Quem nunca se sentiu impotente frente a uma situação da vida, seja no trânsito, em um conflito no trabalho, no relacionamento? Por vezes, coisas que parecem banais – como uma palavra, um barulho, um olhar – podem, em um determinado contexto, ativar conteúdos inconscientes e constelar complexos que causam danos desproporcionais.
Os complexos, por carregarem uma grande carga afetiva, fazem parte da vida cotidiana de todos nós. Somos, em maior ou menor grau energético, constantemente atravessados por eles, impactando todas as áreas da nossa vida, pois atuam de maneira autônoma diretamente nas relações, sejam elas familiares, profissionais, afetivas ou amizades.
Conforme a definição de Jung, complexo:
É a imagem de uma determinada situação psíquica de forte carga emocional e, além disso, incompatível com as disposições ou atitude habitual da consciência. Esta imagem é dotada de poderosa coerência interior e tem sua totalidade própria e goza de um grau relativamente elevado de autonomia, vale dizer: está sujeita ao controle das disposições da es até um certo limite e, por isto, se comporta, na esfera do consciente, como um corpus alienum corpo estranho, animado de vida própria. (JUNG, 2013, p.43, grifos do autor)
O fator determinante de um complexo é o seu tônus afetivo. É a carga emocional que dá ao complexo sua autonomia. Quando um complexo é constelado, ocorre o rebaixamento do nível mental, ou seja, a consciência do Ego é enfraquecida e o complexo assume o controle dos nossos pensamentos, sentimentos e ações. Nas palavras do próprio Jung (2013, p.43): “os complexos podem nos ter”.
Foi justamente vivenciando e elaborando esses complexos que resolvi escrever esse artigo. No processo de análise junguiana, o trabalho de enfraquecer energeticamente o complexo é uma construção cuidadosa, minuciosa e que exige a participação ativa da consciência. Mas e quando somos constelados por um complexo e não temos o suporte imediato da terapia?
O que podemos fazer para despotencializar esses complexos?
A meditação pode ser uma ferramenta eficiente para reduzir a carga energética dos complexos e, consequentemente, os sofrimentos psíquico e emocional dos eventos. O objetivo não é trazer a meditação como uma atividade ligada às práticas religiosas, mas entender como o ato de meditar pode nos ajudar a identificar, elaborar e despotencializar os nossos complexos.
Jung (2013, p.21) entendia que: “É a partir de dentro que devemos atingir os valores orientais e procurá-los dentro de nós mesmos, e não a partir de fora. Devemos procurá-los em nós próprios, em nosso inconsciente. Aí, então, descobriremos quão grande é o temor que temos do inconsciente e como são violentas as nossas resistências.”
A palavra meditação, principalmente em sua raiz tibetana, significa “familiarizar-se com a sua própria mente, seus pensamentos, emoções e padrões habituais, permitindo observá-los sem julgamento para compreendê-los e transformá-los”.
No oriente, o objetivo da meditação não é relaxar, mas eliminar as perturbações da consciência. Muitas vezes, busca-se na meditação apenas um estado alterado de consciência, o relaxamento passageiro, a paz momentânea enquanto se está de olhos fechados. Embora agradável, esse estado não despotencializa os complexos.
Satchidananda explica que:
Os pensamentos obstrutivos apresentam-se em dois estágios: a forma potencial, antes que venham à superfície e sejam convertidos em ação; e os manifestos, que são aqueles que já estão sendo colocados em prática. É mais fácil controlar as coisas manifestas primeiro; depois, partindo do mais grosseiro, podemos lentamente adentrar no mais sutil. As formas-pensamento em estado potencial (samskaras) não podem ser removidas pela meditação. Quando você medita sobre essas impressões, você as traz à superfície. Você não pode destruí-las por esse meio, mas pode vê-las e compreendê-las com clareza, assumindo o controle sobre se elas devem ou não se manifestar em ação. Você pode rastreá-las até sua forma sutil e ver diretamente que o ego é a base de todos esses pensamentos obstrutivos. (SATCHIDANANDA, 2012, p.219, tradução nossa)
Essa observação sem julgamento proposta pela tradição oriental é, na linguagem da psicologia analítica, o primeiro passo para a desidentificação do complexo. Quando estamos inconscientes, nós somos o complexo (a raiva, o medo, a vítima). Porém, no momento em que meditamos e assumimos a postura de observadores da própria mente, criamos uma separação entre o EU e o objeto observado, que pode ser um pensamento, um sentimento, uma emoção, uma imagem ou uma situação específica.
