Resumo: O artigo discute como o canto e o cantar funcionam como via de expressão e integração psíquica. A voz é apresentada como mediadora entre consciente e inconsciente, revelando complexos e conteúdos emocionais profundos. A prática vocal no setting terapêutico ativa padrões afetivos ligados à transferência e mobiliza o terapeuta pela contratransferência, criando um campo sonoro relacional. A música e o canto permitem identificar e transformar complexos, favorecendo a diferenciação e reorganização psíquica. Assim, o cantar torna-se instrumento clínico e simbólico de cura e individuação.
Desde minha infância, fui profundamente tocada pela experiência de cantar, principalmente pela vivência com a minha avó, que adorava Nelson Gonçalves.
O cantar não se limitava apenas a uma expressão estética, mas como um canal direto com as emoções mais profundas e com conteúdos psíquicos que, por vezes, escapam à linguagem racional. Este ano resgatei o canto como parte da minha rotina e, através dessa vivência pessoal, despertei a percepção de que minha voz — sua timidez, sua potência, suas variações — se manifestava como reflexo direto de meu estado psíquico.
A partir disso procurei livros que trouxessem uma abordagem junguiana sobre o canto e o cantar e encontrei, dentre outros o livro The Theory and Practice of Vocal Psychotherapy, de Diana Austin, que propõe que a voz humana é uma extensão da psique, que os registros vocais podem ser utilizados como mediadores entre consciente e inconsciente, além de poderem favorecer a integração de conteúdos psíquicos dissociados.
Nesse sentido, no presente artigo proponho que, sob a ótica da Psicologia Analítica, o uso terapêutico da voz pode se configurar como uma via simbólica de cura e integração psíquica. Para isso analisaremos brevemente, com base nos conceitos junguianos de complexos, self e individuação, articulados ao conceito de transferência e contratransferência, bem como à prática vocal como instrumento expressivo e transformador.
Inicialmente, observamos que a potência terapêutica do canto reside no fato de que, ao cantarmos, voz e corpo atuam como instrumentos intimamente conectados, vibrando em sintonia com os sons e a ressonância que a experiência proporciona.
Tanto fazemos música como somos a música.
Internamente, a voz acaba por nos ajudar a nos conectar com nossos corpos e expressar as nossas emoções, externamente ela nos ajuda a nos conectar com os outros.
Além disso, cantar é uma atividade neuromuscular, e padrões musculares são conectados aos padrões psicológicos e emocionais de resposta (Austin, 2008), o que possibilita que trabalhemos através do canto a integração de complexos, entendidos na psicologia analítica como conteúdos psíquicos autônomos de origem inconsciente.
Os complexos são assim definidos por Jung:
O que é, portanto, cientificamente falando, um “complexo afetivo”? É a imagem de uma determinada situação psíquica de forte carga emocional e, além disso, incompatível com as disposições ou atitude habitual da consciência. Esta imagem é dotada de poderosa coerência interior e tem sua totalidade própria e goza de um grau relativamente elevado de autonomia, vale dizer: está sujeita ao controle das disposições da consciência até um certo limite e, por isto, se comporta, na esfera do consciente, como um corpus alienum [corpo estranho], animado de vida própria. (2000, p.43)
Portanto, o cantar pode proporcionar aos clientes expressar o que estava oculto, dando voz aos sentimentos inconscientes, promovendo “uma libertação emocional, devido ao efeito da música, da letra e das memórias e associações ligadas à canção” (Austin, 2008, p. 20).
Além disso, a singularidade, o self pessoal, é revelado através do som e das características da voz. O processo do canto terapêutico possibilita que o cliente encontre sua própria voz, seu próprio som, dando mais passos para tornar-se cada vez mais completo, ou seja, caminhando para o processo de individuação. Contudo, Austin aponta que para que o canto seja utilizado como ferramenta terapêutica e que tenha força curativa é necessário que haja uma relação de afeto entre cliente e analista, manifestadas pela transferência e pela contratransferência.
A transferência é uma especialização do fenômeno inconsciente da projeção, se apresentando como o processo pelo qual o paciente projeta no analista conteúdos inconscientes – em especial os arquétipos parentais (imago) – impulsionado pelo princípio de Eros (ligação e relacionamento). É uma expressão do anseio interior pela totalidade psíquica (Self), tornando-se um palco vital para a reexperimentação e integração das polaridades, um passo essencial no processo de individuação.
É de se ressaltar que na relação entre analista e analisando a transferência toma um lugar de extrema relevância, pois para Jung (2012, p. 46), “o êxito ou fracasso do tratamento tem, no fundo, muito a ver com ela”, tratando-se de um laço e uma ligação que lhe dizem respeito e se criaram a partir de um inconsciente comum (2012, p. 61).
A projeção do paciente sobre o seu analista leva a uma perturbação, a uma afetação deste, nomeada de contratransferência, pela qual constata-se que da mesma forma que o analisando influencia o analista com seus conteúdos inconscientes, o analista influencia o analisando.
