></p>



<p style="line-height:1.4"><em>O “tekoá” nos convida a viver em harmonia com nós mesmos, com a natureza e com a comunidade de seres (incluindo os humanos), respeitando nossas raízes e os ensinamentos de nossos antepassados. (WERÁ, 2024, p.15)</em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-luz-da-consciencia"><em>A luz da consciência</em></h2>



<p>Atualmente vivemos em um mundo de desigualdade social, econômica, espiritual, racial, onde observamos guerras, doenças, desequilíbrio e alterações no mundo natural (como as climáticas). Vivenciamos um paradigma onde é necessário ser feliz, produzir e não sofrer, no seu tempo integral. Vivemos sob a luz da consciência que, segundo Jung, tornou o homem o segundo criador do mundo e possibilitou ao ser humano “uma existência objetiva e do significado: foi assim que o homem encontrou seu lugar indispensável no grande processo do ser.” (JUNG; JAFFÉ, 2012, p.311) Mas, além desse ponto, Jung também realça que enaltecendo-se a consciência rebaixa-se a alma humana. Há uma tendência à objetificação de tudo e a alma não tem mais lugar, tudo se tornou coisa (objeto), a razão se sobrepôs ao irracional, os “deuses” não têm mais lugar na vida humana. A consciência passa a negar conteúdos inconscientes que não lhe cabem.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-consequencia-dessa-hybris-cometida-pela-unilateralidade-da-consciencia-o-nosso-zeitgeist-espirito-da-epoca-tem-como-uma-das-caracteristicas-principais-segundo-balestrini-amp-torres-2022-p-256" style="font-size:16px">Em consequência dessa <em>hybris,</em> cometida pela unilateralidade da consciência, o nosso <em>Zeitgeist</em> (Espírito da Época) tem como uma das características principais, segundo Balestrini &amp; Torres (2022, p.256):</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-default is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="line-height:1.4">
<p><em>[&#8230;] a busca puramente egóica pelo controle e pelo poder, e esse critério, tomado como supremo por uma parcela muito grande da humanidade, guarda uma dimensão irracional correspondente ao seu exagero racionalista; desse acúmulo energético no inconsciente surgem os mais diversos sintomas psicopatológicos individuais e coletivos o que podemos observar no mundo atual.</em></p>
</blockquote>



<p>A consciência tem como essência excluir, escolher e diferenciar. (JUNG, 2014a, p.287). Ela tem como característica a unilateralização, pois seleciona o que lhe interessa e o direciona, excluindo o que não lhe é relevante. O que não é selecionado “cai” no inconsciente e cria um contrapeso, mas se a unilateralização consciente aumentar demais, a tensão cresce, o que pode inibir a consciência, mas também pode ser inibido por ela. (JUNG, 2013d, p.437)</p>



<p>Esse conteúdo inconsciente excluído pela consciência pode irromper na consciência, manifestando-se através de sonhos, sincronicidades, atos falhos, fantasias, visões, sintomas ou até dominar a consciência. Os sintomas podem ser observados tanto a nível individual como coletivo, no indivíduo como no mundo natural. A consciência parece ser a “boazinha” na relação com o inconsciente que se manifesta de forma, muitas vezes, assustadora, mas Jung coloca que a consciência pode ser mais maléfica que o inconsciente que é atribuído ao mundo natural:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="line-height:1.4">
<p><em>As histórias da carochinha sobre o terrível homem primitivo, aliadas aos ensinamentos sobre o inconsciente infantil perverso e criminoso, conseguiram fazer com que essa coisa natural que é o inconsciente aparecesse como um monstro perigoso. Como se tudo o que há de belo, bom e sensato, como se tudo aquilo que torna a vida digna de ser vivida, habitasse a consciência! Será que a guerra mundial e seus horrores ainda não nos abriram os olhos? Será que ainda não percebemos que a nossa consciência é mais diabólica e mais perversa do que esse ser da natureza que é o inconsciente? (JUNG,2012b, p.35-36)</em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-inconsciente-coletivo"><em>O Inconsciente Coletivo</em></h2>



<p>Os arquétipos e os instintos são parte estrutural do inconsciente coletivo. Os arquétipos, “são a parte <em>ctônica</em> da psique”, a parte que vincula a psique (consciência e inconsciente) à natureza &#8211; com a terra e o mundo. “<em>É nestes arquétipos ou imagens primordiais que a influência da terra e de suas leis sobre a psique se manifesta com maior nitidez</em>.” (JUNG, 2013c, p.40)</p>



<p>Sobre os instintos Jung aponta que: “na realidade, a natureza é portadora de um combate cruel e infindável entre o princípio do eu e o princípio do instinto: o eu, todo barreiras; o instinto, sem limites ambos os princípios com igual poder.(JUNG, 2014b, p.45) A vida instintiva se expressa através dos hábitos tradicionais com seus costumes e convicções que, se perdidos, separam-se do instinto, levando a uma separação da consciência dos instintos, que por sua vez, perde suas raízes. (JUNG, 2013b)&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Ao se realçar a consciência em detrimento do inconsciente (com seus arquétipos e instintos), ocorre uma resistência da consciência pelos deuses antes projetados na natureza. A natureza se torna “des-deusada” e, na sequência “des-almada” e os mesmos deuses que antes estavam projetados fora foram deslocados para dentro da psique humana (JUNG, 2012a, p.177-179) e, a partir disso, Jung coloca que:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px;line-height:1.4">
<p><em>Os deuses tornaram-se doenças. Zeus não governa mais o Olimpo, mas o plexo solar e produz espécimes curiosos que visitam o consultório médico; também perturba os miolos dos políticos e jornalistas, que desencadeiam pelo mundo verdadeiras epidemias psíquicas. </em><em>(JUNG; WILHELM, 2013, p.50-51)</em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mudanca-de-paradigma"><em>Mudança de Paradigma –</em></h2>



<p><strong>com a presença do coração, diminuição da tirania egóica e inspiração no Bem-Viver</strong></p>



<p>Atualmente os sintomas que acometem os indivíduos, o mundo natural e os seres que nele habitam são claros e visíveis. O inconsciente reclama o seu lugar. A natureza ou mundo natural quer aparecer novamente, pois com a existência apenas objetiva da consciência rebaixa-se “a vida e o ser, inclusive a alma humana”, onde não há mais lugar para “o drama do homem, do mundo e de Deus”. (JUNG, 2012c, p.311) Para isso evidencia-se a necessidade de uma mudança de paradigma onde a alma, a natureza, volte a ter o seu lugar.</p>



<p>Segundo <strong>Roszac</strong> (1995), os relatos inquietantes sobre a situação que se encontra Gaia (o planeta Terra) trazendo em evidência a culpa, a raiva e a vergonha para as pessoas que se veem nessa situação, muitas vezes, as assustam e estas podem ter como reação a negação ou a inação perante a situação desesperadora que se apresenta. Ele afirma que mudanças na ação de ambientalistas e terapeutas já estão acontecendo e relata a presença do:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px;line-height:1.4">
<p><em>trabalho de ambientalistas que demonstram curiosidades saudáveis sobre suas necessidades de encontrar uma psicologia mais sustentável, uma que irá clamar por motivações afirmativas e pelo amor à natureza. (ROSZAC,1995, p. 3, </em><em>tradução de Sônia Fernandes)</em></p>
</blockquote>



<p>A reconexão dos humanos com o mundo natural (com os seres humanos e mais-que-humanos) é necessária, e será mais bem elaborada por todos se lhes forem mostradas a beleza, o amor (Eros), a grandiosidade e suas origens no mundo natural. Jung (2013a, p.367) considera que um “pensamento psicologicamente correto” mantém “sua vinculação com o coração, com as profundezas da alma, com a raiz mestra de nosso ser” e a separação da consciência dos fundamentos da psique (instintos e arquétipos) é um “pensamento dissimulado” que pode trazer consequências (como sintomas neuróticos e outros).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-roszac-1995-p-3-traducao-de-sonia-fernandes-coloca-que" style="font-size:16px">Roszac (1995, p.3, tradução de Sônia Fernandes) coloca que:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="line-height:1.4">
<p style="font-size:17px"><em>em uma carta privada, um ativista australiano, John Seed, escreveu assim:</em></p>



<p style="font-size:17px"><em>É óbvio para mim que as florestas não podem ser todas salvas de uma vez, nem o planeta pode ser salvo de uma vez, uma questão de cada vez: sem uma profunda revolução na consciência humana, todas as florestas logo irão desaparecer. Psicólogos a serviço da Terra ajudam ecologistas a alcançar profundos entendimentos sobre como facilitar profundas mudanças no coração humano, e a mente parece ser a chave nesse ponto.</em></p>
</blockquote>



<p>No nosso <em>Zeitgeist, a</em> consciência com sua racionalidade assumiu o controle, está no poder, e o inconsciente, o irracional, que se identifica com a natureza, abarca a alma humana rebaixada. Para Jung o poder é a antinomia do amor que está relacionado com Eros. É de grande importância colocar que de modo algum Eros se restringe a uma terminologia sexual. Ele aponta que Eros é um dos principais aspectos da natureza nos humanos, pois “pertence à natureza primitiva e animal do homem e existirá enquanto o homem tiver um corpo animal.” Eros, por outro lado, se liga ao espírito. Apenas quando instinto e espírito estão em harmonia é que o erotismo floresce. (JUNG, 2014b, p.39). Hillman (2020, p.53) aponta que é “através da alma que recebemos o amor, alma não é amor.”</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-2014b-p-65-coloca-que" style="font-size:16px">Jung (2014b, p.65) coloca que:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:17px;line-height:1.4">
<p><em>Onde impera o amor, não existe vontade de poder; e onde o poder tem precedência, aí falta o amor. Um é a sombra do outro. Quem se encontra do ponto de vista de Eros procura o contrário, que o compensa, na vontade de poder. Mas quem põe a tônica no poder, compensa-o com Eros. [&#8230;] É no oposto que se acende a chama da vida.</em></p>
</blockquote>



<p><strong>Portanto, segundo a psicologia junguiana, o amor (Eros) é necessário para contrabalançar o poder estabelecido pela consciência e restabelecer a conexão entre os seres humanos e o mundo natural.</strong> Ele poderá trazer a beleza e o reencantamento para as pessoas poderem se reconectar ao mundo natural (como John Seeds propõe na citação de Roszac) e ajudar na promoção de uma mudança de paradigma que dê mais ênfase ao inconsciente, às raízes ancestrais. A consciência brota do inconsciente, tem suas raízes no inconsciente e, portanto, ao perder sua base nas raízes distanciou-se do inconsciente. Segundo Jung, “alienar-se do inconsciente e alienar-se do condicionamento histórico é sinal de falta de raízes” (JUNG,2013c, p.59) e complementa afirmando que “um dos mais graves males psíquicos” é “a perda das raízes que não só é perigosa para as tribos primitivas, mas também para o homem civilizado.” (JUNG,2013b, p. 114)</p>



<p>Para reverter essa questão é em primeiro plano necessário identificá-la para poder se desidentificar dela. Faz-se necessário uma ampliação da consciência (“uma profunda revolução na consciência humana”, como citado acima), reduzindo a sua unilateralidade, para que o inconsciente possa se restabelecer: conscientizar a consciência da inconsciência do perigo de sua <em>hybris</em>. O poder precisa ser compensado por Eros, pelo amor. Assim o poder dividirá espaço com o amor à natureza, os deuses realojar-se-ão na natureza, e alma do mundo terá novamente o seu lugar.</p>



<p>A partir disso compreende-se a importância de se olhar para o Bem-Viver que pressupõe uma relação harmoniosa com o próprio ser, o território e todos os seres, respeitando uma ancestralidade natural. Os seres humanos pertencem à teia da vida.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-como-discursou-o-chefe-seattle-ao-presidente-franklin-pierce-em-1854-quando-este-quis-adquirir-a-terra-que-os-povos-originarios-habitavam" style="font-size:17px">Como discursou o chefe Seattle ao presidente Franklin Pierce, em 1854, quando este quis adquirir a terra que os povos originários habitavam:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:17px;line-height:1.4">
<p><em>“A terra não pertence ao homem: é o homem que pertence à terra. Não foi o homem que teceu a trama da vida: ele é meramente um fio dela. Tudo que ele fizer à trama, a si próprio fará.” (Chefe Seattle apud WERÀ, 2024, p.167)</em></p>
</blockquote>



<p>Somos internos à alma do mundo, à Natureza, ao inconsciente. Portanto sugiro que o Bem-Viver, que nesse ponto conversa com a psicologia junguiana, também poderá ajudar para a mudança de um paradigma onde o mundo foi objetificado, coisificado, para um paradigma de um mundo com alma. Concluo com as palavras de <strong>Kaká Werá</strong>:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:17px;line-height:1.4">
<p><em><strong>No bem-viver, a riqueza e a beleza estão nesse lugar interior representado pelo coração, que, por sua vez, com toda a certeza irá refletir, sim, em riqueza e beleza exterior, devido à ênfase na qualidade das relações e no cuidado com o espaço onde se vive.</strong> (WERÁ, 2024, p.21)</em></p>
</blockquote>



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<iframe title="📃Artigo novo: O Bem-Viver, o Amor e a Consciência Contemporânea" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/yzhHKrPzlrs?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/elfriede-cristina-seidel-walzberg/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/elfriede-cristina-seidel-walzberg/">Elfriede Walzberg – Analista em Formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:18px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/ajaxsalvador/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/ajaxsalvador/"><strong>Ajax Perez Salvador – Analista Didata</strong> <strong>IJEP</strong></a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:17px"><strong>REFERÊNCIAS</strong>:</h2>



<p>BALESTRINI JUNIOR, J. L.; TORRES, L., <em>A Consciência: </em>um campo interacional e dialético. In: MAGALDI, W. (Org.), Fundamentos da Psicologia Analítica. São Paulo: Empresa Editora e Livraria Virtual Eleva Cultural, 2022, p.&nbsp;231-271.</p>



<p>HILLMAN, J., <em>Anima</em>: a psicologia arquetípica do lado feminino da alma no homem e sua interioridade na mulher. 2.ed. São Paulo: Pensamento Cultrix, 2020.</p>



<p>JUNG, C. G. <em>A Natureza da Psique</em>.10. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013a.</p>



<p>__________<em>A prática da psicoterapia</em>: contribuições ao problema da psicoterapia e à psicologia da transferência. 16.ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013b.</p>



<p>__________A vida simbólica: escritos diversos. 4.ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012a.</p>



<p>__________<em>Ab-reação, análise dos sonhos e transferência</em>. 9.ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012b.</p>



<p>__________<em>Civilização em transição</em>. 6.ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013c.</p>



<p>_________<em>Os arquétipos e o inconsciente coletivo</em>.11. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014a.</p>



<p>__________<em>Psicologia do Inconsciente</em>. 24.ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014b.</p>



<p>__________<em>Tipos psicológicos</em>. 7.ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013d.</p>



<p>JUNG, C. G.; JAFFÉ, A. (Org.); <em>Memórias, sonhos e reflexões</em>. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012.</p>



<p>JUNG, C. G.; WILHELM, R., <em>O segredo da flor de ouro</em>: um livro de vida chinês. 15 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013.</p>



<p>ROSZAK, T.; GOMES, M. E.; KANNER, A. D. <em>Ecopsychology: </em>Restoring the earth, healing the mind. San Francisco: Sierra Club Books, 1995.</p>



<p>WERÁ, K., <em>Tekoá</em>: uma arte milenar para o bem-viver. Rio de Janeiro: Best Seller, 2024.</p>



<p><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>
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		<title>O que fazer com um sonho frustrado?</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-que-fazer-com-um-sonho-frustrado/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Leonardo Torres]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 17 May 2026 21:58:07 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Persona e Sombra]]></category>
		<category><![CDATA[Sonho]]></category>
		<category><![CDATA[caetano veloso]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[devaneios]]></category>
		<category><![CDATA[ego]]></category>
		<category><![CDATA[frustrações]]></category>
		<category><![CDATA[o quereres]]></category>
		<category><![CDATA[Persona]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Psique]]></category>
		<category><![CDATA[sonhos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Neste artigo, busco refletir sobre a frustração dos sonhos não realizados e convido você a fantasiar uma sociedade que sustentasse o fracasso, em vez do samba-exaltação ao ego contemporâneo, que acredita poder tudo o que quer.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>Resumo</strong>: Neste artigo, busco refletir sobre a frustração dos sonhos não realizados e convido você a fantasiar uma sociedade que sustentasse o fracasso, em vez do samba-exaltação ao ego contemporâneo, que acredita poder tudo o que quer.</p>



