Reflexões sobre psicologia analítica, afeto catalisador e os desdobramentos da Reforma Psiquiátrica hoje
Resumo: O presente artigo analisa a contribuição de Nise da Silveira para a psiquiatria brasileira a partir do referencial da Psicologia Analítica, enfatizando o conceito de afeto catalisador como operador clínico, ético e político. A autora introduziu uma ruptura radical com práticas psiquiátricas coercitivas, ao reconhecer a expressão simbólica e imagética como linguagem legítima do inconsciente, especialmente em quadros psicóticos. O texto discute a centralidade do vínculo, do ambiente afetivo e da criatividade como fundamentos do cuidado em saúde mental, relacionando-os ao processo histórico da Reforma Psiquiátrica brasileira. Por fim, problematiza-se o atual cenário de reorientação e fragilização das políticas públicas de saúde mental, compreendido por diversos autores como um processo de desmonte do modelo psicossocial, apontando os riscos de uma retomada de práticas manicomiais incompatíveis com o legado de Nise da Silveira.
Palavras-chave: Nise da Silveira; Psicologia Analítica; Afeto catalisador; Reforma Psiquiátrica; Saúde mental.
A história da psiquiatria brasileira é marcada por longos períodos de institucionalização, segregação e práticas terapêuticas centradas no controle dos corpos e comportamentos considerados inadequados ou fora do considerado “normal” em aspectos psicossociais.
Nesse contexto, a trajetória de Nise da Silveira (1905-1999) constitui um desvio ético e epistemológico decisivo, não podemos deixar de citar a influência de Dona Ivone Lara (1921-1918) como um dos pilares desse movimento progressista no cuidado da saúde mental. Ao recusar procedimentos violentos como eletrochoque, lobotomia e contenções sistemáticas, Dra. Nise propôs uma clínica fundamentada no reconhecimento da subjetividade, da expressão simbólica e da relação afetiva como eixos do cuidado em saúde mental (Frayze-Pereira, 2003).
Nise da Silveira foi uma mulher alagoana, reconhecida por sua contribuição decisiva à humanização do cuidado em saúde mental no Brasil a partir da sua formação como médica psiquiatra.
Formou-se em Medicina pela Faculdade de Medicina da Bahia em 1926, sendo a única mulher de sua turma e ao longo de sua trajetória profissional, posicionou-se criticamente contra práticas psiquiátricas de caráter coercitivo, como eletrochoque, insulinoterapia e lobotomia, então hegemônicas no tratamento das psicoses mesmo sendo uma voz feminina dissonante em um universo extremamente dominado por homens.
Sua atuação no Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II, no bairro do Engenho de Dentro (Rio de Janeiro), marcou uma ruptura paradigmática ao introduzir ateliês de pintura e modelagem como dispositivos clínicos além de permitir animais como coterapeutas dos pacientes internados e que estavam sob seus cuidados.
Influenciada pela Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung, Nise compreendia a produção imagética dos pacientes psicóticos como expressão simbólica do inconsciente, dotada de sentido e potencial organizador da vida psíquica.
A partir dessas experiências e percepções empíricas do cuidado a pacientes no Hospital Pedro II, fundou o Museu de Imagens do Inconsciente, instituição dedicada à preservação, pesquisa e difusão das obras produzidas nos ateliês terapêuticos, articulando clínica, arte e ciência.
Nise desenvolveu ainda o conceito de afeto catalisador, no qual o vínculo afetivo é entendido como condição essencial para o desencadeamento de processos psíquicos, sem coerção ou adestramento. Seu legado ultrapassa o campo clínico psiquiátrico, influenciando diretamente os princípios éticos da Reforma Psiquiátrica brasileira, especialmente no que se refere ao reconhecimento da subjetividade e à centralidade do cuidado humanizado.
Dona Ivone Lara foi profissional da área da saúde mental, e posteriormente: compositora, cantora e sambista. Carioca, nascida no Rio de Janeiro, formou-se em Enfermagem e, posteriormente, em Serviço Social, atuando por décadas no sistema público de saúde, com destaque para seu trabalho no Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II.
No contexto institucional – ao lado da Dra. Nise e de outros profissionais da área da saúde – exerceu funções voltadas ao acompanhamento psicossocial de pacientes internados, desenvolvendo uma prática marcada pela escuta, pelo cuidado cotidiano e pela valorização das expressões culturais e afetivas.
Paralelamente à carreira na saúde, construiu uma trajetória singular na música popular brasileira.
