“As pessoas de hoje precisam de um grande pedaço de morte, pois coisa incorreta demais vive nelas, e coisas corretas demais morrem nelas. Correto é o que mantém o equilíbrio, incorreto é o que destrói o equilíbrio. Mas atingido o equilíbrio, então é incorreto o que mantém o equilíbrio e correto o que o destrói.” (JUNG, 2015, p.237).
Resumo: Este ensaio propõe uma reflexão sobre o caminho para a alma, a partir da psicologia junguiana, tomando como eixo crítico o modo de vida contemporâneo e suas formas de subjetivação marcadas pela aceleração, pela funcionalização da experiência e pela perda de espessura do sensível. O paradoxo que atravessa o texto é o de que o caminho para o interior, para a alma, não se dá por afastamento do mundo, mas precisamente por uma reaproximação do sensível, onde, na tensão entre opostos, algo de simbólico pode emergir e devolver ao humano a possibilidade de habitar o mundo com maior profundidade.
O Caminho para a alma, o mergulho interior é para fora.
Sempre admirei os trabalhos de Artur Bispo do Rosário, que muito me tocam. Nunca parei para refletir a esse respeito, nem pretendo. Acho que o que mais importa nisso, e que quis trazer para iniciarmos essa troca, é o verbo tocar. Bispo, um sergipano que passou 50 anos de sua vida, entre idas e vindas, internado no hospital psiquiátrico da Colônia Juliano Moreira, no Rio de Janeiro, deixou um legado imenso de produção artística. Entre esculturas, instalações, objetos e bordados, o material de seu entorno foi transformado em símbolos que, em seu mundo particular, deveriam – a pedido dos anjos e sob ordens de Deus – representar tudo o que havia na Terra.
Para mim, duas de suas obras mais marcantes são o estandarte Eu preciso dessas palavras escrita, presente na imagem de abertura deste artigo, e o Manto da Apresentação, também conhecido como Manto do Juízo Final (ver anexos). Ambas, para além de produções artísticas, guardam em comum o fato de serem produzidas sobre, e a partir de, tecido. Assim, juntamos aqui as palavras tocar e tecido, o ato e o lugar, a cena e o palco.
Bispo buscou, na materialidade da vida, o lugar de estruturação que lhe foi possível. Sua criação foi, a meu ver, sua maneira de se mover entre o mundo imaginal e as estruturas aparentes. Ao criar ação, construiu suas pontes, afinal, o que é a criação, senão o encontro do dentro com o fora? Eu preciso destas palavras escrita é um grito, uma ode ao encontro. E nós, como temos nos encontrado? Que pontes temos construído com o mundo interior, uma vez que, diferentemente de Artur Bispo, somos razoavelmente adaptados e muito influenciados pelo mundo exterior? Essa é a reflexão que quero tecer com vocês.
Vivemos em um tempo que se tornou excessivamente superficial, quase translúcido, como se a própria espessura da experiência tivesse sido lixada ao longo das últimas décadas.
Essa engrenagem meio obscena de imagens, aceleração e exigência de desempenho – expressão do espírito do tempo, tão bem descrito por Jung (2014a) como uma força coletiva que nos atravessa sem que o percebamos – produz uma subjetividade que opera mais como reflexo do que como corpo, mais como projeção do que como presença. Ao habitarmos essa superfície polida, confundimos movimento com vida, expressão com encontro, e perdemos, pouco a pouco, aquilo que Hillman (1993) chama de anima mundi, a alma do mundo, essa textura do real que se mostra quando deixamos de exigir dele utilidade, produtividade ou coerência.
Talvez seja justamente aí que o problema da coerência precise ser deslocado. Pois o mundo que aprendemos a habitar exige coerência no sentido mais pobre do termo: linearidade, transparência, imediata inteligibilidade. As imagens que nos cercam não pedem elaboração, apenas adesão; não convidam à imaginação, apenas ao reconhecimento rápido. Tudo deve fazer sentido de antemão, sem resto, sem ambiguidade, sem tensão.
Nesse regime, o sensível é administrado como espetáculo contínuo (DEBORD, 2017), e a experiência, reduzida a superfície visível e consumível. Mas a coerência que interessa à alma não é essa. Ela não se encontra na eliminação dos opostos, nem na sua rápida conciliação racional, mas justamente naquilo que emerge entre eles, como um terceiro não previsto, não dedutível, que só se deixa entrever quando suportamos a tensão sem apressar sua resolução. É nesse intervalo – onde o mundo deixa de ser apenas útil, produtivo ou explicável – que o simbólico pode surgir, não como resposta, mas como forma viva, portadora de sentido.
A coerência da alma, se é que podemos chamá-la assim, não está na consistência lógica das imagens, mas na sua capacidade de sustentar contradições e, ainda assim, permanecer significativa.
Para sustentar contradições a superfície do encontro precisa ser permeável.