<p>Olhadas com alguma doçura, as Neurociências nos contam que biologia é poesia. Os mesmos circuitos neuronais ativados quando sonhamos dormindo estão também ativos, idênticos, quando sonhamos acordados, no mais puro devaneio.</p>



<p>No descanso da consciência, sono, tudo pode nos ocorrer. Símbolos surreais contam histórias aparentemente desconexas, frequentemente imorais e magicamente reveladoras, quando observadas com algum interesse, curiosidade e insistência.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-deixarei-hoje-os-sonhos-sonhados-na-escuridao-da-noite-livres-de-ampliacoes-para-me-render-aqueles-que-alimentamos-a-luz-de-uma-pretensa-consciencia-que-insiste-em-se-acreditar-capaz-de-realiza-los" style="font-size:16px">Deixarei hoje os sonhos sonhados na escuridão da noite livres de ampliações, para me render àqueles que alimentamos à luz de uma pretensa consciência que insiste em se acreditar capaz de realizá-los.</h2>



<p>Sonhamos. Desde pequenos podemos fantasiar vidas para nós mesmos. A profissão, a casa, os amigos, as viagens, o amor. Sonhamos uma família, o almoço de domingo, a noite de Natal. Inventamos nomes para os filhos, vestidos para o casamento, casas para a praia, malas para as viagens, escritório para a empresa, uniformes para o servir.</p>



<p>O tempo passa e nem sempre as invenções despudoradas se manifestam na vida entendida como real. Podem seguir nos ocorrendo todas as noites, entre a fronha do travesseiro e a cabeça pesada pelas tentativas incessantes de compreender os motivos das frustrações e, ainda, pelos esforços de esquecer o sonho, a fim de não fazê-lo doer.</p>



<p>Por muitas vezes ao longo da vida de muitas vidas não adiantou sonhar, imaginar, sentir no corpo a sensação de que aquelas ideias se realizariam. Para cada sonho também há, na vida, a contraparte perfeita de sua frustração.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-o-que-fazer-com-essa-parte-sombria-da-qual-tentamos-fugir-pesados-pela-vergonha-da-nao-realizacao-em-uma-epoca-em-que-se-acredita-tudo-poder" style="font-size:17px">E o que fazer com essa parte sombria, da qual tentamos fugir, pesados pela vergonha da não-realização, em uma época em que se acredita tudo poder?</h2>



<p>Talvez valha antes de mais nada aceitar que, diferente do que podemos acreditar, o sonho sonhado na vigília também é fruto do inconsciente. No texto <em>Criptomnésia, de Estudos Psiquiátricos, </em>Jung nos lembra que “O inconsciente premedita todos os novos pensamentos e combinações. E quando a consciência se aproxima do inconsciente com um desejo, foi o inconsciente que previamente lhe inspirou este desejo”. (<em>OC 1 </em><strong>§ </strong>172)</p>



<p>O verso do fracasso não entra no samba-exaltação do ego contemporâneo, que acredita que pode tudo o que quer, ritmado pela tríade “força, foco e fé”. A exclusão do verso triste da canção, talvez, faça a falta da realização doer ainda mais pois a torna pretensamente invisível.</p>



<p>Não é raro ver que o sambista sente no corpo a dor do que não realizou, mesmo tentando calar sua batida ou buscando reinventá-la criativamente. Os sonhos, agora sim, os sonhados no mais profundo da noite, tendem a revelar compensatoriamente aquilo que a consciência não dá conta de sentir, pois frustrada.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-onde-nao-queres-nada-nada-falta-diz-caetano-veloso-em-o-quereres-sera" style="font-size:17px">“E onde não queres nada, nada falta”, diz Caetano Veloso em <em>O Quereres</em>. Será?</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-default is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:17px;line-height:1.4">
<p style="line-height:1.6"><em>“Talvez a maioria dos histéricos que frui plenamente de seus sentidos seja doente porque possui grande massa de recordações, dotada de muita emoção e, por isso, profundamente arraigada no inconsciente; já não pode ser controlada e tiraniza a consciência e a vontade do doente. Em mulheres trata-se às vezes de esperança frustrada de amor ou de um casamento infeliz; em certos homens pode ser uma posição insatisfatória ou méritos não reconhecidos. Os doentes procuram excluir suas emoções da vida diária; por isso, de noite elas os atormentam com sonhos ruins, e de dia os importunam com repentinos ataques de ansiedade precordial, inibem as forças de ação, levam as pessoas a procurar as seitas, produzem dor de cabeça que desafia todos os curandeiros, todos os meios mágicos da eletricidade, banhos de sol e dietas alimentares. Também o gênio tem que carregar o peso da superioridade de um complexo psíquico; se o conseguir, ele o fará com prazer; se não o conseguir, ele o fará com sofrimento. Terá que executar as ‘ações sintomáticas’ que seu talento lhe inspira; colocará na poesia, na pintura, na composição musical o seu sofrimento”.&nbsp; (C.G. Jung, OC 1 §176)</em></p>
</blockquote>



<p>Talvez um gesto de rebeldia contemporânea seja assumir a si mesmo e depois ao mundo seus fracassos. Como complexos cheios de afeto, ao serem vividos com o sabor da frustração percam a potência, mas se manteriam vivos no potencial de realização. A não realização de um sonho não deveria matá-lo na tentativa de esquecê-lo. Se foi do inconsciente que surgiu, não caberia a consciência domesticá-lo, calá-lo.</p>



<p>Uma sociedade que sustentasse a frustração poderia ler epitáfios assim: “Tentou, bravamente, mas não conseguiu dançar”. Num outro, poderia estar escrito: “Chamaria Luiza, a filha que não teve”. E ainda: “Morreu acreditando que amaria e seria amada”. Ou “Preparou todos os domingos o almoço para a família que não vinha”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-lapides-talhadas-a-partir-do-compromisso-com-a-honestidade-de-pessoas-que-ousaram-uma-vida-vivida-na-plenitude-sem-disfarces-sustentados-por-personas-bem-sucedidas-e-sombras-amarguradas" style="font-size:17px">Lápides talhadas a partir do compromisso com a honestidade de pessoas que ousaram uma vida vivida na plenitude, sem disfarces sustentados por Personas bem-sucedidas e Sombras amarguradas.</h2>



<p>Não seriam lápides criadas na unilateralização do sucesso, da conquista, do amor e da alegria. Tais frases revelariam, com frustração, a insistência no sonho: o homem que queria dançar, a mulher que desejou ser mãe, a que queria um amor recíproco, a que perdoou a família todas as vezes que foram necessárias.</p>



<p><em>“Eu queria querer-te e amar o amor<br>Construirmos dulcíssima prisão<br>E encontrar a mais justa adequação<br>Tudo métrica e rima, e nunca dor</em></p>



<p><em>Mas a vida é real e de viés<br>E vê só que cilada o amor me armou<br>Eu te quero e não queres como sou<br>Não te quero e não queres como és”</em></p>



<p><strong>Jung </strong>nos explica que a palavra <em>criptomnésia </em>provém da literatura científica francesa. “Criptomnésia significa <em>‘<strong>recordações não reconhecidas como tais</strong></em>’”. Assim como os sonhos que, frustrados, deixam de ser sonhados.</p>



<p><strong>Uma parte da cura para uma sociedade tão adoecida poderia ser a sustentação do fracasso. “<em>Do querer que há e do que não há em mim</em>”, conclui o poeta.</strong></p>



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<iframe title="📃Artigo novo: &quot;O que fazer com um sonho frustrado?&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/4S114HfmbtU?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/luciana-branco/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/luciana-branco/">Luciana Branco &#8211; Analista em formação IJEP</a></strong></p>



<p><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi Filho &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>Referências</strong></h2>



<p id="h-jung-c-g-estudos-psiquiatricos-o-c-1-9ª-edicao-petropolis-editora-vozes-2012" style="font-size:16px">JUNG, C.G.<em> Estudos Psiquiátricos O/C 1.</em> 9ª edição. Petrópolis: Editora Vozes, 2012.</p>



<p>VELOSO, Caetano. <em>O Quereres. </em>Salvador, Philips/PolyGram (atual Universal Music), 1984.</p>



<p><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.institutojunguiano.com.br/xi-congresso-junguiano-alquimia-e-ecologia"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="1024" height="576" src="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/05/xi-congresso-junguiano-ijep-2-1024x576.jpg" alt="" class="wp-image-12921" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/05/xi-congresso-junguiano-ijep-2-1024x576.jpg 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/05/xi-congresso-junguiano-ijep-2-300x169.jpg 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/05/xi-congresso-junguiano-ijep-2-768x432.jpg 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/05/xi-congresso-junguiano-ijep-2-1536x864.jpg 1536w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/05/xi-congresso-junguiano-ijep-2-150x84.jpg 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/05/xi-congresso-junguiano-ijep-2-450x253.jpg 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/05/xi-congresso-junguiano-ijep-2-1200x675.jpg 1200w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/05/xi-congresso-junguiano-ijep-2.jpg 1920w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></a></figure>



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<p></p>
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		<title>Fidelidade à Ilusão: Por que não vemos o que vemos</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/fidelidade-a-ilusao-por-que-nao-vemos-o-que-vemos/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Leonardo Torres]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 12 May 2026 17:17:05 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[fidelidade]]></category>
		<category><![CDATA[ilusão]]></category>
		<category><![CDATA[jung]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[traição]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este ensaio convida a olhar a traição não como ruptura súbita, mas como o desvelar de uma fissura silenciosa que já habitava a alma. Antes do ato, há pequenas renúncias à própria verdade, onde o que se vê é suavizado para que o vínculo permaneça. Na trama invisível das relações, sombra, projeção e heranças inconscientes dançam, revelando que o outro também habita em nós. E é na queda da ilusão, dolorosa e lúcida, que a consciência pode enfim nascer, pedindo a coragem de sustentar o que se vê.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<h2 class="wp-block-heading" id="h-antes-da-traicao-ha-sempre-uma-lacuna-silenciosa-em-que-algo-e-visto-e-quase-no-mesmo-instante-suavizado" style="font-size:17px"><em>Antes da traição, há sempre uma lacuna silenciosa em que algo é visto e, quase no mesmo instante, suavizado.</em></h2>



<p><strong>Resumo:</strong> Este ensaio convida a olhar a traição não como ruptura súbita, mas como o desvelar de uma fissura silenciosa que já habitava a alma. Antes do ato, há pequenas renúncias à própria verdade, onde o que se vê é suavizado para que o vínculo permaneça. Na trama invisível das relações, sombra, projeção e heranças inconscientes dançam, revelando que o outro também habita em nós. E é na queda da ilusão, dolorosa e lúcida, que a consciência pode enfim nascer, pedindo a coragem de sustentar o que se vê.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:11px">
<p style="font-size:17px;line-height:1.4"><em>“A traição é o descuido do confiar (fiar com). Parando de “fiar junto”, a relação não se estabelece.</em></p>



<p style="font-size:17px;line-height:1.4"><em>A traição se insere, no momento de passar ao outro o que eu sou, não o que ele gostaria que eu fosse. Trair, nesse sentido, significa tomar propriedade do homem ou da mulher que eu sou, quem sabe tal experiência abra as portas da percepção a ponto de descobrirmos que não sabemos nada a respeito do outro, que tudo que ele (ela) demonstrava ser era na verdade o que eu pintava, era na verdade o que eu precisava em mim mesmo. Só quando eu trair a imagem que o outro tem de mim – me revelando como diverso – poderei trair a mim mesmo ao me entregar a ele (ela).” </em>(Waldemar Magaldi em aula)</p>
</blockquote>



<p>Este ensaio propõe uma reflexão analítica sobre a traição, deslocando-a de uma categoria meramente moral para a compreensão de um fenômeno psíquico complexo. Há um campo onde se entrelaçam a história individual, a dinâmica inconsciente do vínculo e os fios invisíveis da ancestralidade.</p>



<p>A traição raramente começa onde pensamos que começa.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-ilusao-da-traicao-como-evento-isolado-e-a-vida-psiquica-secreta-que-a-antecede" style="font-size:19px"><strong>A ilusão da traição como evento isolado e a vida psíquica secreta que a antecede</strong></h2>



<p>Na clínica, a traição é frequentemente apresentada como um “raio em céu azul”, um corte abrupto na linearidade de um vínculo. Um acontecimento inesperado que irrompe e destrói o que antes parecia estável.</p>



<p>Contudo, a psicologia analítica nos ensina que a psique não opera por saltos isolados, não há rupturas súbitas, mas processos de compensação e represamento de energia. Há processos longos, silenciosos e muitas vezes imperceptíveis.</p>



<p>A traição, enquanto fenômeno psíquico, pode então ser compreendida como expressão de um afastamento da consciência em relação a determinadas imagens arquetípicas, que sustentam os vínculos de confiança e reciprocidade.</p>



<p>Quando a consciência se distancia do Self, perde-se a orientação para a totalidade e a integridade, abrindo espaço para atitudes fragmentadas e contraditórias. Do mesmo modo, o afastamento de Eros (arquétipo que fundamenta a união e o vínculo afetivo) favorece a ruptura dos laços relacionais, instaurando uma lógica unilateral e desvinculada da dimensão simbólica do encontro.</p>



<p>A sombra, por sua vez, ao ser reprimida em excesso, irrompe de forma inconsciente, manifestando-se em atos que violam pactos e alianças.</p>



<p>O erro fundamental consiste em tratar o ato de trair como a causa da desunião, quando ele é, na verdade, o sintoma de uma cisão que já habitava a estrutura do relacionamento.</p>



<p>Antes do ato concreto, há pequenas cenas: conversas evitadas, incômodos não nomeados, diferenças percebidas e rapidamente relativizadas, uma sensação sutil de distância que é explicada como “uma fase”, “cansaço” ou “normal”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-afirma-que-a-doenca-e-uma-diminuicao-na-capacidade-de-adequacao" style="font-size:18px">Jung afirma que &#8220;a doença é uma diminuição na capacidade de adequação&#8221;:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:17px">
<p style="line-height:1.4"><em>“&#8230;a esta luta dá-se o nome de neurose. Se tal conflito fosse claramente conscientizado, os sintomas neuróticos não se formariam; estes aparecem quando não encaramos o outro lado da nossa natureza e a urgência de seus problemas. Nestas circunstâncias os sintomas se manifestam e ajudam a exprimir o lado não reconhecido da psique. O sintoma é, pois, uma expressão indireta de um desejo que não se reconhece; quando este se torna consciente, entra em conflito violento com nossas convicções morais. Como já dissemos, se este lado sombrio da psique for subtraído da compreensão consciente, o doente não poderá confrontar-se com ele, corrigi-lo, conformar-se com ele, ou então renunciá-lo; pois na realidade ele não possui de forma alguma os impulsos inconscientes. Expulsos da hierarquia da psique consciente, eles se tornam complexos autônomos, que podem ser postos de novo sob o controle consciente, através da análise do inconsciente.</em></p>



<p style="line-height:1.4"><em>(JUNG, 2013, pg. 223)</em></p>
</blockquote>



<p>Nesse sentido, a traição denuncia a incapacidade do ego de sustentar a tensão inerente aos opostos: o dever e o desejo, a segurança e a liberdade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-traicao-e-portanto-na-maioria-das-vezes-o-sintoma-tardio-de-uma-cisao-ja-instalada" style="font-size:17px">A traição é, portanto, na maioria das vezes, o sintoma tardio de uma cisão já instalada.</h2>



<p>Quando a consciência não consegue sustentar as tensões, a psique encontra caminhos indiretos para restaurar o movimento e a traição é um desses caminhos.</p>



<p>A traição não se inicia no encontro físico com um terceiro, mas nas pequenas auto-traições cotidianas. Ela começa quando um dos parceiros percebe um incômodo ou uma verdade interna e escolhe relativizá-la para manter o conforto da <em>persona</em>.</p>



<p>É o momento em que se sente, mas se traduz rápido demais, abafando o incômodo da alma com racionalizações, do tipo: “não é nada”, “eu estou exagerando”, “isso é coisa minha, não preciso compartilhar”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-nesse-instante-que-ocorre-a-primeira-infidelidade-a-traicao-da-propria-percepcao" style="font-size:17px">É nesse instante que ocorre a primeira infidelidade: a traição da própria percepção.</h2>



<p>No cotidiano conjugal, isso pode ser extremamente sutil. Perceber que o parceiro está menos presente (e imediatamente justificar), notar uma repetição que incomoda (e suavizar), sentir-se em segundo plano (e rapidamente compreender o outro).</p>



