Resumo: Abstração e Empatia são atitudes da consciência ao se expressar esteticamente, através de imagens que revelam o movimento das relações psíquicas entre nós, nossas clientes e o mundo. Este texto convida a ampliar as formas de percepção sobre as imagens com um olhar mais desperto e analítico para as que emergem das experiências nem sempre agradáveis, mas potencialmente criativas.
Apresento inicialmente o texto, parte da expressão criativa:
“O sonho com aquele monstro verde só poderia ser vermelho. Se o verde do inconsciente transmitia alguma coloração das associações à natureza e à esperança, é no vermelho do sangue que ele quase se satisfaz no papel.
Ele flui, se liquefaz, alcança tonalidades, torna-se laranja de si-mesmo, diminui o cansaço do ontem e se torna no agora algo. São lâminas, onde em umas a densidade ainda quase grita, o azul da água daquela piscina cheia de cloro se faz presente, para dizer que a água estava ali. Não sei se a água acalmava ou alimentava aquela monstruosidade, se ela, a monstruosidade, estava dentro do cloro, limpador dos vermes aquáticos, higienizador ocidental e civilizatório ou se talvez a água continha e alimentava aquela cena onde o monstro verde estava, mas aqui, no papel, ela é só lembrada.
O azul dela, a água da piscina iluminada, se faz presente, talvez o azul seja a esperança do outro verde, da antinomia do verde cor do monstro que também se faz verde esperança. Mas o monstro, que aqui não se vê, mas se sente vermelho, estava acorrentado. Acorrentado naquele mar higienizado do mais vil cloro ocidental. Por que nomeei, ideologizei ou “ubiquei” o cloro ao ocidente? Talvez porque os rios do Pará sejam mais esperançosos do que a piscina ocidental do clube civilizado de Can Baró. Ideação, porque no Pará os rios também se sujavam, não tanto quanto o Tietê. Amanhã é dia de Nossa Senhora de Nazaré.”
No prefácio de 1937 de Tipos Psicológicos (2013), o médico e psicoterapeuta Carl Jung confessa que é da experiência diária com o doente que surge o seu livro.
De certa forma, toda a sua psicologia é uma fenomenologia em movimento; assim, inspirada pela mesma cadência, o fio deste texto analítico é conduzido a partir de uma vivência.
Viver a experiência do arrebatamento de um complexo pode não ser agradável em um primeiro momento, atuando no corpo; a psique se movimenta enquanto surgem novos símbolos e sonhos em busca da consciência. É da relação com um desses sonhos que surgiram as expressões criativas que as convido a olhar: são as imagens 1, 2 e 3 e o texto poético-onírico (apresentados no início deste artigo). É da imagem interior que surge uma necessidade que antecede à expressão estética, e que aqui encontrou sua forma através da atitude abstrativa, sobre a qual abordaremos mais adiante.
É pertinente recordar que imagem, no campo da psicologia analítica, trata-se de uma representação imediata que se relaciona com a percepção do objeto (Cf. Jung, 2013c, §827).
E para trazer para a contemporaneidade, apresento um texto do artista David Hockney, no qual se refere similarmente sobre a imagem no cubismo:
“(…) uma questão de percepção e representação da realidade. Para mim, a maioria das distinções na arte, como abstrato oposto ao figurativo, me parece falsa. Existem muito poucos conflitos na arte que, na minha opinião parecem realmente tangíveis e valem a pena, exceto por apenas um: o desejo de representar”[1] (Hockney, 199, p. 22).
Se no campo artístico esse conflito aparente eleva o olhar ao encontro da consciência e das relações com o espírito do tempo, no campo da Psique a experiência do mundo é atemporal. Ao voltar a observar as figuras 1, 2 e 3, revela-se uma imagem relacionada tanto ao inconsciente pessoal quanto à representação de uma imagem primordial, que diz respeito à expressão do Arquétipo (Cf. Jung, 2013c, §832). É por isso que ao circumambular a imagem estamos em relação direta com a Psique (Abt, 2005, p. 15), movendo-nos com uma complexidade de materiais de diversas procedências, mas que têm um produto homogêneo, com um sentido constelado naquele momento, que é a imagem. (Cf. Jung, 2013c, §829).
