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Diante do espelho, uma mulher nunca encontra apenas um corpo feminino refletido. Encontra uma imagem construída ao longo da vida, atravessada por sensações, memórias, afetos, olhares, expectativas e ideais sobre o que esse corpo deveria ser. O corpo que vê encontra a mulher que acredita precisar ser, a persona com a qual busca reconhecimento, os complexos que em certos momentos alteram a intensidade do olhar e também aspectos de si mesma que preferiria não reconhecer. Por isso, há dias em que o espelho parece mudar, embora o corpo quase não tenha mudado. A questão que surge não é “o que vejo quando me olho?”, mas “quem está olhando comigo?”. Porque, diante do espelho, nunca estamos inteiramente sós: conosco estão nossa história, o olhar do outro, as imagens coletivas do feminino e tudo aquilo que, silenciosamente, faz parte da forma como uma mulher aprende a enxergar o próprio corpo.
Não é de hoje que ao abrir os sites de notícias, ao assistir os telejornais somos inundados por notícias mórbidas: assassinatos, mortes, violências, roubos, assaltos, agressões de toda espécie são tão constantes que quase banalizamos esses fatos. A fome, o desemprego, a miséria, as doenças, o ódio, a descriminação estão tão concretos que quase os “pegamos no ar”. As mídias sociais evidenciam a quantidade de ofensas, xingamentos e cancelamentos, numa espécie de apedrejamento virtual. O ódio, o preconceito, a falta de empatia parecem ter deixado de fazer parte dos aspectos sombrios e passaram a ser o “novo normal” da convivência, principalmente nas plataformas virtuais. A distância e o semianonimato facilitam com que a educação, o diálogo e a civilidade passem longe das conversas. Muito se discute sobre a ontologia da maldade. Seria ela a falta da bondade ou a “privatio boni”, ou teria ela sua própria substância?
