Resumo: Este artigo propõe uma reflexão acerca dos tipos psicológicos e do abuso de poder na clínica a partir de uma leitura de O Alienista, de Machado de Assis. Mediante a interpretação do personagem Simão Bacamarte como expressão do tipo pensamento extrovertido, discute-se a identificação unilateral do ego com a função principal e seus desdobramentos éticos e clínicos.
O texto articula contribuições de Carl Gustav Jung, Marie-Louise von Franz, Daryl Sharp e Adolf Guggenbühl-Craig para refletir sobre o problema tipológico, a função inferior, a sombra e os riscos inerentes à posição de autoridade do analista. Conclui-se pela necessidade de uma postura crítica, dialógica e autorreflexiva, capaz de sustentar a tensão entre tipologia e singularidade, evitando reducionismos e favorecendo uma escuta ética e transformadora.
O modelo junguiano de tipologia nasceu de uma ampla revisão histórica.
Jung desenvolveu o tema por meio de um extenso estudo de contrastes psicológicos e modos de orientação da consciência presentes na literatura, na mitologia, na estética, na filosofia e na psicopatologia. O modelo de Jung diz respeito ao movimento da energia psíquica e ao modo como cada indivíduo se orienta no mundo, habitual ou preferencialmente. A partir desse ponto de vista, Jung discrimina oito grupos tipológicos: quatro funções ou formas de orientação da consciência – pensamento, sensação, intuição e sentimento -, operando de modo introvertido ou extrovertido (atitudes da personalidade).
O livro “O Alienista”, de Machado de Assis, de 1882, narra a história do médico Simão Bacamarte, que, em busca de estudar a loucura na vila de Itaguaí-RJ, constrói a “Casa Verde”, um centro psiquiátrico.
A obra satiriza os excessos e o poder da ciência, o interesse pessoal em detrimento do coletivo, e a influência da política nas questões de saúde mental, mostrando como o médico Simão interna quase toda a cidade por critérios arbitrários, discutindo os limites tênues entre sanidade e loucura e o conceito de verdade. Do ponto de vista da psicologia junguiana, o livro, que já é de domínio público e de fácil acesso, convida a boas reflexões sobre o método reducionista causal, o problema dos complexos autônomos, a identificação do ego com a unilateralização da consciência, os tipos psicológicos e o abuso de poder na clínica.
A partir da imersão na leitura do livro Tipos Psicológicos de Jung (2013) e do livro-síntese sobre o tema elaborado por Daryl Sharp (Tipos de Personalidade: O Modelo Tipológico de Carl G. Jung, 2021) podemos fazer uma análise do clássico livro de Machado de Assis através de uma perspectiva tipológica. Simão Bacamarte pode ser visto como um tipo pensamento extrovertido; seus conhecimentos psiquiátricos são consequência de uma árdua e incessante procura por formalização de seus estudos, desde a formação no exterior até a sistematização de seus casos. Sua oratória é impecável, facilitando seu grande interesse em disseminar sua “verdade” sobre a loucura. Nas palavras do personagem, o objetivo principal de seu empreendimento, materializado pelo centro psiquiátrico, é estudar profundamente a loucura – seu objeto -, os seus diversos graus, classificar os casos, descobrir enfim a causa do fenômeno e o remédio universal (ASSIS, 1994, p. 11).
Reconhecendo o risco de cair na mesma tentação dos rótulos de Simão, podemos ainda incorporar os ensinamentos de Marie-Louise von Franz.
A autora, em seu livro Psicoterapia (1999), reforça que o reconhecimento da função principal se dá muitas vezes a partir da identificação primeira da função inferior, uma vez que suas aparições causam todo tipo de afeto e desacerto entre o indivíduo e o seu entorno. No caso em questão, a relação amorosa de Bacamarte é refém da sua função inferior – sentimento introvertido -. Suas aparições, às quais temos acessos principalmente por brevíssimos momentos de reflexão sobre sua mulher, D. Evarista, são rapidamente abafadas por visões racionalistas e impessoais da sua relação:
Simão Bacamarte explicou-lhe que D. Evarista reunia condições fisiológicas e anatômicas de primeira ordem, digeria com facilidade, dormia regularmente, tinha bom pulso, e excelente vista; estava assim apta para dar-lhe filhos robustos, sãos e inteligentes. Se além dessas prendas,— únicas dignas da preocupação de um sábio, D. Evarista era mal composta de feições, longe de lastimá-lo, agradecia-o a Deus, porquanto não corria o risco de preterir os interesses da ciência na contemplação exclusiva, miúda e vulgar da consorte. (ASSIS, 1994, p. 5)
Outro fator relevante sobre a função inferior é sua capacidade de ludibriar o sujeito, travestindo-se na função principal. Sendo assim, considerando a função inferior do Dr. Simão como um sentimento introvertido, podemos observar, com olhar crítico, suas inúmeras racionalizações de valores e intuições religiosas a partir de seus discursos para validar a Casa Verde com ditos de santos e filósofos.
