Sair da caverna e enxergar a luz é glorioso, mas e depois? O verdadeiro desafio é ter a coragem de descer de volta ao escuro para avisar quem ainda está apaixonado pelas próprias correntes.
A Ressaca da Luz
Imagine a cena. Você viveu sempre no escuro úmido de uma caverna. Você achava que a realidade era um teatro de sombras na parede. Era o equivalente antigo de rolar o feed das redes sociais, o mito da caverna contemporâneo. De repente, alguém arrasta você para fora. O sol queima suas retinas. A vastidão do mundo real causa vertigem.
O corpo inteiro sente o impacto dessa nova realidade. É uma verdadeira psicossomática do despertar. Aos poucos, a visão se ajusta. Você vê as cores, as formas e a verdade. É algo glorioso. Contudo, Platão não termina o Mito da Caverna no momento do êxtase. Ele impõe o maior de todos os dilemas.
O Dilema do Retorno
Esse dilema é o retorno. A verdadeira prova de fogo não é suportar a luz solar como aconteceu com o heroi do Mito da Caverna de Platão. É ter a coragem de descer de volta às trevas. Você precisa avisar os antigos companheiros de cativeiro. Eles assistem a uma reprise de quinta categoria. Como agir quando a sua visão mudou? O mundo ao redor continua apaixonado pelas próprias correntes.
Atingir uma “ampliação da consciência” é um evento solitário. Você enxerga um “espectro luminoso maior do que o da massa”. O primeiro sintoma é um isolamento quase melancólico. Você ri de piadas que ninguém entende. Você chora por tragédias que os outros ignoram. No entanto, essa mesma luz isola e impulsiona a alma. Ela guia você para um “servir maior”.
Despertando a Consciência da Consciência
Não desça à caverna com a arrogância de um profeta falso. Não chute as fogueiras alheias. A missão exige muita delicadeza. Você deve “estimular o entorno relacional”. Assim, eles mesmos desejarão virar o pescoço. O objetivo não é transferir a sua verdade para o outro. Isso nem caberia na cabeça dele.
Você precisa fomentar a “capacidade crítica e reflexiva”. Eles precisam ter consciência da cosmovisão e de suas consequências. A nossa tarefa hercúlea é “despertar a consciência da consciência”. Precisamos fazer o prisioneiro olhar para a sombra. Ele deve perguntar pela primeira vez quem segura aquele fantoche.
A Sabedoria do Kairós
Deixo um aviso aos navegantes entusiasmados. Tentar arrancar alguém da caverna à força costuma terminar mal. Platão já avisava sobre os perigos dessa atitude brusca. Se o homem liberto soltasse os outros abruptamente, eles o matariam. Sócrates provou isso com sua taça de cicuta. Por isso, esse “sacro-ofício” de parteiro de almas exige prudência.
A consciência não obedece ao relógio suíço de Cronos. Ela dança no “tempo de Kairós”. Esse é o tempo oportuno e o instante sagrado. É o momento em que a alma do outro amadurece. Tentar apressar o Kairós é tentar abrir uma flor com os dedos. Você só consegue destruir a pétala.
A Arte de Não Desistir
Haverá momentos de cegueira alheia muito obstinada. A melhor estratégia será recuar. Você não deve “dar murro em ponta de faca”. Preservar a própria sanidade é pré-requisito para ajudar o outro. Contudo, recuar não significa abandonar a missão. A arte suprema é saber pausar e respirar.
Fundamentalmente, você não deve desistir. A semente já germina na terra. Deixe a angústia fazer o trabalho de adubar essa nova vida. Se Platão nos deu a cartografia da caverna, Jung fez mais. Carl Gustav Jung nos deu o manual de sobrevivência. Na Psicologia Analítica, essa jornada é o coração do “processo de individuação”.
A Ponte com a Psicologia Analítica
Individuar-se não é fugir para o Himalaia. Não é meditar até levitar. É descer às profundezas da nossa própria caverna interna. É explorar o Inconsciente e confrontar as nossas projeções assustadoras. Precisamos encarar a nossa própria Sombra. Devemos dialogar com essas imagens internas de forma criativa.
Transformamos o chumbo do medo no ouro da consciência. Ao encontrar a luz do Self, retornamos transformados ao mundo cotidiano. Jung ensina que a individuação tem um propósito teleológico. É um fim último que transcende o próprio ego. Nós nos iluminamos para iluminar o mundo. Esse é o sagrado princípio do “servir para ser”.
