Resumo: Neste artigo, proponho ampliarmos, à luz da psicologia analítica, o tema da identificação unilateral com a persona — em especial a persona do sofrimento — e aprofundarmos como ela se difunde nas redes sociais em forma de espetacularização, dialogando com as reflexões de Guy Debord em sua obra A Sociedade do Espetáculo (1992).
Observamos em nossa sociedade atual a demanda por performance na vida pessoal para que as pessoas se mantenham relevantes em seus círculos sociais.
A lógica algorítmica de funcionamento das redes sociais silencia gradativamente o contato do indivíduo com sua subjetividade e desloca do ego a possibilidade de experiência simbólica diante da vida. Em busca de narrativas que promovam engajamento e audiência, o indivíduo, na escassez de sua intimidade com o mundo imaginal e tomado por complexos sombrios, dá voz à persona do sofrimento. Essa, transforma o próprio sofrimento em entretenimento de massa como ferramenta de pertencimento social e manutenção do indivíduo na identificação com a coletividade e com seus sintomas.
Observamos na atualidade o impulso dos indivíduos em experienciar a vida prioritariamente através das narrativas pautadas pelas redes sociais, enquanto a subjetividade vem sendo, cada vez mais, reduzida para caber nas dimensões das telas.
Manter-se relevante no universo digital demanda do indivíduo a constante atitude de produzir e performar. Essa exigência, contudo, impõe exageradamente a unilateralização racional da vida e afasta os indivíduos do contato com a experiência de vida simbólica.
Jung afirma que só é possível alcançar um estado de realização quando temos a capacidade de sustentarmo-nos como indivíduos íntegros, ou seja, de unir a vida concreta à potência criativa do mundo imaginal. Ele diz:
A pessoa humana precisa de vida simbólica. E precisa com urgência. (…) não temos vida simbólica, mas temos necessidade premente dela. Somente a vida simbólica pode expressar a necessidade da alma – a necessidade diária da alma.
JUNG, 2023, p. 627
E completa mais adiante:
O simples fato de alguém viver a vida simbólica tem uma influência extraordinariamente civilizadora. Essas pessoas são bem mais civilizadas e criativas por causa da vida simbólica. As pessoas apenas racionais têm pouca influência; tudo nelas se resume a discurso e com discurso não se vai longe”.
JUNG, 2023, p. 653
Neste artigo, proponho ampliarmos, à luz da psicologia analítica, o tema da identificação unilateral com a persona — em especial a persona do sofrimento — e aprofundarmos como ela se difunde nas redes sociais em forma de espetacularização, dialogando com as reflexões de Guy Debord em sua obra A Sociedade do Espetáculo (1992).
A Sociedade do Espetáculo e sua representação nas redes sociais
Guy Debord (1992, p. 4) define o espetáculo a partir da mediação de imagens nas relações sociais, que, em prol da representação acerca de determinado objeto, perdem seu caráter autêntico e real. O conceito de sociedade do espetáculo parte do princípio de que a desconexão das pessoas com a realidade origina-se de uma alienação generalizada, na qual a representação de uma realidade imaginada reduz a vida em moldes fragmentados. O autor afirma: “A realidade considerada parcialmente, apresenta-se em sua própria unidade geral como pseudomundo à parte, objeto de mera contemplação” (DEBORD, 1992, p.2).
Atualmente, as redes sociais expressam o formato mais evidente da sociedade do espetáculo, desempenhando o papel de repositório de positividade e anestesiamento da realidade.
A mesma tecnologia que chegou com a promessa de criar conexões tornou-se a maior ferramenta de desconexão da contemporaneidade – estamos online a todo momento, mas cada vez mais distantes de nós mesmos e do outro. Tomados pelo espírito da época, os indivíduos estão aprisionados na constante busca por interações externas e estímulos que reforcem sua aprovação e adequação no lugar comum.
Numa sociedade que estimula o espelhamento do indivíduo na cultura de massa, as experiências pessoais tornam-se apenas reflexos da repetição de padrões coletivos, sustentando indivíduos acríticos e de atitude fragilizada perante as questões da vida.
A ótica espetacular não faz distinção entre “individual” e “coletivo”, uma vez que a total transparência impede a individualidade. Existindo de forma coletiva, as pessoas vivem uma proximidade simbiótica com sua rede. O que é individual e íntimo se torna de domínio público e a vida pessoal é transformada em entretenimento de massa.
Na busca por visibilidade e validação, os usuários deslocam a autenticidade das experiências para promover narrativas virais que geram engajamento, ainda que sejam desvinculadas da realidade vivida, sendo manipuladas e formatadas para caber nos requisitos dos algoritmos.
Surge, assim, a instrumentalização da vida e da autoimagem, onde o sentido significativo da subjetividade é deslocado para a ode à performance. A partir da ótica instagramável, as pessoas buscam representar a própria vida dentro de moldes estéticos e performáticos estando, a todo momento, em evidência, promovendo o eco de si mesmo em busca de engajamento e audiência.
No entanto, em função de seu imediatismo e da multiplicidade de eventos no universo digital, as pessoas sofrem com o constante esgotamento de narrativas. Os símbolos de aspiracionalidade e entretenimento são rapidamente consumidos e esvaziados, precisando se reciclar o tempo todo. Diante disso, complexos ganham roupagens midiáticas.