Machado de Assis faz uma breve descrição de várias pessoas que acabam sendo internadas à força na Casa Verde. Pessoas com uma intuição apurada voltada ao religioso eram colocadas como distantes da realidade material, pessoas com um sentimento bem desenvolvido, que priorizavam as relações em oposição às finanças, eram consideradas desajuizadas, pessoas pragmáticas e práticas com facilidades para o fazer manual eram vistas como ameaça. O “outro” para Simão Bacamarte era um desvio completo que precisava ser analisado minuciosamente e curado em favor do pensamento racional.
Do ponto de vista coletivo, a diversidade de atitudes é fundamental. Uma sociedade precisa da iniciativa, da ação e da abertura ao mundo trazidas pela extroversão, assim como necessita da reflexão, da profundidade e da elaboração simbólica próprias da introversão. Quando uma dessas atitudes é desvalorizada, empobrecemos não apenas o indivíduo, mas o campo social como um todo.
Da mesma maneira se faz necessário o convívio e o cultivo das quatro funções da consciência: pensamento, sentimento, intuição e sensação.
A valorização de funções que são favoráveis aos ideais capitalistas de produção e eficiência, como o pensamento e a sensação, contribui, ao longo da história, para uma negligência, por exemplo, do sentimento e da elaboração consciente dos valores dos indivíduos em relação às suas ações. O preconceito com a intuição, desde a ignorância sobre suas características até sua distorção no contexto das religiões neopentecostais, provoca, de maneira crescente, a aridez interior dos indivíduos, a dificuldade de um diálogo com o inconsciente, de uma expressão criativa catártica, levando inclusive a uma precipitada patologização de pessoas deste tipo.
O despotismo científico (ASSIS, 1994, p. 43) de Simão é uma narrativa unilateral da verdade que é recordada no contexto deste texto para refletirmos sobre a atuação do analista junguiano.
Conforme desenvolvido pelo autor Adolf Guggenbühl-Craig, em seu livro O Abuso do Poder na Psicoterapia, o analista, assim como outros profissionais da saúde, podem abusar de uma determinada autoridade. Desta maneira, a posição de detentor de um conhecimento especializado sobre os fenômenos psíquicos poderia contribuir para uma identificação com a “sombra” nas relações clínicas. Neste sentido, diante do outro que lhe é alheio, o desejo de poder e os perigos de dinâmicas desequilibradas de consciência favorecem a constelação de personagens como o charlatão e o falso profeta: aspectos sombrios que todo analista deve confrontar.
Esse termo (charlatão), para mim, não designa alguém que use métodos não-ortodoxos ou extra-oficiais para ajudar os necessitados, mas sim um tipo de médico que na melhor das hipóteses engana tanto a si como a seus pacientes, ou, na pior, apenas a seus pacientes. Trata-se de um indivíduo que ajuda mais a si mesmo, pelo dinheiro e prestígio que recebe, do que aos doentes que procuram seus préstimos. (GUGGENBÜHL-CRAIG, 2004, p. 28)
A proposta deste artigo, entretanto, seria dar ênfase aos aspectos da consciência enquanto fenômeno psíquico presente na relação analista-analisando.
Tal empreendimento se deve pela sedução que o inconsciente geralmente provoca aos olhos do estudioso na área da psicologia junguiana – assim como a “patologia cerebral” seduziu Simão -, que acaba por negligenciar e ver o modelo tipológico de Jung com menos seriedade que os fenômenos inconscientes. Guggenbühl-Craig (2004, p. 32) comenta sobre esse fascínio ao lembrar que o analista junguiano é alguém que viveu o profundo abalo produzido pela confrontação com o irracional e o inconsciente.
Neste contexto, nas palavras de Daryl Sharp (2021, p. 138), faz-se necessário, no campo da tipologia, como em qualquer tentativa de autoconhecimento, uma contínua autorreflexão. Por essa razão, é inestimável reforçar que o primeiro confronto com o inconsciente e sua eventual integração parte do problema da sombra, entretanto é indispensável retomar o fato de que o temperamento e as pressuposições subjetivas do analista são sua bússola (SHARP, 2021, p. 9) para existir no mundo, dentro e fora do setting terapêutico.
Aprofundando a reflexão sobre a construção desse analista, no livro sobre abuso de poder na clínica, Guggenbühl-Craig alerta sobre a identificação do analista didata com uma sombra de feiticeiro.
