Se não formamos uma imagem global do mundo,
JUNG, OC 8/2, §696
também não podemos ver-nos a nós próprios,
que somos cópias fiéis deste mundo.
Este ensaio examina o conceito de cosmovisão em C. G. Jung e sua leitura da Antroposofia enquanto expressão contemporânea da busca humana por sentido.
Parto de uma questão recorrente em minha prática docente e clínica: em que medida Psicologia Analítica e Antroposofia se aproximam ou divergem? Embora não sejam sistemas equivalentes, ambos compartilham o propósito de favorecer o desenvolvimento integral do ser humano, em Jung, pela individuação, em Steiner, pela iniciação e pelo cultivo das capacidades anímicas e espirituais. A partir do capítulo “Cosmosofia” (OC 8/2), discuto a cosmovisão como atitude consciente e hipótese orientadora da vida, destacando a importância de uma imagem de mundo viva e não dogmática. Analiso também as críticas e reconhecimentos feitos por Jung à Antroposofia, compreendida como resposta simbólica às necessidades psíquicas modernas. Concluo que a Psicologia Analítica possibilita o indivíduo a construir uma cosmovisão que integra experiência, consciência e responsabilidade, permitindo-lhe viver de forma mais plena e consciente.
Desde que me dedico ao estudo e à docência da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung (1875–1961), é frequente que eu seja questionada sobre a suposta semelhança entre essa abordagem e a Antroposofia de Rudolf Steiner (1861–1925). Sempre esclareço que não se trata de sistemas equivalentes, contudo, é possível traçar paralelos entre eles, desde que respeitadas suas diferenças metodológicas, epistemológicas e finalidades. Embora contemporâneos e residentes na Suíça, não há registros de um encontro entre Jung e Steiner, tampouco evidências de que Steiner tivesse conhecimento da Psicologia Analítica, ainda em elaboração. Sabe-se, entretanto, que acompanhava o desenvolvimento da Psicanálise[1].
Apesar das distinções entre seus sistemas, ambos compartilhavam uma preocupação comum: a realização da totalidade humana.
Em Jung, essa totalidade se expressa na integração dos opostos e encontra seu percurso próprio no processo de individuação. Em Steiner, essa realização aparece como caminho de iniciação, no qual o ser humano desenvolve progressivamente suas capacidades anímicas e espirituais, tornando-se cada vez mais consciente, livre e responsável por sua própria biografia. Tanto individuação quanto iniciação descrevem, cada uma a seu modo, processos pelos quais o ser humano é convidado a atualizar suas potencialidades, ampliar a consciência e participar de forma mais plena da vida.
O cenário histórico, situado no contexto pós-kantiano (Clarke, 1992; Wenceslau; Luz, 2014), que influenciou ambos, constitui o pano de fundo daquele momento. Trata-se de um período marcado pela transição entre o idealismo crítico e as novas ciências do espírito, no qual a questão dos limites e possibilidades do conhecimento humano, tema central da filosofia kantiana (1724-1804), orientou as discussões sobre subjetividade, experiência e mundo. A partir dessa herança, Jung e Steiner elaboraram caminhos distintos: um, clínico-psicológico, o outro, espiritual-científico, mas ambos respondendo ao mesmo desafio moderno inaugurado por Kant, como conhecer o mundo sem reduzir o sujeito, e como compreender o sujeito sem perder o mundo.
Este ensaio tem por objetivo dialogar com o conceito de cosmovisão em Jung e examinar como o autor compreendeu a Antroposofia enquanto cosmovisão moderna. A análise articula-se ao meu percurso clínico e formativo, minha atuação como médica pediatra com ampliação da Antroposofia desde 2002 e minha docência em Psicologia Analítica desde 2009, buscando integrar prática, teoria e reflexão crítica.
Cosmovisão na Psicologia Analítica
Para Jung, a pergunta “Qual é a nossa atitude em relação ao mundo?” é o ponto de partida para compreender a formação de uma cosmovisão. O autor define atitude como “uma constelação especial de conteúdos psíquicos orientada para um fim ou dirigida por uma ideia-mestra” (Jung, 2013a, §690). Por isso, nossas ações jamais são simples respostas a estímulos imediatos, ao contrário, “cada uma de nossas reações e ações se processa sob a influência de fatores psíquicos complicados” (Jung, 2013a §691). Mesmo aquilo que parece um impulso espontâneo é, na verdade, o resultado de inúmeras determinações internas, conscientes e inconscientes, que configuram nossa posição diante da vida.
Jung compara o funcionamento psíquico a um exército organizado, o ego seria o comandante, cujas reflexões, dúvidas, expectativas e decisões compõem seu estado-maior. Já os fatores que atuam “por trás dos bastidores” correspondem ao inconsciente, que influencia silenciosamente cada movimento da consciência (Jung, 2013a, §692). Essa metáfora evidencia que a atitude nunca é um ato isolado, mas a expressão momentânea de uma estrutura complexa.
