Resumo: Poucas experiências humanas são tão dilacerantes quanto a traição. Seja no campo amoroso, familiar, financeiro, profissional ou nas amizades, ela reverbera na alma com uma dor profunda e persistente. No entanto, a traição não se limita ao eixo entre o “eu” e o “outro”; ela ocorre, muitas vezes, de forma interna e silenciosa. Traímos a nós mesmos quando nos submetemos a situações onde não gostaríamos de estar, ou quando nos obrigamos a permanecer em locais e conviver com pessoas que não ressoam com nossa verdade, sacrificando nossa integridade em nome de uma falsa estabilidade.
Para além do moralismo, este ensaio propõe um olhar cuidadoso da complexidade psíquica que envolve este tema tão dolorido.
Num encontro entre Jung, Nilton Bonder e Emma Bovary, abrimos um diálogo provocativo em que a traição pode vir a se tornar um rito de passagem.
Poucas experiências humanas são tão dilacerantes quanto a traição. Seja no campo amoroso, familiar, financeiro, profissional ou nas amizades, ela reverbera na alma com uma dor profunda e persistente. No entanto, a traição não se limita ao eixo entre o “eu” e o “outro”; ela ocorre, muitas vezes, de forma interna e silenciosa. Traímos a nós mesmos quando nos submetemos a situações onde não gostaríamos de estar, ou quando nos obrigamos a permanecer em locais e conviver com pessoas que não ressoam com nossa verdade, sacrificando nossa integridade em nome de uma falsa estabilidade.
Para além da dimensão moral ou social, existe um fenômeno psíquico complexo nas traições. Quando a confiança se rompe e o pacto simbólico da relação se desfaz, instala-se uma crise que atravessa dimensões afetivas e existenciais. Por causa dos impactos dolorosos, a traição desencadeia perturbações psíquicas, constelações de complexos e projeções sombrias de forma literal. Afinal, para que haja traição, precisa existir a confiança e por isso, quando o pacto se quebra, a dor torna-se por vezes insuportável. Aquele que antes era amado passa a ser percebido como uma profunda decepção (por vezes como inimigo), despertando desejos de vingança, ódio, mágoas e a dificuldade de elaborar um perdão em meio ao desespero.
A arte universal dialoga com essa potência dramática.
Desde os mitos gregos até os romances modernos, filmes, peças de teatro, músicas e tantas outras expressões artísticas, a traição aparece como força narrativa capaz de revelar as contradições do desejo humano. Contudo, quando observada pela lente da Psicologia Analítica, adquire uma densidade simbólica como manifestação de conteúdos inconscientes que irrompem no tecido das relações.
Em seu livro A Alma Imoral, o rabino Nilton Bonder reflete sobre a natureza subversiva da traição na condição humana. Através de uma lente que funde a mística judaica à psicanálise e à biologia, Bonder desconstrói a percepção binária de bem e mal, e revela que a preservação da vida depende, paradoxalmente, da nossa capacidade de traí-la. Na tensão dialética entre o corpo e a alma, o corpo é apresentado como a entidade conservadora numa espécie de “zelador dos costumes” e o reprodutor da espécie, como numa função de permanência.
A alma é apontada como a força da mutação, o impulso indomável que busca o desconhecido e o novo. Se o corpo é o porto seguro da moralidade, a alma é a navegante imoral que se atreve a cruzar mares proibidos.
Nesse cenário, a traição é elevada ao status de necessidade existencial, ou seja, para que a cultura e a espiritualidade evoluam, o indivíduo deve ser capaz de trair o conformismo de sua família, sociedade, religião etc., para honrar o chamado da própria verdade interna.
Para exemplificar a potência transformadora da traição, trago à reflexão duas passagens bíblicas. Em Gênesis 3:6, ao comer o fruto proibido e depois oferta-la ao marido, Eva “trai” as diretrizes de Deus e, juntamente com Adão, são expulsos do paraíso, inaugurando a humanidade. De forma análoga, em Mateus 26:14-50, ao trair Jesus e desencadear sua morte, Judas é um importante catalisador que impulsiona a mudança de uma Era por ser corresponsável pela morte de Cristo e possibilitar Sua posterior ressurreição.
Outro ponto destacado por Bonder é a diferença entre a Moral e a Ética.
Para ele, a moral pertence ao corpo social, um conjunto de regras para garantir a ordem e a segurança; a ética é o território da alma, onde o compromisso maior é com o sentido da vida. Ser fiel à própria alma exige a coragem de ser “imoral” perante as regras estabelecidas. É o que Bonder denomina de “traição sagrada”, ou seja, o rompimento necessário com o passado para que o futuro ganhe espaço para florescer.