Neste contexto, o analista em formação correria o risco de continuar sendo um “aprendiz” durante toda a sua atuação como psicoterapeuta, apenas imitando seu analista e admirando sua performance (GUGGENBÜHL-CRAIG, 2004, p. 43). Entretanto, retomando esse problema pelo ponto de vista dos tipos psicológicos, é fundamental considerar que a forma como a consciência do analista se adaptou, ou seja, como ele compreende e se relaciona majoritariamente com o mundo, não deve ser colocada em xeque ao ser formado, por exemplo, por um analista didata de tipo oposto ao seu.
Tenho observado, com frequência como um analista, frente a um tipo excepcionalmente reflexivo, por exemplo, fará o possível para revelar-lhe a função do sentimento, trazendo-a diretamente para fora do inconsciente. Esse esforço está fadado ao fracasso, pois implica uma violação extrema do ponto de vista consciente. Ainda que essa violação produzisse efeito, o analista geraria uma dependência compulsiva no paciente, uma transferência que só poderia resultar num desfecho brutal. Pois, tendo sido privado do seu ponto de vista, o paciente assumiria para si o ponto de vista do analista. (JUNG, 2013, § 670)
Neste contexto, podemos incorporar para a discussão mais um personagem do livro de Machado de Assis, o Sr. Crispim Soares, boticário da vila, que é contratado para responsabilizar-se pelas questões administrativas da Casa Verde. Sua tipologia, hipoteticamente falando – uma vez que não é um personagem tão explorado na obra -, é o sentimento introvertido, função inferior de Simão. Entretanto, por conta da absurda influência do médico, acaba por diversas vezes indo contra seus próprios princípios e família, de modo a tentar se enquadrar na tipologia do doutor, ou seja, na tal concepção verdadeira e moralmente superior, isenta do risco de cair em adoecimento.
A seguinte passagem esclarece tanto sobre a função principal do Sr. Soares, quando da sua automutilação ao se enquadrar no comportamento de Simão:
Crispim amava a mulher, e, desde trinta anos, nunca estiveram separados um só dia. Assim se explicam os monólogos que ele fazia agora, e que os fâmulos lhe ouviam muita vez:—”Anda, bem feito, quem te mandou consentir na viagem de Cesária? Bajulador, torpe bajulador! Só para adular ao Dr. Bacamarte. Pois agora agüenta-te; anda, agüenta-te, alma de lacaio, fracalhão, vil, miserável. Dizes amém a tudo, não é? aí tens o lucro, biltre!” (ASSIS, 1994, p. 22)
Ao ampliarmos a reflexão tipológica, é fundamental recordar que as quatro funções psicológicas – pensamento, sentimento, sensação e intuição – dizem respeito primariamente ao funcionamento da consciência. Conforme destaca Marie-Louise von Franz, há um equívoco recorrente em tentar utilizar esse modelo, que descreve atitudes conscientes, como ferramenta direta para abordar conteúdos do inconsciente, como no chamado “problema do quatro”. Tal deslocamento indevido pode gerar reducionismos interpretativos e obscurecer a complexidade simbólica das manifestações psíquicas.
Seguimos certas regras para interpretar as manifestações do inconsciente. Em última análise, porém, essa interpretação é mais uma arte que um ofício, e pode ocorrer que nossa própria equação pessoal nos leve a desprezar algo fundamental (FRANZ, 1999, p. 34). Nesse sentido, a prática clínica exige não apenas conhecimento teórico, mas um constante exercício de autocrítica e ampliação de repertório simbólico. A análise individual, a supervisão em grupo e o contato com diferentes expressões culturais tornam-se, portanto, instrumentos indispensáveis para evitar a unilateralidade da escuta.
A noção de “equação pessoal” é central nesse debate, pois condiciona inevitavelmente o modo como o analista dialoga com o analisando e conduz as ampliações das expressões oníricas, dos sintomas e das expressões criativas. Como aponta Jung, “a verdade relativamente definitiva requer o concerto de muitas vozes” (JUNG, 2012, § 1.236). Assim, o trabalho analítico não pode prescindir de uma postura dialógica, que reconheça os limites da própria perspectiva.
