Resumo: Este artigo aborda as perspectivas junguianas do dogma da Assunção de Maria, proclamado em 1950, tendo em vista as considerações psicológicas da recepção de Maria na câmara nupcial celeste. A ideia de Maria como esposa de Deus, segundo Carl Jung, já estava presente desde o Antigo Testamento, na personificação de Sofia. O casamento sagrado, simboliza a união dos opostos, no processo de individuação. Maria como a esposa divina, dá à luz ao Deus encarnado, símbolo do Si-mesmo, se tornando portanto a mãe do Si-mesmo.
Maria é o tabernáculo de Deus, é aquela que a tradição cristã chamou de Mãe de Deus (Theotókos). Para Carl Gustav Jung, os dogmas marianos correspondem a um clamor do inconsciente coletivo, uma necessidade psicológica para expressar o feminino de Deus. O Deus dos cristãos que é sempre projetado, percebido, retratado nas artes e nos relatos bíblicos como uma figura patriarcal, recebe uma esposa, uma consorte, a personificação da sabedoria, como Jung expressa em Resposta a Jó.
Na teologia, o dogma da maternidade divina de Maria, é um dos mais antigos:
O primeiro dogma … é o da maternidade Divina de Maria, por ser o mais antigo dos que encontraram lugar na proclamação oficial da igreja. O termo grego que se sintetiza o mistério da fé contido no dogma – THEOTÓKOS – Mãe de Deus – data do Concílio de Éfeso (431 DS 251), porém, podemos encontrar o desenvolvimento da Teologia Marial da maternidade Divina ao longo de três grandes Concílios da antiguidade: Constantinopla I (381); Éfeso (431), Calcedônia (451). Em nossos dias, o Vaticano II (1962-65) retomou a doutrina desses Concílios e lhes deu Nova luz.
GEBARA: BINGEMER, 1978, p.110
Maria ocupa um lugar especial no imaginário do cristão católico, ela é a Mãe, e representa para muitos teólogos, o rosto feminino de Deus. Maria reflete o feminino de Deus e preenche essa lacuna no cristianismo. No entanto, para nós protestantes o vácuo é ainda maior. O Deus protestante, masculino, herdeiro da modernidade, carece de uma imagem feminina. Como protestante, foi na formação teológica, numa Universidade Católica, que Maria se apresentou para mim. E como junguiana, ela ocupa esse lugar simbólico de mãe de Deus e geradora do Si-mesmo.
A tradição da fé concentrou o feminino em Maria, mãe de Jesus. Ali viu realizadas todas as possibilidades numinosas e luminosas do feminino a ponto de ela ser simplesmente a Nossa Senhora: ela é virgem, é mãe, é esposa, é viúva, é rainha, é a sabedoria, o tabernáculo de Deus etc.
BOFF, 1979, p. 15
A consorte de Javé, segundo Carl Jung, já estava presente no inconsciente religioso, desde o Antigo Testamento, na ideia de Sofia, que estava junto de Deus na criação do mundo.
No livro da Sabedoria de Salomão, apócrifo de época bastante posterior (100 -50a.C.), a natureza pneumática da Sofia e seu caráter de plasmadora do universo se projetam de modo ainda mais claro como ‘maia’. “E, de fato, a Sabedoria é um espírito amigo dos homens”, a “artífice de todas as coisas”. “Existe nela um espírito santo intelectivo” (πνεῦμα νοετὸν ἄγιον), uma “exalação (ἀτμίς) do poder divino”, um “eflúvio (ἀπόρροια) da glória do Todopoderoso”, um “resplendor da luz eterna , um reflexo da divina obra”, um ser constituído de matéria sutil, que tudo penetra com sua presença. Está em íntima união com o Deus (συμβίωσιν ἔχουσα), e o Senhor de todas as coisas (πάντων δεσπότης) a ama.
JUNG, 1952/2013, § 613
Nos dogmas marianos, Sofia é atualizada na personificação da mãe divina, Maria, a consorte de Deus.