É nesse contexto que Jung justifica sua preferência pelo termo “atitude” em vez de “cosmovisão”.
A atitude pode ser consciente ou inconsciente, e um indivíduo pode conduzir-se de modo relativamente eficaz no mundo sem possuir uma cosmovisão formulada. Entretanto, ninguém age sem uma atitude. A cosmovisão surge apenas quando essa atitude é conceitualmente reconhecida e organizada, isto é, “quando alguém formular sua atitude de maneira conceitual ou concreta e verificar claramente por qual motivo e para que fim vive e age dessa ou daquela forma” (Jung, 2013a, §694).
Por isso, Jung afirma que a cosmovisão é, em essência, “uma consciência ampliada ou aprofundada” (Jung, 2013a, §695). Toda tomada de consciência, dos próprios motivos, intenções, valores e escolhas, é o germe de uma cosmovisão. Ela se forma progressivamente, à medida que o indivíduo acumula experiências, elabora conhecimento e transforma sua relação com o mundo. Como afirma o autor, “Não formamos apenas uma imagem do mundo, ela nos transforma” (Jung, 2013a, §696).
Essa imagem do mundo torna-se então o eixo pelo qual orientamos nossa adaptação à realidade. Quando tal imagem é pobre, rígida ou inexistente, o indivíduo permanece sujeito a impulsos inconscientes, vulnerável às forças que desconhece (Jung, 2013a, §697). Por isso, Jung defende que a cosmovisão não é uma representação objetiva da realidade, pois isso seria impossível, mas sim “o melhor conhecimento possível” (Jung, 2013a, §698), uma hipótese de orientação vital.
Finalmente, Jung alerta para o risco das cosmovisões que se cristalizam como verdades absolutas. Toda cosmovisão deve ser compreendida como hipótese viva, jamais como doutrina: “uma cosmovisão é uma hipótese e não um artigo de fé” (Jung, 2013a, §700). Quando se petrifica, ela perde sua função simbólica e adaptativa, transformando-se em obstáculo para a individuação.
Antroposofia como Cosmovisão: um olhar da Psicologia Analítica
Jung reconhece que, na modernidade, há uma busca intensa por sistemas simbólicos que respondam ao colapso das antigas cosmovisões, e menciona explicitamente a Antroposofia como uma dessas tentativas. Com o atrofiamento da personalidade humana surge a necessidade de buscarmos as nossas origens. (Jung, 2013a, §737). Ele escreve: “Temos necessidade de uma cosmovisão […] e muitas tentativas procuram restaurar uma cosmovisão de estilo antigo, como a Teosofia e a Antroposofia”.
No entanto, Jung distingue sua postura científica das afirmações metafísicas não demonstráveis como ele cita em uma carta. Na carta de 1935, afirma: “Nada encontrei em Steiner que me fosse útil […] Interesso-me apenas pelo que pode ser constatado pela experiência” (Jung, 2025, p. 216).
Contudo, Jung reconhece que movimentos como a Antroposofia expressam conteúdos arquetípicos reativados, equivalentes aos sistemas gnósticos antigos (Jung, 2013b, §169-176). Ele considera que sua força deriva da energia psíquica que reflui das formas religiosas que perderam vitalidade.
Jung (Jung, 2014, §118), afirma que compreende a adesão de muitas pessoas à Teosofia e à Antroposofia porque tais sistemas oferecem imagens e linguagens capazes de expressar acontecimentos interiores que a consciência moderna não consegue simbolizar. Essas imagens interiores nunca perderam totalmente sua energia vital e voltam novamente para compensar a unilateralidade da orientação da consciência moderna.
Quanto mais unilateral, rígida e incondicional for a defesa de um ponto de vista, tanto mais agressivo, hostil e incompatível se tornará o outro, de modo que a princípio a reconciliação, tem poucas perspectivas de sucesso. Mas, se o consciente pelo menos reconhecer a relativa validade de todas as opiniões humanas, o contrário também perde algo de sua incompatibilidade. Entretanto, esse contrário procura uma expressão adequada, por exemplo, nas religiões orientais, no budismo, no hinduísmo e no taoísmo. O sincretismo (mistura e combinação) da teosofia vem amplamente ao encontro dessa necessidade e explica o seu elevado número de adeptos”. (JUNG, 2014, § 118)
A questão da sujeição à psique coletiva, como apresentada por Jung em sua obra, é central para a compreensão do processo de individuação e do perigo da identificação com as forças arquetípicas que moldam a psique humana.
Jung (2015, p. 140-142) descreve o caminho da identificação com a psique coletiva como um processo de ilusão, no qual o indivíduo busca um conhecimento absoluto e revelador, mas perde a conexão com sua individualidade e com a própria capacidade de autotransformação. Nesse processo, o sujeito se perde nas imagens coletivas que o inconsciente coletivo oferece, confundindo-as com a verdade absoluta, o que pode levar à superficialidade e à dependência das estruturas externas, impedindo a verdadeira evolução da psique.
