Este artigo investiga a esperança em seu aspecto psicológico, tomando como ponto de partida o surgimento de um inseto, primeiro no sonho e, em seguida, no mundo concreto, cuja presença carrega a superstição de ser um sinal de prosperidade. A reflexão desloca o olhar da superstição em relação ao mundo externo, para o seu sentido interno, articulando dados biológicos do inseto, a etimologia da palavra esperança, o simbolismo do verde e seu lugar na alquimia enquanto espírito da vida e força germinativa.
Nesse horizonte, a esperança não é entendida como pensamento positivo, mas como uma tonalidade psíquica liminar, situada entre a putrefação da forma anterior e o brotar de novas possibilidades, quando o verde começa a se insinuar, numa fase em que a transformação ainda é incompleta, porém já pressentida e desejada.
O momento em que a transformação psíquica, não é mais sentida apenas como sofrimento, mas reconhece-se o aparecimento de uma certa alegria, como uma primavera oculta, quando brotos verdes começam a despontar na terra nua anunciando uma possível colheita futura.
“…nosso mundo, se desumanizou. O homem está isolado no cosmos. Já não está envolvido na natureza e perdeu sua participação emocional nos acontecimentos naturais que até então tinham um sentido simbólico para ele”. Perda desses valores morais e espirituais que possibilitavam o indivíduo a dar contenção para a vida, seriam a causa de uma imensa cisão interna, assim consciente e inconsciente mostram-se cada vez mais afastados, sendo a falta de sentido do indivíduo moderno o grande sintoma.” (JUNG, 2013, p.274).
Este artigo tem por base um inseto, primeiro surgido em um sonho e no dia seguinte, na concretude.
Inseto este, cuja aparição carrega, na cultura popular, certas superstições associadas a seu nome. Antes de avançar para ampliação teórica, considero este acontecimento cotidiano como ponto de partida, tendo em vista a forte carga energética que provocou reflexão e elaboração.
Uma vez que é neste cruzamento entre o ordinário e o extraordinário que a psicologia analítica encontra matéria viva para o estudo dos aspectos psicológicos da experiência. Assim não se trata apenas de um episódio cotidiano, mas também de uma imagem que emergiu e que, por sua força evocativa, abriu espaço para pensar a esperança em suas múltiplas camadas psicológicas.
Neste momento, passo a relatar como a experiência se deu em seu aspecto subjetivo:
“E lá estava ela, primeiro no sonho, verde, muito verde, daquele verde que me atrai o olhar no começo da primavera. No final do inverno, lá estão as plantas adormecidas com seu verde estabelecido, intenso, daquele verde de quem já acumulou dias de sol, chuva, invernos, verões e outras primaveras, e então, eles aparecem: os brotos. E como eles, era um verde novo, que se destaca, um verde fresco, alegre, mas também de certa forma um verde tímido e brilhante, o verde da esperança. Assim era ela no sonho.”
Mas no dia seguinte, ao entrar no banheiro, sinto um temor, aquele de quando percebemos que não estamos só, e como para aqueles brotos, logo meu olhar foi atraído para ela. E ali estava, no teto do banheiro, a presença que me invadiu, o inseto, que no sonho chamaram de grilo, mas eu sabia que este verde era da esperança, as emoções se misturaram, eu seguia com medo, medo de ela voar em mim, mas porque alguém teria medo da esperança?
E o que eu estava chamando de grilo, mas era esperança em seu verde mais vivo? Na verdade, a descoberta da esperança foi algo recente em minha vida, antes de retornar a vida animada, todos esses insetos eram grilos, ao meu modo apático de ver. No entanto, meu reino de certezas ruiu e assim a esperança pode entrar.
