Resumo: Neste ensaio, faço uma ampliação da relação entre algoritmos e arquétipos, destacando suas naturezas complementares e assimétricas. Discuto a finitude causal dos algoritmos, voltados para previsão e controle, em contraste com a infinitude criativa dos arquétipos, que estruturam o inconsciente coletivo. Não seria possível deixar de fora a conexão entre a propriedade psicoide dos arquétipos e a sincronicidade como manifestação acausal do Self, ligando eventos internos e externos de modo significativo, ou seja, como aquilo que Jung chamou de “ato de criação no tempo”. A hegemonia algorítmica contemporânea pode obscurecer a dimensão simbólica e existencial da experiência, negando a vivência da verdadeira chance sincronística. Acredito que a tensão entre finitude e infinitude deve ser mantida para preservar a emergência do sentido na vida humana.
Duas dinâmicas ordenadoras em diálogo
Estamos, nesse momento da história, diante de uma encruzilhada singular: numa via, corre a presença constante e vertiginosa dos algoritmos — procedimentos matemáticos finitos que, cada vez mais, medem o comportamento humana, prevendo comportamentos, recomendando objetos de desejo, decidindo pelos indivíduos suas trajetórias afetivas e profissionais (cf. Yanofsky, 2011).
Na outra, frequentemente esquecida e/ou mal compreendida pela cultura dominante, está aquela camada psíquica infinita, atemporal e aespacial que C. G. Jung denominou inconsciente coletivo, povoada, em paralelo aos instintos, pelos arquétipos — fatores dinâmicos que estruturam tanto o universo simbólico quanto, em sua dimensão psicóide, a própria interface entre psique e matéria (cf. Jung, OC, 9/1). Dois panos de fundo que se misturam numa dimensão que só aparece na consciência quando exercitamos nossa capacidade reflexiva; do contrário, apenas vivemos seus efeitos como acontecimentos: tanto dos algoritmos quanto dos arquétipos.
Colocar esses dois conceitos em diálogo não é mero exercício acadêmico de aproximação entre campos disciplinares aparentemente distantes. Trata-se, antes, de interrogar a própria natureza da ordem que perpassa a experiência e o tipo de sentido que pode emergir no tempo.
O ensaio que se segue procura mostrar que algoritmos e arquétipos podem representar duas modalidades complementares, porém assimétricas, de ordenamento: uma finita, causal, voltada à previsão; outra que, embora se manifeste de maneira mais ou menos fixa ao longo do tempo através das imagens, é infinita e carrega sempre o potencial da manifestação de um “ato de criação no tempo” que acontece de maneira acausal (o que Jung chamou de sincronicidade), voltada para a realização do sentido e do significado universal através do indivíduo naquilo que conhecemos como processo de individuação (cf. Jung, OC 8/3).
Jung fala sobre essa antinomia:
Como reflexo do mundo e do homem, a alma é de tal complexidade que pode ser observada e analisada a partir de um sem-número de ângulos. Com a psique acontece justamente o mesmo que acontece com o mundo: porque uma sistemática do mundo está fora do alcance humano, temos de nos contentar com simples normas artesanais e aspectos de interesse particular. Cada um elabora para si seu próprio segmento do mundo e com ele constrói seu sistema privado para seu próprio mundo, muitas vezes cercado de paredes estanques, de modo que, algum tempo depois, parece-lhe ter apreendido o sentido e a estrutura do mundo. Ora, o finito não pode jamais apreender o infinito. Embora o mundo dos fenômenos psíquicos seja apenas uma parte do mundo como um todo, é justamente por esta razão que parece mais fácil apreender uma parte do que o mundo inteiro. Mas deste modo se estaria esquecendo que a alma é o único fenômeno imediato deste mundo percebido por nós, e por isto mesmo a condição indispensável de toda experiência em relação ao mundo (Jung, OC 8/2, §283).
A sincronicidade aparece aqui como um fenômeno entre estas coisas, que as une, mas que também as transcende. Conforme formulada por Jung em diálogo com Wolfgang Pauli, e desenvolvida com profundidade por Marie-Louise von Franz, podemos encontrar nela um conceito articulador entre essas duas ordens: ela é o ato criativo do Self no tempo, a percepção consciente esporádica daquela unidade subjacente que a tradição alquímica e Jung denominaram unus mundus, ou seja, a expressão direta da manifestação psicoide do arquétipo.