Embora a imagem esteja em permanente diálogo, uma espécie de arte da interpretação delas, como escreve Theodor Abt, tornou-se algo importante para a formação da analista junguiana (Cf. Abt, 2005, p. 12), uma vez que para Jung, o inconsciente se manifesta em sonhos, fantasias, visões e imaginações ativas sempre na forma de imagens (Abt, 2005, p. 12). Ainda que nesta pesquisa referentes do universo artístico sejam mencionados, em uma conferência de 1929, publicada no livro A Prática da Psicoterapia (2013), Jung expõe que à esse material criativo não se trata de valor artístico, e sim “da eficácia da vida sobre o próprio paciente” (2013b, §104). E então reflexiona sobre sua prática perguntando-se: “Mas afinal, por que razão levo os pacientes a se exprimirem por meio de um pincel, de um lápis, de uma pena (…)? e ele mesmo responde:
“Antes de mais nada, o que interessa é que se produza um efeito. No estágio psicológico infantil acima descrito, o paciente permanece passivo. Nesta fase, passa a ser ativo. Passa a representar coisas que antes só via passivamente e dessa maneira elas se transformam em um ato seu. Não se limita a falar do assunto, também o executa. Psicologicamente isso faz uma diferença incalculável: uma conversa interessante com o terapeuta, algumas vezes por semana, mas com resultados que – de alguma forma – ficam no ar, é totalmente diferente do que ficar horas a fio, às voltas com obstinados pincéis e tintas, para produzir algo, que à primeira vista parece não ter o menor sentido. (…) Além disso, a execução material do quadro obriga-o a contemplar cuidadosa e constantemente todos os seus detalhes. Isso faz com que o efeito seja plenamente desenvolvido. Desse modo, introduz-se na fantasia, um momento de realidade, o que lhe confere um peso maior e, consequentemente, lhe aumenta o efeito” (Jung, 2013b, §105-106).
As pinturas acima (1, 2 e 3) e o texto inicial surgiram a partir de um sonho e da necessidade de pintar o sentimento atravessado. São imagens exógenas originárias do fluxo entre psique e objeto, uma ampliação plástica realizada em estágio de rebaixamento cognitivo e que vai criando consciência e desidentificando-se, pouco a pouco, do objeto que inicialmente está carregado de conteúdo mais inconsciente e emocional.
Pintar e escrever possuem um efeito terapêutico per-se, porém, Jung vai relatar que há uma necessidade de compreensão intelectual e emocional das imagens, “a fim de integrá-las ao consciente, não só racional, mas também moralmente” (Jung, 2013b §111).
Para compreender intelectualmente a atitude estética, é preciso revisitar o caminho que precedeu as imagens aquareladas: o corpo que primeiro sentiu — aqui uma expressão somática do complexo —; depois o sonho – em possíveis compensações, pedagogias e sentido teleológicos que podem revelar as relações entre o “eu” e os outros complexos; e por fim a pintura e o texto poético que nasceram do sonho. Nada se aproxima à consciência por salto: são movimentos vagarosos de percepção da simbologia da imagem: no corpo, nos sonhos, e como será apresentado, nas expressões poéticas (aqui visual e textual).
O diálogo com as imagens, no caso as três aquarelas e o texto, pode suscitar diversas ampliações, junto à elas Jung ressalta a importância de uma interpretação sintética e moral, que se relaciona com a procura do centro (Cf. Jung, 2013b §111). Por se tratar de um curto ensaio, proponho neste texto um olhar breve sobre apenas alguns aspectos da experiência. Aqui enfatizo a cor e a em seguida mais cuidados sobre a sua forma, especialmente a abstração.
Nas figuras (1, 2 e 3) a “vontade da arte” escorre em água e vermelho, mesmo na primeira imagem, que poderia dizer que é a mais próxima do inconsciente, por ter sido a primeira a ser realizada com mais carga emocional. O aguado vermelho contradiz o texto, que faz referência a um monstro verde:
“O sonho com aquele monstro verde só poderia ser vermelho. Se o verde do inconsciente transmitia alguma coloração das associações à natureza e à esperança, é no vermelho do sangue que ele quase se satisfaz no papel.”
Aqui a imagem se apresenta na sua própria contradição: vermelho no papel, verde no relato. Entre corpo, sonho, pintura e texto nasce um campo de transformação. Visualmente na figura 2, uma harmonia emerge. Na figura 3, o centro se faz em uma forma mandálica.
A valorização da cor, sugerida pela contradição entre texto e imagem, ajuda na criação de consciência sobre o sentimento e movimenta a compreensão simbólica ao revisitar o material. “Entre o ‘eu faço’ e o ‘eu estou consciente daquilo que faço’ há não só uma distância imensa, mas algumas vezes uma contradição aberta” (Jung, 2013a, § 385).