O inseto
A esperança, enquanto inseto, pertence a família Tettigoniidae, ordem Orthoptera, também é conhecida como “inseto folha”. Apesar de serem parentes próximos de outros insetos cantores, como os grilos e gafanhotos, como eu vim descobrir, a esperança possui características que as tornam bem diferentes. Enquanto os grilos possuem um corpo mais robusto e arredondado, coloração marrom-escura, preta, e quando verde uma tonalidade mais opaca, as esperanças possuem corpo mais alongado e comprimido lateralmente, e seu verde, na maioria das espécies, mais forte e brilhante e suas asas imitam folhas, e não só na aparência, suas assas podem possuir depressões e irregularidades que refletem a luz como uma folha danificada e até ter furos como que “comida por lagartas”.
Ao contrário dos grilos onde só os machos produzem sons, em algumas espécies de esperanças, a fêmea também produz em resposta ao canto do macho, realizando um dueto para que o macho possa ir ao seu encontro. O canto da esperança também é bem distinto de seus parentes, pois o som que produz possui uma forma difusa e vibrátil, que faz com que sua origem não seja detectada, e somado ao seu mimetismo, se confunde com a vegetação que a abriga, causando a experiência de uma voz que não se sabe de onde vem, parecendo que o som vem do ambiente e não do inseto.
Alta sensibilidade: a esperança como radar do invisível
A esperança possui tímpanos nas tíbias das patas dianteiras, ou seja, ela escuta com as pernas, e é capaz de detectar frequências extremamente altas, muito acima da capacidade humana. Ela ouve sons de morcegos predadores a distância e muda o comportamento para não ser capturada. Por isso, é um inseto de sensibilidade extrema, afinado às vibrações mínimas e às menores variações do clima.
Outra marca da esperança são as antenas extremamente longas, por vezes maiores do que o próprio corpo e mesmo quando permanecem absolutamente imóveis suas antenas seguem, fazendo a “leitura do ambiente” como um mapa vibratório. Essas antenas são repletas de receptores sensoriais capazes de captar: vibrações mínimas no ar, variações de temperatura, deslocamento imperceptíveis do ambiente, presença de outros insetos, frequências sonoras.
Atualmente existem estudos, que consideram estes insetos como bioindicadores ecológicos, sendo possível reconhecer através de sua presença e comportamento, se o ambiente se encontra em equilíbrio, ou seja, possam indicar a possibilidade de boas colheitas. Contudo, seu excesso também demonstra desiquilíbrios, podendo causar devastações em plantações, como seus parentes cantores.
Nossos ancestrais já pareciam possuir a sabedoria de que quando este inceto aparecia boas colheitas estavam por vir, sendo este um dos prováveis fatores, além de sua cor verde ser reconhecida como a cor da esperança, que deram origem ao seu nome popular e a crença de que quando o inseto aparece é sinal de prosperidade, simbolizando boa sorte, renovação, transformação, prosperidade, boas colheitas, chuva, casamento.
A palavra – Spes: esperança, expandir, avançar, prosperar
No português esperança deriva da raiz indo-europeia spe, significa expandir, estender-se, projetar-se, fazer brotar, levar adiante (Ernout & Meillet, 2001). Essa raiz forma o latim spes que significa acreditar, mas confiar no movimento da vida, no devir.
Da mesma raiz deriva prosperar e espergir (espalhar), ambas imagens de gesto. E ao mesmo tempo, spe de origem a palavras como espuma, esporro, esperma: imagens de semente que se lança ao mundo sem garantia. Em inglês, hope provém do antigo inglês hopian, associado à ideia germânica de esperar, confiar, conforme registra o Oxford English Dicitionary (2024).
A esperança é verde
Eva Heller, no livro a psicologia das cores, demonstra como o verde está associado a fertilidade, esperança, sagrado, espírito santo, sendo a cor da vida e da saúde, da primavera, dos negócios que florescem, da fertilidade, do frescor, da liberdade, da esperança, que acalma, mas também da imaturidade, do veneno, dos monstros, do diabo, da raiva, da inveja. (HELLER, 2021, p. 105-123).