Foi a primeira mulher a integrar a ala de compositores da escola de samba Império Serrano, rompendo barreiras de gênero em um campo tradicionalmente masculino. Suas composições, como Sonho Meu, Alguém Me Avisou e Acreditar, são reconhecidas pela dimensão espiritual e pela percepção pessoal de uma experiência afetiva – conseguimos encontrar reverberações do seu cuidado aos pacientes psiquiátricos em sua expressão musical. Dona Ivone Lara ocupa um lugar extremamente importante e relevante na cultura brasileira por articular, em sua trajetória: cuidado, música e sensibilidade social. Sua obra pode ser compreendida como expressão simbólica de uma ética do afeto, em diálogo implícito com os princípios humanizadores que atravessam a história da Reforma Psiquiátrica e das práticas de cuidado em saúde mental.
Assim, inspirada pela Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung, Nise defendeu que a psicose não representa a ausência de vida psíquica ou que as pessoas estavam descartadas de uma vida produtiva e com sentido, mas desorganização psíquica mostrava uma forma singular de organização do inconsciente, e que poderiam ser expressas por imagens, cores e símbolos. Essa compreensão desloca o tratamento da lógica da correção medicamentosa como sendo única e exclusiva para a lógica do acompanhamento integrativo, reconhecendo o sofrimento psíquico como processo e não como falha a ser eliminada (Catta-Preta, 2021).
Ao mesmo tempo, discutir o legado de Nise da Silveira no Brasil contemporâneo exige situá-lo no interior dos debates sobre a Reforma Psiquiátrica e seus impasses atuais.
Desde meados da década de 2010, diversos estudos apontam para uma reorientação das políticas de saúde mental, caracterizada pela fragilização do modelo psicossocial e pela revalorização de dispositivos asilares e segregadores (Cruz, 2020; Lima et al., 2023) que eram malvistos por uma perspectiva “mais social” que médica. Porém, tal cenário coloca em risco os fundamentos clínicos e éticos que sustentam a proposta “niseana”.
A aproximação de Nise da Silveira com a Psicologia Analítica não se deu apenas em nível teórico, mas sobretudo na prática clínica. Para Jung, o inconsciente se manifesta primordialmente por imagens simbólicas, que não podem ser reduzidas a significados fixos ou traduzidas de forma racionalizantes (Jung, 2012).
Nise incorpora esse princípio ao reconhecer nas produções plásticas de pacientes psicóticos uma linguagem legítima do inconsciente e absorve em sua epistemologia práticas expressivas como recurso para a homeostase psíquica desses pacientes.
Nos ateliês terapêuticos do Hospital do Engenho de Dentro, a expressão artística passou a ser compreendida como via de comunicação e reorganização psíquica, e não como mera atividade ocupacional.
A observação de séries de imagens permitia acompanhar processos simbólicos em curso, respeitando o ritmo próprio de cada sujeito (Frayze-Pereira, 2003) e isso é desenvolvido e demonstrado por dra. Nise em seus livros: O mundo das Imagens (2006) e Imagens do Inconsciente (2022). A reorganização de cada indivíduo era dentro de suas capacidades e com auxílio de funcionários capacitados para dar continuidade ao tratamento, e esse tipo de condução ia além da prática médica e medicamentosa.
Essa perspectiva rompe com o paradigma psiquiátrico tradicional ao substituir a interpretação patologizante, medicamentosa que deixavam corpos e mentes inertes sem qualquer possibilidade de escuta simbólica.
O terapeuta deixa de ocupar o lugar de especialista que decifra e interpreta ao assumir a função de acompanhante do processo, sustentando o campo relacional necessário para que o símbolo possa emergir e se transformar (Melo, 2025).
O afeto catalisador, inspirado na metáfora química, designa a qualidade da relação afetiva capaz de favorecer processos psíquicos sem impor direções ou consumir o sujeito que cuida. Trata-se de uma presença ética, atenta e não intrusiva, que possibilita a expressão e a reorganização do mundo interno (Magaldi, 2020).
Devemos lembrar que o afeto catalisador não se confunde com uma postura assistencialista ou sentimental. Ao contrário, exige formação técnica, supervisão contínua e profunda consciência dos limites do terapeuta – exatamente a proposta teórica junguiana de estudo, supervisão e terapia – o profissional deve estar disponível, mas deve assumir a postura de curador ferido (Magaldi, 2026). Segundo Damião Júnior (2021), trata-se de uma atitude clínica que pressupõe paciência, respeito pela singularidade e recusa de qualquer forma de adestramento psíquico.