Ainda do ponto de vista arquetípico, Jung comenta sobre a cor vermelha ao tratar da relação que se dá no limiar entre inconsciente e consciente, situação similar na qual foram elaboradas as aquarelas: “Usando aqui a analogia do espectro, podemos comparar a baixa dos conteúdos inconscientes a um deslocamento para a extremidade vermelha da faixa das cores, comparação esta extremamente sugestiva, na medida em que o vermelho é a cor do sangue que sempre caracterizou a esfera das emoções e dos instintos” (Jung, 2013a, §384).
O texto poético-onírico foi escrito logo em seguida das aquarelas, e a oposição verde–vermelho tornou-se dança, tensão criativa, paradoxo cromático de cores também complementares que abre passagem para as possibilidades, qualidades prognósticas da função intuitiva. Dessa forma, a imagem (antes sensorial, de forma inferior, depois sentimental) segue em movimento simbólico.
Para que a energia psíquica siga em movimento entre imagem e objeto, agora faz-se uma abertura de espaço para a observação intelectual direcionada para a atitude abstrativa na estética, através deste texto.
Compreende-se que para Jung a experiência do complexo mobiliza a energia psíquica que se direciona para uma harmonia. Porém, se essa dança carece de sentido para a totalidade do ser, é compreendida como sintoma de uma doença. No caso do sentido ser experienciado, esse complexo movimenta uma criação, uma expressão, por exemplo artística, e é ampliado diferentemente de uma doença. Essa vivência do sentido é estabelecida na relação com a personalidade do indivíduo.
De certa forma, já abordei a “vontade da arte” sob a relatividade da experiência psíquica pessoal. A partir deste ponto, volto-me para a psicologia que se manifesta através da atitude estética — no caso das figuras aqui apresentadas, pela via da abstração. Jung, ao ampliar seu conhecimento e realizar quase um estudo arqueológico das tipologias, observa — com base nos escritos de Wilhelm Worringer — que existem duas formas fundamentais de expressão estética: a empatia (Einfühlung) e a abstração (Abstraktion). A grande contribuição do historiador da arte, e que será recebida por Jung, é a demonstração de como ambas expressões não pertencem apenas ao nosso tempo; são movimentos antigos da alma humana, presentes desde sempre nas expressões da humanidade.
Para Jung, a atitude empática tem o direcionamento de transferência do conteúdo psíquico para o objeto. E é um conteúdo projetado, portanto mais vinculado ao sujeito que está inconsciente da relação, a impressão é de que o objeto fala por si. A empatia é uma extroversão, e para Worringer, referenciado por Jung, trata-se de um autoprazer objetivado, ou seja, só é bela a forma com a qual se tem empatia (Cf. 2013c § 554).
Inversamente à empatia há um movimento para dentro do sujeito que se afasta da identificação com o objeto, e que será chamado por Worringer de Abstração. Para Jung e para Worringer a exigência, ou a vontade de abstração é a consequência de uma grande inquietação interna do homem devido aos fenômenos do mundo externo (Cf. 2013c, § 555-556 ).
Há um trecho da obra de Worringer, citado por Jung que é essencial para a compreensão dos pressupostos psíquicos do anseio pela abstração:
“Temos que procurá-los no sentimento universal daqueles povos, em sua atitude psíquica para com o cosmo. Enquanto a exigência de empatia tem como condição um relacionamento de confiança feliz e panteísta entre o homem e os fenômenos do mundo externo, a exigência de abstração é a consequência de uma grande inquietação interna do homem devido aos fenômenos do mundo externo e que corresponde, do ponto de vista religioso, a uma coloração transcendental muito forte de todas as representações. Poderíamos chamar este estado de uma tremenda agorafobia espiritual. Quando Tibull diz que Deus criou neste mundo em primeiro lugar o medo[2], então podemos admitir que este mesmo sentimento de medo seja também a raíz da criação artística” (Worringer p. 16 apud Jung, 2013c, § 556 ).
Tal fato, como vai demonstrar a obra de Jung, é um paradoxo psíquico.
Se na consciência se dá uma atitude abstrativa, no inconsciente há uma profunda identificação com o objeto. E o inverso também acontece, se a atitude estética é empática, de identificação com o objeto, no inconsciente há um afastamento do mesmo.
A expressão estética que acontece por uma necessidade de compreensão de um fenômeno, é o movimento da energia psíquica que não se enrijece em um lado, e estabelece sempre uma nova relação, ainda não determinada.