<p>Essa capacidade de compreender, tão valorizada, pode se tornar um mecanismo de apagamento. Enquanto isso, no outro polo, algo semelhante acontece de forma inversa. Quem trai frequentemente vive uma ruptura interna, uma vida dividida entre aquilo que sustenta conscientemente e aquilo que busca viver à margem. Não se trata apenas de desejo, mas de uma incapacidade de sustentar a própria verdade dentro da relação existente.</p>



<p>Neste estágio, a <em>anima</em> (no homem) ou o <em>animus</em> (na mulher) deixam de ser pontes de relação com o inconsciente para se tornarem &#8220;amantes ciumentos&#8221;. Sanford, em <em>Os Parceiros Invisíveis</em>, destaca que quando a <em>anima</em> não é reconhecida como uma função interna de vida, ela se projeta e &#8220;envenena as necessidades criativas&#8221;, sussurrando pensamentos de desvalorização que impelem o ego para uma busca externa compensatória:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:17px;line-height:1.4">
<p><em>Quando um homem tem uma ideia ou impulso criativo que poderia levá-lo além do ordinário, uma voz sutil parece sussurrar-lhe ao ouvido um pensamento destrutivo, que bem pode interromper as suas conjecturas, digamos que o homem concebe a ideia de escrever e se vê já elaborando um livro ou artigo. A anima certamente lhe cochichará: “Quem é você para pensar que pode escrever alguma coisa?” Ou: “mas isto já foi escrito”. Ou ainda: “Mas não vai haver ninguém que queira publicá-lo”. A energia criativa de muitos homens murcha por si mesma por causa dessa voz sutil, que parece querer anular as tentativas de um homem no sentido de fazer alguma coisa por si mesmo. (SANFORD, 1987, pg.58)</em></p>
</blockquote>



<p>De todo modo, quem trai não é um inocente dominado por forças externas, mas alguém que sofre de um rompimento interno. Há uma incapacidade de sustentar a própria verdade sem fragmentar a relação, uma fuga da responsabilidade moral de ser ele mesmo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-campo-relacional-e-a-danca-dos-inconscientes" style="font-size:19px"><strong>O campo relacional e a dança dos inconscientes</strong></h2>



<p>Para a análise junguiana, o relacionamento humano nunca é composto por apenas duas pessoas. Sanford nos relembra que em cada encontro há, no mínimo, seis participantes: o casal e seus respectivos parceiros invisíveis (<em>anima</em> e <em>animus</em>). A traição ocorre então, dentro de uma <em>participation mystique</em>, uma identidade inconsciente em que as esferas psíquicas se interpenetram a tal ponto que se torna impossível dizer o que pertence a quem.</p>



<p>Assim, se percebe que o relacionamento é um campo onde múltiplas camadas psíquicas se encontram.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-cada-parceiro-traz-consigo-nao-apenas-sua-historia-mas-tambem-suas-imagens-inconscientes-aquilo-que-projeta-aquilo-que-evita-aquilo-que-nao-reconhece-em-si" style="font-size:17px">Cada parceiro traz consigo não apenas sua história, mas também suas imagens inconscientes. Aquilo que projeta, aquilo que evita, aquilo que não reconhece em si.</h2>



<p>Nesse campo, configura-se uma dinâmica muitas vezes invisível: um encarna o movimento – o desejo, a ruptura, a sombra e o outro sustenta a estabilidade – a adaptação, a compreensão, o vínculo. Ambos participam.</p>



<p>No cotidiano, isso aparece de forma concreta na medida em que um evita conflitos através da racionalização e o outro evita a si mesmo, através de distrações, excessos ou fugas. Um sustenta a relação e o outro a tensiona.</p>



<p><strong>Em resumo, organiza-se uma dança de sombras:</strong></p>



<p><em>O Traidor: Muitas vezes encarna o polo da sombra que o outro se recusa a ver em si mesmo.</em></p>



<p><em>O Traído: Frequentemente &#8220;escolhe não ver&#8221; para preservar o vínculo a qualquer custo, sustentando uma harmonia fictícia baseada em afetos contidos.</em></p>



<p>A corresponsabilidade aqui não dilui a dor nem justifica o ato. Mas revela que há uma organização inconsciente onde cada um ocupa umlugar necessário na dinâmica, até que algo se torne insustentável.</p>



<p>E importa, sim, reconhecer que a &#8220;mão direita não sabe o que a esquerda faz&#8221; em ambos os lados do vínculo. A leitura de &#8220;quem sustenta e quem evita&#8221; é o que permite retirar a projeção e devolver a cada um a sua parcela na escuridão do mundo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-repeticao-do-nao-elaborado-e-a-historia-familiar-a-ferida-dor-e-lucidez" style="font-size:19px"><strong>A repetição do não elaborado e a história familiar. A ferida: dor e lucidez</strong></h2>



<p>A escolha de parceiros e a dinâmica da infidelidade mergulham suas raízes no rizoma da ancestralidade. Jung observa que &#8220;a vida que os pais poderiam ter vivido, mas foi impedida, é herdada pelos filhos sob forma oposta&#8221;. A traição pode ser, portanto, uma tentativa desesperada da psique de elaborar o não vivido da árvore familiar.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:17px;line-height:1.3">
<p><em>“Em regra, a vida que os pais podiam ter vivido, mas foi impedida por motivos artificiais, é herdada pelos filhos, sob uma forma oposta. Isto significa que os filhos são forçados inconscientemente a tomar um rumo na vida que compense o que os pais não realizaram na própria vida. Assim, pais exageradamente moralistas têm filhos do tipo conhecido como sem moral, e um pai irresponsável e boêmio tem um filho dotado de ambição doentia, e assim por diante. A inconsistência artificial dos pais tem as piores consequências. (JUNG, 2014, pg. 249)</em></p>
</blockquote>



<p>Por exemplo, quando uma mulher que viu a mãe ser traída se vê em uma situação semelhante, não se trata apenas de coincidência, mas há um campo psíquico que busca elaboração. Não como destino inevitável,<br>mas como tentativa de consciência.</p>



<p>Assim, há relações que não começam no presente, elas são, em parte, reencontros com histórias antigas. Inconscientemente, buscamos parceiros que encarnam o complexo parental para tentar uma possibilidade de libertação.</p>



<p>E então surge o paradoxo, porque há uma parte que vê o padrão e outra que precisa não ver para continuar amando, para manter o vínculo, para não romper com a imagem internalizada do amor e essa divisão é profundamente humana.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-traicao-provoca-um-abaissement-du-nivel-mental-uma-queda-da-energia-consciente-que-forca-o-individuo-a-uma-descida-as-profundezas-do-inconsciente" style="font-size:17px">A traição provoca um <em>abaissement du</em> nível mental, uma queda da energia consciente que força o indivíduo a uma descida às profundezas do inconsciente.</h2>



<p>A dor não provém apenas da perda do outro, mas da quebra da imagem idealizada de si mesmo e do relacionamento. É o fim da respeitabilidade que reprimia a psique.</p>



<p>Assim, a traição fere, mas não apenas pelo ato. Ela fere porque quebra as idealizações: do outro, da relação, e de si mesmo. E revela algo ainda mais difícil, que, em algum nível, algo já havia sido percebido. E então a dor se mistura com lucidez.</p>



<p>Não ficam apenas as perguntas: “por que isso aconteceu comigo?”, “por que o outro me feriu?” Mas também o pico de lucidez brutal, onde a sombra se integra por necessidade vital: <em>“em algum lugar, eu vi e não sustentei o que vi.”</em></p>



<p>E esse é um momento existencial decisivo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-possibilidade-de-transformacao" style="font-size:19px"><strong>A possibilidade de transformação</strong></h2>



<p>O encerramento deste processo não deve ser buscado em uma reconciliação fácil ou em um crescimento bonito e suavizado. A verdadeira transformação é sóbria. Ela aponta para a possibilidade de viver relações em que amar não implica se apagar e onde a verdade, quando emerge, não é negociada rapidamente por medo da solidão.</p>



<p>Ela exige algo mais denso, que é sustentar percepções sem traduzi-las imediatamente, permanecer em relação sem se apagar e tolerar a tensão entre amor e verdade.</p>



<p>No cotidiano, isso se traduz em gestos simples e profundamente difíceis: dizer “isso me afeta” sem explicar demais, não justificar automaticamente o outro e permitir que a realidade do vínculo apareça, mesmo que ela desestabilize.</p>



<p>Porque amar não é apenas acolher. É também ver e não recuar diante do que se vê.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-conclusao" style="font-size:19px"><strong>Conclusão</strong></h2>



<p>Ao final desta análise, resta o desconforto de perceber que a &#8220;cura&#8221; não é o retorno à harmonia anterior, mas a coragem de sustentar a tensão de uma totalidade que inclui a própria escuridão.</p>



<p>Como afirma Jung: &#8220;<em>Ninguém pode ser redimido de um pecado que não cometeu</em>&#8221; (JUNG, 2013a, pg.153). A consciência, portanto, nasce da ferida, e não do seu encobrimento.</p>



<p>Porque a traição que mais nos marca não é a do outro, mas aquela, quase imperceptível, em que renunciamos àquilo que vimos para continuar pertencendo.</p>



<p>A consciência, por sua vez, não nasce da harmonia, mas sim da ruptura da ilusão.</p>



<p>E talvez o verdadeiro desafio não seja evitar a traição do outro, mas sustentar a própria verdade quando ela aparece.</p>



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<iframe title="Artigo novo: Fidelidade à Ilusão: Por que não vemos o que vemos" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/NN5YIOehMmw?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/alessandra-brizotti-mazzieri/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/alessandra-brizotti-mazzieri/">Alessandra Mazzieri &#8211; Analista em formação / IJEP</a></strong></p>



<p><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi – Analista Didata / IJEP</a></strong></p>



<p><strong>Referências</strong></p>



<p>JUNG, Carl Gustav, <strong>Psicologia do Inconsciente.</strong> Edição Digital. Petrópolis: VOZES, 2013.</p>



<p>SANFORD, John A., <strong>Os Parceiros Invisíveis: o masculino e o feminino dentro de cada um de nós</strong>. 1ª Edição, 14ª Reimpressão, São Paulo: Ed. Paulus,1987.</p>



<p>______. <strong>O desenvolvimento da Personalidade</strong>. Ed. Digital. Petrópolis: VOZES, 2014.</p>



<p>______. <strong>Civilização em Transição</strong>. Ed. Digital. Petrópolis: VOZES, 2013 a.</p>



<p><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p></p>
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		<title>As aventuras do Seu Albo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Leonardo Torres]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 12 May 2026 14:44:59 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Alquimia]]></category>
		<category><![CDATA[Processo de Individuação]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[albedo]]></category>
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		<category><![CDATA[Consciência]]></category>
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		<category><![CDATA[inconsciente]]></category>
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		<category><![CDATA[Persona]]></category>
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		<category><![CDATA[sombra]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>"O ‘homem sem sombra’, com efeito, é o tipo humano estatisticamente mais comum, alguém que acredita ser apenas aquilo que gostaria de saber a respeito de si mesmo."</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<h2 class="wp-block-heading" id="h-prologo" style="font-size:20px">Prólogo</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p><em>O ‘<strong>homem sem sombra</strong>’, com efeito, é o tipo humano estatisticamente mais comum, alguém que acredita ser apenas aquilo que gostaria de saber a respeito de si mesmo</em>.</p><cite>C.G. JUNG, OC 8/2, §409</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:18px">Seu Albo era uma figura conhecida na região. Se autodefinia como uma pessoa muito correta, com retidão de caráter e convicto de que era contra qualquer tipo de maldade. Uns diziam que ele tinha 30 anos, outros uns 60, mas todos sabiam que seu nome era Albo.</p>



<p style="font-size:18px">Em um dia de folga, sempre acompanhado de suas convicções, andava displicentemente pelas ruas de sua cidade quando viu jovens vestidos com roupas estravagantes:</p>



<p style="font-size:18px">&#8211; Essa juventude está perdida! – disse a si mesmo, vestindo sua sandália com meias sociais, short bege e camisa florida.</p>



<p style="font-size:18px">Mais alguns metros de caminhada e, surpresa, encontrou um amigo da juventude.</p>



<p style="font-size:18px">&#8211; Grande amigo! Você viu a pouca vergonha que está neste país? Estão destruindo nosso bem maior: a família! – disse Albo.</p>



<p style="font-size:18px">O pai de Albo tinha sido alcoólatra e, antes de morrer precocemente, teve diversos episódios de violência contra sua mãe. Já Seu Albo já tinha se separado três vezes, contudo, segundo ele, isso se deu porque elas não eram boas mulheres.</p>



<p style="font-size:18px">&#8211; Verdade Albo, esse mundo está perdido – respondeu o amigo, dando aquelas respostas tão óbvias e esperadas que só perdem em automatismo e irreflexão para quando levamos um tombo e tentamos nos proteger com as mãos.</p>



<p style="font-size:18px">&#8211; Bom te ver amigo! Precisamos marcar alguma coisa – naturalmente que na cabeça do Seu Albo essa “alguma coisa” era algum encontro fortuito numa casa de prostituição qualquer; normal.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-continuou-sua-caminhada-e-nela-ficava-a-refletir-sobre-muitas-situacoes-da-vida-por-exemplo-como-as-pessoas-eram-egoistas-como-ninguem-respeitava-mais-nada-como-este-pais-estava-jogado-as-tracas-como-os-valores-sabe-se-la-do-que-tinham-sido-perdidos-e-como-ninguem-percebia-isso" style="font-size:18px">Continuou sua caminhada, e nela ficava a refletir sobre muitas situações da vida, por exemplo: como as pessoas eram egoístas, como ninguém respeitava mais nada, como este país estava jogado às traças, como os valores (sabe-se lá do que) tinham sido perdidos e como “ninguém” percebia isso.</h2>



<p style="font-size:18px">Acidentalmente e distraidamente, Seu Albo entrou numa ciclovia, e por pouco não foi atropelado por uma bicicleta. Ficou muito irritado!</p>



<p style="font-size:18px">&#8211; Quem você pensa que é? – Vociferou contra o ciclista!</p>



<p style="font-size:18px">&#8211; Sou um ciclista, pedalando uma bicicleta, na ciclovia, que é uma via feita para ciclistas pedalarem suas respectivas bicicletas&#8230; – respondeu.</p>



<p style="font-size:18px">&#8211; E você sabe com quem está falando? – Carteirou (?).</p>



<p style="font-size:18px">&#8211; Sei&#8230; com um “albo” – disse o ciclista em voz baixa e voltou à sua pedalada.</p>



<p style="font-size:18px">Mas não passou de um susto.</p>



<p id="h-seu-albo-voltou-para-sua-casa-e-resolveu-dar-uma-volta-de-carro-poucos-metros-dirigindo-e-ele-quase-atropelou-uma-pessoa-que-atravessava-na-faixa-de-pedestres" style="font-size:18px">Seu Albo voltou para sua casa e resolveu dar uma volta de carro. Poucos metros dirigindo e ele quase atropelou uma pessoa que atravessava na faixa de pedestres.</p>



<p style="font-size:18px">&#8211; Você endoideceu de atravessar desse jeito? – buzinou e berrou em seguida!</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-num-mix-de-susto-e-alivio-a-pessoa-continuou-sua-caminhada-em-silencio-apenas-murmurou-albo" style="font-size:18px">Num mix de susto e alívio, a pessoa continuou sua caminhada em silêncio. Apenas murmurou “albo”&#8230;</h2>



<p style="font-size:18px">&#8211; Essas pessoas que não prestam atenção por onde andam me tiram do sério – disse Albo a si mesmo.</p>



<p style="font-size:18px">Dirigiu seu carro até o local onde praticava sua religião. Seu Albo a praticava com muito fervor e devoção. Sempre dizia que ter fé era essencial e que Deus só sabia fazer o bem. Por outro lado, ele não entendia como outras pessoas poderiam praticar religiões diferentes da sua, ou como podiam praticar uma religião menos evoluída que a sua: “Só pode ser coisa do diabo”, falava regularmente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-um-jovem-colega-desse-espaco-religioso-aparentemente-demonstrando-sensatez-se-incomodou-com-as-falas-de-albo" style="font-size:18px">Um jovem colega desse espaço religioso, aparentemente demonstrando sensatez, se incomodou com as falas de Albo:</h2>



<p style="font-size:18px">&#8211; Seu Albo, de onde raios você tirou que uma religião que é diferente da sua só pode ser coisa do diabo ou algo que o valha?</p>