Por isso a obediência absoluta pode ser uma forma de paralisia, pois a vida que se limita as repetições e a estabelecer-se imovelmente à zona de conforto, abdica da sua centelha divina. A verdadeira espiritualidade habita na transgressão consciente, naquela que reconhece que a fidelidade à tradição só faz sentido se permitir que a alma continue sua jornada de mutação e descoberta. Trair, sob esta ótica, deixa de ser um pecado para tornar-se o motor da evolução humana.
O que Bonder traz encontra ressonância com a cosmovisão de Jung, onde ele aponta que, para o Processo de Individuação, devemos servir ao Self (Si-mesmo), numa entrega incondicional.
Quem não consegue ser fiel a esse chamado interior falha na tarefa mais importante da existência humana, permanecendo apenas como um fragmento da coletividade sem nunca atingir a maturidade da alma. Servir ao Si-mesmo exige deixar de ser um rascunho ressonante do coletivo para se tornar a obra final e, por isso mesmo,a individuação é um processo “imoral”, onde traímos as expectativas externas (o corpo social) para manter a fidelidade à própria alma (o Self). É o caminho de quem aceita o risco de ser único em vez de buscar a segurança de ser igual.
Individuação significa tornar-se um ser único, na medida em que por “individualidade” entendermos nossa singularidade mais íntima, última e incomparável, significando também que nos tornamos o nosso próprio si-mesmo. Podemos pois traduzir “individuação” como “tornar-se si-mesmo” (Verselbstung) ou “o realizar-se do si-mesmo” (Selbstverwirklichung). (JUNG, OC 7/2, §266)
Seguindo a diante na reflexão acerca da traição, para a Psicologia Analítica, as relações amorosas tendem a se estruturar a partir de projeções inconscientes.
Jung observa que figuras arquetípicas como a anima e animus tendem a ser projetadas sobre o parceiro amoroso, produzindo intensa idealização.
De modo breve, para Jung (OC 7/2, §297), nenhum homem é inteiramente “masculino” em termos psíquicos, pois carrega em si a anima, a dimensão feminina inconsciente. Como a cultura historicamente incentivou os homens a reprimirem seus sentimentos, sensibilidades e afetos, esses conteúdos tendem a ser suprimidos e deslocados para o inconsciente, moldando a imagem interna do feminino e influenciando suas escolhas amorosas. Dessa forma, o homem tende a se sentir atraído pela imago feminina, projetando nela aquilo que não reconhece em si mesmo. Quando a escolha é guiada pela projeção de aspectos não integrados, essa dinâmica pode gerar relações intensas e vínculos frágeis, e o outro deixa de ser percebido como pessoa concreta e encarna uma imagem idealizada. O mesmo acontece com o animus, a contraparte masculina da consciência feminina.
Não podemos esquecer que toda projeção carrega em si a semente da desilusão. À medida que o relacionamento se desenvolve, o parceiro real diverge daquela imagem concebida trazendo frustrações e conflitos, e a traição pode surgir exatamente nesse ponto crítico do processo. Quando a projeção se desloca para uma terceira pessoa (um amante, por exemplo), o indivíduo experimenta novamente o fascínio do encontro arquetípico, onde o “novo amor” aparece revestido da aura perdida do encantamento inicial. Nesse sentido, a infidelidade está além da busca por sexo ou prazer, pode ser uma tentativa inconsciente de recuperação da intensidade simbólica do Eros perdido.
Para a traição se realizar, precisa necessariamente haver um elo de confiança e, na alteridade com o outro, as identificações são muitas mas as diferenças também se fazem presente.
Quando conteúdos internos não integrados emergem, o outro se torna um espelho refletor de nossas próprias imperfeições.
Para Jung, a sombra é um conjunto de conteúdos psíquicos que o ego rejeita, recalca, nega ou não reconhece como pertencentes a nós. É nosso lado obscuro, que está em conflito com os aspectos morais da consciência, que se manifestam de forma indireta ou impulsiva (JUNG, OC 9/2, §14).
A traição, nesse contexto, pode aparecer como atuação desses elementos reprimidos pois, paradoxalmente, aquilo que o ego tenta excluir frequentemente retorna de forma intensificada projetada no outro. Assim, a traição pode revelar conflitos que permaneciam ocultos na dinâmica da relação e pode vir, por exemplo, em forma de quebras de acordos (amorosos ou não), golpes financeiros, rasteiras no trabalho, apropriações intelectuais, sabotagens, revelações de segredos, mentiras e manipulações, expondo a face crua de uma convivência que se mantinha através de pactos sombrios inconscientes e expectativas não ditas.
A literatura sempre explorou a traição para revelar a complexidade da alma humana, e personagens marcados pela infidelidade frequentemente encarnam conflitos entre desejo, convenção social, complexos, sombras e auto traição.