Jung esclarece a dinâmica geral do funcionamento dos complexos:
O complexo é um fator psíquico que, em termos de energia, possui um valor que supera, às vezes, o de nossas intenções conscientes; (…) um complexo ativo nos coloca por algum tempo num estado de não liberdade, de pensamentos obsessivos e ações compulsivas.
JUNG, 2008, p. 200
O sofrimento como narrativa de entretenimento
Pelas lentes da estetização, o sofrimento passou a ser ‘instagramável’. Narrativas sombrias surgem como novos formatos de entretenimento viral e a patologização da saúde mental manifesta-se como uma nova tendência a ser seguida e reproduzida pelos usuários.
Sob o ponto de vista psicológico, as redes sociais oferecem aos indivíduos as ferramentas necessárias para a manutenção de persona, uma vez que os perfis são tidos como um palco particular, voltado às próprias narrativas, expressões e filtrados por seus interesses. Para Jung:
A persona é, pois, um complexo funcional que surgiu por razões de adaptação ou de necessária comodidade, mas que não é idêntico à individualidade. O complexo funcional da persona diz respeito exclusivamente à relação com os objetos.
JUNG, 1991a, p. 390
Nesse sentido, nasce o que chamo, nesse estudo, de “persona do sofrimento”. Paradoxalmente, aspectos sombrios frequentemente negligenciados ou reprimidos pelo indivíduo são as partes da persona do sofrimento performadas nas redes sociais.
Tal espetacularização escancara a superficialidade das pessoas em relação ao próprio sofrimento e demonstra como a autoexposição se converte rapidamente em autoexploração. Publicações pautadas na identificação do indivíduo com seu sofrimento reforçam padrões de comportamento que o moldam dentro do papel de vítima, perpetuando a figura de bode expiatório de si mesmo.
Ou seja, a persona do sofrimento atua como um veículo para depósito de projeções, externas e internas, deslocando do ego a responsabilização e confronto com a causa de seu sofrimento e tornando-o ainda mais fragilizado e vulnerável diante da vida.
Existe uma inflação que caminha junto com a identificação com a imagem do bode expiatório porque esse indivíduo carrega também a projeção da esperança de cura da massa (Cf. GIRARD, 2004). Jung afirma:
Quando a sociedade, como conjunto, necessita de uma figura que atue magicamente, serve-se da vontade de poder do indivíduo e da vontade de submissão da massa como veículo, possibilitando assim a criação do prestígio pessoal.
JUNG, 2008, p. 237
Identificação unilateral patológica com a persona do sofrimento
À medida que o ego se confunde com a máscara social que performa o sofrimento, ele vai sendo tomado pelos conteúdos sombrios não integrados e seus complexos passam a atuar de maneira rígida. O sofrimento real não é acolhido e integrado, mas adaptado e performado no contexto das narrativas digitais.
A constante exposição e validação da persona submete gradativamente o ego à identificação patológica, na qual o indivíduo não apenas fica unilateralmente identificado, mas acredita encontrar nela o caminho para seu pertencimento social. Desconsiderando a totalidade psíquica por meio de sua indiferenciação em relação aos complexos e a coletividade, o indivíduo fica paralisado, vivendo uma vida provisória, de sobrevivência e subserviência, de promessas sem garantias.
Vivemos em uma sociedade paliativa, onde nenhuma manifestação de negatividade ou sofrimento é verbalizada ou experienciada em profundidade. Esquecemos como dar forma ao sofrimento e, como consequência, estamos perdendo a possibilidade de nos relacionarmos em profundidade com o tema da nossa dor.
A unilateralização patológica confere ao indivíduo não o desintegrar-se para reconstituir-se, mas sim sua identificação com os sintomas como atributos permanentes e imutáveis, inexoravelmente fundidos à sua personalidade.
A persona do sofrimento excessivamente unilateral reflete ausência de contato do indivíduo com a dimensão simbólica dos sintomas, inibindo o processo de cura interior, que não consiste na eliminação de sintomas, mas no processo de elaboração simbólica por meio deles, capacitando o indivíduo a atribuir sentido ao próprio sofrimento.
Na capacidade de morte simbólica, reside no indivíduo que ousa viver, a liberdade da vida. Assim, compreendendo-a não como um estado permanente, mas como um processo dinâmico a partir das diversas mortes e renascimentos possíveis de se experenciar dentro de uma única vida.
Possuindo a imagem de uma coisa, possuímos a metade da coisa. A imagem do mundo é a metade do mundo. Quem possui o mundo, mas não sua imagem, possui só a metade do mundo, pois sua alma é pobre e sem bens. A riqueza da alma consiste de imagens. Quem possui a imagem do mundo possui a metade do mundo, mesmo quando seu humano é pobre e sem bens. Mas a fome transforma a alma em fera e engole o prejudicial e com isso se envenena. Meus amigos, é sábio alimentar a alma, senão criareis dragões e demônios em vossos corações.
JUNG, LV, pag. 118
Bianca Franco – Analista em formação pelo IJEP
José Balestrini – Analista Didata IJEP
Referências:
DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.
GIRARD, René. O bode expiatório. São Paulo: Paulus, 2004.
JUNG, Carl Gustav. A natureza da psique. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 1991.
______ O eu e o inconsciente. 27. ed. Petrópolis: Vozes, 2008.
______ A vida simbólica. 17. ed. Petrópolis: Vozes, 2023.
______ O Livro Vermelho. 4. ed. Petrópolis: Vozes, 2015.