<p style="font-size:18px">&#8211; Meu filho, – usando o termo “filho” num tom que misturava acolhimento e soberba – você ainda vai aprender. Deus é bom, logo, essas coisas ruins que vemos das outras religiões só podem ser coisas do diabo.</p>



<p style="font-size:18px">&#8211; Na perspectiva religiosa, quem criou o mundo, Seu Albo?</p>



<p style="font-size:18px">&#8211; Deus, é claro!</p>



<p style="font-size:18px">&#8211; Bem, e isso inclui seres vivos, entidades e figuras históricas, certo?</p>



<p style="font-size:18px">&#8211; Evidente!</p>



<p style="font-size:18px">&#8211; Então Deus criou o diabo?</p>



<p style="font-size:18px">&#8211; Não seja ingênuo, filho. Deus não é culpado pela criação do diabo. A maldade vem do livre-arbítrio que Deus outorgou – quis usar uma palavra difícil para parecer culto – aos seres humanos.</p>



<p style="font-size:18px">&#8211; Se Deus criou tudo, o livre-arbítrio e o mal não seriam uma criação de Deus?</p>



<p style="font-size:18px">&#8211; Filho, é muito difícil conversar com você. Para seu governo, saiba que algumas das minhas crenças foram até comprovadas cientificamente!</p>



<p style="font-size:18px">&#8211; Seu Albo, mas se foi comprovado cientificamente, será que isso não deixou de ser uma experiência de fé? A fé que eu aprendi na mesma religião que praticamos, é aquela que contempla a dúvida, que caminha na incerteza e que é guiada por princípios éticos, que independem de uma comprovação concreta, senão da própria experiência sagrada e individual que qualquer pessoa pode ter. Isso é muito diferente daquilo que hoje chamamos de “cientificamente”.</p>



<p style="font-size:18px">&#8211; Quanta bobagem! Deixemos essa conversa para quando você conseguir argumentar, entender o que é Deus e o que fé, vai ler – e saiu, cheio de dúvidas, mas sem dar chance ao inquisidor, assim Seu Albo o considerava, continuar seus argumentos “vazios” (?).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ja-o-jovem-achou-interessante-que-seu-albo-ja-tivesse-entendido-o-que-era-deus" style="font-size:18px">Já o jovem achou interessante que Seu Albo já tivesse entendido o que era Deus&#8230;</h2>



<p style="font-size:18px">Algum tempo passou e Seu Albo foi tomado por uma angústia. Não sabia descrevê-la muito bem, mas estava muito introspectivo, de poucas palavras, às vezes até chorava “escondido” em sua casa. Percebeu que ele tinha que mudar algumas atitudes em sua vida. Começou a se dar conta que por vezes tinha uma postura radical ou inflexível, até mesmo arrogante. Constatou pela sua própria reflexão que precisava mudar e colocar essas mudanças em prática. Soube que usar pronomes neutros era uma nova forma de se comunicar, muito mais inclusiva e que provavelmente o deixaria menos radical ou intransigente.</p>



<p style="font-size:18px">&#8211; Agora uso pronomes neutros! Assim consigo englobar todas as pessoas quando me referir a elas – comentou com um conhecido do bairro.</p>



<p style="font-size:18px">&#8211; Seu Albo&#8230; a expressão “todas as pessoas” já não é neutra e inclusiva?</p>



<p style="font-size:18px">&#8211; A neutralidade está em você usar pronomes que incluam pessoas de qualquer orientação sexual ou gênero.</p>



<p style="font-size:18px">&#8211; E se falo “todos”, não faço isso?</p>



<p style="font-size:18px">&#8211; Coisas do patriarcado – bufou. – Você não sabe nada de inclusão! Sou inclusivo!</p>



<p style="font-size:18px">&#8211; Mas posso falar “todos”?</p>



<p style="font-size:18px">&#8211; Fale o que quiser, mas isso não é inclusivo!</p>



<p style="font-size:18px">&#8211; Então estou excluído da sua lista de que é ser inclusivo?</p>



<p style="font-size:18px">&#8211; De certa forma, sim!</p>



<p style="font-size:18px">&#8211; Você acabou de dizer que era inclusivo, mas me excluiu&#8230;</p>



<p style="font-size:18px">&#8211; Claro que sou inclusivo! Inclusivo e diverso! Veja só: na empresa que eu trabalho fizemos programas de diversidade. Agora usamos pronomes neutros, temos programas de liderança feminina, temos projetos para PcDs, coitados (?)! Chamamos até uma monja budista para dar uma palestra aos funcionários.</p>



<p style="font-size:18px">&#8211; Muito bacana essa iniciativa! Penso que a ideia de diversidade também passa pela ideia de diversidade religiosa, algo que é muito bonito e potente aqui no Brasil. Que tal chamarem um Pastor ou uma Mãe de Santo para uma palestra na próxima vez?</p>



<p style="font-size:18px">&#8211; Não&#8230; Daria muita polêmica – disse Seu Abo tentando sair do assunto.</p>



<p style="font-size:18px">&#8211; Você não é inclusivo e diverso? – retrucou o homem.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-deixa-eu-te-explicar-usou-essa-expressao-para-ganhar-tempo-pois-na-pratica-nao-sabia-o-que-falar-continuou" style="font-size:18px">&#8211; Deixa eu te explicar&#8230; – usou essa expressão para ganhar tempo pois, na prática, não sabia o que falar. Continuou:</h2>



<p style="font-size:18px">&#8211;&nbsp; Eu era uma pessoa muito extrema, mas agora sou mais flexível. Por isso resolvi virar inclusivo – Seu Albo era conhecido na empresa em que trabalhava por ser um líder incoerente e sempre com ideias que emergiam de última hora. Não raro a equipe tinha que trabalhar muitas horas além do expediente normal para operacionalizar suas ideias “diversas” e “inclusivas”, que não consideravam nem excesso de horas trabalhas, nem uma vida saudável na relação com o trabalho.</p>



<p style="font-size:18px">&#8211; Sei, e o que mais faz? – indagou seu conhecido do bairro.</p>



<p style="font-size:18px">&#8211; Sou uma pessoa boa, faço as coisas certas, sou ético! Ajudo as pessoas, especialmente as da minha equipe – ao falar isso se lembrou de quando um de seus funcionários lhe confidenciou algo muito particular e, no dia seguinte, boa parte da equipe abordou esse funcionário para tratar do tema. O funcionário, consternado, indagou Seu Albo em seguida, ao passo que ele disse que não tinha falado “com ninguém”, só com outra pessoa da equipe, mas que o fez apenas querendo ajudar.</p>



<p style="font-size:18px">&#8211; Teve até uma vez que depois de eu tentar ajudar uma pessoa com a maior das boas vontades, ela pediu demissão e teve a pachorra de falar que eu a expus – contou ao conhecido.</p>



<p style="font-size:18px">&#8211; Sei quem é essa pessoa Seu Albo, e até onde eu soube, ela foi exposta mesmo – afirmou o conhecido.</p>



<p style="font-size:18px">&#8211; Ela é uma mal-agradecida, isso sim! – grasnou.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-no-caminhar-da-jornada-da-vida-seu-albo-se-tornou-ativista-critico-do-consumismo-vazio-e-resolveu-se-envolver-com-pautas-ambientais-embora-fizesse-questao-de-usar-seu-carro-movido-a-combustivel-fossil-pois-segundo-ele-nao-queria-dirigir-um-carrinho-de-golfe-anabolizado" style="font-size:18px">No caminhar da jornada da vida, Seu Albo se tornou ativista, crítico do consumismo vazio e resolveu se envolver com pautas ambientais, embora fizesse questão de usar seu carro movido a combustível fóssil, pois, segundo ele “não queria dirigir um carrinho de golfe anabolizado”.</h2>



<p style="font-size:18px">&#8211; Agora também não consumo carne por uma motivação muito clara: sou a favor do bem-estar animal – disse com alegria!</p>



<p style="font-size:18px">&#8211; E consumir carne é sinônimo de sofrimento animal, Seu Albo? – indagou um colega de trabalho.</p>



<p style="font-size:18px">&#8211; Claro! Animais também merecem ser bem tratados. Amo cachorros – Seu Albo se esquecera que a poucos anos atrás tinha feito uma cirurgia que o livrou de um problema de saúde mais grave, e que praticamente todas as cirurgias que hoje são feitas em seres humanos, eram, e continuam sendo, desenvolvidas com pesquisas que utilizam animais.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-apesar-dessas-falas-e-ou-comportamentos-a-angustia-parecia-acompanha-lo" style="font-size:18px">Apesar dessas falas e/ou comportamentos, a angústia parecia acompanhá-lo.</h2>



<p style="font-size:18px">Certo dia teve um sonho. Nele via pessoas nadando e se chafurdando numa piscina ou poço de lama, não sabia muito bem quem eram, mas lhe pareciam muito familiares, embora não conseguisse descrever seus rostos. Claramente se divertiam com aquilo, como se fosse uma brincadeira. Mas o que aquela lama parecia mesmo era cocô. Ele não sabia explicar como aquilo parecia legal e empolgante. Era uma verdadeira esbórnia de merda. Quis participar também. Caminhou em direção à piscina/poço. Quando foi pular, acordou.</p>



<p style="font-size:18px">Finalmente, resolveu procurar por análise. Disseram-lhe que a análise junguiana era muito boa, pois trabalharia questões mais profundas e lá seus sonhos seriam investigados em detalhes. Levou a sério e logo teve seu primeiro encontro com o terapeuta.</p>



<p style="font-size:18px">&#8211; Sabe Analista, sou uma pessoa muito resiliente! O problema é que as pessoas têm inveja de mim.</p>



<p style="font-size:18px">&#8211; E o que você tem de invejável?</p>



<p style="font-size:18px">&#8211; Eu sou uma pessoa boa, faço as coisas certas, sou ético, respeito as pessoas, protejo o meio-ambiente e os animais, sou inclusivo e diverso, defendo a religião e a fé. Não tenho político de estimação, família para mim é sagrada e meus valores são inegociáveis. Minha vida vai muito bem. O problema são as pessoas que questionam minhas falas e meus comportamentos&#8230; Elas não me entendem!</p>



<p style="font-size:18px">&#8211; O problema são as pessoas&#8230; entendi. De quais pessoas estamos falando?</p>



<p style="font-size:18px">&#8211; De quase todas as quais eu me relaciono ou me relacionei de alguma forma.</p>



<p style="font-size:18px">&#8211; Todas é muita coisa, não?</p>



<p style="font-size:18px">&#8211; Na verdade, acho que só tem uma &#8211; os olhos da Albo lacrimejaram, e continuou:</p>



<p style="font-size:18px">&#8211; Eu! Eu não me entendo. E às vezes acho que sou um merda.</p>



<p style="font-size:18px">&#8230;</p>



<p style="font-size:18px">Por qualquer acaso da vida, este texto caiu nas mãos de Seu Albo, que o leu atentamente. Ao terminar, apenas disse a si mesmo:</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nossa-tenho-um-amigo-que-e-exatamente-assim" style="font-size:18px">&#8211; Nossa, tenho um amigo que é exatamente assim.</h2>



<p style="font-size:18px">&#8212;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-epilogo" style="font-size:22px">Epílogo</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px"><em>“Muitas vezes é trágico ver como uma pessoa estraga de modo evidente &nbsp;a própria vida e a dos outros, e como é incapaz de perceber até que ponto essa tragédia parte dela e é&nbsp; alimentada progressivamente por ela mesma. Não é a sua consciência que o faz, pois esta lamenta e amaldiçoa o mundo desleal que dela se afasta cada vez mais. Pelo contrário, é um fator inconsciente que trama as <strong>ilusões que encobrem o mundo e o próprio sujeito</strong>” </em>(OC 9/2, §18).</p>
</blockquote>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px"><em>“O <strong>retorno ao caos</strong> era considerado pelos alquimistas como uma parte da obra. E o estado da nigredo (negrura) e mortificatio (mortificação, morte), seguido do ignis purgatorii (fogo do purgatório ) e da albedo (alvura). O espírito do caos é indispensável para a obra [&#8230;]. O inconsciente é bom e mau, ou nem bom nem mau. Ele é a mãe de todas as possibilidades”</em> (OC 14/1, §247).</p>
</blockquote>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px"><em>“Entre os alquimistas, o Paraíso é um símbolo popular do albedo (alvura), isto é, do estado de <strong>inocência readquirido</strong>&#8230;”</em> (OC 9/2, §373).</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-termos-psiquicos-a-albedo-so-cumpre-com-seu-objetivo-alquimico-quando-compoe-um-par-de-opostos-com-a-nigredo-levando-de-maneira-consequente-a-citrinitas-amarelecimento-e-em-seguida-a-rubedo-vermelhidao-que-e-um-simbolismo-da-sintese-dos-opostos" style="font-size:18px">Em termos psíquicos, a <em>albedo</em> só cumpre com seu objetivo alquímico quando compõe um par de opostos com a nigredo, levando de maneira consequente à <em>citrinitas</em> (amarelecimento) e em seguida à <em>rubedo</em> (vermelhidão), que é um simbolismo da síntese dos opostos.</h2>



<p style="font-size:18px">Do contrário, uma pessoa “alba” será aquela que vive sua fantasia paradisíaca de si mesma, composta pelas próprias verdades, circunscrita ao conhecimento dos padrões típicos e mais aprazíveis do ego, como se esse fosse toda a psique. Ela chamará a isso de “autoconhecimento”. Em suma, uma pessoa “alba” será aquela que viverá uma suposta “clareza” dos limites da consciência, como se esta fosse sua totalidade.</p>



<p style="font-size:18px"><em>Albo</em>: (do latim), claro, branco. &nbsp;</p>



<p style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/rafaelrodrigues/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/rafaelrodrigues/">Rafael Rodrigues de Souza &#8211; Analista Didata do IJEP</a></strong></p>



<p><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>
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		<item>
		<title>A Tipologia e a Sombra: Tipos Psicológicos e Abuso de Poder na Clínica</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Leonardo Torres]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 11 May 2026 20:20:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Setting Terapeutico]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[Tipos Psicológicos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este artigo propõe uma reflexão acerca dos tipos psicológicos e do abuso de poder na clínica a partir de uma leitura de O Alienista, de Machado de Assis. Mediante a interpretação do personagem Simão Bacamarte como expressão do tipo pensamento extrovertido, discute-se a identificação unilateral do ego com a função principal e seus desdobramentos éticos e clínicos. O texto articula contribuições de Carl Gustav Jung, Marie-Louise von Franz, Daryl Sharp e Adolf Guggenbühl-Craig para refletir sobre o problema tipológico, a função inferior, a sombra e os riscos inerentes à posição de autoridade do analista. Conclui-se pela necessidade de uma postura crítica, dialógica e autorreflexiva, capaz de sustentar a tensão entre tipologia e singularidade, evitando reducionismos e favorecendo uma escuta ética e transformadora.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>Resumo: </strong>Este artigo propõe uma reflexão acerca dos tipos psicológicos e do abuso de poder na clínica a partir de uma leitura de <em>O Alienista</em>, de Machado de Assis. Mediante a interpretação do personagem Simão Bacamarte como expressão do tipo pensamento extrovertido, discute-se a identificação unilateral do ego com a função principal e seus desdobramentos éticos e clínicos.</p>



<p>O texto articula contribuições de Carl Gustav Jung, Marie-Louise von Franz, Daryl Sharp e Adolf Guggenbühl-Craig para refletir sobre o problema tipológico, a função inferior, a sombra e os riscos inerentes à posição de autoridade do analista. Conclui-se pela necessidade de uma postura crítica, dialógica e autorreflexiva, capaz de sustentar a tensão entre tipologia e singularidade, evitando reducionismos e favorecendo uma escuta ética e transformadora.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-modelo-junguiano-de-tipologia-nasceu-de-uma-ampla-revisao-historica" style="font-size:16px">O modelo junguiano de tipologia nasceu de uma ampla revisão histórica.</h2>