Flaubert nos convida a refletir este processo em Madame Bovary (2014). A personagem principal Emma Bovary, encarna uma forma particularmente sofisticada da traição, aquela que brota de uma cisão interna entre a vida vivida e a vida imaginada. Sua infidelidade está além do campo moral, onde expressa um movimento psíquico de busca por uma intensidade de vida que a realidade não sustenta.
Numa análise livre e hermenêutica, arrisco a dizer que Emma Bovary está arquetipicamente identificada com o puer aeternus, ou seja, uma puella, aquela que anseia pelo êxtase, pelo extraordinário, a promessa de uma vida mais dinâmica, divertida, aventureira e arrebatadora.
Emma é casada com Charles, um pacato médico reconhecido por sua estabilidade e simplicidade. Pelos olhos do coletivo, Emma fez um ótimo casamento, tem um bom marido, uma vida confortável e tranquila. Mas há nela uma recusa silenciosa da banalidade do cotidiano. O casamento com Charles torna-se um espaço árido e anti-erótico, incapaz de dar vazão as suas fantasias. Impossibilitada de se separar devido ao tabu do Espírito da Época, Emma trai a si mesma.
De modo sombrio e alimentado por narrativas românticas, seu ego inflaciona e se distancia da realidade, passando a habitar um campo imaginal onde o desejo encontra o reflexo de suas próprias projeções. Cada amante surge como imagem simbólica da excitação, novidade e promessa de completude. Ao viver o romance e lidar com as diferenças, a realidade se impõe, a projeção colapsa, e o vazio retorna com ainda mais força.
Esvaziada de si mesma, distante da alma e tomada pela sombra, sua psique traidora revela uma dinâmica de insaciabilidade. Ela procura no outro o que não acha em si mesma, e o desejo se orienta para a manutenção de um falso estado interno de encantamento, numa dificuldade de metabolizar a frustração. Ela tenta preencher seu vazio existencial com a fantasia de um falso Eros (do amor carnal) e não pela coniunctio (união) da alma. Emma se move entre picos de exaltação e quedas abruptas, numa oscilação que denuncia a ausência de enraizamento psíquico.
Podemos também reconhecer nela a atuação de um animus não integrado que a captura em discursos idealizados e a projeta em busca de realização no objeto externo.
A energia erótica, que poderia se configurar como via de transformação simbólica, torna-se literalizada na repetição de relações que tentam preencher um vazio existencial.
Emma parece buscar uma experiência de alma que dê sentido à existência, mas se afasta de si mesma ao projetar essa busca exclusivamente no mundo exterior. Nesse sentido, sua auto traição pode ser lida como uma tentativa fracassada de viver e realizar o desejo de uma vida mais viva, mas que se perde por não encontrar mediação simbólica.
Apesar de seu potencial dolorido e por vezes destrutivo, a traição também pode desencadear processos de reflexão e transformação. A ruptura da confiança gera uma quebra das idealizações e obriga os envolvidos a confrontar conteúdos que permaneciam inconscientes.
Por isso, apesar de todo o sofrimento gerado e do abalo sísmico que a quebra de confiança provoca, o grande desafio é analisar simbolicamente o papel da traição, e o que ela tem para revelar sobre nosso processo. A traição atua como um “divisor de águas” que rompe com as identificações infantis e as projeções idealizadas, forçando o indivíduo a retirar o véu da ilusão que lançava sobre o outro.
Simbolicamente devemos perguntar: o que em mim morreu e o que agora tem a oportunidade de renascer? Em que aspecto me auto traí? Para que estabeleci elos de lealdade a partir de idealização do outro?
Apesar de toda dor, ao transcendermos o julgamento moralista de ‘certo’ ou ‘errado’, a traição pode vir a se tornar um rito de passagem, uma espécie de ‘traição sagrada’, como propõe Nilton Bonder, e sermos impulsionados em direção a fidelidade ao Self.
Talvez, se Emma Bovary tivesse tido a coragem para escolher a separação e atravessar as dores que dela adviriam, a morte de suas ilusões se instauraria, abrindo caminho para um renascimento em maior consonância com a verdade de sua alma.
Me. Daniela Euzebio – Analista Didata em formação IJEP
Dra. E. Simone Magaldi – Analista Didata IJEP
Referências:
FLAUBERT, Gustave. Madame Bovary. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.
GUARNIERI, Milena Neri. Um estudo sobre a traição amorosa e a resiliência na perspectiva da psicologia analítica. São Paulo: PUC-SP, 2014.
JUNG, Carl Gustav. O Eu e o Inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2016 (OC 7/2).
JUNG, Carl Gustav. Aion – Estudos sobre o simbolismo do si-mesmo. Petrópolis: Vozes, 2013 (OC 9/2).