No livro dos símbolos, no verbete verde encontra-se:
“A ligação entre “verde” e crescimento da planta está incorporado na própria palavra: ‘Green” (verde) está relacionado com palavra do inglês antigo growan, que significa crescer ou cobrir com verde (Barnhart, 329). O verde afeta o corpo baixando a pressão sanguínea e dilatando os vasos capilares, um efeito repousante usado contra a insônia e a fadiga (Portmann 139). Mas para além da energia física da vida, o verde também representa a esperança, a promessa de se atingir o precioso objetivo para além da escuridão do desânimo (CW 14:635-4[1]).(MARTIN, 2012, p.646)
Na mitologia, Osíris, o Deus da fertilidade no Egito, tinha representações com a pele verde e era considerado o espírito do milho e da árvore. Sendo que a morte e o renascimento constituem o mito. Existindo um hino, conforme relata Edward Edinger (2020,p. 243), a seu louvor que diz: “o mundo se torna verde através dele”.
Kernunnos, o “Deus Cornífero, é o rosto da própria floresta: uma deidade animal masculina, que possui o rosto coberto de folhas e chifres de veado, representando o espírito da renovação, pois quando os veados perdem os chifres outros nascem em seu lugar. Seu encontro com a Rainha de Maio, uma deidade feminina que personifica a fertilidade, beleza, e potência germinal da terra marca o ponto culminante do Beltane, rito celta de fertilidade. Que representa a união simbólica entre o Homem Verde e a Rainha de Maio, o casamento sagrado, entre o princípio masculino fertilizador e o princípio feminino da terra que acolhe e desperta.
O espírito da vegetação – o verde na alquimia
“Este espírito, que provém de Deus, é também a causa do verdor muito elogiado pelos alquimistas, a benedicta viriditas (o verdor ou vigor abençoado)”, relata Jung (2012a, p. 114). Segue citando Mylius que dizia; “Deus inspirou às coisas criadas… uma força germinativa, isto é, o verde”. Sobre o simbolismo da cor verde, Jung discorre: “A cor verde, no domínio da psicologia cristã, indica propriedade espermática ou geradora. O verde é a cor atribuída ao Espírito Santo como um princípio criador.” (grifo meu) (2012b, p. 158.)
Psicologicamente, o verde, a esperança enquanto inseto que aparece nas transições das estações e a esperança enquanto tonalidade emocional, que anuncia o frescor da renovação, expressão uma força germinativa: em estado liminar entre a putrefação da semente e o brotar da nova vida, o morrer da forma antiga e enrijecida para a promessa de novas possibilidades.
Este verde não é fruto da vontade consciente, nem de pensamento positivo; é uma função vital, que se mostra com o frescor, como a seiva que corre no interior da planta, que desponta para o que ainda não é, mas insiste em nascer. Neste contexto, verde é a cor da transição. Da transformação incompleta, desejada, esperada, de quando a nigredo não parece mais apenas tormento, mas um sopro de frescor, de uma felicidade positiva, que se faz sentir ainda que oculta.
Jung ainda acrescenta:
Com isso se descreve o estado de uma pessoa, que em sua peregrinação pelas peripécias das transformações psíquica, a qual se parece antes com sofrimento do que qualquer coisa, encontra uma alegria oculta que a reconcilia em seu isolamento aparente. No trato consigo mesma não acha ela enfado mortal nem melancolia, mas encontra um parceiro com quem pode conviver, e, até mais ainda, um relacionamento que se parece com a felicidade de um amor secreto, ou uma primavera oculta, em que brota do chão aparentemente ressecado uma verde sementeira, promissão de futura colheita. Do ponto de vista alquímico trata-se da “Benedicta viriditas, quae cunctas res generas! (“Verdor abençoado que gera todas as coisas”) exclama o autor do Rosarium. (JUNG, 2012c, p. 228)
Talvez por isso nossos ancestrais tenham escutado o canto deste inseto esguio, verde, quase invisível entre as folhas e reconhecido nele, este espírito, o espírito do verde, que ao aparecer também fazia reconhecer o que despontava internamente. A presença verde alada, parecia ser a própria aparição do despertar, o primeiro gesto da vida em transição, retornando após a decomposição. Como se, o verde através dele ganhasse voz.