No campo da filosofia e estética da arte, a chilena Andrea Soto Calderón observa: “as imagens têm um potencial para escavar um ponto de vista e introduzir outros, para produzir uma inflexão de um conteúdo que se tem por absoluto[3]” (Calderón, 2023, p. 109). Acredito que é essa potencialidade da imagem o que nos permite na análise observar que empatia e abstração são atitudes paradoxais e complementares.
Portanto, ao pintar, procurando expressar os sentimentos, há um afastamento da relação inconsciente com o objeto, e assim, torna-se mais consciente a relação com o mesmo. A atitude abstrativa, assim como a empática são conscientes, e o lado inconsciente que as precede é o oposto. É como se a atitude abstrativa fosse no inconsciente uma atitude empática, em relação ao objeto.
No caso da abstração, que é uma imagem viva, ela busca tornar o objeto inoperante (2013c § 558). Esse movimento psíquico pode ser intuído através da terceira imagem, na qual a forma mandálica se apresenta, e pequenas linhas de cor lilás (azul mais vermelho) surgem. Supõe-se que aqui há uma tendência tanto para o centro quanto para a harmonização e criação de consciência.
“Estas formas abstratas e de acordo com a lei são, pois, as únicas e melhores onde o homem pode descansar em fase da terrível confusão dada pela imagem do mundo” (Worringer apud Jung 2013c, § 562). Por tratar-se de expressões de origem arquetípicas, também se observaram essas diferenças de atitudes nas culturas do oriente e do ocidente. Referindo-se a essa identificação com o objeto, Jung vai utilizar o termo “participação mística” de Lévy Bruhl (2013c, § 564) .
Trata-se dessa carga de libido (energia psíquica) que o objeto recebe originalmente, e que é parte do inconsciente da pessoa tipicamente introvertida. Por isso, Jung vai escrever que “a abstração parece uma função que luta contra a “participação mística” primitiva. Ela o afasta do objeto para destruir os vínculos com ele. Leva, por um lado, à criação de formas artísticas e, por outro, ao conhecimento do objeto” (2013c, § 565). Por outro lado, na estética da empatia, o inconsciente é idêntico ao objeto, e o faz parecer sem vida, por isso a consciência é de atitude empática, necessária para que se possa conhecer a essência do objeto.
Em suma, ao analisarmos as atitudes tipológicas na expressão estética, abre-se a possibilidade de uma dança de vazão às necessidades psíquicas que as originaram, tanto do ponto de vista pessoal quanto arquetípico. Há um movimento em direção ao centro e concomitantemente na criação de consciência. A ética e a responsabilidade moral podem ser reencontradas através da análise do material, do fluxo criativo das imagens, ou seja, das expressões próprias e naturais da Psique.
Virgínia Vilhena – Analista em formação IJEP
José Luiz Balestrini Junior – Analista Didata IJEP
Referências:
ABT, Theodor. Introduction to Picture Interpretation: According to C.G. Jung. Zürich: Living Human Heritage Publications, 2005.
CALDERÓN, A. S. Imágenes que Resisten. Barcelona: La Virreira Centre de La Imatge, 2023.
HOCKNEY, D. Picasso. Paris: Daniel Lelong Editeur, 1999. ISBN 2- 86882-026-3
JUNG, C. G. A natureza da psique. 10 ed. Petrópolis: Vozes, 2013a.
JUNG, C. G. A Prática da psicoterapia. 16 ed. Petrópolis: Vozes 2013b
JUNG, C. G. Tipos psicológicos. 7 ed. Petrópolis: Vozes, 2013c
1 Tradução livre “Le Cubisme est affaire de perception et de représentation du réel. Pour moi, la plupart des distinctions en art, comme l’abstrait oppose au figurative, me paraissent fausses. Il y a très peu de conflits en art qui selon moi paraissent vraiment tangibles et valent la peine, à l’exception d’un seul : le désir de représenter.
2 Primum in mundo fecit deus timorem
3 Tradução livre “Las imágenes tienen un potencial para horadar un punto de vista e introducir otros, para producir una inflexión en un contenido que se tiene por absoluto”
FONTE DA IMAGEM: própria autora, 2025 – aquarela em tamanho postal
[1] Tradução livre “Le Cubisme est affaire de perception et de représentation du réel. Pour moi, la plupart des distinctions en art, comme l’abstrait opposé au figuratif, me paraissent fausses. Il y a très peu de conflits en art qui selon moi paraissent vraiment tangibles et valent la peine, à l’exception d’un seul : le désir de représenter.”
[2] Primum in mundo fecit deus timorem
[3] Tradução livre “Las imágenes tienen un potencial para horadar un punto de vista e introducir otros, para producir una inflexión en un contenido que se tiene por absoluto”