<p>Jung desenvolveu o tema por meio de um extenso estudo de contrastes psicológicos e modos de orientação da consciência presentes na literatura, na mitologia, na estética, na filosofia e na psicopatologia. O modelo de Jung diz respeito ao movimento da energia psíquica e ao modo como cada indivíduo se orienta no mundo, habitual ou preferencialmente. A partir desse ponto de vista, Jung discrimina oito grupos tipológicos: quatro funções ou formas de orientação da consciência &#8211; pensamento, sensação, intuição e sentimento -, operando de modo introvertido ou extrovertido (atitudes da personalidade).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-livro-o-alienista-de-machado-de-assis-de-1882-narra-a-historia-do-medico-simao-bacamarte-que-em-busca-de-estudar-a-loucura-na-vila-de-itaguai-rj-constroi-a-casa-verde-um-centro-psiquiatrico" style="font-size:16px">O livro &#8220;O Alienista&#8221;, de Machado de Assis, de 1882, narra a história do médico Simão Bacamarte, que, em busca de estudar a loucura na vila de Itaguaí-RJ, constrói a &#8220;Casa Verde&#8221;, um centro psiquiátrico.</h2>



<p>A obra satiriza os excessos e o poder da ciência, o interesse pessoal em detrimento do coletivo, e a influência da política nas questões de saúde mental, mostrando como o médico Simão interna quase toda a cidade por critérios arbitrários, discutindo os limites tênues entre sanidade e loucura e o conceito de verdade. Do ponto de vista da psicologia junguiana, o livro, que já é de domínio público e de fácil acesso, convida a boas reflexões sobre o método reducionista causal, o problema dos complexos autônomos, a identificação do ego com a unilateralização da consciência, os tipos psicológicos e o abuso de poder na clínica.</p>



<p>A partir da imersão na leitura do livro <em>Tipos Psicológicos</em> de Jung (2013) e do livro-síntese sobre o tema elaborado por Daryl Sharp (<em>Tipos de Personalidade: O Modelo Tipológico de Carl G. Jung</em>, 2021) podemos fazer uma análise do clássico livro de Machado de Assis através de uma perspectiva tipológica. Simão Bacamarte pode ser visto como um tipo pensamento extrovertido; seus conhecimentos psiquiátricos são consequência de uma árdua e incessante procura por formalização de seus estudos, desde a formação no exterior até a sistematização de seus casos. Sua oratória é impecável, facilitando seu grande interesse em disseminar sua “verdade” sobre a loucura. Nas palavras do personagem, o objetivo principal de seu empreendimento, materializado pelo centro psiquiátrico, é estudar profundamente a loucura &#8211; seu objeto -, os seus diversos graus, classificar os casos, descobrir enfim a causa do fenômeno e o remédio universal (ASSIS, 1994, p. 11).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-reconhecendo-o-risco-de-cair-na-mesma-tentacao-dos-rotulos-de-simao-podemos-ainda-incorporar-os-ensinamentos-de-marie-louise-von-franz" style="font-size:16px">Reconhecendo o risco de cair na mesma tentação dos rótulos de Simão, podemos ainda incorporar os ensinamentos de Marie-Louise von Franz.</h2>



<p>A autora, em seu livro <em>Psicoterapia </em>(1999), reforça que o reconhecimento da função principal se dá muitas vezes a partir da identificação primeira da função inferior, uma vez que suas aparições causam todo tipo de afeto e desacerto entre o indivíduo e o seu entorno. No caso em questão, a relação amorosa de Bacamarte é refém da sua função inferior &#8211; sentimento introvertido -. Suas aparições, às quais temos acessos principalmente por brevíssimos momentos de reflexão sobre sua mulher, D. Evarista, são rapidamente abafadas por visões racionalistas e impessoais da sua relação:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:17px">
<p style="font-size:17px"><em>Simão Bacamarte explicou-lhe que D. Evarista reunia condições fisiológicas e anatômicas de primeira ordem, digeria com facilidade, dormia regularmente, tinha bom pulso, e excelente vista; estava assim apta para dar-lhe filhos robustos, sãos e inteligentes. Se além dessas prendas,— únicas dignas da preocupação de um sábio, D. Evarista era mal composta de feições, longe de lastimá-lo, agradecia-o a Deus, porquanto não corria o risco de preterir os interesses da ciência na contemplação exclusiva, miúda e vulgar da consorte. (ASSIS, 1994, p. 5)</em></p>
</blockquote>



<p>Outro fator relevante sobre a função inferior é sua capacidade de ludibriar o sujeito, travestindo-se na função principal. Sendo assim, considerando a função inferior do Dr. Simão como um sentimento introvertido, podemos observar, com olhar crítico, suas inúmeras racionalizações de valores e intuições religiosas a partir de seus discursos para validar a Casa Verde com ditos de santos e filósofos.</p>



<p>Machado de Assis faz uma breve descrição de várias pessoas que acabam sendo internadas à força na Casa Verde. Pessoas com uma intuição apurada voltada ao religioso eram colocadas como distantes da realidade material, pessoas com um sentimento bem desenvolvido, que priorizavam as relações em oposição às finanças, eram consideradas desajuizadas, pessoas pragmáticas e práticas com facilidades para o fazer manual eram vistas como ameaça. O “outro” para Simão Bacamarte era um desvio completo que precisava ser analisado minuciosamente e curado em favor do pensamento racional.</p>



<p>Do ponto de vista coletivo, a diversidade de atitudes é fundamental. Uma sociedade precisa da iniciativa, da ação e da abertura ao mundo trazidas pela extroversão, assim como necessita da reflexão, da profundidade e da elaboração simbólica próprias da introversão. Quando uma dessas atitudes é desvalorizada, empobrecemos não apenas o indivíduo, mas o campo social como um todo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-da-mesma-maneira-se-faz-necessario-o-convivio-e-o-cultivo-das-quatro-funcoes-da-consciencia-pensamento-sentimento-intuicao-e-sensacao" style="font-size:17px">Da mesma maneira se faz necessário o convívio e o cultivo das quatro funções da consciência: pensamento, sentimento, intuição e sensação.</h2>



<p>A valorização de funções que são favoráveis aos ideais capitalistas de produção e eficiência, como o pensamento e a sensação, contribui, ao longo da história, para uma negligência, por exemplo, do sentimento e da elaboração consciente dos valores dos indivíduos em relação às suas ações. O preconceito com a intuição, desde a ignorância sobre suas características até sua distorção no contexto das religiões neopentecostais, provoca, de maneira crescente, a aridez interior dos indivíduos, a dificuldade de um diálogo com o inconsciente, de uma expressão criativa catártica, levando inclusive a uma precipitada patologização de pessoas deste tipo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-despotismo-cientifico-assis-1994-p-43-de-simao-e-uma-narrativa-unilateral-da-verdade-que-e-recordada-no-contexto-deste-texto-para-refletirmos-sobre-a-atuacao-do-analista-junguiano" style="font-size:16px">O despotismo científico (ASSIS, 1994, p. 43) de Simão é uma narrativa unilateral da verdade que é recordada no contexto deste texto para refletirmos sobre a atuação do analista junguiano.</h2>



<p>Conforme desenvolvido pelo autor Adolf Guggenbühl-Craig, em seu livro <em>O Abuso do Poder na Psicoterapia,</em> o analista, assim como outros profissionais da saúde, podem abusar de uma determinada autoridade. Desta maneira, a posição de detentor de um conhecimento especializado sobre os fenômenos psíquicos poderia contribuir para uma identificação com a &#8220;sombra&#8221; nas relações clínicas.  Neste sentido, diante do outro que lhe é alheio, o desejo de poder e os perigos de dinâmicas desequilibradas de consciência favorecem a constelação de personagens como o charlatão e o falso profeta: aspectos sombrios que todo analista deve confrontar.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:17px"><em>Esse termo (charlatão), para mim, não designa alguém que use métodos não-ortodoxos ou extra-oficiais para ajudar os necessitados, mas sim um tipo de médico que na melhor das hipóteses engana tanto a si como a seus pacientes, ou, na pior, apenas a seus pacientes. Trata-se de um indivíduo que ajuda mais a si mesmo, pelo dinheiro e prestígio que recebe, do que aos doentes que procuram seus préstimos. (GUGGENBÜHL-CRAIG, 2004, p. 28)</em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-proposta-deste-artigo-entretanto-seria-dar-enfase-aos-aspectos-da-consciencia-enquanto-fenomeno-psiquico-presente-na-relacao-analista-analisando" style="font-size:16px">A proposta deste artigo, entretanto, seria dar ênfase aos aspectos da consciência enquanto fenômeno psíquico presente na relação analista-analisando.</h2>



<p>Tal empreendimento se deve pela sedução que o inconsciente geralmente provoca aos olhos do estudioso na área da psicologia junguiana &#8211; assim como a “patologia cerebral” seduziu Simão -, que acaba por negligenciar e ver o modelo tipológico de Jung com menos seriedade que os fenômenos inconscientes. Guggenbühl-Craig (2004, p. 32) comenta sobre esse fascínio ao  lembrar que o analista junguiano é alguém que viveu o profundo abalo produzido pela confrontação com o irracional e o inconsciente.</p>



<p>Neste contexto, nas palavras de <strong>Daryl Sharp</strong> (2021, p. 138), faz-se necessário, no campo da tipologia, como em qualquer tentativa de autoconhecimento, uma contínua autorreflexão. Por essa razão, é inestimável reforçar que o primeiro confronto com o inconsciente e sua eventual integração parte do problema da sombra, entretanto é indispensável retomar o fato de que o temperamento e as pressuposições subjetivas do analista são sua bússola (SHARP, 2021, p. 9) para existir no mundo, dentro e fora do setting terapêutico.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-aprofundando-a-reflexao-sobre-a-construcao-desse-analista-no-livro-sobre-abuso-de-poder-na-clinica-guggenbuhl-craig-alerta-sobre-a-identificacao-do-analista-didata-com-uma-sombra-de-feiticeiro" style="font-size:16px">Aprofundando a reflexão sobre a construção desse analista, no livro sobre abuso de poder na clínica, Guggenbühl-Craig alerta sobre a identificação do analista didata com uma sombra de feiticeiro.</h2>



<p>Neste contexto, o analista em formação correria o risco de continuar sendo um “aprendiz” durante toda a sua atuação como psicoterapeuta, apenas imitando seu analista e admirando sua performance (GUGGENBÜHL-CRAIG, 2004, p. 43). Entretanto, retomando esse problema pelo ponto de vista dos tipos psicológicos, é fundamental considerar que a forma como a consciência do analista se adaptou, ou seja, como ele compreende e se relaciona majoritariamente com o mundo, não deve ser colocada em xeque ao ser formado, por exemplo, por um analista didata de tipo oposto ao seu. </p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:17px">
<p><em>Tenho observado, com frequência como um analista, frente a um tipo excepcionalmente reflexivo, por exemplo, fará o possível para revelar-lhe a função do sentimento, trazendo-a diretamente para fora do inconsciente. Esse esforço está fadado ao fracasso, pois implica uma violação extrema do ponto de vista consciente. Ainda que essa violação produzisse efeito, o analista geraria uma dependência compulsiva no paciente, uma transferência que só poderia resultar num desfecho brutal. Pois, tendo sido privado do seu ponto de vista, o paciente assumiria para si o ponto de vista do analista. (JUNG, 2013, § 670)</em></p>
</blockquote>



<p>Neste contexto, podemos incorporar para a discussão mais um personagem do livro de Machado de Assis, o Sr. Crispim Soares, boticário da vila, que é contratado para responsabilizar-se pelas questões administrativas da Casa Verde. Sua tipologia, hipoteticamente falando &#8211; uma vez que não é um personagem tão explorado na obra -, é o sentimento introvertido, função inferior de Simão. Entretanto, por conta da absurda influência do médico, acaba por diversas vezes indo contra seus próprios princípios e família, de modo a tentar se enquadrar na tipologia do doutor, ou seja, na tal concepção verdadeira e moralmente superior, isenta do risco de cair em adoecimento.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-seguinte-passagem-esclarece-tanto-sobre-a-funcao-principal-do-sr-soares-quando-da-sua-automutilacao-ao-se-enquadrar-no-comportamento-de-simao" style="font-size:16px">A seguinte passagem esclarece tanto sobre a função principal do Sr. Soares, quando da sua automutilação ao se enquadrar no comportamento de Simão:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-default is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:17px">
<p><em>Crispim amava a mulher, e, desde trinta anos, nunca estiveram separados um só dia. Assim se explicam os monólogos que ele fazia agora, e que os fâmulos lhe ouviam muita vez:—&#8221;Anda, bem feito, quem te mandou consentir na viagem de Cesária? Bajulador, torpe bajulador! Só para adular ao Dr. Bacamarte. Pois agora agüenta-te; anda, agüenta-te, alma de lacaio, fracalhão, vil, miserável. Dizes amém a tudo, não é? aí tens o lucro, biltre!&#8221; (ASSIS, 1994, p. 22)</em><em> </em><em></em></p>
</blockquote>



<p>Ao ampliarmos a reflexão tipológica, é fundamental recordar que as quatro funções psicológicas &#8211; pensamento, sentimento, sensação e intuição &#8211; dizem respeito primariamente ao funcionamento da consciência. Conforme destaca Marie-Louise von Franz, há um equívoco recorrente em tentar utilizar esse modelo, que descreve atitudes conscientes, como ferramenta direta para abordar conteúdos do inconsciente, como no chamado “problema do quatro”. Tal deslocamento indevido pode gerar reducionismos interpretativos e obscurecer a complexidade simbólica das manifestações psíquicas.</p>



<p>Seguimos certas regras para interpretar as manifestações do inconsciente. Em última análise, porém, essa interpretação é mais uma arte que um ofício, e pode ocorrer que nossa própria equação pessoal nos leve a desprezar algo fundamental (FRANZ, 1999, p. 34). Nesse sentido, a prática clínica exige não apenas conhecimento teórico, mas um constante exercício de autocrítica e ampliação de repertório simbólico. A análise individual, a supervisão em grupo e o contato com diferentes expressões culturais tornam-se, portanto, instrumentos indispensáveis para evitar a unilateralidade da escuta.</p>



<p>A noção de “equação pessoal” é central nesse debate, pois condiciona inevitavelmente o modo como o analista dialoga com o analisando e conduz as ampliações das expressões oníricas, dos sintomas e das expressões criativas. Como aponta Jung, “a verdade relativamente definitiva requer o concerto de muitas vozes” (JUNG, 2012, § 1.236). Assim, o trabalho analítico não pode prescindir de uma postura dialógica, que reconheça os limites da própria perspectiva.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-neste-contexto-e-interessante-citar-as-colocacoes-de-von-franz-em-relacao-as-atitudes-da-consciencia-e-da-sua-dinamica-oposta-inconsciente" style="font-size:16px">Neste contexto, é interessante citar as colocações de von Franz em relação às atitudes da consciência e da sua dinâmica oposta inconsciente:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:17px">
<p><em>Inicialmente, Jung distinguiu dois tipos comportamentais: o extrovertido e o introvertido. No extrovertido, a libido habitualmente flui conscientemente na direção do objeto, mas existe também uma ação contrária que volta em direção ao sujeito. Para o extrovertido, o avanço oculto na direção do sujeito é geralmente um fator inconsciente. No caso do introvertido, ocorre o oposto, pois ele tem a impressão de que um objeto constantemente o esmagasse, de modo que precisa continuamente se afastar deste, uma vez que tudo está caindo sobre ele, é continuamente esmagado pelas impressões, mas não tem consciência de que está secretamente emprestando energia psíquica ao objeto através da sua extroversão inconsciente. (FRANZ, 1999, p. 31)</em><strong><em></em></strong></p>
</blockquote>



<p>Essa dimensão dialética se manifesta de maneira particularmente complexa no problema da transferência. Ainda que este artigo não se aprofunde nesse ponto, é importante deixar em aberto a necessidade de expandir a discussão sobre a dinâmica entre analista e analisando, conforme indicado por Jung (2012, § 1.172), especialmente no que se refere às implicações do poder e da autoridade na clínica.</p>



<p>Retomando o destino de Simão Bacamarte, observamos que sua identificação com a unilateralidade da consciência e com sua função principal não apenas o afasta da comunidade, mas também o conduz a um progressivo isolamento psíquico.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-machado-de-assis-explicita-esse-movimento-tanto-nas-revoltas-populares-contra-a-casa-verde-quanto-no-desfecho-em-que-o-proprio-medico-decide-internar-se" style="font-size:16px">Machado de Assis explicita esse movimento tanto nas revoltas populares contra a Casa Verde quanto no desfecho em que o próprio médico decide internar-se:</h2>



<p><em>Mas o ilustre médico, com os olhos acesos da convicção científica, trancou os ouvidos à saudade da mulher, e brandamente a repeliu. Fechada a porta da Casa Verde, entregou-se ao estudo e à cura de si mesmo. Dizem os cronistas que ele morreu dali a dezessete meses no mesmo estado em que entrou, sem ter podido alcançar nada. (ASSIS, 1994, p. 87)</em></p>