Nas palavras de Jung:
O fato de o paciente transmitir ao médico um conteúdo ativado do inconsciente também constela neste último o material inconsciente correspondente, através da ação indutiva regularmente exercida em maior ou menor grau pelas projeções. Médico e paciente encontram-se assim numa relação fundada na inconsciência mútua. (Jung, 2012 p. 59)
Assim, a contratransferência é uma reação inconsciente do analista aos conteúdos projetados pelo analisando na transferência, sendo um fenômeno mútuo; e para Austin, necessário ao sucesso da terapia do canto. Não é vista como um obstáculo a ser superado, mas como um instrumento de diagnóstico e uma fonte de informação valiosa sobre o material do paciente e o campo inconsciente compartilhado. A título de ilustração, trago um exemplo apontado por Austin no setting terapêutico em que ela e sua cliente Terry entraram num estado de ressonância psíquica e a partir daí construíram um terceiro elemento que a retirou da angústia que a levou procurar a terapia.
Terry sofria com uma autocrítica severa e sentimentos de vergonha e incapacidade, bem como não conseguia estabelecer limites para si e para os outros, sintomas que se somatizavam em sua voz, tornando-a aguda e estridente sempre que era afetada por uma circunstância relacionada à imagem internalizada de sua infância, quando conviveu com uma mãe hipercrítica, que a invalidava constantemente, e que tinha uma voz aguda, cortante e penetrante.
Na terapia vocal, a relação terapêutica atuou como temenos (Von Franz, 1992)
Isto é, um espaço de contenção e segurança, onde a transferência do complexo materno negativo de Terry se manifestou sonoramente. Através da improvisação vocal conjunta, a díade analítica constelou o complexo materno positivo em Austin, permitindo à terapeuta acolher e espelhar as dissonâncias afetivas (contratransferência). Essa sintonia no vínculo facilitou a desidentificação da paciente com a imago materna destrutiva, transformando a vergonha projetada em agressividade saudável integrada ao ego, validada pela escuta ativa e participativa da analista.
Além deste caso, Austin identificou de forma geral em seu estudo qualidades semelhantes na música de vários clientes quando eles estão presos em um aspecto traumatizante do complexo de poder. Ela relata que identificou em vários casos clientes que improvisaram em torno de questões envolvendo julgamento extremo ou abuso verbal ou físico, produzindo músicas com qualidades semelhantes. Eram músicas rápidas, com ritmo, melodia e harmonia repetitivos e um caráter compulsivo.
A autora relata ainda que o complexo de poder se manifestava nos clientes de forma consistente através do efeito que a música lhes afetava, pois cada um experimentava sua música como “intensa” e “com vida própria”. Sentiam que poderiam continuar tocando por horas sem qualquer mudança nos padrões musicais.
Uma cliente descreveu a sensação de estar “possuída”. Outro disse que se sentiu “atacado pelo ódio a si mesmo”. Dois dos clientes, quando solicitados a desenhar o que vivenciaram durante a improvisação, desenharam padrões giratórios que pareciam ciclones. Esses desenhos lembram o padrão circular espiral que foi denominado “vórtice traumático” pelo Dr. Peter Levine (Austin, 2008, p.43, tradução nossa).
Estar preso em um complexo é ser metaforicamente possuído.
Por isso a autora afirma que a música pode ser útil para identificar os sons de alguém capturado. Ademais, a música também pode ser extremamente eficaz para ajudar os clientes a retornarem a si mesmo, ajudando-os a diferenciar suas próprias vozes do estado de identidade inconsciente com o complexo. A música pode permitir que os clientes se conectem a sentimentos autênticos (o sentimento por trás do julgamento), podendo então se diferenciar do complexo e encontrar seu próprio ponto de vista (Austin, 2008).
Por todo o exposto, a prática vocal no setting terapêutico revela-se um recurso singular para acessar e transformar conteúdos inconscientes que se expressam com mais precisão pelo corpo e pela vibração sonora do que pela linguagem conceitual. Como propõe Diane Austin, o canto cria um campo de ressonância emocional que favorece a emergência de complexos, memórias e afetos, permitindo que sejam elaborados por meio da experiência estética, corporal e simbólica. A transferência torna esse processo possível, pois é na relação com o terapeuta que o canto se torna veículo vivo de padrões afetivos antigos, abrindo espaço para reorganização psíquica e reconfiguração de vínculos internos.
A contratransferência, integrada ao trabalho vocal, amplia esse campo de transformação ao revelar elementos do inconsciente compartilhado e ao permitir que a voz do terapeuta funcione como sustentação, espelho e presença simbólica.
Nesse encontro entre duas vozes — literal e metaforicamente — cria-se um espaço de individuação, onde o cliente pode diferenciar-se de seus complexos, reencontrar sua própria sonoridade e reafirmar sua singularidade psíquica ao integrar partes até então dissociadas.
Assim, o cantar, quando inserido na prática analítica, deixa de ser mero recurso expressivo e se torna caminho de cura profunda e de retorno à inteireza.
Marta Beatriz Conceição Guedes – Analista em formação pelo IJEP
Ana Paula Z. Maluf – Analista Didata do IJEP
Referências:
Austin, D. (2008). The Theory and Practice of Vocal Psychotherapy: Songs of the Self. London/Philadelphia: Jessica Kingsley Publishers.
Jung, C. G. (2000). A natureza da psique. Petrópolis: Vozes.
Jung, C. G. (2012). Ab-reação, anpalise dos sonhos e transferência. Petrópolis, RJ: Vozes.
Jung, C. G. (2014). Psicologia do Inconsciente. Petrópolis: Vozes.
Von Franz, M. (1992). Puer Aeternus: a Luta do Adulto Contra o Paraíso da Infância. São Paulo: Paulus.
Matrículas abertas – Psicologia Junguiana // Arteterapia e expressões criativas // Psicossomática – 2 anos – Certificação pelo MEC: www.ijep.com.br

