Resumo: O presente ensaio busca uma reflexão sobre como a sombra pode se materializar em violências, usando como foco a população LGBTQIA+. O ensaio passeia pelos conceitos de sombra, projeção e complexo de bode expiatório, além do conceito das minorias psicológicas.
Pessoas LGBTQIA+ têm 280% mais chances de sofrer algum tipo de agressão ou abuso durante a vida (COUTER apud SOUZA et al, 2022).
Essas pessoas também apresentam uma tendência maior a quadros depressivos, ideações suicidas e abuso de substâncias. Enquanto por muito tempo se atribuiu esse quadro ao caráter e à individualidade, hoje é possível observar que o preconceito e a discriminação que sofrem na verdade causam, durante o decurso de uma vida, feridas que muitas vezes não cicatrizam. Isso porque recebem a projeção de sombra coletiva, que se materializa na violência implícita e explícita sofrida por essa parte da população.
Até hoje perdura uma crença – que permeia desde mentes individuais, e alguns segmentos da sociedade como a religião e até a ciência – de que a existência humana no campo afetivo-sexual só pode se dar de forma heterossexual e binária. Apesar de, historicamente, a humanidade apresentar grande diversidade em formas de ser e amar.
Registros históricos e mitos mostram que a homossexualidade e a transexualidade, por exemplo, existem desde que a humanidade surgiu.
Povos indígenas das Américas, da Ásia e da Oceania apresentavam classes de gênero além do masculino e feminino. Inclusive, alguns tendo uma espécie de terceiro gênero ou denominações específicas para pessoas homossexuais ou transgênero como os Dois-Espíritos na América do Norte, Mahu na Indonésia e Hijra na Índia (ROUGHGARDEN, 2004). Além da conhecida história da homossexualidade na Grécia antiga, chamada de pederastia, que consistia numa espécie de relação tutor-aluno.
O todo-poderoso Zeus, por exemplo, teve em Ganimedes um amante, levando-o para o Olimpo. Em outro momento ele e Hera utilizam o pobre profeta Tirésias como instrumento de disputa entre masculino e feminino. Outra figura mitológica que troca de gênero é Caeneus, uma mulher que ao ser violentada por Poseidon pede para se tornar um homem invencível/inviolável (BRANDÃO, 1987).
Muito do preconceito contra pessoas LGBTQIA+ se dá por serem pessoas que não vivem de acordo com a norma ou com o que se considerou por muito tempo a normalidade.
Essas pessoas, por destoarem do que se espera de uma pessoa seja no aspecto afetivo-sexual ou na identidade, sofrem com as projeções de sombra e com a manifestação da síndrome do bode expiatório.
A definição das normas de gênero ganha força no século XVIII com as críticas ao comportamento e a tentativa de criação de uma fronteira rígida entre o que é ser homem e mulher e entre o que é exclusivamente masculino e feminino. Desde então, passa-se a acreditar que certas atividades, vestimentas e costumes são exclusivos do homem ou da mulher, tornando aqueles que não se encaixam no padrão algo a ser corrigido ou eliminado. Isso sendo reforçado dioturnamente pela religião cristã quando falamos de civilização ocidental.
Associa-se então a pessoa que não se encaixa como problemática e essa camada da população passa a receber todo tipo de projeção coletiva, tornando-se o bode expiatório, principalmente em momentos de tensão e instabilidade. De alguma forma atribui-se ao desviado da norma a causa de catástrofes, como punição dos deuses. Isso pois, se entendia que era uma escolha da pessoa e uma afronta a Deus, mesmo que, sabemos hoje, ninguém escolhe ser LGBTQIA+, nasce-se assim.
Kurt Lewin denominou as parcelas da população mais vulneráveis aos dissabores coletivos de minorias psicológicas.
Segundo Lewin, as características de uma minoria psicológica são a ausência de representatividade e autonomia, tendo seu destino coletivo atrelado a outro grupo, não necessariamente menos indivíduos em relação à população em geral, como é o caso das mulheres, por exemplo. Lewin cunhou sua teoria estudando os judeus durante a Primeira e a Segunda Guerra. Ele buscou entender os mecanismos psicológicos por trás da perseguição ao seu povo e as dinâmicas sociais intra e extra grupo (MAILHIOT, 2013).
Lewin também identificou que os grupos minoritários tendem a ser alvo de uma agressividade deslocada do grupo dominante ou de uma minoria privilegiada, que manobra as massas para direcionar sua violência a grupos desfavorecidos ou com poucas defesas. Apesar da atitude individual de pessoas ligadas à uma minoria ser usada muitas vezes como justificativa para o preconceito e a discriminação, a psicologia social e a teoria de Lewin apontam que na verdade a questão é coletiva, e muitas vezes não se justifica pelas razões mais comumente apresentadas como motivo de discriminação.
