A reflexão sobre a sincronicidade em Jung nos convida a ultrapassar a lógica estreita da causa e do efeito. Nesse horizonte, acausalidade, Unus Mundus, observador participante e sentido aparecem como dimensões de uma mesma experiência humana diante das coincidências significativas. Ao mesmo tempo, este texto problematiza o critério de transformação exigido por Jung, perguntando se toda sincronicidade precisa, de fato, produzir mudança para ser reconhecida em sua plenitude. A hipótese central é simples e, ao mesmo tempo, exigente. A experiência sincronística não perde seu valor quando não gera efeito imediato, porque continua sendo uma comunicação simbólica do inconsciente, um apelo discreto para ampliar a consciência e acolher o mistério do sentido.
A busca por sentido na existência humana frequentemente nos coloca diante de fenômenos que desafiam a linearidade do pensamento causal. É nesse ponto que a sincronicidade se torna uma chave fecunda de leitura, sobretudo quando a aproximamos da física quântica, da teoria do caos e das implicações mais amplas para a compreensão da realidade e da consciência. A intenção aqui é ampliar o campo de visão, sem reduzir o fenômeno a explicações empobrecidas. O que está em jogo é uma convocação para repensar a natureza do universo e o papel do observador no modo como o real se organiza e se revela.
Jung, em suas investigações sobre a natureza da realidade, sugeriu a existência de uma acausalidade determinada nos processos naturais. Em uma palestra de 1958 sobre sincronicidade, afirmou de forma provocativa que o Criador, ao criar o mundo, estava jogando dados. A formulação, naturalmente paradoxal, contrapunha-se à objeção célebre de Albert Einstein, para quem Deus não jogava dados e o universo deveria ser compreendido segundo uma ordem determinista. Jung, ao contrário, admitia que o acaso aparente poderia ser expressão de uma ordem mais profunda, não redutível a mecanismos lineares nem a explicações puramente racionais.
A expressão cunhada por Jung busca nomear o modo como certos acontecimentos surgem sem relação linear de causa e efeito, mas também sem cair no território da pura aleatoriedade. Há neles uma ordenação invisível, uma constelação de sentidos que se anuncia no exato momento em que algo acontece. É como se o universo operasse por atrações sutis e por vínculos não visíveis a olho nu, e não apenas por mecanismos previsíveis. Essa perspectiva desafia nossa compreensão comum de tempo, espaço e causalidade, abrindo caminho para uma visão mais holística e interconectada da existência.
O observador e a cocriação da realidade
Diante dessa visão, somos levados a considerar que, de fato, Deus joga dados. A imagem é antiga e remete a Einstein, mas ganha novo vigor quando confrontada com a ideia de que todo observador interfere no resultado do experimento. Essa noção se articula com a Interpretação de Copenhague, desenvolvida por Niels Bohr e Werner Heisenberg, e com o Princípio da Incerteza. Se o ato de observar modifica aquilo que é observado, então a realidade não pode ser entendida como um dado fixo e inteiramente objetivo. Ela se revela, antes, como um campo de cocriação permanente, no qual a consciência humana participa ativamente do que emerge.
Não há um dado lançado de uma vez por todas. Há um jogo aberto em curso. Nesse jogo, a consciência não apenas contempla os eventos, mas interfere neles, é afetada por eles e também os ajuda a moldar. O observador não está fora da cena. Ele integra a própria cena que tenta compreender. É nessa participação que se percebe a delicada interdependência entre sujeito e mundo, entre olhar e fenômeno, entre presença e acontecimento.
O atrator estranho e a dinâmica evolutiva
Essa participação ativa da consciência justifica o que se pode chamar de atrator estranho. O conceito, vindo da teoria do caos, designa um ponto de convergência invisível em torno do qual fenômenos aparentemente dispersos se organizam. Ele é estranho porque não se reduz a uma lógica simples e previsível, operando na fronteira entre ordem e desordem. É desse atrator que emergem os acontecimentos que julgamos favoráveis ou desfavoráveis, bons ou maus, belos ou feios. O julgamento, porém, pertence à nossa leitura subjetiva e cultural. Vistos de uma perspectiva mais ampla, esses eventos participam de um mesmo movimento evolutivo, contínuo e complexo.