Neste contexto, é interessante citar as colocações de von Franz em relação às atitudes da consciência e da sua dinâmica oposta inconsciente:
Inicialmente, Jung distinguiu dois tipos comportamentais: o extrovertido e o introvertido. No extrovertido, a libido habitualmente flui conscientemente na direção do objeto, mas existe também uma ação contrária que volta em direção ao sujeito. Para o extrovertido, o avanço oculto na direção do sujeito é geralmente um fator inconsciente. No caso do introvertido, ocorre o oposto, pois ele tem a impressão de que um objeto constantemente o esmagasse, de modo que precisa continuamente se afastar deste, uma vez que tudo está caindo sobre ele, é continuamente esmagado pelas impressões, mas não tem consciência de que está secretamente emprestando energia psíquica ao objeto através da sua extroversão inconsciente. (FRANZ, 1999, p. 31)
Essa dimensão dialética se manifesta de maneira particularmente complexa no problema da transferência. Ainda que este artigo não se aprofunde nesse ponto, é importante deixar em aberto a necessidade de expandir a discussão sobre a dinâmica entre analista e analisando, conforme indicado por Jung (2012, § 1.172), especialmente no que se refere às implicações do poder e da autoridade na clínica.
Retomando o destino de Simão Bacamarte, observamos que sua identificação com a unilateralidade da consciência e com sua função principal não apenas o afasta da comunidade, mas também o conduz a um progressivo isolamento psíquico.
Machado de Assis explicita esse movimento tanto nas revoltas populares contra a Casa Verde quanto no desfecho em que o próprio médico decide internar-se:
Mas o ilustre médico, com os olhos acesos da convicção científica, trancou os ouvidos à saudade da mulher, e brandamente a repeliu. Fechada a porta da Casa Verde, entregou-se ao estudo e à cura de si mesmo. Dizem os cronistas que ele morreu dali a dezessete meses no mesmo estado em que entrou, sem ter podido alcançar nada. (ASSIS, 1994, p. 87)
Tal desfecho pode ser compreendido, à luz da psicologia analítica, como uma consequência extrema da perda de relação com o outro e com o próprio inconsciente. Jung observa que uma autoridade que se mantém excessivamente superior apenas intensifica no outro o sentimento de inferioridade e exclusão, mas também, poderíamos acrescentar, perde progressivamente sua própria vitalidade psíquica (JUNG, 2012, § 1.172). Essa perda ocorre tanto externamente, pelo afastamento dos vínculos, quanto internamente, pela dissociação entre consciência e inconsciente. Nas palavras de D. Evarista (ASSIS, 1994, p. 73), esposa de Simão, observamos a lenta, mas incontrolável, queda de Ícaro: fez agora outro em honra do insigne médico – “cujo altíssimo gênio, elevando as asas muito acima do sol, deixou abaixo de si todos os demais espíritos da terra”.
Nesse sentido, a trajetória de Bacamarte ilustra de forma radical os riscos da unilateralidade tipológica e da inflação da consciência.
Sua identificação com o pensamento extrovertido, desacompanhada de um diálogo vivo com sua função inferior – o sentimento introvertido -, resulta em uma visão empobrecida da realidade psíquica, em uma cisão entre consciente e inconsciente e em práticas clínicas violentas e tirânicas.
Por fim, cabe reiterar que o exercício da psicoterapia, enquanto arte e técnica, exige a totalidade do indivíduo. Como afirma Jung, ars totum requirit hominem: a arte requer o homem por inteiro (JUNG, 2012, § 1.170). Isso implica uma relação crítica constante com as próprias funções da consciência, com a função inferior e com a sombra. Mais do que evitar cair em erros, trata-se de sustentar uma posição ética e reflexiva diante da complexidade do humano, reconhecendo que toda prática clínica está inevitavelmente atravessada pela singularidade de quem a exerce, assim como pelas suas vulnerabilidades.
Assim, entre a tentação classificatória de Simão Bacamarte e a abertura simbólica proposta pela psicologia analítica, permanece o desafio: como sustentar uma escuta que não reduza o outro à tipologia, mas que também não negligencie a importância das estruturas através das quais a consciência se organiza e se adapta? É nesse campo primeiro de tensão que se inicia a responsabilidade do analista, sendo o encontro com o outro a verdadeira possibilidade de transformação.
Carolina Diniz Bastos – Analista em formação pelo IJEP
José Balestrini – Analista Didata IJEP
Referências:
ASSIS, Machado de. O alienista. São Paulo: FTD, 1994.
FRANZ, Marie-Louise von. Psicoterapia. São Paulo: Paulus, 1999.
GUGGENBÜHL-CRAIG, Adolf. O abuso do poder na psicoterapia: e na medicina, serviço social, sacerdócio e magistério. São Paulo: Paulus, 2004.
JUNG, Carl Gustav. A vida simbólica. Escritos diversos. 4. ed. Petrópolis: Vozes, 2012.
JUNG, Carl Gustav. Tipos Psicológicos. 7. ed. Petrópolis: Vozes, 2013.
SHARP, Daryl. Tipos de personalidade: o modelo tipológico de Carl G. Jung. 2. ed. São Paulo: Editora Pensamento Cultrix, 2021