A Urgência da Cosmovisão
A Cosmovisão revela-se aqui como o benefício preponderante. Ela é necessária e urgente nas terapias do campo junguiano. A obra junguiana contribui para questionarmos o sentido da vida. Ela estimula a consciência egóica para o processo de individuação. Isso aproxima o espírito da época e o espírito das profundezas.
Eles dialogam e despertam a ética. Reconhecemos a existência da sombra e a integramos criativamente. Esse movimento impede que os fanatismos e o materialismo dominem. A unilateralidade e a literalidade deixam de ser imperativos. Vivemos uma época retrógrada e obscurantista. Ela pode destruir todas as conquistas evolutivas da humanidade.
O Indivíduo como Portador da Vida
Conquistamos muito nas ciências, nas artes e nas religiões. A cosmovisão faz as pessoas refletirem sobre seus valores e crenças. Elas avaliam sentimentos, pensamentos, intuições e padrões automáticos. A vida e o mundo ganham uma compreensão integral e holista. Jung nos adverte com precisão amorosa sobre esse processo.
Tudo quanto começa, sempre começa pequeno. Não devemos desanimar com o trabalho discreto e consciencioso. Cada pessoa em particular importa nessa jornada. A meta parece longe demais para ser atingida. No entanto, o desenvolvimento da personalidade individual está ao nosso alcance. O portador de vida é o indivíduo.
O Sentido da Vida Livre
Fazer uma única árvore dar frutos já dá sentido à vida. Mesmo que mil outras árvores permaneçam estéreis, o serviço está feito. Quem deseja prosperar tudo ao máximo, verá as ervas daninhas crescerem. Elas sempre vingam melhor e cobrem a nossa cabeça. A tarefa mais nobre da psicoterapia é servir ao desenvolvimento individual.
Esse esforço acompanha a tendência da própria natureza. Fazemos a vida desabrochar na maior plenitude possível em cada indivíduo. O sentido da vida só se cumpre no indivíduo livre. Ele não se cumpre no pássaro preso na gaiola dourada. A integração dos opostos torna-nos seres anfíbios.
A cosmovisão faz com que as pessoas reflitam seus valores, crenças, impressões, sentimentos, pensamentos, intuições e padrões automáticos de códigos de conduta, para que a vida e o mundo sejam compreendidos de forma integral, holista, ecológica e implicativa
O Vagalume Teimoso
Unimos a luz do sol e a escuridão da caverna. Falamos a linguagem das sombras sem perder a memória da luz. O analista, o educador ou o buscador torna-se um tradutor. Ele transita entre esses dois mundos com maestria. No fim das contas, a jornada do autoconhecimento é uma comédia divina.
Passamos a vida lutando para sair do escuro. Conseguimos finalmente um belo bronzeado solar. Então, descobrimos que o nosso destino é voltar para a caverna. Descemos munidos apenas de uma lanterninha e muita paciência. É uma jornada complexa e por vezes exaustiva. Possui, no entanto, uma beleza indescritível.
Um Tropeço Iluminado
Abrace esse sacro-ofício com muito humor. A humanidade é teimosa, mas a poesia salva. Uma única faísca de consciência já estraga a escuridão perfeita. Sigamos despertando consciências e respeitando o tempo das coisas. Vamos servir para ser. Daremos um tropeço iluminado de cada vez. Afinal, a vida é muito curta para ser pequena.
Para a nossa Autoexploração
Qual é a caverna confortável que hesitamos abandonar? Respeitamos o tempo de Kairós ao ajudar alguém? Ou queremos impor o relógio rígido de Cronos? Como nossa cosmovisão afeta o nosso entorno relacional? Ela contribui para o adoecimento ou para a cura? Refletir sobre essas questões com carinho e coragem faz com que nosso processo de individuação agradeça.
Referências Bibliográficas
Jung, C. G. (2011). O Eu e o Inconsciente (Vol. 7/2). Petrópolis: Vozes.
Jung, C. G. (2013). A Natureza da Psique (Vol. 8/2). Petrópolis: Vozes.
Jung, C. G. (2014). O Espírito na Arte e na Ciência (Vol. 15). Petrópolis: Vozes.
Platão. (2000). A República (Livro VII). (M. H. da Rocha Pereira, Trad.). Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.
Magaldi Filho, W. (2010). Dinheiro, Saúde e Sagrado. São Paulo: Eleva Cultural.