Maria é um nome composto de duas raízes, uma egípcia e outra hebraica. Myr em egípcio significa amada e yam em hebraico constitui uma das abreviações da Javé (ya ou yam). Maria o Miryám quer dizer, então, a amada da Javé, a bem-amada de Deus.
BOFF, 1980, p. 35
Maria ganha definitivamente esse lugar de consorte de Deus, para Carl Jung, no dogma da Assunção. Que além de representar um clamor do povo, é a introdução do feminino de corpo e alma na divindade cristã.
Há muito tempo se sabia que um profundo desejo despertar no coração das massas no sentido de que a intercessora e mediatriz dos homens ocupasse seu devido lugar junto à Santíssima Trindade e fosse recebida “como rainha do céu e esposa na corte celeste.
JUNG, 1952/2013, §748
De acordo com Carl Jung, o dogma proclamado pelo Papa Pio XII, no dia 1º de novembro de 1950, demonstra a coragem do Pontífice de ir contra a razão moderna. “Sob o ponto de vista psicológico é de importância para os nossos dias que a esposa Celeste tenha sido associada a seu esposo no ano de 1950.” (JUNG, 1952/2013, §748).
Com a entrada de Maria na corte celeste, acontece na concepção junguiana, a união dos opostos. Do masculino com o feminino, do divino com o humano, tornando-se o símbolo dos demais pares de opostos. No casamento sagrado, o numinoso se manifesta, como um problema religioso.
Carl Jung entende a religião como, “a atitude particular de uma consciência transformada pela experiência do numinoso” (JUNG, 1938/1978, §9).
A transformação da Assunção de Maria em dogma aponta para a realização do hierógamos no pleroma, por sua vez, se refere como já foi dito, ao futuro nascimento do menino divino que, em virtude da tendência divina a encarnar-se, escolherá o homem empírico para nele se realizar. Este acontecimento metafísico é conhecido pela psicologia do inconsciente como processo de individuação.
JUNG, 1952/2013, § 755
Os dogmas marianos, de Theotókos e da Assunção formam o palco celeste para o nascimento do menino divino, a partir de uma realidade transcendente. Para o junguiano Edward Edinger, a encarnação representa simbolicamente, o movimento do do Si-mesmo para encarnar num ego individual.
A vida de Cristo, entendida em termos psicológicos, representa as vicissitudes em sua encarnação num ego individual, bem como as vicissitudes do ego no processo de participação nesse drama Divino. Em outras palavras, a vida de Cristo representa o processo de individuação.
EDINGER, 1987, p. 15
O casamento sagrado, a união dos opostos é representada pela entrada de Maria na corte celeste, como esposa de Deus, como personificação da mãe divina. Esse drama cósmico, representa no processo de individuação, a necessidade que a consciência tem de se confrontar com o inconsciente, no sentido de promover um equilíbrio entre os opostos. Assim sendo, com o desenvolvimento da função transcendente, o inconsciente produz símbolos, que ampliados pela consciência, segundo Jung, tornam visíveis a união irracional dos contrários.
Mas, para que se tome consciência do processo de individuação, é preciso que a consciência seja confrontada com o inconsciente e se chegue a um equilíbrio entre os opostos. Como isto é logicamente impossível, necessitam-se de símbolos que sirvam para tornar visível a união irracional dos contrários. Estes símbolos são produzidos espontaneamente pelo inconsciente e ampliados pela consciência. Os símbolos centrais deste processo descrevem o si-mesmo, isto é, a totalidade do homem, de um lado, por meio daquilo que lhe é consciente e, de outro, por meio do conteúdo inconsciente. O simesmo é τέλειος ἄνθρωπος, o homem completo, cujos símbolos são o menino divino ou seus sinônimos.