No fundo, tudo isso faz parte de um campo evolutivo acelerado que nos conduziu das cavernas ao risco de apertarmos o botão do relógio do apocalipse. A mesma força que nos levou a criar linguagem, arte e cultura nos coloca hoje diante da possibilidade de autodestruição. O salto civilizatório foi imenso, mas a consciência que permitiu dominar a natureza ainda hesita diante da própria potência e de suas consequências. O problema é que sabemos muito pouco sobre o inconsciente, que não se submete às leis da causalidade nem às referências rígidas de tempo e espaço. E, no entanto, ele continua pautando nosso destino, apesar de todo o avanço científico e tecnológico. Por isso persistem os conflitos territoriais e de poder deste patriarcado patrimonialista e retrógrado, ainda voltado para guerras, enquanto as doenças psíquicas se avolumam de forma exponencial, espelhando uma desconexão profunda com a nossa própria natureza.
A encruzilhada da consciência humana
O paradoxo central é que a evolução acelerada nos colocou num ponto crucial, onde a acausalidade determinada dos processos naturais se encontra com nossa responsabilidade inegável como observadores participantes. Não estamos fora do sistema. Somos parte integrante do atrator estranho que produziu este momento crítico da história humana. O que chamamos de progresso ou de catástrofe são apenas faces de uma mesma dinâmica complexa, na qual o destino humano se decide pelo modo como habitamos essa encruzilhada existencial. Talvez a pergunta mais importante não seja se Deus joga dados, mas que tipo de jogadores nos tornamos diante do que emerge. Se todo olhar interfere, então a qualidade do nosso olhar interfere diretamente no mundo. Resta saber se seremos capazes de sustentar uma consciência à altura do risco e da potência que herdamos, assumindo plenamente nossa parte no jogo cósmico.
Sincronicidade, Unus Mundus e o aspecto psicóide
Das premissas acima, e do conceito de Unus Mundus, isto é, o mundo uno subjacente à realidade psíquica e física, Jung, com as contribuições de Wolfgang Pauli, desenvolve seu conceito de sincronicidade. Ele a define como uma coincidência significativa de dois ou mais eventos, em que algo além da probabilidade do acaso está implicado. Trata-se de um princípio de conexões acausais, no qual um evento externo se vincula a um estado interno, como um pensamento ou uma emoção, sem necessidade de uma causa física direta. Jung também explora o aspecto psicóide, uma zona limítrofe entre o psíquico e o físico ou biológico, situada na camada mais profunda do inconsciente coletivo. Esse aspecto representa arquétipos que não podem ser plenamente simbolizados ou representados, funcionando como ponte entre mente e matéria e revelando a natureza unitária da realidade.
Para Jung, a sincronicidade é um fenômeno de coincidências significativas, acausais e atemporais, que conectam fatores externos aos aspectos internos e psíquicos do indivíduo. Ele frequentemente afirmava que a experiência sincronística deveria produzir uma mudança de visão de mundo e gerar transformação na pessoa que a vivenciou. Caso contrário, nessa perspectiva, tratar-se-ia apenas de um evento sincrônico, uma mera coincidência, e não propriamente de algo sincronístico, isto é, carregado de sentido e potencial transformador.
O critério da transformação em debate
Essa distinção junguiana levanta uma questão incômoda e fértil. Será mesmo necessário que uma sincronicidade produza transformação na vida da pessoa para ser reconhecida em sua plenitude? Não estaria Jung, ainda que de modo implícito, impondo um critério utilitário ou teleológico ao fenômeno? A exigência de que a coincidência significativa produza efeitos concretos na existência do sujeito introduz, talvez, uma obrigação terapêutica ou evolutiva que não corresponde inteiramente à natureza do acontecimento sincronístico, cujo valor pode existir independentemente de uma mudança imediata.
Podemos associar essa questão ao modo como compreendemos outras manifestações do inconsciente. Sonhos, sintomas e imagens simbólicas também emergem como mensagens do Self ou expressões do Unus Mundus. Todos eles carregam um potencial imenso de produzir sentido e provocar mudanças profundas. No entanto, muitas vezes esse potencial não se realiza plenamente. A mensagem é enviada, mas não é ouvida. A imagem aparece, mas não é integrada. O sintoma insiste, mas não é compreendido em sua totalidade.
A pergunta então se desdobra. Se a eficácia transformadora não se concretiza, esses fenômenos perdem seu caráter genuíno? Deixam de ser manifestações autênticas do inconsciente por não terem produzido uma reviravolta existencial imediata? Ou permanecem como comunicações simbólicas ainda não decifradas, à espera de um acolhimento que talvez nunca aconteça, mas que não diminui seu valor intrínseco como mensagens do Self?