Não é difícil perceber que a alma não se manifesta na rapidez, nem na busca de eficiência psicológica. A participação da alma (JUNG, 2014a e 2014b) não se dá por aceleração ou domínio consciente, mas como um processo orgânico, que exige tempo, espera e tolerância à tensão. Jung (2015), em um daqueles momentos em que sua linguagem se aproxima da poesia, sugere que a alma prefere o que cresce devagar, aquilo que exige tempo para se revelar. Mas o tempo que vivemos parece ser o oposto dessa temporalidade interior.
A alma não encontra morada num sujeito permanentemente convocado a performar, medir, administrar-se. Há uma exigência apolínea, racionalizante, que se tornou nossa segunda pele.
É ela a responsável por reduzir o mundo a um conjunto de objetos manipuláveis, imagens intercambiáveis, símbolos esvaziados, tornados signos. Em nome dessa clareza solar, perdemos a noite, o corpo, o escuro – justamente os ambientes onde a alma respira.
Talvez seja por isso que a busca contemporânea pela interioridade, tão celebrada quanto superficial, raramente toca o que importa. Procuramos a alma onde o espírito do tempo manda procurá-la: no autoaperfeiçoamento, nos aplicativos de meditação, no consumo de ideias espirituais como quem faz compras. Mas a alma não gosta do estreito. Ela não se deixa capturar pela consciência que se acredita dona de si. Jung advertia que, quando a consciência tenta dominar unilateralmente, aquilo que foi reprimido retorna com força redobrada. É nesse retorno que o dionisíaco entra, não como ameaça, mas como possibilidade. Dioniso é o deus da desmedida, do corpo que sente demais, da dissolução das fronteiras rígidas, da embriaguez entendida não como fuga, mas como participação.
E talvez seja necessário recuperar esse sentido antigo: participar do mundo, misturar-se a ele, permitir que ele nos toque.
Cada um tem em si algo do criminoso, do gênio e do santo”. Assim se compõe uma imagem viva, contendo tudo o que se move sobre o tabuleiro de xadrez do mundo: o bom e o mau, o belo e o feio. Pouco a pouco vai se estabelecendo um sentimento de solidariedade com o mundo (…)
JUNG, 2014a, §236
Hillman (1993) insiste que a alma tem um olhar próprio, e que ver o mundo com alma significa reconhecer que também somos vistos. Esse deslocamento – do eu que observa ao eu que é alcançado – altera completamente a maneira como nos aproximamos do sensível. Não se trata de introspecção, mas de abertura. Não se trata de voltar-se para dentro como quem fecha portas, mas de permitir que o mundo entre, que afete, que marque. Hillman (1993) chama isso de estética, mas não no sentido de beleza decorativa; estética como aisthesis, percepção encarnada, movimento do sentir antes de qualquer elaboração racional.
Esse é o ponto decisivo: a alma não é uma conquista da mente, e sim um acontecimento do corpo. A pergunta que se impõe, então, é: como encontrar a alma quando nos habituamos a existir quase sem corpo?
Quem já se permitiu permanecer tempo suficiente diante de uma cidade, de um corpo, de um gesto ou mesmo de um silêncio – sem a pressa de compreender, sem a tentação de traduzir imediatamente a experiência em explicação – sabe que algo começa a se deslocar, ainda que não saibamos bem o quê.
O apolíneo – ordem, forma, clareza, autocontrole – tornou-se nosso ideal dominante. A persona moderna, moldada pela visibilidade virtual e pela exigência de coerência contínua. Ela rejeita a sombra, desconfia do pathos, teme o excesso, e, sobretudo, evita o encontro que a desestabiliza. Mas Jung nunca entendeu o apolíneo como princípio suficiente, tão pouco confundiu persona com sujeito. A vida psíquica, para ele, é sempre tensão, nunca pureza. O eu unilateralmente racional tende a adoecer, justamente porque exclui aquilo que o aproxima de sua totalidade. A alma não se dá na clareza; ela se dá na fricção, no intervalo, naquilo que escapa.
Arrisco dizer que muito do que hoje chamamos de vida interior não passa de uma versão privatizada da mesma lógica de desempenho que organiza o mundo externo. E talvez por isso – ainda que isso incomode a consciência moderna – o corpo precise participar.
O dionisíaco, nesse sentido, não se opõe à razão, ele é o seu complemento esquecido. Ele devolve ao corpo sua dignidade ontológica: o corpo que sente, que sofre, que deseja, que se orienta pelo ritmo e não pelo cálculo. Jung (2014b, §418); lembra que “há não só a possibilidade, mas até mesmo uma certa probabilidade de que a matéria e a psique sejam dois aspectos diferentes de uma só e mesma coisa”. A via da alma é, portanto, uma via sensível.
O paradoxo é incontornável: o caminho para dentro passa inevitavelmente por fora. Entramos em nós mesmos ao sermos expostos ao mundo. A interioridade é uma consequência do encontro, não sua negação.
