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Em nossa civilização, muitas vezes, tristeza, dor e sofrimento são patologizados. Mas a criação humana anda de mãos dadas com os infortúnios e, psicologicamente, talvez não haja alquimia mais poderosa do que transmutar tristeza em alegria. A partir do mito tupi da gênese da Serra da Mantiqueira, a “serra que chora”, faço, neste ensaio, uma reflexão sobre o poder da dor no processo criativo, no desenvolvimento da personalidade, na inspiração para o belo e para uma nova-velha concepção de felicidade.
A cultura contemporânea transformou a felicidade em uma exigência normativa e a tristeza em sinônimo de fracasso. No entanto, ao negarmos a dor e o sofrimento, reduzimos o sentido da existência humana e favorecemos o anestesiamento e o surgimento de formas sutis de adoecimento. A partir da psicologia junguiana, o sofrimento é compreendido como expressão simbólica necessária ao processo de individuação e transformação. No entanto, a lógica da positividade e da medicalização tende a silenciar o sintoma antes que ele revele seu sentido. Sustentar a dor, nesse contexto, torna-se um gesto de resistência e condição para uma experiência mais autêntica e profunda da vida.