Nestes parágrafos, Jung explicita a necessidade de sentido e significado para que a coincidência acausal possa ser considerada um fenômeno sincronístico, ao produzir transformação em quem vivenciou a experiência direta ou indiretamente.
“A pura causalidade só é significativa quando é usada para a criação e funcionamento de algo útil, como um instrumento ou uma máquina, por uma inteligência que está fora do processo e independente dele. Um processo que anda por si, que depende da pura causalidade, isto é, da absoluta necessidade, é sem sentido.” (OC 18/2 § 1187)
“Convém chamar a atenção para um possível mal-entendido que pode ser ocasionado pelo termo sincronicidade. Escolhi este termo porque a aparição simultânea de dois acontecimentos, ligados pela significação, mas sem ligação causal, pareceu-me um critério decisivo. Emprego, pois, aqui, o conceito geral de sincronicidade, no sentido especial de coincidência, no tempo, de dois ou vários eventos, sem relação causal, mas com o mesmo conteúdo significativo, em contraste com sincronismo, cujo significado é apenas o de ocorrência simultânea de dois fenômenos.” (OC8/3 § 849)
Jung continua esclarecendo que o sentido e o significado do fenômeno nem sempre surgem imediatamente após o evento, podendo aparecer temporalmente depois.
“A sincronicidade, portanto, significa, em primeiro lugar, a simultaneidade de um estado psíquico com um ou vários acontecimentos que aparecem como paralelos significativos de um estado subjetivo momentâneo e, em certas circunstâncias, também vice-versa. Meus dois exemplos ilustram esta causa de modo diverso. No caso do escaravelho, a simultaneidade é imediatamente manifesta, mas no segundo, não. É verdade que o bando de pássaros provocou uma vaga inquietação, mas esta pode ser explicada causalmente. A mulher de meu paciente antes, certamente, não tinha consciência de qualquer temor que pudesse ser comparado com minha própria apreensão, porque os sintomas, dores no pescoço, não eram de molde a fazer um leigo pensar imediatamente em algum mal. Mas o inconsciente muitas vezes sabe mais do que a consciência, e por isto, parece-me possível que o inconsciente da mulher já pressentia o perigo.” (OC8/3 § 850)
Receptividade e postura ética
Há aqui uma tensão fundamental entre a potência intrínseca do fenômeno e a resposta subjetiva que ele convoca no indivíduo. O inconsciente não parece operar com a lógica da eficiência ou da urgência. Ele envia suas mensagens, sejam elas sincronísticas ou oníricas, independentemente de estarmos preparados para recebê-las ou compreendê-las. O fato de uma sincronicidade não produzir transformação imediata não a torna menos sincronística em sua essência. Talvez isso apenas indique que a subjetividade não dispunha, naquele momento específico, das condições internas necessárias para acolher a irrupção de sentido e integrá-la à experiência de vida.
Podemos pensar, então, em um gradiente de receptividade individual. Há experiências sincronísticas que desorganizam a estrutura da consciência e forçam uma reorganização psíquica profunda. Outras, porém, aparecem como sussurros, leves inclinações de sentido que podem ser facilmente ignoradas ou esquecidas no turbilhão da vida cotidiana. Ambas participam da mesma lógica do Unus Mundus. Ambas são encontros significativos entre o interno e o externo. O que muda é a capacidade do ego de sustentar a tensão do significado sem reduzi-lo a uma explicação racional ou descartá-lo como mera coincidência.
Na literatura brasileira, a sincronicidade pode ser percebida como um elemento narrativo capaz de conferir profundidade e significado a enredos e personagens. Autores como Clarice Lispector e Guimarães Rosa, por exemplo, constroem universos em que o acaso significativo e as coincidências carregadas de sentido se tornam parte da experiência humana. Em Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, os acontecimentos muitas vezes parecem orquestrados por forças invisíveis, entrelaçando destino e livre-arbítrio em chave complexa. Lidos pela ótica da sincronicidade, esses elementos revelam novas camadas de interpretação para a literatura nacional.
Além da literatura, a sincronicidade também encontra eco em discussões filosóficas e antropológicas no Brasil, que procuram compreender a relação entre indivíduo, natureza e cosmos. A ideia de que eventos externos podem espelhar estados internos da psique oferece uma ponte entre diferentes campos do saber e enriquece a compreensão da experiência humana em sua totalidade. A contribuição de Jung, assim, não se restringe à psicologia. Ela se estende a uma visão de mundo que valoriza interconexão, profundidade e significado inerente aos fenômenos.