<p>Tal desfecho pode ser compreendido, à luz da psicologia analítica, como uma consequência extrema da perda de relação com o outro e com o próprio inconsciente. Jung observa que uma autoridade que se mantém excessivamente superior apenas intensifica no outro o sentimento de inferioridade e exclusão, mas também, poderíamos acrescentar, perde progressivamente sua própria vitalidade psíquica (JUNG, 2012, § 1.172). Essa perda ocorre tanto externamente, pelo afastamento dos vínculos, quanto internamente, pela dissociação entre consciência e inconsciente. Nas palavras de D. Evarista (ASSIS, 1994, p. 73), esposa de Simão, observamos a lenta, mas incontrolável, queda de Ícaro: fez agora outro em honra do insigne médico &#8211; &#8220;cujo altíssimo gênio, elevando as asas muito acima do sol, deixou abaixo de si todos os demais espíritos da terra&#8221;.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nesse-sentido-a-trajetoria-de-bacamarte-ilustra-de-forma-radical-os-riscos-da-unilateralidade-tipologica-e-da-inflacao-da-consciencia" style="font-size:16px">Nesse sentido, a trajetória de Bacamarte ilustra de forma radical os riscos da unilateralidade tipológica e da inflação da consciência.</h2>



<p>Sua identificação com o pensamento extrovertido, desacompanhada de um diálogo vivo com sua função inferior &#8211; o sentimento introvertido -, resulta em uma visão empobrecida da realidade psíquica, em uma cisão entre consciente e inconsciente e em práticas clínicas violentas e tirânicas.</p>



<p>Por fim, cabe reiterar que o exercício da psicoterapia, enquanto arte e técnica, exige a totalidade do indivíduo. Como afirma Jung, <em>ars totum requirit hominem</em>: a arte requer o homem por inteiro (JUNG, 2012, § 1.170). Isso implica uma relação crítica constante com as próprias funções da consciência, com a função inferior e com a sombra. Mais do que evitar cair em erros, trata-se de sustentar uma posição ética e reflexiva diante da complexidade do humano, reconhecendo que toda prática clínica está inevitavelmente atravessada pela singularidade de quem a exerce, assim como pelas suas vulnerabilidades.</p>



<p>Assim, entre a tentação classificatória de Simão Bacamarte e a abertura simbólica proposta pela psicologia analítica, permanece o desafio: como sustentar uma escuta que não reduza o outro à tipologia, mas que também não negligencie a importância das estruturas através das quais a consciência se organiza e se adapta? É nesse campo primeiro de tensão que se inicia a responsabilidade do analista, sendo o encontro com o outro a verdadeira possibilidade de transformação.</p>



<p><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/carolina-diniz-bastos/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/carolina-diniz-bastos/">Carolina Diniz Bastos – Analista em formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/">José Balestrini – Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:17px"><strong>Referências:</strong></h2>



<p>ASSIS, Machado de. <em>O alienista</em>. São Paulo: FTD, 1994.</p>



<p>FRANZ, Marie-Louise von. <em>Psicoterapia</em>. São Paulo: Paulus, 1999.</p>



<p>GUGGENBÜHL-CRAIG, Adolf. <em>O abuso do poder na psicoterapia: e na medicina, serviço social, sacerdócio e magistério</em>. São Paulo: Paulus, 2004.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. <em>A vida simbólica.</em> Escritos diversos. 4. ed. Petrópolis: Vozes, 2012.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. <em>Tipos Psicológicos.</em> 7. ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p>SHARP, Daryl. <em>Tipos de personalidade: o modelo tipológico de Carl G</em>. Jung. 2. ed. São Paulo: Editora Pensamento Cultrix, 2021</p>



<p><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p></p>
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		<title>Sombra, Trauma e Desumanização: Uma leitura Junguiana da Guerra em Gaza a partir do caso Hind Rajab</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/uma-leitura-junguiana-da-guerra-em-gaza/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Leonardo Torres]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 11 May 2026 19:57:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
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		<category><![CDATA[sombra coletiva]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Como somos capazes de nos acostumar com o intolerável? Neste ensaio, guiado pela psicologia de Carl Gustav Jung e pelo impacto do filme A Voz de Hind Rajab, reflito sobre as raízes psicológicas da barbárie em Gaza. O texto investiga como projetamos nossas sombras no outro e faz um chamado necessário: precisamos despertar da nossa letargia ética e resgatar a empatia antes que a perda da humanidade se torne a nossa rotina.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>Resumo</strong>: Como somos capazes de nos acostumar com o intolerável? Neste ensaio, guiado pela psicologia de Carl Gustav Jung e pelo impacto do filme A Voz de Hind Rajab, reflito sobre as raízes psicológicas da barbárie em Gaza. O texto investiga como projetamos nossas sombras no outro e faz um chamado necessário: precisamos despertar da nossa letargia ética e resgatar a empatia antes que a perda da humanidade se torne a nossa rotina.</p>



<p><strong>Palavras-chave: Sombra, inconsciente coletivo, guerra</strong></p>



<p>Escrevo este ensaio movida por um incômodo profundo, daqueles que não nos deixam em paz. Diante do que vemos em Gaza, tentar manter um distanciamento ou pesar as palavras me parece quase uma ofensa: a devastação ordenada de civis, o sofrimento infantil, a repetição atroz de cenas em que hospitais e ambulâncias deixam de ser lugares de cuidado para integrar a paisagem dos escombros. Diante disso, eu me pergunto o que acontece com a alma de uma sociedade quando ela se acostuma ao intolerável. Não recorro a Jung para substituir a análise histórica, política ou jurídica do conflito, mas porque sinto a necessidade de um outro plano de compreensão. Penso que é necessário entender a relação entre aquilo que negamos em nós mesmos e a violência que retorna ao mundo.</p>



<p>Neste momento penso na frase de Jung em <em>Aion</em>: <em>“quando um fato interior não se torna consciente ele acontece exteriormente, sob a forma de fatalidade”</em> (JUNG, 2013a, § 126). Ela me parece decisiva porque liga a nossa recusa de olharmos para o nosso interior ao desastre histórico. O que não é reconhecido na consciência não desaparece, mas busca uma forma de se manter presente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-guerra-isso-significa-que-medos-agressoes-e-desejos-de-aniquilamento-sao-projetados-sobre-o-outro-o-outro-deixa-de-ser-percebido-como-um-semelhante-e-passa-a-ser-visto-como-ameaca-absoluta" style="font-size:17px">Na guerra, isso significa que medos, agressões e desejos de aniquilamento são projetados sobre o outro. O outro deixa de ser percebido como um semelhante e passa a ser visto como ameaça absoluta.</h2>



<p>É por isso que o caso de Hind Rajab me paralisa. Não estamos falando de um número, mas de uma criança real de aproximadamente 6 anos de idade, presa num carro alvejado, com seus familiares mortos, esperando por um socorro que terminou em mais tragédia. Em 2024, especialistas da ONU alertaram que a morte de Hind, de seus familiares e de dois paramédicos poderia configurar crime de guerra. Investigações particulares da <em>Forensic Architecture</em> sustentaram que a ambulância enviada para resgatá-la foi atingida ao chegar, apontando para fogo de tanque israelense.</p>



<p>A partir desse episódio insuportável, pergunto-me: como conceitos como sombra, projeção e dissociação nos ajudam a compreender a desumanização sem dissolver a responsabilidade de quem aperta o gatilho? E o que essa morte revela sobre a sombra que paira sobre todos nós?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-projecao-do-mal-e-a-fabricacao-do-inimigo"><strong>A projeção do mal e a fabricação do inimigo</strong></h2>



<p>Ainda em <em>Aion</em>, Jung nos adverte contra a tendência confortável de reduzir o mal a uma simples privação do bem. Na experiência psíquica, ele surge de forma densa, como <em>“o oposto do bem”</em> (JUNG, 2013ª, § 75). Essa constatação é central para pensarmos como a desumanização opera. Sempre que uma cultura ou comunidade se imagina plenamente pura ou justa, ela obrigatoriamente precisa despejar a sua negatividade em algum lugar. O inimigo, então, deixa de ser um adversário histórico real e vira o depósito simbólico de tudo aquilo que não suportamos reconhecer em nós mesmos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-isso-nao-e-apenas-fruto-de-uma-estrategia-politica-a-imagem-do-inimigo-absoluto-mobiliza-estruturas-muito-mais-arcaicas-da-nossa-imaginacao" style="font-size:17px">Isso não é apenas fruto de uma estratégia política. A imagem do inimigo absoluto mobiliza estruturas muito mais arcaicas da nossa imaginação.</h2>



<p>Em <em>Os arquétipos e o inconsciente coletivo</em>, Jung lembra que há uma parte da psique que não deriva da nossa experiência pessoal, formada por conteúdos que <em>“nunca estiveram na consciência”</em> (JUNG, 2014a, § 88). Quando ativamos esses gatilhos, despertamos medos profundos e fantasias de extermínio.</p>



<p>É por isso que a constatação de Jung, no prefácio à 1ª edição da<em> Psicologia do inconsciente</em>, soa tão atual e perturbadora: <em>“o homem civilizado ainda é um bárbaro”</em>, e <em>“a psicologia do indivíduo corresponde à psicologia das nações” </em>(JUNG, 2014b). O nosso aprimoramento tecnológico não elimina a barbárie, mas na maioria das vezes, apenas a torna mais justificado. Quando o outro passa a concentrar toda a obscuridade que negamos em nós, ele adquire um efeito <em>“mágico ou demoníaco” </em>(JUNG, 2014b, § 155) sobre nossa percepção. A desumanização nada mais é do que a face política dessa cisão psíquica.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-observa-como-o-peso-das-massas-sufoca-o-individuo-e-alerta-para-o-perigo-da-cega-lei-natural-das-massas-em-movimento-jung-2013b-326" style="font-size:17px">Jung observa como o peso das massas sufoca o indivíduo e alerta para o perigo da <em>“cega lei natural das massas em movimento” </em>(JUNG, 2013b, § 326).</h2>



<p>Entendo tal ideia como um alerta para o nosso tempo: o turbilhão das emoções coletivas, somado ao medo e ao ressentimento, funciona como uma anestesia para a nossa consciência moral, substituindo o pensamento crítico por explicações levianas. Nos comportamos frequentemente como animais que inventam inimigos. As guerras funcionam como apavorantes <em>&#8220;dramas da sombra&#8221;</em> onde tentamos trucidar fora o que negamos dentro, amparados na perigosa ilusão dualista de que <em>&#8220;nós somos inocentes; eles são culpados&#8221;</em> (ZWEIG; ABRAMS, 2024). Antes da bala, vem a redução moral. É preciso ensinar uma sociedade a ver certas vidas como menos valiosas e dignas de luto para que se possa matar sem culpa.</p>



<p>O que mais me atormenta, porém, é que a sombra não pertence só ao outro lado. Ela paira sobre todos nós: sobre nações, religiões, projetos políticos e, também sobre as pessoas que observam distantes, que consomem a dor alheia através de imagens. Reconhecer isso não relativiza a responsabilidade, mas apenas impede a tranquilidade moral de quem acredita estar inteiramente fora do problema por fantasiosamente ser apenas uma boa pessoa.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-voz-da-pequenina-hind-rajab"><strong>A voz da pequenina Hind Rajab</strong></h2>



<p>O que me assombra na morte de Hind Rajab é como ela arranca todas as máscaras da guerra. Nenhuma teoria estratégica ou desculpa de contenção de dano colateral consegue esconder a brutalidade de uma criança pequena, presa entre os cadáveres da própria família, suplicando por socorro ao telefone por horas. Segundo relatos desoladores, os corpos dela e dos paramédicos só foram localizados doze dias depois, um fato que despedaça qualquer justificativa de guerra. Diante dessa espera no escuro, termos técnicos como operação ou alvo soam falsos. O que resta é a materialidade incontornável da dor: como pode uma criança tão pequena ser deixada por tanto tempo entre mortos, implorando por uma ajuda que não chega?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-analista-junguiano-donald-kalsched-nos-oferece-uma-ideia-importante-para-pensar-esse-abismo" style="font-size:17px">O analista junguiano Donald Kalsched nos oferece uma ideia importante para pensar esse abismo.</h2>



<p>Ele define o trauma como uma experiência que causa uma dor psíquica tão insuportável que ameaça quebrar o próprio &#8220;eu&#8221;, forçando a mente a se dissociar para conseguir sobreviver. Citando Jung, Kalsched lembra que o trauma se impõe à consciência <em>&#8220;como um inimigo ou animal selvagem&#8221;</em>. Mas ao trazer essa teoria para cá, me imponho um limite ético: recuso-me a banalizar o sofrimento de Hind transformando-a num mero símbolo clínico. A teoria só tem serventia se nos impedir de desviar o olhar da vítima real. A criança, aqui, não é uma metáfora, é a prova física e real de que toda a linguagem que tenta higienizar e justificar a guerra fracassou.</p>



<p>É justamente por essa necessidade de não nos deixarmos cegar que o filme <em>A voz de Hind Rajab</em>, dirigido por Kaouther Ben Hania, ganhou uma dimensão muito maior do que a de uma simples obra cinematográfica. O longa estreou em Veneza, ganhou o Grande Prêmio do Júri e alcançou a indicação ao Oscar 2026 na categoria de Melhor Filme Internacional. O que realmente importa aqui não é o glamour do prêmio, mas a vitrine mundial que ele proporcionou.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-vivemos-um-momento-em-que-boa-parte-da-populacao-global-consome-o-massacre-em-gaza-em-um-estado-de-total-anestesia-moral-pois-as-pessoas-se-acostumaram-com-o-intoleravel" style="font-size:17px">Vivemos um momento em que boa parte da população global consome o massacre em Gaza em um estado de total anestesia moral, pois as pessoas se acostumaram com o intolerável.</h2>



<p>Nesse cenário, o filme chegar à maior premiação do cinema atual como um choque de realidade em nossa consciência coletiva. Ao incluir o áudio real das ligações de socorro, o filme nos tranca no carro com Hind. Ele nos obriga a ouvir a voz aguda da menina e o desespero exausto dos atendentes do Crescente Vermelho Palestino. O cinema, nesse caso, arranca o espectador da dormência e o obriga a permanecer no tempo infinito daquela espera, tentando trazer de volta a humanidade que a guerra nos roubou.</p>



<p>E é essa mesma imersão na escuta que torna o fracasso do resgate ainda mais revoltante. As investigações sustentam que a ambulância enviada para salvar Hind foi bombardeada ao chegar, um ato que especialistas da ONU apontaram como possível crime de guerra. O que me escandaliza não é apenas a morte, mas a falência total da compaixão humana. Há o pedido de socorro, há o esforço desesperado de adultos para coordenar o resgate, há a ambulância a caminho&#8230; e tudo termina em escombros.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nao-consigo-olhar-para-isso-sem-ver-a-destruicao-do-proprio-conceito-de-refugio" style="font-size:17px"><strong>Não consigo olhar para isso sem ver a destruição do próprio conceito de refúgio.</strong></h2>



<p>É neste ponto que a sombra deixa de ser um conceito e se revela como a fumaça que paira sobre todos nós: que escuridão tomou conta do mundo se já não somos capazes de paralisar uma guerra diante do choro de uma criança ferida? Talvez a escrita deste ensaio seja apenas a minha forma particular de ecoar o que o filme tenta fazer em grande escala: um alerta mínimo, mas necessário, contra a nossa própria anestesia. A humanidade não pode simplesmente se acostumar ao intolerável.</p>



<p>E, para quem assistiu ao filme, permaneçamos com o silêncio ensurdecedor de seu final trágico nada fictício, e com as lágrimas desoladoras que inevitavelmente nos turvam o olhar.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-humanidade-precisa-de-esperanca"><strong>A Humanidade precisa de esperança</strong></h2>



<p>Chegar ao fim desta reflexão é ter a certeza de que a barbárie não se inicia no campo de batalha. O processo de desumanização começa muito antes de qualquer disparo ser feito ou de qualquer bomba atingir o chão. Ele nasce na nossa intimidade adoecida, na absoluta incapacidade de lidar com as nossas próprias fragilidades e no hábito perigoso de transferir para o outro a escuridão que negamos em nós mesmos. Quando uma criança indefesa, presa em um carro cercado por escombros, passa a ser tratada pela linguagem oficial como um simples detalhe em um cálculo militar, não estamos lidando apenas com a brutalidade esperada de uma guerra. Estamos diante da destruição completa do nosso próprio vínculo ético e civilizatório.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-duvida-que-me-persegue-incessantemente-e-se-algum-dia-teremos-a-lucidez-de-perceber-a-nossa-propria-sombra-antes-que-ela-se-materialize-em-politicas-de-exterminio" style="font-size:17px">A dúvida que me persegue incessantemente é se algum dia teremos a lucidez de perceber a nossa própria sombra antes que ela se materialize em políticas de extermínio.</h2>