Algoritmos: a finitude do procedimento
Em sua definição técnica, herdada de Alan Turing, um algoritmo é um procedimento finito e determinístico que transforma uma entrada em uma saída segundo regras precisamente especificadas. São alguns componentes chave da definição do algoritmo: 1. trata-se de um procedimento mecânico, não exigindo, depois de estabelecido, engenhosidade ou percepção humana para ser executado; 2. contém instruções formais, ou seja, trata-se de uma sequência finita, um passo a passo (um “programa”), que dita a mudança do signo resultante, o movimento para a esquerda ou para a direita e a transição para um novo estado; 3. alcança um estado de parada, quer dizer que o algoritmo eventualmente chega a uma conclusão (para, mesmo que por um intervalo de tempo tão curto que seja impossível para a consciência humana registrar o evento), fornecendo uma resposta para o problema proposto (Turing, 1936).
Essa caracterização clássica descreve o algoritmo como uma cadeia fechada de operações: dado um conjunto de dados e um conjunto de regras, o resultado é, em princípio, calculável.
Quando o algoritmo se repete, o produto se repete. Sua virtude é justamente a regularidade — sua eficácia repousa na renúncia ao imprevisível, mesmo que, para a percepção humana, pareça o contrário. Uma combinação entre algoritmos pode sugerir um movimento infinito, mas, de maneira imaginativa, seria possível desligá-los, mesmo que isso também seja, na prática, virtualmente impossível. Um outro exemplo viria da possibilidade de isolamento humano da tecnologia: escapar à influência dos algoritmos exigiria uma vida completamente segregada, primitiva e arcaica — e, ainda assim, jamais se estaria livre da manifestação dos arquétipos.
A combinação algorítmica produz, contudo, uma poderosa ilusão de infinitude.
Quando interagimos com uma rede social que parece nunca terminar, com um aplicativo que recomenda incessantemente novos conteúdos ou com uma inteligência artificial generativa capaz de produzir, ao que tudo indica, respostas inéditas e ilimitadas, somos tomados pela sensação de estar diante de algo verdadeiramente sem limites. Essa impressão, porém, é falsa — ou, mais precisamente, é uma projeção da infinitude arquetípica sobre um substrato que, em si mesmo, é absolutamente finito.
Byung-Chul Han, em sua crítica da cultura digital contemporânea, descreve esse fenômeno como uma “infinitude lisa”, caracterizada pela ausência de resistência simbólica e pela substituição das coisas — densas, ambíguas, opacas — por “não-coisas” feitas de pura informação (cf. Han, 2022). O que se apresenta como infinito é, na realidade, uma vastidão combinatória: um espaço de possibilidades muito grande, mas matematicamente delimitado e, em última instância, esgotável. Por mais que os números envolvidos sejam astronômicos, trata-se sempre de permutações sobre um conjunto fechado, dentro de regras pré-estabelecidas.
Não há, no algoritmo, criação no sentido forte do termo; há recombinação extensiva.
A diferença é qualitativa, não quantitativa: nenhuma quantidade de finitudes encadeadas produz infinitude verdadeira, do mesmo modo que nenhum acúmulo de imagens singulares esgota o arquétipo que as gera (ver citação de Jung acima).
O que confunde a percepção humana é justamente o caráter inesgotável, para a experiência cotidiana, dessas combinações — mas a inesgotabilidade prática não equivale à infinitude ontológica. A primeira é uma característica do nosso tempo limitado de existência; a segunda é uma propriedade da realidade da alma em sua dimensão mais profunda. É precisamente essa confusão entre as duas que sustenta boa parte da fascinação contemporânea pelo algorítmico, fascinação que revela mais sobre a projeção do arquétipo do Número do que sobre a natureza efetiva da máquina.
Yuval Noah Harari, em seu livro Homo Deus, leva ao limite a abrangência do termo. Para o historiador israelense, “organismos são algoritmos”, proposição que sintetiza o conceito conhecido como dataísmo (lançado originalmente por David Brooks e aprofundado por Harari). Segundo essa ideia, a vida, a consciência e a emoção podem ser descritas como processos de tratamento de informação biocomputacional (Harari, 2017).