Talvez a ênfase de Jung na transformação como critério revele menos uma propriedade intrínseca da sincronicidade e mais uma aposta ética. Ele não estava apenas descrevendo um fenômeno psicológico. Estava também convidando a uma postura de abertura e responsabilidade diante dos sinais do inconsciente. Se o inconsciente nos envia mensagens tão significativas, por que não nos dispor a escutá-las com atenção e reverência? Se o Self se manifesta nas coincidências da vida, por que não permitir que essas manifestações nos interpelem e orientem nosso caminho?
O apelo do sentido
A questão, portanto, não é se a transformação ocorre como uma decorrência necessária e automática de um evento sincronístico. A questão central é se nos autorizamos a ser transformados pelo que encontramos e vivenciamos. A sincronicidade, assim como o sonho e o sintoma, carrega uma força de apelo intrínseca. O fato de esse apelo não ser atendido ou compreendido de imediato não o invalida em sua essência. Ele apenas permanece suspenso, como uma carta não aberta, aguardando o momento em que talvez possamos lê-la e integrar seu significado à nossa jornada existencial. A sincronicidade permanece, assim, como um convite constante à expansão da consciência e à busca de um sentido mais profundo na tapeçaria da vida.
A orquestra oculta do universo
Este ensaio aborda o conceito de sincronicidade, conforme definido por Carl Gustav Jung, explorando suas implicações na interconexão entre fenômenos psíquicos e eventos externos. Amplia essa reflexão com os conceitos de Unus Mundus e Sinequismo, que postulam uma realidade subjacente unificada, abrangendo mente e matéria em um constante metafísico conectado às dimensões arquetípicas psicóides.
A discussão sobre sincronicidade ganha densidade ainda maior quando observamos a tensão entre definição estrita e definição geral do conceito. Se o tertium comparationis, isto é, o elemento comum de sentido ou significado, estiver plenamente reconhecido pelo sujeito, então a sincronicidade se apresenta em sua forma mais rigorosa, como uma coincidência significativa vivida e percebida como tal. Nesse caso, não basta que o evento ocorra. É preciso que ele seja reconhecido interiormente como portador de sentido. Já na acepção mais ampla, Jung admite que certas ordenações acausais, como a divinação ou padrões simbólicos que se repetem na experiência, podem ser compreendidas como manifestações sincrônicas mesmo antes de uma elaboração consciente completa.
Essa distinção abre uma questão importante. Se a sincronicidade depende do reconhecimento do sentido para ser definida em sua versão estrita, então o fenômeno estaria condicionado à percepção do observador. Mas, se adotamos a definição mais geral, parece possível que o evento sincronístico exista independentemente da leitura que fazemos dele. O acontecimento pode estar lá, em sua potência simbólica, ainda que não tenha sido traduzido pela consciência. Isso nos obriga a pensar que o fenômeno e sua interpretação nem sempre coincidem no mesmo tempo psíquico.
Há ainda um ponto decisivo. Um evento pode ser sincronístico e, ainda assim, ser lido por meio das projeções sintomáticas do indivíduo. Nesse caso, o sentido aparece, mas aparece distorcido, capturado por defesas psíquicas, por resistências ou por complexos que impedem a transformação. A experiência ocorre, porém seu efeito não se organiza em direção a uma mudança de comportamento ou de consciência. Surge então uma pergunta delicada. Se uma sincronicidade acontece, mas não é compreendida como tal, ela deixa de ser sincronicidade? Ou continua sendo, apenas não tendo sido acolhida pelo sujeito em sua dimensão mais fecunda?
A meu ver, essa é uma das questões mais férteis da discussão. É possível admitir que o acontecimento sincronístico tenha ocorrido, mesmo que sua compreensão tenha sido parcial, tardia ou bloqueada. Afinal, nem todo sentido é imediatamente assimilado. Muitas vezes, a psique recebe o acontecimento, mas o traduz por vias sintomáticas, deslocando seu potencial transformador para outros sintomas, outras repetições e outras formas de manifestação. Nesse caso, a sincronicidade não desaparece. Ela permanece como um dado da experiência, embora seus efeitos imediatos não tenham sido integrados de modo consciente.