<p>A história insiste em nos mostrar que, na grande maioria das vezes, só reconhecemos o tamanho da ruína quando ela já esmagou a vida de quem não tinha como se defender. Por isso, o incômodo visceral que me levou a escrever estas páginas precisa continuar existindo e incomodando. A força destrutiva da violência não recobre apenas aqueles que dão as ordens cruéis ou que puxam os gatilhos. Ela ameaça de forma silenciosa e letal a todos nós que somos apenas observadores distantes. Ela envenena os que buscam justificativas lógicas para o absurdo, os que preferem a segurança da omissão e todos aqueles que, dia após dia, aprendem a olhar para a dor dos outros através de uma tela sem sentir absolutamente nada.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-nossa-tarefa-etica-mais-urgente-portanto-e-a-recusa-ativa-e-constante-dessa-anestesia" style="font-size:17px">A nossa tarefa ética mais urgente, portanto, é a recusa ativa e constante dessa anestesia.</h2>



<p>Compreender que a nossa cegueira interior inevitavelmente retorna ao mundo como fatalidade nos impõe um desafio muito duro, que é a coragem de não despejar sobre o próximo os monstros que não queremos encarar no espelho. Não podemos permitir que o excesso de tragédias nos transforme em cúmplices mudos. A nossa humanidade só terá alguma chance de continuar existindo se o desespero de uma menina real, com um nome, um rosto e uma vida brutalmente interrompida, continuar nos ferindo profundamente. A tragédia de Hind Rajab exige de nós o compromisso inegociável de manter viva a indignação e de jamais aceitar o intolerável como rotina.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="SOMBRA, TRAUMA E DESUMANIZAÇÃO: UMA LEITURA JUNGUIANA DA GUERRA EM GAZA A PARTIR DO CASO HIND RAJAB" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/4QIKay5t8Ac?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/fernanda-biscalquim-de-andrade/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/fernanda-biscalquim-de-andrade/">Fernanda Biscalquim de Andrade – Membro Analista em Formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi – Membro Didata pelo IJEP</a></strong></p>



<p><strong>REFERÊNCIAS</strong></p>



<p><em>A Voz de Hind Rajab (The Voice of Hind Rajab)</em>. Direção: Kaouther Ben Hania. Tunísia; França: Mime Films, 2025. 1 vídeo (89 min), son., color. Disponível em: Prime Video. Acesso em: 14 mar. 2026.</p>



<p>FORENSIC ARCHITECTURE. <em>The killing of Hind Rajab. 2024.</em> Disponível em: <a href="https://forensic-architecture.org/investigation/the-killing-of-hind-rajab">https://forensic-architecture.org/investigation/the-killing-of-hind-rajab</a> . Acesso em: 18 mar. 2026.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. <em>Aion: estudo sobre o simbolismo do si-mesmo.</em> 10. ed. Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p>__________________ Civilização em transição. 6. ed. Petrópolis: Vozes, 2013b.</p>



<p>__________________ <em>Os arquétipos e o inconsciente coletivo</em>. 11. ed. Petrópolis: Vozes, 2014a.</p>



<p>__________________ <em>Psicologia do inconsciente.</em> 24. ed. Petrópolis: Vozes, 2014b.</p>



<p>KALSCHED, Donald. <em>O mundo interior do trauma: Defesas arquetípicas do espírito pessoal. </em>1. ed. São Paulo: Paulus Editora, 2014.</p>



<p>ZWEIG, Connie; ABRAMS, Jeremiah. <em>Ao encontro da sombra: um estudo sobre o potencial oculto do lado escuro da natureza humana. </em>1. ed. São Paulo: Cultrix. 2024.</p>



<p><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p></p>
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		<title>A invalidação do feminino &#8211; Uma leitura simbólica através do mito de Perséfone e da narrativa de Ofélia</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-invalidacao-do-feminino-uma-leitura-simbolica-atraves-do-mito-de-persefone-e-da-narrativa-de-ofelia/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiza de Oliveira Burger]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 08 May 2026 13:24:13 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mitologia e Símbolos]]></category>
		<category><![CDATA[Mulher]]></category>
		<category><![CDATA[Relacionamentos]]></category>
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		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este artigo propõe uma reflexão simbólica sobre a invalidação do feminino a partir do mito de Perséfone e da narrativa de Ofélia. Mais do que analisar personagens míticas ou literárias, o texto busca compreender como determinadas imagens arquetípicas atravessam o tempo e se atualizam na psique contemporânea, revelando dinâmicas internas que ainda influenciam a forma como muitas mulheres se relacionam. À luz da psicologia analítica, a proposta é investigar de que modo o arquétipo da donzela pode tanto aprisionar quanto iniciar processos de transformação.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p id="h-o-que-o-mito-de-persefone-e-a-personagem-ofelia-criada-por-shakespeare-tem-em-comum" style="font-size:18px"><strong>Resumo</strong>: Este artigo propõe uma reflexão simbólica sobre a invalidação do feminino a partir do mito de Perséfone e da narrativa de Ofélia. Mais do que analisar personagens míticas ou literárias, o texto busca compreender como determinadas imagens arquetípicas atravessam o tempo e se atualizam na psique contemporânea, revelando dinâmicas internas que ainda influenciam a forma como muitas mulheres se relacionam. À luz da psicologia analítica, a proposta é investigar de que modo o arquétipo da donzela pode tanto aprisionar quanto iniciar processos de transformação.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-que-o-mito-de-persefone-e-a-personagem-ofelia-criada-por-shakespeare-tem-em-comum" style="font-size:18px">O que o mito de Perséfone e a personagem Ofélia criada por Shakespeare têm em comum?</h2>



<p id="h-ambas-sao-exemplos-de-invalidacao-do-feminino-em-detrimento-de-um-masculino-abusador-um-masculino-que-acredita-ser-soberano-e-capaz-de-decidir-sobre-o-destino-dessas-mulheres-mais-do-que-elas-proprias" style="font-size:18px">Ambas são exemplos de invalidação do feminino em detrimento de um masculino abusador, um masculino que acredita ser soberano e capaz de decidir sobre o destino dessas mulheres mais do que elas próprias.</p>



<p style="font-size:18px">Não temos como precisar como, quando e onde nasceu o mito de Perséfone. Já a história de Ofélia é retratada no final do século XVI. Mas quantas Ofélias e Perséfones encontramos até hoje incapazes de cuidar do próprio destino e tomar suas próprias decisões?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-no-mito-core-era-a-filha-de-demeter-e-zeus-retratada-como-uma-menina-ingenua-que-vivia-sob-a-influencia-da-mae-mae-e-filha-viviam-como-se-numa-simbiose-prolongada" style="font-size:18px">No mito, <strong>Coré</strong> era a filha de Deméter e Zeus, retratada como uma menina ingênua que vivia sob a influência da mãe. Mãe e filha viviam como se numa simbiose prolongada.</h2>



<p style="font-size:18px">Até que um dia, Hades, guardião do submundo, tio de Coré e irmão de Zeus, decide raptar a sobrinha, com anuência do pai, e levá-la para morar com ele, obrigando-a a abandonar sua vida. Ao lado de Hades, Coré vira rainha do submundo e passa a se chamar Perséfone. O mito conta que depois de comer sementes de romã, ela fica presa no reino dos mortos sem poder voltar definitivamente para sua vida de outrora, e passa a se revezar entre o mundo dos vivos e dos mortos.</p>



<p style="font-size:18px">Por mais que o mito também possa ser analisado como uma representação simbólica da transformação de Core para Perséfone e sua libertação de um complexo materno negativo, que permitiu que ela descobrisse um outro lado de sua personalidade sem as amarras de uma mãe superprotetora, não podemos desconsiderar que se trata de uma violação da vontade do feminino e de um pacto patriarcal. <strong>Coré</strong> teve seu destino traçado pelo tio e pelo pai.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-mito-fala-da-transformacao-de-uma-donzela-ingenua-de-certa-forma-aprisionada-nos-cuidados-da-mae-para-uma-rainha-poderosa-do-submundo-mas-a-pergunta-que-fica-e-core-teria-feito-essa-escolha-se-o-seu-poder-de-decisao-nao-tivesse-sido-violado" style="font-size:18px">O mito fala da transformação de uma donzela ingênua, de certa forma aprisionada nos cuidados da mãe, para uma rainha poderosa do submundo. Mas a pergunta que fica é: <strong>Coré teria feito essa escolha se o seu poder de decisão não tivesse sido violado</strong>?</h2>



<p style="font-size:18px"><strong>Ofélia teve um destino parecido, porém mais trágico</strong>. Ela vivia com o pai, Polônio, e o irmão. Uma mulher doce e pura que se apaixona por Hamlet, que também demonstra ter apreço por ela. Quando o pai e o irmão percebem seu interesse por Hamlet a convencem de que ela jamais conseguiria se casar com ele, visto que ele era o príncipe herdeiro da Dinamarca, e ela de uma família simples. Era preciso deixar esse amor de lado.</p>



<p style="font-size:18px">No entanto, o pai não se incomodou em usar a aproximação dos dois para descobrir o que Hamlet tramava contra o rei (seu tio que ocupou essa posição ao se casar com sua mãe após o assassinato do pai). Polônio combina com o rei de provocar um encontro entre Ofélia e Hamlet para que ela tentasse descobrir quais eram os seus planos. Enquanto isso, eles ficariam escondidos ouvindo a conversa.</p>



<p style="font-size:18px">Hamlet percebe a armação, fica com raiva, e trata Ofélia mal, como se entre eles nunca tivesse havido nenhum sentimento. Ele passa a ignorar a moça e, num momento de raiva e desprezo, chega a sugerir que Ofélia vá para o convento e se torne freira.</p>



<p style="font-size:18px">Logo depois, Polônio é assassinado, por engano, por Hamlet, que acreditava estar matando o rei. Por ordem do rei, ele é enviado para a Inglaterra e Ofélia perde ao mesmo tempo o pai, o homem que amava, e o irmão, que havia saído em missão para outra cidade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ofelia-nao-sustenta-tanta-desilusao-e-sucumbe-a-loucura-se-transformando-em-uma-figura-fragil-e-desorientada-que-andava-pela-vila-cantarolando-cancoes-e-distribuindo-flores-ate-que-um-dia-em-uma-de-suas-perambulacoes-ela-cai-em-um-riacho-e-morre-afogada" style="font-size:18px">Ofélia não sustenta tanta desilusão e sucumbe à loucura, se transformando em uma figura frágil e desorientada que andava pela vila cantarolando canções e distribuindo flores. Até que um dia, em uma de suas perambulações, ela cai em um riacho e morre afogada.</h2>



<p style="font-size:18px">A história deixa o final aberto a intepretações. Não se sabe se Ofélia se suicida ou se foi um acidente. Mas não importa. Seu destino é resultado das decisões de figuras masculinas presentes em sua vida. Ela teve seus sentimentos invalidados, foi manipulada pela família e ridicularizada pelo homem que amava.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ofelia-e-persefone-como-dinamica-psiquica" style="font-size:20px"><strong>Ofélia e Perséfone como dinâmica psíquica</strong></h2>



<p style="font-size:18px"><strong>Perséfone e Ofélia são imagens arquetípicas que podem representar o arquétipo da donzela</strong>. De um lado, o frescor da juventude, a abertura para o novo e a curiosidade, e de outro, a passividade e a inocência que faz com que sejam facilmente manipuladas.</p>



<p id="h-para-jung-o-conceito-de-arquetipo-indica-a-existencia-de-determinadas-formas-na-psique-que-estao-presentes-em-todo-tempo-e-em-todo-lugar-jung-2014-p-51-eles-representam-padroes-universais-de-comportamento-e-podem-influenciar-nossos-pensamentos-emocoes-de-forma-inconsciente" style="font-size:18px">Para Jung, o conceito de arquétipo indica a existência de determinadas formas na psique, que estão presentes em todo tempo e em todo lugar (JUNG, 2014, P.51). Eles representam padrões universais de comportamento e podem influenciar nossos pensamentos, emoções de forma inconsciente.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px">Os arquétipos são formas de apreensão, e todas as vezes que nos deparamos com formas de apreensão que se repetem de maneira uniforme e regular, temos diante de nós um arquétipo, quer reconheçamos ou não o seu caráter mitológico. (JUNG, 2013, P.81)</p>
</blockquote>



<p style="font-size:18px">Sendo assim, Perséfone e Ofélia não são apenas personagens de livros ou de narrativas mitológicas, elas representam uma dinâmica psíquica que se repete e atravessa gerações. Por isso, é tão fácil observar comportamentos e dinâmicas parecidas em mulheres que conhecemos.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px">Nos mitos, lendas ou qualquer outro material mitológico mais elaborado obtém-se as estruturas básicas da psique humana através da grande quantidade de material cultural. (VON FRANZ, 2022, P.35)</p>
</blockquote>



<p style="font-size:18px">O arquétipo da donzela não é apenas sinônimo de submissão ou invalidação, mas contém potencialidades para tal. Quando essas disposições se apresentam em determinados contextos sociais, podem assumir a forma de passividade e silenciamento. O que se repete não é o mito literal, mas a atualização simbólica de uma estrutura psíquica.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ofelias-e-persefones-em-nos-e-entre-nos" style="font-size:21px"><strong>Ofélias e Perséfones em nós e entre nós</strong></h2>



<p style="font-size:18px"><strong>É fácil identificarmos entre nós mulheres que vivem a mesma dinâmica narrada nas histórias de Perséfone e Ofélia.</strong></p>



<p style="font-size:18px">Quantas mulheres vemos abrindo mão de suas vidas e de suas histórias para viver a partir das expectativas de seus parceiros? Largam suas carreiras, mudam a forma de se vestir, renunciam às amizades, passam a considerar inapropriado aquilo que antes era motivo de felicidade e começam a questionar sua própria capacidade.</p>



<p style="font-size:18px">Em algumas culturas, por exemplo, ainda é comum que os pais escolham os maridos para suas filhas através de casamentos arranjados, onde a mulher é vista como uma conveniência tanto para o pai quanto para a família do marido que vai recebê-la. Em outras, a influência negativa do pai pode não ser tão radical quanto um casamento arranjado, mas pode se apresentar, por exemplo, numa escolha profissional não reconhecida e aceita por esse pai.</p>



<p style="font-size:18px">As taxas absurdas de feminicídio também estão aí para mostrar que os homens continuam não aceitando as escolhas das mulheres, como se suas vidas e histórias pertencessem a eles.</p>



<p id="h-mas-aqui-nao-estamos-falando-apenas-de-homens-concretos-mas-tambem-de-uma-dinamica-patriarcal-internalizada-presente-tambem-nas-proprias-mulheres-muitas-vezes-nao-precisamos-de-um-algoz-quando-nos-mesmas-desempenhamos-esse-papel-em-nossas-vidas-um-mergulho-nas-profundezas" style="font-size:18px">Mas aqui não estamos falando apenas de homens concretos, mas também de uma dinâmica patriarcal internalizada, presente também nas próprias mulheres. Muitas vezes não precisamos de um algoz quando nós mesmas desempenhamos esse papel em nossas vidas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-um-mergulho-nas-profundezas" style="font-size:21px">Um mergulho nas profundezas.</h2>



<p style="font-size:18px">O mergulho nas profundezas, quando é uma decisão própria, pode marcar a passagem da donzela inconsciente para uma mulher que participa ativamente da sua própria transformação.</p>



<p style="font-size:18px">Se nas narrativas descritas acima a descida ao inconsciente acontece por imposição externa, no plano psíquico ela pode se tornar um movimento voluntário de integração da própria sombra e de ampliação da consciência, permitindo integrar os aspectos da donzela sem permanecer aprisionada a eles.</p>



<p style="font-size:18px">Assim, a sensibilidade deixa de significar fragilidade e passa a ser intuição e a abertura para as relações e a receptividade deixam de ser dependência e passividade e se transforma em vínculo consciente.</p>