A maioria sempre tem interesse em barrar a aquisição de direitos e privilégios pelas minorias.
Usando como exemplo os judeus que Lewin estudou, o autor aponta que em 400 anos os motivos de perseguição foram diversos, desde a religião no passado até a um preconceito baseado em teorias racistas com o advento do nazismo. Ele também aponta que é uma ilusão dos minoritários acreditarem que se forem bem-sucedidos serão aceitos pela maioria, na verdade, em momentos de crise serão os primeiros a serem perseguidos. Pode-se observar esse fenômeno também em relação às mulheres, que foram queimadas por anos em fogueiras, numa clara perseguição.
O fenômeno do bode expiatório consiste em identificar pessoas ou grupos como causadores do mal ou de delitos, responsabilizá-los por isso e expulsá-los da vida comunitária, negar direitos e às vezes até a própria humanidade, a fim de proporcionar ao restante da comunidade um sentimento de inculpabilidade e reconciliação com padrões coletivos. Proporciona aos membros da comunidade a sensação de segurança e de perfeição, uma certa identificação com o padrão divino e com o que é “correto”, tudo o que não se encaixa nesse padrão é taxado como demoníaco, no entanto, apenas atua como forma de negação da sombra, uma das maneiras mais conhecidas de se livrar da culpa, é criando bodes expiatórios (KAST, 2022; PERERA, 1991).
A população LGBTQIA+ não é diferente. Assim como dito acima, pessoas assim existem desde sempre, porém, a relação da maioria para com elas é que se transforma. O que era punido por ser pecado, passa a ser crime e depois doença.
Para Jung:
Sentimo-nos satisfeitos porque a pessoa perversa cometeu o crime por nós. Este é o sentido profundo de Cristo, enquanto redentor, ter sido crucificado entre dois ladrões; eles também, à sua maneira, eram redentores da humanidade, eram os bodes expiatórios (JUNG, 2015a, §210).
Tudo que é mau e inferior, que não queremos reconhecer em nós mesmos, atribuímos aos outros (JUNG, 2013b)
A negação da sombra na situação do bode expiatório é um desafio, pois o sacrifício ou a exclusão de tal figura representa a tentativa de controle do homem perante a natureza e as intempéries divinas, ao mesmo tempo que o adverte da sua impotência e desamparo. Para Jung (2016, §44) “Preferem inventar o mundo heroico, além do bem e do mal, e cortam o nó górdio em vez de desatá-lo”.
Na atualidade essa realidade tem, entre tropeços, avançado na maioria dos países do mundo.
A OMS (Organização Mundial da Saúde), APA (Associação Americana de Psiquiatria), CFP (Conselho Federal de Psicologia) e CFM (Conselho Federal de Medicina) deixaram de categorizar a homossexualidade e a transexualidade como doenças, abrindo espaço para a inclusão e a aquisição de direitos, trazendo visibilidade à população. No entanto, não faltam violências reais e simbólicas contra esse grupo, como as malfadadas terapias de conversão praticadas por igrejas e estabelecimentos de saúde.
Ainda paira na sociedade e, infelizmente parece estar em ascensão, a crença de que a não normatividade é a causa das mais diversas mazelas sociais e econômicas, com base em moralismos vazios e fazendo com que indivíduos se sintam à vontade para bradar impropérios dos mais absurdos contra a população LGBTQIA+ sem qualquer consequência. Esses discursos validam e dão coragem para ação a indivíduos praticarem violências, assassinatos, discriminações e outras agressões contra essa população, acreditando estarem em seu direito de maioria.
Além dos ataques aos indivíduos por meio de violências e até assassinatos, coletivamente há uma inércia legislativa na consolidação dos direitos, no entanto, para revogá-los há uma certa celeridade. Sugiro uma pesquisa sobre iniciativas legislativas em revogar o direito à constituição familiar entre pessoas do mesmo gênero, afirmação de gênero entre outros. Observe, por exemplo, as iniciativas do presidente Donald Trump para a finalização dos programas de diversidade e inclusão.
Por anos e anos foram negados os mais diversos acessos às pessoas por discriminação de gênero e sexualidade e, quando esse quadro começa a mudar na primeira crise os direitos são revogados. Isso não se aplica somente à população LGBTQIA+, mas a todas as minorias psicológicas.