Essa concepção amplia o setting terapêutico, deslocando-o do consultório individual para o ambiente institucional e coletivo.
Ateliês, oficinas, museus e espaços de convivência tornam-se dispositivos clínicos na medida em que sustentam vínculos, continuidade e reconhecimento simbólico.
A criação do Museu de Imagens do Inconsciente representa uma das mais importantes materializações do pensamento de Nise da Silveira. O museu não apenas preserva produções artísticas, mas constitui um arquivo clínico, científico e cultural que desafia a fronteira entre normalidade e loucura (Frayze-Pereira, 2003). E, ao expor as obras ao público, Nise rompe com o isolamento simbólico imposto aos pacientes psiquiátricos, reinscrevendo-os no campo da cultura. Essa dimensão política da clínica antecipa princípios centrais da Reforma Psiquiátrica, como a desinstitucionalização e o reconhecimento da cidadania das pessoas em sofrimento psíquico.
A Reforma Psiquiátrica brasileira consolidou-se como um movimento social, sanitário e jurídico que propôs a substituição progressiva do modelo manicomial por uma rede de atenção psicossocial territorializada, o que se apresentou como uma ideia de integração se tornou mais um fator de marginalizar e afastar pessoas de um tratamento acolhedor, cuidadoso e com perspectivas reais de integração psíquica (mesmo que estivessem restritas ao espaço do tratamento).
No entanto, estudos recentes apontam para um processo de reorientação das políticas públicas, marcado pelo fortalecimento de internações, comunidades terapêuticas e dispositivos “segregadores” (Cruz, 2020).
Isso nos traz crises sociais oriundas de incapacidade dos CAPS e estabelecimentos que deveriam promover tratamento de qualidade a um lugar que é apenas enfermaria, com diretrizes de colocar pacientes que precisam de um olhar mais diligente fora dos espaços que previamente seriam destinados a uma intervenção integrativa e multidisciplinar.
Segundo Lima et al. (2023), alterações normativas, como a Portaria nº 3.588/2017, contribuíram para a fragilização da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), comprometendo a continuidade do cuidado e a centralidade do território. Esse movimento é frequentemente descrito como um desmonte ou contrarreforma psiquiátrica.
Assim, do ponto de vista do legado de Nise da Silveira, tais mudanças afetam diretamente as condições de possibilidade do afeto catalisador. A precarização das equipes, a rotatividade de profissionais, a ênfase em dispositivos de contenção, a dispersão dos pacientes sem um acompanhamento mais longevo e humanizado inviabilizam a construção de vínculos duradouros, essenciais à clínica junguiana.
O impacto de Nise da Silveira, e da sua equipe como D. Ivone Lara, na psiquiatria brasileira ultrapassa o campo da inovação terapêutica. Configurando-se como uma proposta ética de cuidado baseada no reconhecimento da alteridade, do símbolo e do vínculo com a finalidade de dar ao paciente e aos familiares – principalmente aos que não tem recursos financeiros – de um tratamento com qualidade e dignidade.
A obra “niseana” é uma obra que para além do teórico, demonstra na prática que a “loucura” não é ausência de sentido, mas uma expressão subjetiva que busca reorganização.
Diante dos impasses contemporâneos da Reforma Psiquiátrica, retomar Nise não significa apenas preservar uma memória histórica, mas reafirmar um projeto de saúde mental comprometido com a dignidade, a criatividade e a vida em comunidade.
O afeto catalisador, nesse sentido, permanece como critério clínico e político fundamental para avaliar práticas e políticas públicas em saúde mental, reavaliar e rever os impactos negativos do que estamos vivenciando hoje é urgente para podermos avançar como indivíduos e sociedade.
Bárbara Pessanha – Analista Didata em Formação IJEP
Dra. E. Simone Magaldi – Analista Didata IJEP
Referências:
CATTA-PRETA, Maria V. Diálogos entre Nise da Silveira e Jung: a obra expressiva e suas contribuições para a psicologia analítica. Junguiana, São Paulo, v. 39, n. 1, p. 111–128, 2021. Disponível em: https://junguiana.sbpa.org.br/revista/article/view/164. Acesso em: 30 jan. 2026.
CRUZ, Nelson F. O. Retrocesso da reforma psiquiátrica: o desmonte da política nacional de saúde mental brasileira de 2016 a 2019. Trabalho, Educação e Saúde, Rio de Janeiro, v. 18, n. 3, e00285117, 2020. Disponível em: https://www.scielo.br/j/tes/a/j6rLVysBzMQYyFxZ6hgQqBH/. Acesso em: 30 jan. 2026.
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