<p style="font-size:18px">A donzela não precisa ser negada nem superada, mas integrada como dimensão da psique feminina, sustentada por discernimento, limites e autoridade interna. Dessa forma, a descida não é mais vista como invasão, mas iniciação escolhida, encontro consigo mesma. A donzela deixa de ser aquela que somente é levada para se tornar a mulher que caminha com as próprias pernas e escolhe o seu caminho.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="A Invalidação do Feminino" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/cKYroOVnJbM?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/luiza-de-oliveira-burger/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/luiza-de-oliveira-burger/">Luiza de Oliveira Burger – Membro Analista em formação/IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/anapaulamaluf/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/anapaulamaluf/">Ana Paula Maluf – Analista Didata/IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-r-eferencias" style="font-size:18px"><strong>R</strong>eferências:</h2>



<p>JUNG, C. G. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes, 2014.</p>



<p>JUNG, C. G. A Natureza da Psique. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p>FRANZ, MARIE – Louise von. A interpretação dos contos de fada. São Paulo: Paulus, 2022</p>



<p>LACERDA, Rodrigo. Hamlet ou Amleto? São Paulo: Zahar,2015.</p>



<p>PACIORNIK, Francis. Despertando suas Deusas. Ebook.</p>



<p><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/a-invalidacao-do-feminino-uma-leitura-simbolica-atraves-do-mito-de-persefone-e-da-narrativa-de-ofelia/">A invalidação do feminino &#8211; Uma leitura simbólica através do mito de Perséfone e da narrativa de Ofélia</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
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		<title>A Serpente e a Cura: O trocar de pele no Processo de Individuação Feminino</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-serpente-e-a-cura-o-trocar-de-pele-no-processo-de-individuacao-feminina/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Itala Resende Carvalhal]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 15 Apr 2026 10:14:53 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mitologia e Símbolos]]></category>
		<category><![CDATA[Mulher]]></category>
		<category><![CDATA[Processo de Individuação]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
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		<category><![CDATA[cobra]]></category>
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		<category><![CDATA[Símbolos]]></category>
		<category><![CDATA[sombra]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O artigo analisa o símbolo da serpente, à luz da psicologia analítica de Carl Gustav Jung, como representação do processo de individuação feminina. A serpente, com sua capacidade de trocar de pele, simboliza a necessidade de abandonar padrões antigos, integrar a sombra e reconectar-se com a dimensão instintiva. A verdadeira cura do feminino ocorre por meio da transformação psíquica, da coragem de romper com papéis impostos e da busca por autenticidade.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:18px"><strong>Resumo: </strong>O artigo analisa o símbolo da serpente, à luz da psicologia analítica de&nbsp;Carl Gustav Jung, como representação do processo de individuação feminino. A serpente, com sua capacidade de trocar de pele, simboliza a necessidade de abandonar padrões antigos, integrar a sombra e reconectar-se com a dimensão instintiva. A verdadeira cura do feminino ocorre por meio da transformação psíquica, da coragem de romper com papéis impostos e da busca por autenticidade.</p>



<p style="font-size:18px"><strong>O Processo de Individuação, &#8220;torna-se si mesmo&#8221; conforme trazido por Jung, é a atividade de realização da personalidade, pois o sentido para onde caminha a nossa existência é ser total e integral</strong>. Entretanto, ao contrário do que possa parecer, não se trata de um ideal de perfeição moral, pois faz parte desse processo despir-se da imagem ideal de nós mesmos que criamos para nos adequar às expectativas externas.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p id="h-individuacao-significa-tornar-se-um-ser-unico-e-na-medida-em-que-entendemos-por-individualidade-nossa-singularidade-mais-intima-tambem-tornar-se-o-proprio-si-mesmo-jung-2021-pg-63" style="font-size:18px"><em>“Individuação significa tornar-se um ser único e, na medida em que entendemos por individualidade nossa singularidade mais íntima, também tornar-se o próprio si-mesmo.” </em>(JUNG, 2021, pg. 63).</p>
</blockquote>



<p id="h-assim-nesse-artigo-pretendo-analisar-como-na-experiencia-feminina-esse-processo-frequentemente-implica-no-confronto-com-uma-persona-construida-a-partir-de-exigencias-de-adaptacao-relacional-impostas-pelo-patriarcado" style="font-size:18px">Assim, nesse artigo pretendo analisar como na experiência feminina esse processo frequentemente implica no confronto com uma Persona construída a partir de exigências de adaptação relacional impostas pelo patriarcado.</p>



<p style="font-size:18px">Historicamente, sabemos que o feminino foi associado à função de cuidado, fragilidade e submissão, o que fez com que muitas mulheres se identificassem com uma identidade centrada na resposta, expectativas e demandas dos outros, em detrimento da sua própria interioridade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-tanto-usaremos-um-dos-simbolos-mais-antigos-da-humanidade-a-serpente" style="font-size:18px">Para tanto, usaremos um dos símbolos mais antigos da humanidade, a <strong>serpente.</strong></h2>



<p style="font-size:18px">Presente em mitologias, rituais de iniciação e religiosos e frequentemente associada a conhecimentos ocultos e intuitivos, a serpente representa a dualidade, sendo ao mesmo tempo veneno e cura, bem e mal, perigo e sabedoria, destruição e renovação.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-define-o-simbolo-como-a-melhor-expressao-possivel-para-um-fato-complexo-e-relativamente-desconhecido-que-ainda-nao-foi-claramente-apreendido-pela-consciencia-jung-2014a-148" style="font-size:18px">Jung define o símbolo como a melhor expressão possível para um fato complexo e relativamente desconhecido, que ainda não foi claramente apreendido pela consciência (JUNG, 2014a, §148).</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px">&#8220;<em>O símbolo da serpente é comumente ligado à transcendência por ela ser, tradicionalmente, uma criatura do mundo subterrâneo — portanto um &#8220;mediador&#8221; entre dois modos de vida.&#8221; </em>JUNG, 1987. pg.152)</p>
</blockquote>



<p style="font-size:18px">Em <em>O Homem e seus Símbolos (pg.154)</em>, Jung ressalta que, representada como símbolo terapêutico de Esculápio, deus grego da medicina, a serpente seja talvez o símbolo onírico mais comum de transcendência. Além de representar uma espécie de mediação entre a terra e o céu. Nos santuários de cura na Grécia Antiga dedicados a <strong>Asclépio</strong>, serpentes não venenosas desempenhavam um papel ritual central. Elas eram colocadas nos dormitórios onde os doentes passavam por rituais de purificação e acreditava-se que curavam os pacientes com toques ou ao lamber suas feridas durante sonhos terapêuticos.</p>



<p style="font-size:18px">No Xamanismo, o significado espiritual da serpente também está relacionado a cura. Sua habilidade de se deslizar e rastejar pelo chão é vista como uma conexão com Gaia, a Mãe Terra e seus poderes de cura.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-outro-ponto-intrigante-da-serpente-e-o-fato-de-a-cura-de-seu-veneno-estar-no-proprio-veneno-nos-lembrando-que-assim-como-elas-somos-seres-complexos-e-duais-que-carregam-tanto-aspectos-positivos-quanto-negativos-luz-e-sombra" style="font-size:18px">Outro ponto intrigante da serpente é o fato de a cura de seu veneno estar no próprio veneno, nos lembrando que, assim como elas, somos seres complexos e duais que carregam tanto aspectos positivos quanto negativos, luz e sombra.</h2>



<p style="font-size:18px">Ao longo da história várias mulheres também foram associadas a esse símbolo. Como a <strong>Medusa</strong>, cujo olhar transformava os homens em pedra e só podia ser contemplada em um espelho. Conta-se que Medusa era uma jovem lindíssima e muito orgulhosa de sua cabeleira que ousou competir em beleza com Atená, que eriçou-lhe a cabeça de serpentes e transformou-a em Górgona (monstro). (BRANDÃO, 1986, pg. 239)</p>



<p style="font-size:18px">E claro, não podemos esquecer de <strong>Eva</strong>, que no jardim do Éden cedeu às tentações da serpente, desobedecendo Deus e comendo o fruto proibido, fazendo com que Eva e Adão fossem expulsos do paraíso, ocorrendo a perda da inocência e introduzindo na história da humanidade a ideia de pecado.</p>



<p style="font-size:18px">Essas histórias nos mostram como o símbolo da cobra está ligado a complexidade da natureza feminina, muitas vezes projetada como uma imagem simbólica de demonização, que geram medo da sua força, sensualidade, sabedoria e capacidade de transformação. Quando nos conectamos com esse símbolo, abraçamos nossa própria capacidade de superar desafios, transformar nossas vidas e, principalmente acessamos uma sabedoria profunda que está fortemente ligada à renovação e cura.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-atraves-da-renovacao-a-cobra-ou-serpente-passa-por-um-processo-de-troca-de-pele-simbolizando-a-ideia-de-abandonar-o-antigo-e-se-transformar-em-algo-novo" style="font-size:18px">Através da renovação, a cobra ou serpente passa por um processo de troca de pele, simbolizando a ideia de abandonar o antigo e se transformar em algo novo.</h2>



<p style="font-size:18px">A troca de pele da cobra ocorre periodicamente para que ela possa crescer. Esse aspecto nos ensina sobre a importância de <strong>liberarmos padrões antigos</strong> e nos abrirmos para o crescimento pessoal.</p>



<p style="font-size:18px">Sua capacidade de trocar de pele a torna um símbolo de<strong> transformação psíquica</strong>. A pele antiga não pode acompanhar o crescimento do corpo e precisa ser abandonada. O mesmo ocorre com padrões de comportamento que já não fazem mais sentido e nos aprisionam em papéis que nos impedem de fazer contato com o nosso verdadeiro eu.</p>



<p style="font-size:18px">O símbolo da cobra nos mostra a necessidade de desenvolver maturidade para mudar, transmutar e confiar na nossa própria capacidade de se regenerar, simbolizando a energia instintiva de forma primária e vital.</p>



<p style="font-size:18px">Na perspectiva junguiana, <strong>o sentido de um símbolo é absolutamente complexo e nunca pode ser totalmente esgotado pela linguagem ou pelo argumento racional</strong>. Sempre restará um resíduo desconhecido que resiste à nossa interpretação. O símbolo é descrito ainda como o mecanismo de transformação da energia psíquica, funcionando como ponte entre o consciente e o inconsciente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-simbolo-surge-da-tensao-entre-os-opostos-consciente-e-inconsciente-como-um-terceiro-elemento-unificador-que-permite-a-transicao-para-uma-nova-atitude-psiquica-nesse-sentido-e-que-estao-os-simbolos-como-elementos-extremamente-uteis-para-ativar-esta-funcao" style="font-size:18px"><strong>O símbolo surge da tensão entre os opostos (consciente e inconsciente) como um terceiro elemento unificador que permite a transição para uma nova atitude psíquica</strong>. Nesse sentido é que estão os símbolos como elementos extremamente úteis para ativar esta função.</h2>



<p style="font-size:18px">O sofrimento feminino diante da transformação muitas vezes está relacionado ao medo do próprio instinto, do desejo, da sexualidade e autonomia. Ao longo da opressão do patriarcado, o feminino foi frequentemente associado à culpa quando conectado ao desejo e liberdade. Fomos ensinadas a calar, falar baixo, a se comportar e a abrir mão de nossos desejos para desempenhar papéis de cuidado, seja como mães, filhas ou esposas, priorizando o outro muitas vezes em detrimento do nosso autocuidado e amor.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sabemos-que-a-meta-do-processo-de-individuacao-e-a-realizacao-do-self" style="font-size:18px">Sabemos que a meta do Processo de Individuação é a realização do Self.</h2>



<p style="font-size:18px">A psique humana desenvolve um esforço constante para se completar e integrar conteúdos do inconsciente. E, para tanto é necessário se despir da Persona, nossa máscara social e ideal de nós mesmos. Dessa forma, quando a psique feminina exige diferenciação, essa Persona criada para atender às expectativas e exigências do patriarcado começa a ser ‘’desmascarada’’. O que antes oferecia pertencimento passa a representar esgotamento e aprisionamento. A mulher pode então experimentar a dolorosa sensação de não saber mais quem é fora do olhar do outro. A serpente, enquanto símbolo de renovação, expressa também essa ruptura, pois a pele que protege também limita.</p>



<p style="font-size:18px">A dissolução da Persona não ocorre sem sofrimento, pois implica a perda de reconhecimento externo. Jung adverte que a identificação excessiva com papéis sociais impede o desenvolvimento do Self. A dor da transformação revela, portanto, o conflito entre a necessidade de permanecer adaptada e o chamado interior por autenticidade.</p>



<p style="font-size:18px">A serpente, como visto, símbolo dual, carrega significados ligados à fertilidade, cura, sabedoria, perigo e regeneração. Na psicologia junguiana, ela pode ser compreendida como representação da energia instintiva da psique. Sua forma de locomover rastejando, a aproxima da terra, associando-a também a materialidade, ao corpo, ao desejo e à vitalidade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-processo-de-individuacao-feminino-requer-a-integracao-desses-aspectos-instintivos-frequentemente-reprimidos" style="font-size:18px"><strong>O Processo de Individuação feminino requer a integração desses aspectos instintivos frequentemente reprimidos</strong>.</h2>



<p style="font-size:18px">A Sombra, conforme trazida por Jung, contém conteúdos reprimidos, negados, não reconhecidos pelo Ego. E, no caso de nós mulheres, muitas vezes podem integrar a Sombra elementos como raiva, assertividade, ambição, individualidade ou desejo.</p>



<p style="font-size:18px">A dor emerge quando esses conteúdos começam a pressionar a consciência. A mulher pode sentir culpa ao afirmar limites ou medo e vergonha ao reconhecer seu próprio desejo e necessidades. Entretanto, a exclusão do instinto produz dissociação psíquica.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-psicologia-analitica-nos-mostra-que-a-unilateralidade-da-consciencia-gera-desequilibrio-e-sofrimento" style="font-size:18px">A Psicologia Analítica nos mostra que a unilateralidade da consciência gera desequilíbrio e sofrimento.</h2>



<p style="font-size:18px">A serpente, nesse sentido, não simboliza uma ameaça moral, mas a energia necessária para romper a fixação com essa pele que nos impede de ‘’crescer’’. Integrar a serpente é aceitar que o crescimento exige confrontar impulsos que desafiam a imagem construída de nós mesma e que foi imposta ao feminino por séculos.</p>



<p style="font-size:18px">Outro eixo fundamental do <strong>Processo de Individuação</strong> feminina é a relação com o <strong>Animus</strong>, o princípio masculino na psique da mulher. Quando inconsciente, o Animus pode manifestar-se como crítica interna severa, opiniões rígidas ou submissão a autoridades externas. Integrado, contudo, se torna fonte de discernimento, pensamento estruturado e autonomia.</p>



<p style="font-size:18px">A mulher que enfrenta a dissolução da Persona, muitas vezes imposta pela sociedade patriarcal, integra sua sombra instintiva, revisita seu papel na família e na sociedade e integra o Animus, em direção a uma experiência mais verdadeira de si mesma.</p>



<p style="font-size:18px">A serpente representa a transformação vital. Seu símbolo reforça que o crescimento é constante e exige mortes simbólicas. A pele antiga precisa ser abandonada para que a psique continue seu movimento.</p>



<p style="font-size:18px">Assim, a cura do feminino arquetípico pode ser compreendida como um limiar iniciático. Não se trata de evitar o sofrimento de reconhecer séculos de submissão e abusos, mas de atravessá-lo com consciência em busca da cura, através da coragem de romper esses padrões e se regenerar. A serpente nos ensina que para se tornar quem se é necessário coragem para deixar morrer aquilo que já não sustenta a totalidade do SER MULHER.</p>



<p style="font-size:18px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/itala-carvalhal/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/itala-carvalhal/"><strong>Itala Resende Carvalhal</strong> &#8211; <strong>Analista em formação IJEP</strong></a></p>



<p style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi – Analista Didata do IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias">Referências:</h2>



<p>JUNG, C.G, O Eu e o Inconsciente. Petrópolis, Ed. Vozes, 2021.</p>



<p>JUNG, C.G, A natureza da Psique. Petrópolis, Ed. Vozes, 2014.</p>



<p>JUNG, C. G. Aion: estudos sobre o simbolismo do si-mesmo. 11. Petrópolis, Ed. Vozes, 2014.</p>



<p>JUNG, C. G. O eu e o inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2011.</p>



<p>JUNG, C. G. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis, Ed. Vozes, 2016. JUNG, C. G. Símbolos da transformação. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p>JUNG, C. G. O Homem e Seus Símbolos, 06ª edição, Petrópolis, Ed. Vozes, 2013.</p>



<p>BRANDÃO, Junito de Souza, Mitologia Grega, Volume 1, Petrópolis, Vozes, 1986.</p>
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