Não se pode esquecer: o inconsciente de uma pessoa (ou grupo) se projeta sobre outra(s) pessoa(s), isto é, aquilo que alguém não vê em si mesmo, passa a censurar no outro.
Este princípio tem uma validade geral tão impressionante que seria bom se todos, antes de criticar os outros, se sentassem e ponderassem cuidadosamente se a carapuça que querem enfiar na cabeça do outro não é aquela que se ajusta perfeitamente a eles (Cf. JUNG, 2013b).
Por último, gostaria de trazer a música Geni e o Zepelim de Chico Buarque para essa conversa.
Na sua genialidade, Chico traduz a dinâmica do bode expiatório na figura da sofrida Geni. Não sabemos ao certo quem é Geni, apenas que é uma marginalizada pela sociedade. Geni está sempre entre os excluídos e sofre diariamente agressões da sociedade em que está inserida, até o momento de crise em que é apresentada ao sacrifício, e, na vã esperança de talvez ser posteriormente aceita, aceita se sacrificar para salvar àqueles que sempre a condenaram. O destino de Geni nunca está, nem esteve em suas mãos.
A partir do momento em que a maioria se vê de joelhos diante de um algoz e seu destino depende daquela que tanto desprezaram, imploram por sua misericórdia. Geni, com sua inclinação de acolher os excluídos acaba cedendo aos apelos e, mais uma vez, sofre as mais diversas violências, como sacrifício. No entanto, ao retornar, volta a ser discriminada e agredida.
As pessoas LGBTQIA+ causam medo, pois confrontam pessoas com a liberdade individual, apresentada pelo Self de maneira simbólica.
De alguma forma questionam o monoteísmo do ego, que se sente desafiado quando a diversidade questiona suas certezas e descobertas, baseadas nos valores dominantes das maiorias psicológicas e das minorias privilegiadas. Cada assassinato, suicídio ou agressão a uma pessoa LGBTQIA+ é uma tentativa de negação da diversidade humana no agressor.
As minorias privilegiadas jamais renunciarão a seus privilégios em detrimento dos direitos de qualquer outro grupo, e, infelizmente, manipulam a massa mantendo-a na inconsciência de seu lugar enquanto atacam as minorias indefesas. Massa essa que tem as mãos sujas de sangue, como executora indireta de um crime.
Me. Mauro Angelo Soave Junior – Analista Didata em formação
Dra. E. Simone Magaldi – Analista Didata IJEP
Bibliografia e Referências:
BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega v. III. Petrópolis: Vozes, 1987.
GRUPO GAY DA BAHIA. Mortes violentas de LGBT no Brasil em 2024. Acesso em 01 dez de 2025.Disponível em: https://grupogaydabahia.com.br/mortes-violentas-de-lgbt-no-brasil-2024/
Jung, Carl G. A prática da psicoterapia/ O.C. 16/1. Petropólis: Vozes, 2013a.
______ Civilização em Transição/ O. C. 10/3. Petrópolis: Vozes, 2013b.
______ A vida simbólica: escritos diversos/ O.C 18/1. Petrópolis: Vozes, 2015a
______ Os arquétipos e o inconsciente coletivo O.C 9/1. Petrópolis: Vozes, 2016.
KAST, Verena. Abandonar o papel de vítima: viva a sua própria vida. Petrópolis: Vozes, 2022.
MAIHIOT, G. B. Dinâmica e gênese dos grupos: Atualidade das descobertas de Kurt Lewin. Petrópolis: Vozes, 2013.
PERERA, Sylvia Brinton. O complexo de bode expiatório, Rumo a uma Mitologia da Sombra e da Culpa. São Paulo: Cultrix, 1991.
ROUGHGARDEN, Joan. Evolução do Gênero e da Sexualidade. Tradução: Maria Edna Tenório Nunes. Londrina: Editora Planta, 2004.
SOAVE JUNIOR. M. A. A arteterapia como ferramenta para o enfrentamento dos efeitos do estresse de minoria em pessoas LGBTQIA+. Monografia de Formação de Membro Analista do IJEP. Brasília, 2024. Disponível em https://www.ijep.com.br/biblioteca-ijep/a-arteterapia-como-ferramenta-para-o-enfrentamento-dos-efeitos-do-estresse-de-minoria-em-pessoas-lgbtqia
SOUZA et al. Desfechos negativos em saúde mental de minorias de sexo e de gênero: uma análise comportamental a partir da teoria do estresse de minorias. Revista Perspectivas. Ed. Especial: Estresse de Minorias pp.069-085. 2022.
Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa – IJEP: Matrículas abertas – www.ijep.com.br