Isso nos leva a outra dúvida central. A sincronicidade deve produzir efeito apenas naquele que foi agente ou protagonista do evento, ou pode também agir no entorno? Penso que o problema aqui é decisivo. Pode acontecer de o sujeito diretamente envolvido não elaborar a experiência nem se transformar com ela, enquanto pessoas ao redor reconhecem o acontecimento, são afetadas por ele e até reorganizam sua percepção da vida a partir disso. Nessa hipótese, o evento parece ultrapassar o campo individual e produzir uma onda de sentido no ambiente relacional.
Nesses casos, talvez seja útil pensar que a sincronicidade não se limita ao efeito subjetivo imediato de quem a viveu, mas pode irradiar consequências em outros sujeitos, especialmente quando o acontecimento toca algo arquetípico e mobiliza a compreensão coletiva. Ainda assim, é preciso cautela. Nem todo efeito no entorno define, por si só, uma sincronicidade. Pode ter havido apenas um evento potencialmente significativo, cuja leitura foi construída posteriormente por outros observadores. O ponto delicado é distinguir entre o acontecimento em si, sua recepção e o efeito simbólico que ele produz no campo humano ao redor.
Por isso, a questão talvez não seja escolher entre uma definição rígida e outra mais ampla, mas reconhecer que a sincronicidade possui camadas. Há o evento, há o sentido, há a leitura subjetiva e há a transformação possível, que pode ocorrer no indivíduo, no entorno ou em ambos. Em outras palavras, a sincronicidade não se reduz ao instante brilhante da coincidência. Ela inclui também o processo de elaboração que se segue, ainda que de modo silencioso, difuso ou tardio. A própria dúvida diante da experiência já faz parte do fenômeno.
Sincronicidade e práticas mânticas como tarot, runas e I Ching
Ao ampliar o conceito de sincronicidade, chegamos a um território particularmente fértil, o das práticas mânticas, como o tarot, as runas e o I Ching. Nesses sistemas simbólicos, o que está em jogo não é uma previsão mecânica do futuro, mas uma forma de diálogo entre a subjetividade e o acontecimento. A tiragem, a consulta ou o lançamento dos hexagramas não funcionam como engrenagens de um destino fechado. Funcionam, antes, como espelhos simbólicos que captam a qualidade do momento vivido e devolvem ao sujeito uma imagem carregada de sentido.
É justamente aqui que Jung se torna decisivo. Ao apresentar o I Ching, ele afirma que “O método se baseia, como todas as técnicas divinatórias ou intuitivas, no princípio da conexão sincronística ou acausal. Na prática, como admitirá qualquer pessoa sem preconceito, ocorrem muitos casos evidentes de sincronicidade que se poderiam considerar racionalmente ou um tanto arbitrariamente como simples projeções. Mas, supondo que eles sejam realmente aquilo que parecem ser, então seriam coincidências significativas para as quais, enquanto sabemos, não há explicação causal” OC 8/3 § 866.
Essa formulação é muito importante porque desloca a discussão da esfera da superstição para a esfera da experiência significativa. Jung não está dizendo que o I Ching, o tarot ou as runas substituem o pensamento crítico. Ele está sugerindo algo mais sutil. Há momentos em que a vida parece responder por símbolos, como se o inconsciente coletivo e a situação concreta estivessem em ressonância. O método mântico, nesse sentido, não cria o sentido do nada. Ele o revela, ou melhor, o deixa aparecer em uma configuração que toca simultaneamente o mundo interno e o mundo externo.
O tarot, por exemplo, pode ser compreendido como uma linguagem imagética da alma. Cada carta não é apenas um signo isolado, mas um campo de tensões, afetos, arquétipos e possibilidades. A leitura não deveria ser reduzida a um manual de respostas prontas, como se a vida coubesse num carimbo metafísico. O valor do processo está na capacidade de provocar reflexão, reorganizar percepções e favorecer uma escuta mais profunda do momento presente. Quando isso acontece, a consulta deixa de ser mero adorno simbólico e passa a operar como experiência sincronística de elaboração.
Algo semelhante pode ser dito das runas. Seu poder não reside numa causalidade oculta que manipula o destino, mas na força de condensar imagens arcaicas que falam ao sujeito em um nível pré-racional. A pergunta formulada, o gesto de lançar, o símbolo que emerge e a interpretação que se segue formam um campo de significação que pode ser lido como acausalidade viva. Há, aí, uma espécie de teatro do inconsciente em que o acaso aparente se converte em linguagem. E a linguagem, como sabemos, nunca é inocente. Ela revela, desloca, provoca e às vezes desarruma com elegância o que estava cristalizado.
