Browsing: Transferência
O olhar que recebemos pode expandir a vida psíquica — ou restringi-la. Neste artigo, exploramos como as expectativas do outro moldam profundamente a experiência humana, articulando dois conceitos da psicologia social: o Efeito Pigmaleão, que eleva, e o Efeito Golem, que rebaixa. A partir de mitos, pesquisas clássicas e da clínica junguiana, refletimos sobre o poder criativo ou destrutivo do olhar que incide sobre o sujeito. No setting analítico, essa dinâmica se manifesta na forma como o terapeuta sustenta — ou limita — a emergência do Self. Enquanto o olhar pigmaleônico favorece o florescimento da potência psíquica, o olhar golem pode cristalizar defesas, sintomas e identificações empobrecidas. O texto convida, assim, a uma pergunta ética e clínica fundamental: que imagem ajudamos a esculpir no outro — e em nós mesmos? Afinal, o olhar que reconhece o “suficientemente bom” não apenas vê: ele cria condições para que a vida se torne mais inteira.
Infelizmente, ainda vemos muitos analistas junguianos tomados pelo medo da transferência no contexto psicoterapêutico, empoleirados em suas gaiolas douradas, defendidos com títulos e teorias, apesar de estarem sofrendo, por serem incapazes para o encontro entre almas, que é libertador e curador. Acredito que a razão para isso deve ser a tentativa de institucionalização do fazer da alma, onde os conselhos de classe ou entidades de formação tentam formalizar, regular e limitar essa relação única, que deveria ser livre, expressiva e criativa, num ambiente seguro e amoroso. Outra possibilidade para esse desastre relacional, que replica o atual momento de vazio e liquidez, deve ser pela influência da psicanálise freudiana, ainda presente no universo da Psicologia, que patologiza a transferência e/ou do atual modelo desta medicina da sociedade de consumo, que mercantilizou e expropriou a saúde da vida cotidiana, impondo padrões de controle e segurança, com protocolos e registros para a relação humana entre médico e paciente.