Hillman (2013, p.71) contribui com esse pensamento ao dizer que as coisas nos chamam: “Não somos apenas aqueles que olham o mundo; o mundo também nos olha”. Cada objeto, cada rosto, cada pedaço de matéria possui um apelo imaginal. Essa afirmação, que poderia soar metafórica, é rigorosa dentro do pensamento de alma: sem relação sensível com o mundo, a alma esvai-se. Sem mundo, não há manifestação de, e da, alma. Tornamo-nos, então, apenas consciência refletida no vazio – uma espécie de narcisismo estrutural que nasce da ausência de uma alteridade suficiente para feri-la. A alma exige abertura, vulnerabilidade, permeabilidade. Nada disso combina com a vida digital, higienizada, filtrada, previsível, onde encontramos apenas versões dos outros que confirmam nossas preferências e evitam nossas fraturas.
O encontro – esse ato tão elementar e tão raro – talvez seja o nome mais simples para o que chamo aqui de caminho para a alma. Encontrar alguém, encontrar uma paisagem, encontrar uma obra, encontrar um gesto: tudo isso demanda presença. E presença não é foco; é corpo.
Não é atenção voluntária; é entrega involuntária. Presença é quando abandonamos, ainda que por um instante, o governo apolíneo e deixamos que algo nos aconteça. O encontro, de algum modo sempre dionisíaco, exige perda de forma, dissolução momentânea, participação. É nesse abandono controlado – se é que podemos chamá-lo assim – que a alma atravessa a pele e se deixa sentir.
Talvez seja esse o maior desafio do nosso tempo: permitir que a pele volte a ser pele, não superfície de exibição. Permitir que o corpo volte a ser corpo, não instrumento. Permitir que a estética volte a ser estética, não consumo.
O caminho para a alma é necessariamente um caminho em descompasso com o espírito do tempo, mas não é um caminho de resistência heroica. É um caminho de rendição atenta. Rendição ao mundo, às suas texturas, às suas formas, aos seus imprevistos. Jung afirma que a individuação só acontece quando abandonamos a ideia de controlar o processo. A alma não obedece ao ego; ela o desestabiliza, o abre, o torna poroso. Quando o dionisíaco se integra ao apolíneo, algo se restitui ao humano: a capacidade de sentir sem a pressa de transformar o sentir em função.
No fim das contas, o caminho para a alma não é um itinerário que percorremos, mas um modo de presença que nos percorre. Ele começa quando desistimos de domesticar o mundo e permitimos que ele nos toque. Quando reconhecemos que a interioridade é a reverberação do encontro, não seu oposto. Quando percebemos que o corpo é o lugar onde a alma se manifesta e não o obstáculo a ser superado. Quando aceitamos que o que buscamos dentro depende do que ousamos sentir fora. E, sobretudo, quando compreendemos que alma não é algo que possuímos, mas algo que nos acontece — sempre que permitimos que Dioniso, com sua desordem fecunda, atravesse o rigor solar de Apolo.
Talvez, então, seja preciso reaprender a estar no mundo. Não para compreendê-lo, mas para senti-lo. Não para explicá-lo, mas para ouvi-lo. Não para dominá-lo, mas para nos deixarmos mover por ele.
O caminho para a alma passa por aqui: pela capacidade de acolher o que nos excede. Pela coragem de estar presentes. Pela abertura sensível ao outro, às coisas, ao corpo que somos. Se a alma é, como Hillman insiste, o profundo do mundo, então reencontrá-la é reencontrar o mundo mesmo, libertado das amarras da modernidade e restituído à sua dimensão simbólica. E é apenas quando deixamos de evitar esse encontro – e de temer o que ele possa nos exigir – que a alma finalmente surge, não como conquista, mas como acontecimento.
Esse acontecimento, sempre frágil, sempre imprevisível, talvez seja o gesto mais humano que ainda nos resta.
André Orioli – Membro Analista em Formação IJEP
Waldemar Magaldi – Analista Didata IJEP
REFERÊNCIAS:
DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 2 ed. 2017.
HILLMAN, James. Cidade & Alma. São Paulo: Studio Nobel, 1993.
JUNG, C. G O Eu e o Inconsciente. OC 7/2. Petrópolis: Vozes, 2014a.
______ A natureza da psique. OC 8/2. Petrópolis: Vozes, 2014b.
______ O livro vermelho: Liber Novus. Edição organizada por Sonu Shamdasani. Tradução de Edgar Orth. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015.
IMAGENS
- Fotografia utilizada na confecção da imagem de capa: estandarte Eu preciso destas palavras escrita: documentação da obra de Arthur Bispo do Rosário, Museu Bispo do Rosário – Arte Contemporânea, Rio de Janeiro. Disponível em: https://museubispodorosario.com/acervo-2/eu-preciso-destas-palavras-escrita/. Acesso em 8 dez. 2025.
ANEXOS
- Manto da Apresentação (frente): documentação da obra de Arthur Bispo do Rosário, Museu Bispo do Rosário – Arte Contemporânea, Rio de Janeiro. Disponível em: https://museubispodorosario.com/acervo-2/manto/ em 8 dez. 2025.