JUNG, 1952/2013, § 755
A totalidade religiosa de Deus clama pela presença do feminino na divindade. Com o dogma da Assunção, Maria é oficialmente admitida na divindade ao lado da Trindade, formando umaquaternidade. Ela ocupa o lugar de Mãe de Deus, como uma pessoa divina, ela se torna a mãe do Si-mesmo. No entanto, é importante ressaltar que com o dogma da Assunção, Maria não alcançou o status de Deusa no sentido dogmático.
Como totalidade, o si-mesmo é sempre, per definitionem, um complexio oppositorum e seu modo de aparecer é tanto mais obscuro e ameaçador, quanto mais a consciência reivindica para si uma natureza luminosa, alimentando consequentemente pretensão de uma autoridade moral.
JUNG, 1952/2013, § 716
Carl Jung acreditava que o arquétipo da totalidade se aproximava da imagem de Deus. “A competência da psicologia enquanto ciência empírica não vai além da possibilidade de constatar, à base de uma pesquisa comparativa, se o tipo encontrado na alma pode ou não ser designado como uma “imagem de Deus” (JUNG, 1944/2011, § 15). No entanto, em Resposta a Jó, ele alerta que embora o arquétipo da totalidade possa ser aproximado da imagem de Deus, ele não pode ser confundido com o inconsciente em si:
“feito acima, sobre o caráter indiferenciável da imagem de Deus no inconsciente: a imagem de Deus não coincide propriamente com o inconsciente em si, mas com o conteúdo particular deste último, isto é, com o arquétipo de si-mesmo. Este último já não podemos separar, empiricamente, da imagem de Deus;
JUNG, 1952/2013, § 757
A entrada da Mãe de Deus na Câmara nupcial do céu, nos convida a pensar no fruto desse encontro, entre o humano e o divino, entre o femnino e o masculino. Embora Maria seja humana, logo no início da tradição cristã, ela ganha um caráter especial de mulher divina.
No livro apócrifo Proto Evangelho de Tiago, também chamado de “Natividade de Maria” , ela também tem um nascimento milagroso.
“Eis que se lhe apresentou o anjo de Deus, dizendo-lhe:
— Ana, Ana, o Senhor escutou teus rogos! Conceberás e darás à luz e de tua prole se falará em todo o mundo. Ana respondeu:
— Viva o Senhor meu Deus, que, se chegar a ter algum fruto de bênção, seja menino ou menina, levá-lo-ei como oferenda ao Senhor e estará a seu serviço todos os dias de sua vida. Então vieram a ela dois mensageiros com este recado:
— Joaquim, teu marido, está de volta com seus rebanhos, pois que um anjo de Deus desceu até ele e lhe disse que o Senhor escutou seus rogos e que Ana, sua mulher, vai conceber em seu ventre. Tendo saído Joaquim, mandou que seus pastores lhe trouxessem dez ovelhas sem mancha. Disse ele:
— Estas serão para o Senhor. Mandou, então separar doze novilhas de leite, dizendo:
— Estas serão para os sacerdotes e para o sinédrio. Finalmente, mandou apartar cem cabritos para todo o povoado. Ao chegar Joaquim com seus rebanhos, estava Ana à porta e, ao vê-lo chegar, pôs-se a correr e atirou-se ao seu pescoço dizendo:
— Agora vejo que Deus me bendisse copiosamente, pois, sendo viúva, deixo de sê-lo e, sendo estéril, vou conceber em meu ventre. Então Joaquim repousou naquele dia em sua casa. No dia seguinte, ao ir oferecer sua dádivas ao Senhor, dizia para consigo mesmo:
— Saberei se Deus me vai ser favorável se eu chegar a ver o éfode do sacerdote. Ao oferecer o sacrifício, observou o éfode do sacerdote, quando este se acercava do altar de Deus, e, não encontrando pecado algum em sua consciência, disse:
— Agora vejo que o Senhor houve por bem perdoar todos os meus pecados. Desceu Joaquim justificado do templo e foi para casa. O tempo de Ana cumpriu-se e no nono mês deu à luz. Perguntou à parteira:
— A quem dei à luz? A parteira respondeu:
— Uma menina.