Diante disso, não apenas sua cor lhe deu o nome, mas a experiência emocional que sua presença faz reconhecer: um presságio do que o espírito do verde acarreta.
O momento em que apesar de parecer não restar mais nada, algo vibra, quase imperceptível no que antes era silêncio, quando tudo parecia perdido. Assim, sob este aspecto o verde não representa conclusão, e sim a primeira vibração da matéria que começa a se reorganizar após a morte da forma anterior.
A esperança, contudo, como pude perceber nos seis dias em que convivemos, não vem para ficar, vem para movimentar, e tentar segurá-la é contrário à sua natureza, o que a intoxica e a transforma em um movimento infértil. E se por vezes pode ser necessário suportar que ela se afaste, por outras pode ser necessário o ato de abrir a mão e retorná-la ao mundo, no mesmo ato da mão que se abre, com confiança, para lançar as sementes na terra, sem garantias, mas acreditando que assim, a possibilidade do verde se fará.
Como Napoleão, que se diz ter sido lentamente envenenado pelos vapores do pigmento verde arsenical que impregnava as paredes de seu exílio, também a esperança que me visitou morreu intoxicada, pelos vapores da água do banho. Mostrando que, quando mercúrio está presente, remédio e veneno andam juntos. O mesmo verde que anuncia o renascimento também pode sufocar; a mesma umidade que prepara o broto também pode afogar o sopro. Assim é o processo psíquico: aquilo que salva é o mesmo que pode ferir, porque a transformação nunca vem purificada, ela vem viva, ambígua, mercurial.
Adriane Grein Basso – Analista em formação pelo IJEP
José Luiz Balestrini Junior – Analista Didata IJEP
Referências:
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SILVA, J.; GARCIA, M. Insetos na Cultura Popular Brasileira. Revista de Etnobiologia, 2018.
ERNNOUT, A.; MEILLET, A. Dictionnaire étymologique de la langue latine. Paris: Klincksieck, 2001.
EDINGER, Edward F. Ego e arquétipo: uma síntese fascinante dos conceitos psicológicos fundamentais de Jung. 2. ed. São Paulo: Editora Pensamento Cultrix, 2020.
ESPERANÇA. In: Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa Michaelis. São Paulo: Editora Melhoramentos, [s.d.]. Disponível em: https://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues-brasileiro
HELLER, Eva. A psicologia das cores: como as cores afetam a emoção e a razão. São Paulo: Olhares, 2021.
JUNG, Carl Gustav. Psicologia e religião. 11. ed. Petrópolis: Vozes, 2012a.
______ Mysterium coniunctionis: pesquisas sobre a separação e a composição dos opostos psíquicos na alquimia. Os componentes da Coniunctio; Paradoxa; As personificações dos opostos. 6. ed. Petrópolis: Vozes, 2012b.
______ Mysterium Conuctionis: pesquisas sobre a separação e composição dos opostos na psíquicos na alquimia. Rex e Regina; Adão e Eva, A conjunção. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 2012c.
______ A Vida Simbólica. Vol. 1. 7 ed. Petrópolis: Vozes, 2013.
MARTIN, Kattlen (org.). O livro dos símbolos: reflexões sobre imagens arquetípicas. Köln: Tashen, 2011.
O´CONNEL, Mark. Interpretação e significado dos símbolos. São Paulo: Lafonte, 2021.
PINHEIRO, Karina. Esperança, o inseto que supostamente pode mudar destinos. Portal Amazônia, 4 mar. 2023. Disponível em: https://portalamazonia.com/amazonia/esperanca-o-inseto-que-supostamente-pode-mudar-destinos/. Acesso em: 08 dez. 2025.
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Imagem: arquivo próprio.
[1] A citação referente a Jung, não foi encontrada nas obras completas em português, devido a diferença nas publicações.