Jung descreve esse processo, chamado de apercepção: “A apercepção é constituída de duas fases: a primeira é a apreensão do objeto, e a segunda a assimilação da apreensão à imagem previamente existente ou ao conceito mediante o qual o objeto é “compreendido” (2013, p.23)
Ao sustentar esse olhar atento, cortamos o suprimento de energia. Ao sustentarmos essa tensão dos opostos (o impulso de reagir versus a decisão consciente de observar), é possível gerar novas perspectivas e novas atitudes. O complexo não desaparece, mas sem a injeção constante de nossa atenção e identificação emocional ele sofre uma despotencialização. Nesse sentido, a meditação atua como um treino diário para fortalecer o ego frente aos impulsos do inconsciente.
Em tempo, ainda podemos trazer estudos da neurociência para “traduzir” o que acontece no cérebro durante o estado meditativo. Richard Davidson e Daniel Goleman, durante 40 anos de estudos e pesquisas, ao analisarem o cérebro de praticantes de meditação de longo prazo, identificaram alterações funcionais que explicam a perda de força dos complexos.
Eles mediram a velocidade de recuperação da amígdala após um evento disruptivo (podemos fazer um paralelo aqui com a constelação de um complexo). Em não-meditadores, uma imagem perturbadora mantém a amígdala ativa por muito tempo (ruminação), enquanto em meditadores experientes, a amígdala dispara, mas desliga quase que imediatamente.
Goleman demonstra que o indicador de saúde mental não é a ausência de perturbação emocional, mas a rapidez com que o cérebro retorna à linha de base após um gatilho. O meditador mais experiente, ao confrontar uma situação que ativaria um complexo, vivencia o impacto, mas seu circuito neural impede que a reação momentânea se transforme em horas de ruminação obsessiva.
Além disso, a pesquisa destaca o efeito das ondas gama. Enquanto em cérebros comuns essas ondas de alta frequência (associadas à integração de informações e insights) aparecem apenas em lampejos breves, em meditadores avançados elas se tornam um traço constante.
Desse estudo, trazem a definição de traços alterados na prática de meditação: “Um traço alterado — uma nova característica que surge com a prática da meditação — perdura independentemente da meditação. Traços alterados moldam como nos comportamos em nossa vida diária, não apenas durante ou imediatamente após meditar.” (GOLEMAN e DAVIDSON, 2017, posição 9 de 298)
Conforme descrevem Goleman e Davidson (2017), no começo da prática meditativa as mudanças são imperceptíveis, mas com a persistência, tornam-se visíveis, porém ainda flutuantes, elas vem e vão. É somente com a frequência da prática que as alterações se tornam constantes e duradouras.
Segundo a pesquisa, apenas sete horas de prática acumuladas ao longo de duas semanas já são suficientes para aumentar a conectividade nos circuitos cerebrais ligados à empatia e às emoções positivas. Goleman aponta que esse fenômeno — onde os efeitos se manifestam mesmo fora do momento da meditação — é o primeiro indício biológico de um ‘estado’ começando a se transformar em um ‘traço’ de personalidade, mas que, sem a continuidade diária, essas novas conexões tendem a se desfazer.
Embora os complexos sejam estruturais e, segundo Jung, não possam ser simplesmente eliminados, eles podem ser despotencializados. A meditação se revela, portanto, não como uma fuga da realidade, mas como um ato de coragem, introspecção e autoconhecimento. Ao treinarmos o olhar observador, retiramos a energia que antes constelava os nossos complexos e a devolvemos para a consciência.
Talvez a meditação não seja para todos e, decerto, nem todos sentir-se-ão atraídos pela prática. Mas é uma ferramenta que nos permite sentir a emoção sem nos tornarmos ela, garantindo que, diante dos diversos eventos e afetos do nosso cotidiano, tenhamos sempre a liberdade de escolha, e não apenas sermos reféns da reação.
Ricardo Mitsuo Sato – Analista em formação pelo IJEP
Glória Miranda – Analista Didata IJEP
Referências:
GOLEMAN, Daniel; DAVIDSON, Richard J. A ciência da meditação: como transformar o cérebro, a mente e o corpo. Objetiva, 2017. E-book
JUNG, Carl Gustav. A natureza da psique. 10.ed. Petrópolis: Vozes, 2013.
______ Psicologia e religião oriental. 9.ed. Petrópolis: Vozes, 203
SATCHIDANANDA, S. The Yoga Sutras of Patanjali: Translation and commentary by Sri Swami Satchidananda. Buckingham: Integral Yoga Policátions, 2012. E-book