Essa identificação, para Jung, resulta em um retrocesso, uma vez que o indivíduo deixa de buscar sua totalidade e, em vez disso, se submete aos modelos coletivos, dogmáticos e místicos, que podem se transformar em um “fetiche”, como se as ideias ou sistemas fossem a única verdade. Isso impede que o sujeito viva de forma autêntica, pois o processo de individuação exige que a pessoa confronte e integre seus próprios opostos internos, ao invés de se deixar levar por ideologias ou sistemas que oferecem respostas prontas. O perigo da sujeição à psique coletiva é, portanto, um obstáculo à liberdade psíquica e à conquista do verdadeiro autoconhecimento.
No entanto, Jung não se opõe a todos os movimentos coletivos, mas alerta para a necessidade de consciência crítica. A sujeição à psique coletiva é um dos riscos para a evolução individual e, por isso, é importante que o ser humano busque uma cosmovisão que não se perca em dogmas ou sistemas fechados, mas que seja um caminho vivo e dinâmico de autotransformação.
Assim, embora critique seus excessos dogmáticos, Jung reconhece que a Antroposofia responde a necessidades da alma contemporânea, necessidades que a Psicologia Analítica também busca compreender, porém com outra metodologia e outra ética da experiência.
Para Moraes[2] (Moraes, 2006, p. 235), o sujeito que se aproxima da obra de Steiner:
“Encontra-se diante de um mythos que contém, implícito, uma ontologia do Anthropos, do Cosmos e uma Sophia. Diante dessa cosmologia e dessa ontologia de caráter místico, o sujeito é convidado a “viver o mythos”, percebendo-se como parte de um grande movimento cósmico vinculado a uma primordialidade intencional que se manifesta no cotidiano. Tal manifestação ocorre como possibilidade de atuação em campos diversos, medicina, educação, arte, todos reelaborados com recursos operacionais próprios desse amplo mythos. Assim, a Antroposofia, deixando de lado eventuais aspectos ideológicos, torna-se uma fonte de significabilidade, compreensibilidade e manuseabilidade. Cabe ao sujeito que se depara com esses instrumentos dispor deles de modo prático, reelaborá-los e, a partir disso, despertar recursos internos para sustentar sua própria existência. O grande desafio consiste em manter-se atento para que essa cosmosofia não se transforme em dogma e, consequentemente, se perca de vista o livre pensar crítico”.
Considerações Finais
Jung propõe que a cosmovisão é indispensável ao ser humano, mas que ela deve permanecer viva, hipotética e não-dogmática. A Antroposofia aparece em suas obras como um movimento significativo, expressão de forças do inconsciente coletivo e resposta simbólica às carências espirituais modernas. No entanto, para Jung, a psicologia não pode substituir-se à metafísica, seu foco permanece no verificável, experiencial e simbolicamente transformador.
Luciana Antonioli – Analista Didata em Formação
José Luiz Balestrini Junior – Analista Didata IJEP
Referências:
CLARKE, J. J. Fundamentos filosóficos. In: Em busca de Jung – indagações históricas e filosóficas. Rio de Janeiro, RJ: Ediouro, 1992. p. 50–72.
JUNG, C. G. A natureza da psique. 4. ed ed. Petrópolis: Vozes, 2013a. v. 8/2
JUNG, C. G. Civilização em transição. Petrópolis: Vozes, 2013b. v. 10/03
JUNG, C. G. Psicologia do inconsciente. 24. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014. v. 7/1
JUNG, C. G. O eu e o inconsciente. 27. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015. v. 7/2
JUNG, C. G. C. G. Jung – Cartas – Vol. 1, 1906 – 1945. 2. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2025. v. 1
MORAES, Aragão de Moraes. Salutogênese e autocultivo: uma abordagem interdisciplinar – sanidade, educação e qualidade de vida. Rio de Janeiro, RJ: Instituto Gaia, 2006.
WENCESLAU, Leandro David; LUZ, Madel T. O saber antroposófico e sua inserção sociocultural. In: A medicina antroposófica como racionalidade médica e prática integral de cuidado à saúde: estudo teórico-analítico e empírico. 1. ed. Juiz de Fora, MG: UFJF, 2014. p. 21–47.
Fonte da imagem – Acervo pessoal. Aquarela de Luciana Antonioli, 2025.
[1] Psicanálise: abordagem clínico-teórica fundada por Sigmund Freud (1856–1939), que introduziu o conceito moderno de inconsciente e inaugurou um método específico de investigação dos fenômenos psíquicos.
[2] Wesley Aragão de Moraes (1973– ), filósofo brasileiro, mestre em Educação e doutor em Filosofia pela Universidade Federal do Ceará, pesquisador do pensamento de Rudolf Steiner e das interfaces entre Antroposofia, ontologia e educação.