Ainda que essa redução seja filosoficamente vulnerável — pois confunde, como observa a crítica contemporânea, metáfora com mecanismo —, ela tem o mérito de tornar evidente o cerne da pretensão algorítmica em nossa época: o sonho de produzir, com dados suficientes, um modelo sintético capaz de conhecer o ser humano melhor do que ele se conhece a si mesmo. A visão de Harari parece refletir a atribuição divina de vontade e decisão, feita pela maioria das pessoas, aos algoritmos. Porém, visto do ponto de vista da psicologia junguiana, trata-se na verdade de um deslocamento, uma projeção dos conteúdos inconscientes da psique para o mundo exterior.
As pessoas passam, nesse movimento de massificação, a se orientar apenas pelo mundo externo e, no caso presente, dos resultados apresentados através da ação dos algoritmos.
Justamente aqui, evidencia-se a finitude estrutural do algoritmo. Por mais sofisticado que seja, todo algoritmo opera sobre o já dado: requer dados de entrada que pertencem ao passado, regras estabelecidas previamente e um espaço de possibilidades delimitado pelo seu desenho. O algoritmo não cria sentido; ele recombina padrões. Não inaugura ordenamentos; explora-os. Mesmo as redes neurais artificiais profundas, que parecem aproximar-se da espontaneidade criativa, são, em sua natureza, máquinas de interpolação estatística cujo horizonte é o conjunto finito de relações que conseguem extrair de dados finitos. O algoritmo é, em última análise, uma forma extraordinariamente refinada de causalidade — e, como toda causalidade, opera dentro de uma temporalidade linear, na qual o futuro é função do passado. Ou seja, estritamente voltado a atender os desejos do monoteísmo da consciência, negando cada vez mais a manifestação atemporal do inconsciente.
Antes de avançarmos, ainda é necessário considerar uma possível objeção da atualidade: tem-se falado hoje em dia sobre os, assim chamados, algoritmos quânticos.
Faz-se necessário abordar essa questão antes de continuarmos com nossa reflexão sobre a contraposição dos algoritmos com os arquétipos. A palavra “quântico” tornou-se, em certos – talvez seja mais correto dizer em muitos – usos contemporâneos, quase um adjetivo utilizado para se referir a algo que, do ponto de vista junguiano, poderia se compreender como arquetípico.
A expressão acabou sendo mobilizada para significar “misterioso”, “interconectado”, o que vai muito além de seu sentido técnico estrito. Porém, utilizada dessa maneira, acaba sendo apenas resultado do pensamento mágico-causal que não aprofunda a compreensão dos fenômenos do ponto de vista simbólico. Torna-se assim uma expressão vazia de sentido, ou seja, um signo que explica ou justifica, ainda que falsamente, uma experiência considerada especial por quem a vivenciou. Imaginamos que Pauli teria sido provavelmente um dos primeiros a desconfiar dessa inflação semântica, exigindo o rigor da formulação matemática.
Ainda que o algoritmo quântico explore uma realidade física não-clássica (e, portanto, em certo sentido, mais próxima daquela camada onde Pauli e Jung intuíram convergências entre psique e matéria), ele permanece, em sua estrutura formal, um procedimento finito. A “infinitude” que parece insinuar-se no espaço de estados exponencial desse tipo de algoritmo é uma infinitude operacional, não ontológica — é a vastidão combinatória de um sistema ainda assim regrado, finito em sua arquitetura lógica. A diferença entre algoritmo (clássico ou quântico) e arquétipo, no sentido junguiano, não é, portanto, abolida pela computação quântica; é somente deslocada para um plano mais sutil.
Arquétipos: a infinitude das manifestações
Em flagrante contraste, o arquétipo, tal como Jung o concebeu, é um fator dinâmico que não se reduz a nenhuma de suas manifestações. Os arquétipos não são imagens fixas, mas estruturas formais a priori da psique – disposições para a formação de imagens, padrões de comportamento e afeto que existem antes de qualquer experiência individual e que se atualizam de modo sempre singular em cada sujeito, em cada cultura, em cada época.
Como Jung sublinha, o arquétipo em si é irrepresentável; só conhecemos suas imagens, e estas são inumeráveis.