Então Ana exclamou:
— Minha alma foi enaltecida — e reclinou a menina no berço.
Ao fim do tempo marcado pela lei, Ana purificou-se, deu o peito à menina e pôs-lhe o nome de Maria” (Pro Evangelho de Tiago).
Como como protestante, Maria não faz parte oficialmente do meu imaginário religioso, no entanto como diz Jung: “A necessidade religiosa reclama a totalidade, e é por isso que se apodera das imagens da totalidade oferecidas pelo inconsciente, que emergem das profundezas da natureza psíquica independentemente da ação da consciência” (JUNG, 1952/2013, § 757).
Assim sendo, Maria como mãe do Si-mesmo, como mãe de Deus ocupa um lugar especial na minha vida religiosa. Como aquela que representa o acolhimento, a face doce de Deus. Mas existe um lado sombrio que necessita ser abarcado. O numinoso provoca transformação, e não está na ordem do controle, por isso a sombra, o inconsciente, o medo.
Qualquer que seja a sua causa, o numinoso constitui uma condição do sujeito, e é independente de sua vontade.
JUNG, 1938/1978, §6
Maria, na Anunciação, é envolvida pela sombra de Deus.
Respondeu-lhe o anjo: Descerá sobre ti o Espírito Santo, e o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra;” (Lucas 1:35). Segundo Edinger, “a expressão ‘te cobrirá com a sua sombra’ (episkiazo) refere-se ao ser envolvido numa nuvem pela presença divina.
EDINGER, 1987, p. 22)
Maria é o tabernáculo de Deus envolvido pela nuvem de Javé. A nuvem aparece no deserto, Moisés foi envolvido pela nuvem, no templo de Salomão a nuvem também aparece. Ela simboliza o aspecto sombrio (Cf.: EDINGER,1987, pp. 22-23), do nascimento suspeito da criança divina, representando os aspectos sombrios da alma que necessitam ser integrados.
Maria mãe de Deus, mãe dos pobres, símbolo da Terra e do feminino de Deus. A trajetória mariana possui um lugar especial como símbolo do processo de individuação. O drama do nascimento de Jesus, e a maneira como Maria obedece às ordens do anjo, simboliza o ego servindo ao Self.
Maria é toda de Deus, transcendendo o ser humano, e entra na esfera do Sagrado definitivamente com o Dogma da Assunção. Admitir isso, não está na ordem da razão, mas do Sagrado, do numinoso, da alma. Assim como o nascimento do Deus encarnado simboliza o nascimento do Si-mesmo, Maria com a mãe de Deus é a mãe do Si-mesmo.
Silvana Venancio – Analista em formação IJEP e Doutora em Teologia
Ana Paula Maluf – Analista Didata IJEP
Referências:
BOFF, Leonardo. O rosto materno de Deus: ensaio interdisciplinar sobre o feminino e suas formas religiosas. Petrópolis: Vozes 1979.
BOFF, Leonardo. A Ave Maria o Feminino e o Espírito Santo. Petrópolis: vozes, 1980.
EDINGER, Edward. O Arquétipo Crsutão: um comentário junguiano sobre a vida de Cristo. São Paulo: Cultrix, 1987.
GEBARA, Ivone, BINGEMER, Maria Clara. Maria, Mãe de Deus e Mãe dos Pobres – Um ensaio a partir da mulher e da América Latina. Petrópolis: Vozes, 1978.
JUNG, Carl. (1978). Psicologia e Religião. In Obras completas de C. G. Jung, (Vol. 11/1). Petrópolis: Vozes. Originalmente publicado em inglês em 1938.
________. (2013). Resposta a Jó. In Obras completas de C. G. Jung, (Vol. 11/4). Petrópolis: Vozes. Originalmente publicado em alemão em 1952.
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