No caso do I Ching, essa dimensão se torna ainda mais nítida. A consulta não procura impor uma certeza, mas favorecer uma resposta simbólica ao instante. O hexagrama não é um veredito, mas uma configuração de forças em movimento. Ele nos ensina que o mundo não se reduz ao cálculo e que há momentos em que a sabedoria nasce da disposição para ouvir o que a situação diz, e não apenas o que o ego deseja ouvir. Nesse ponto, a sincronicidade aparece como um acontecimento de sentido que pede discrição, humildade e maturidade interpretativa.
Isso também nos ajuda a evitar dois equívocos frequentes. O primeiro é o ceticismo simplificador, que chama tudo de projeção e encerra a questão sem realmente examiná-la. O segundo é o literalismo mágico, que transforma qualquer símbolo em sentença absoluta. Jung parece nos convidar a uma terceira via. Nem ingenuidade, nem desdém. O que existe é uma experiência simbólica séria, que merece ser acolhida como possibilidade real de reorganização psíquica. O símbolo não substitui a realidade. Ele a aprofunda.
Para uma leitura junguiana, portanto, tarot, runas e I Ching podem ser compreendidos como dispositivos de ampliação de consciência. Eles não nos dizem o que fazer de modo mecânico. Eles nos colocam diante de uma imagem que precisa ser metabolizada. O que importa não é apenas o resultado da consulta, mas a qualidade da presença do sujeito diante do símbolo. Se a leitura produz reflexão, deslocamento interno e maior responsabilidade diante da vida, então ela cumpriu uma função decisiva. Nesse sentido, a sincronicidade não é um truque do acaso, mas uma pedagogia do sentido.
Talvez o ponto mais delicado seja este. As práticas mânticas se tornam férteis quando não são usadas para fugir da realidade, mas para atravessá-la com mais lucidez. Elas podem ser um convite ao autoconhecimento, ao diálogo com a sombra e ao reconhecimento de que nem tudo o que importa se prova por causalidade. Algumas coisas se mostram por ressonância. E quando isso acontece, a vida ganha uma espécie de luz oblíqua, aquela que não resolve tudo, mas nos ajuda a enxergar melhor o que estava pedindo atenção.
Se olharmos por esse ângulo, a sincronicidade não é apenas o instante brilhante da coincidência, mas também o processo de elaboração que ela desencadeia, ainda que de modo silencioso. Às vezes, o sentido não age apenas em quem viveu o acontecimento, mas também em quem o testemunha, o escuta ou o interpreta. Assim, o fenômeno pode ser simultaneamente pessoal e relacional, íntimo e coletivo, imediato e tardio.
Por fim, a própria dúvida do sujeito diante da experiência já faz parte do fenômeno. Perguntar se aquilo foi ou não uma sincronicidade é, em certo sentido, reconhecer que algo tocou uma zona limítrofe entre o visível e o invisível, entre o acaso e o sentido, entre o fato e a interpretação. Talvez seja exatamente aí que o conceito mostre sua força. A sincronicidade não se deixa aprisionar por uma resposta simples. Ela nos obriga a pensar o tempo, a transformação, a leitura simbólica e o alcance do acontecimento para além do indivíduo.
Para ampliar remeto o leitor para outro artigo que escrevi, que está neste link:
https://blog.ijep.com.br/a-orquestra-oculta-do-universo-produz-a-sincronicidade-e-a-danca-da-realidade/
Este outro artigo amplia uma pouco mais o conceito de Sincronicidade, conforme definido por Carl Gustav Jung, explorando suas implicações na interconexão entre fenômenos psíquicos e eventos externos. Ampliando-o com os conceitos de Unus Mundus e Sinequismo, que postulam uma realidade subjacente unificada que engloba mente e matéria em um constante metafísico, conectados com as dimensões arquetípicas que são psicóides.
Referências
Jung, C. G. (1952). Sincronicidade: Um princípio de conexões acausais. Obras Completas, Vol. 8/3. Vozes.
Jung, C. G. (1969). Aion: Estudos sobre o simbolismo do Self. Obras Completas, Vol. 9/II. Vozes.
Jung, C. G. (1970). Mysterium Coniunctionis. Obras Completas, Vol. 14. Vozes.

