Parto do seguinte questionamento: Como Carl Jung lidava com sua intuição e qual a importância que ele atribuiu a ela?
Mais do que isso: como ele teve a coragem de colocá-la como uma das quatro funções psíquicas fundamentais — instrumentos da consciência — mesmo sabendo que ela é uma porta aberta para o caos, produz afetos viscerais e molda, silenciosamente, o nosso destino?
Neste texto, não vou contemplar a diferenciação da intuição entre os tipos introvertidos e extrovertidos, nem ampliar seus análogos complementares, compensatórios e opostos, a função inferior ou sombria do intuitivo, que é a sensação introvertida ou extrovertida, além dos tipos e funções primeiras e segundas auxiliares, que podem ser pensamento ou sentimento introvertido ou extrovertido, complexificando e diversificando as possibilidades de características de tipos e funções da consciência humana, a meu ver, chegando a 64 combinações diferentes.
1. O Homem que Ouvia o Inaudível: A Vivência Pessoal
Carl Gustav Jung não apenas estudou a intuição; ele sobreviveu a ela. Para o fundador da Psicologia Analítica, a intuição não era um mero palpite ou um “sexto sentido” místico de almanaque, mas uma função psíquica nobre, a única capaz de dobrar a esquina do tempo e enxergar o que ainda não é, mas que urge ser.
Jung identificava-se primariamente como um Tipo Intuitivo Introvertido. Em Tipos Psicológicos, ele descreve essa figura quase profética: aquele que se orienta não pelo objeto externo, mas pela intensidade da imagem interior. Para ele, a intuição funcionava de maneira visceral:
- Como uma Bússola no Caos: Suas grandes obras — o inconsciente coletivo, os arquétipos, a sincronicidade — não nasceram de deduções lógicas de gabinete, mas de flashes intuitivos avassaladores. A lógica (Pensamento) vinha depois, apenas para arrumar a casa que a intuição já havia construído.
- A “Doença Criativa”: O exemplo máximo dessa relação foi seu período de confrontação com o inconsciente (1913-1919), documentado no Livro Vermelho. Jung permitiu que as imagens intuitivas inundassem sua consciência. A diferença entre ele e um psicótico foi a ética da consciência: ele não foi tragado pelas imagens; ele dialogou com elas. Como ele mesmo disse: “Decidi me entregar aos impulsos do inconsciente”, mas manteve os pés plantados na terra (família, trabalho, exército) para não voar longe demais.
A intuição para Jung era como aquele amigo inconveniente que chega na festa, bebe o melhor vinho e diz quem vai brigar com quem no final da noite. A maioria de nós expulsa esse amigo. Jung decidiu sentar-se com ele e perguntar: “E então, o que vem depois?”.
2. A Mecânica do Invisível: A Intuição em “Tipos Psicológicos”
Para entender a importância que Jung deu a essa função, precisamos ir à fonte técnica. Em Tipos Psicológicos (Capítulo X), Jung define a intuição como uma Função Irracional de Percepção.
Aqui reside o grande mal-entendido que precisamos desfazer:
- Irracional não significa “sem razão”, mas sim algo que está fora do domínio da razão julgadora. A razão (Pensamento/Sentimento) julga, utilizando da lógica qualitativa e temporal e dos valores qualitativos para discernir o que é cientifico e o que é belo do que não é: “isto é certo”, “aquilo é agradável”. A Intuição não julga; ela apenas mostra. Ela é um fluxo de dados.
- Percepção via Inconsciente: Enquanto a Sensação percebe o que está lá (a cor, o peso, o cheiro), fundamentada no princípio da realidade “do aqui e do agora” espaciais, a Intuição percebe de onde veio e para onde vai. Ela capta as possibilidades inerentes à situação, indo além do espaço e do tempo, por ser atemporal e aespacial.
Jung elevou a intuição ao status de instrumento de adaptação. Num mundo onde tudo muda rápido, quem depende apenas da Sensação (do concreto) está sempre atrasado. A intuição é a função evolutiva que nos permite antecipar o predador na moita ou a oportunidade no mercado antes que eles se materializem concretamente.
“A intuição é a função que vê a esquina antes de chegar nela.”
3. O Perigo e a Glória: Afetos, Decisões e Destino
A intuição produz afetos e consequências emocionais. Como lidar com isso?
Quando a intuição atua, ela frequentemente vem carregada de numinosidade (energia psíquica). O intuitivo não diz “eu acho que…”; ele sente uma certeza absoluta, quase religiosa.
- O Risco da Unilateralidade: Em Tipos Psicológicos, Jung alerta que o tipo intuitivo puro corre o risco de semear muito e colher pouco. Ele vê a possibilidade, planta a semente, mas quando a planta começa a crescer (exigindo a rotina da Sensação), ele já está entediado, buscando a próxima possibilidade. Sem a “função inferior” (a Sensação) para dar terra e peso, a vida do intuitivo pode se tornar uma série de promessas brilhantes jamais cumpridas.
- O Destino: Jung dizia: “O que não enfrentamos em nós mesmos encontraremos como destino”. A intuição não ouvida vira “azar”. A intuição não trabalhada vira “paranoia” (ver intenções ocultas onde elas não existem). Mas a intuição integrada vira Vocação. Ela alinha o desejo do Ego com a intenção do Self.
4. Por que o “Indivíduo Comum” precisa disso?
Vivemos numa sociedade hiper-racional e sensorial. Somos treinados para acreditar apenas no que a planilha mostra (Pensamento) e no que os olhos veem (Sensação). O resultado? Uma epidemia de falta de sentido.
Dar atenção à função intuitiva — e ao inconsciente — oferece ao indivíduo comum três “superpoderes” práticos:
- Escape da Prisão do Óbvio: A vida baseada apenas em fatos é seca. A intuição devolve o mistério e a profundidade. Ela permite ver o chefe tirano não apenas como um problema, mas como um símbolo de algo a ser superado internamente.
- Tomada de Decisão Holística: Quem decide apenas com a lógica, decide com metade do cérebro. A intuição traz os dados ocultos, as variáveis que a lógica ignora.
- Saúde Psíquica: Ouvir a intuição é abrir uma válvula de escape para a pressão do inconsciente. É melhor ouvir o sussurro da intuição agora do que ter que ouvir o grito da neurose depois.
Conclusão: A Bússola na Tempestade
Para Jung, a intuição é a função que percebe a árvore na semente.
Lidar com ela exige, como Jung fez, a humildade de aceitar que não estamos no controle de tudo. Exige “plantar batatas” (cuidar da vida concreta, pagar boletos, amar quem está perto) enquanto se conversa com os deuses. Sem a terra (Sensação), a intuição é delírio. Sem a intuição, a terra é uma prisão estéril.
Que tenhamos a coragem de Jung: não de sermos “videntes”, mas de sermos inteiros.
Waldemar Magaldi – Analista didata do IJEP