Isso já seria suficiente para justificar a ideia de que não podemos igualar algoritmos a arquétipos; se o arquétipo em si é irrepresentável, e o algoritmo é uma criação que passou obrigatoriamente pela consciência humana, mesmo não sendo resultado exclusivo dos processos conscientes, podemos dizer que o algoritmo carrega núcleo arquetípico como qualquer outra situação na vida, mas não pode ser considerado o arquétipo em si.
Os arquétipos são, antes de tudo, unidades dinâmicas de energia psíquica cuja característica essencial é a capacidade de produzir, espontaneamente, novas configurações simbólicas. Diferentemente do algoritmo, o arquétipo não é uma regra que produz repetição; é um campo de possibilidades cuja fecundidade jamais se esgota.
A imagem do arquétipo da Mãe, por exemplo, manifesta-se na Vênus paleolítica, na Maria mediterrânea, na Kali bengali, em Iemanjá no Atlântico afrodescendente, em milhões de configurações — sem que nenhuma dessas configurações esgote o arquétipo materno, sem que qualquer combinação delas o reduza a fórmula e sem que elas, apesar de parecerem muito similares, sejam as mesmas do ponto de vista individual. Queremos dizer que, por mais que as imagens sejam parecidas, a Maria de uma pessoa nunca será exatamente a Maria de outra; sempre existirão os componentes idiossincráticos. Para completar, nunca sabemos em que outras formas e imagens o arquétipo irá se manifestar.
Há ainda um aspecto que distingue radicalmente o arquétipo de qualquer procedimento computacional: sua dimensão psicoide.
Os arquétipos, em sua camada mais profunda, não são puramente psíquicos — operam também na fronteira da matéria, manifestando-se como contigentes nas coincidências significativas entre eventos internos e externos. Esse caráter transgressivo é justamente o terreno em que se constitui a sincronicidade. Diga-se de passagem: enquanto o algoritmo é, por construção, ontologicamente neutro (uma estrutura formal aplicável a quaisquer dados), o arquétipo é ontologicamente carregado de energia psíquica, vinculado à totalidade psicofísica da realidade da alma.
Oposição e complementaridade, finitude e infinitude
A primeira tentação, ao se confrontar algoritmo e arquétipo, é situá-los em puro antagonismo: a partir de um olhar maniqueísta, o algoritmo seria a face fria, mecânica, redutora do ordenamento e semiótica, enquanto o arquétipo constituiria a face viva, criativa e simbólica do par. Há verdade nessa contraposição, mas ela não esgota a relação. Como Jung advertiu, opostos verdadeiros são também complementares, e seu encontro produz aquela tensão de onde surgem novas configurações de sentido, porque cada lado da oposição carrega seu oposto intrinsecamente.
Ele utilizou principalmente os textos alquímicos para ilustrar essa concepção:
“É, pois, simplesmente característico para a alquimia que ela nunca deixa de considerar a oposição existente em seus conteúdos e, com isso, compensa claramente o mundo das representações dogmáticas, que por causa da univocidade repele a oposição para o domínio das coisas incomensuráveis. A tendência para a separação maior possível dos opostos, isto é, a procura da univocidade, é absolutamente necessária para restabelecer a consciência clara, pois a discriminação faz parte da essência dela. Quando, porém, a separação vai tão longe que se perde de vista o oposto respectivo e já não se enxerga o preto do branco, o mal do bem, o profundo do alto etc., então surge a unilateralidade, que é compensada pelo inconsciente, sem nossa participação” (Jung, OC 14/02, §135)
Algoritmos e arquétipos compartilham, com efeito, pelo menos uma propriedade fundamental: ambos estão conectados com o princípio do ordenamento.
Compreender ambos os conceitos pressupõe aceitar que a realidade não é apenas caótica, mas estruturada segundo certos padrões — embora o caos, por oposição, também faça parte dessa dinâmica. Também tomando ambos como início, é possível descrever como, a partir de uma base relativamente simples, configurações complexas podem emergir. Ambos atestam que existe forma na realidade — que algo se repete, se reconhece e se torna inteligível.
A diferença entre eles, contudo, é radical.
O algoritmo é um ordenamento da finitude: opera sobre conjuntos delimitados, dentro de tempos lineares, segundo causalidades especificáveis. O arquétipo é um ordenamento da infinitude: suas manifestações são inesgotáveis, sua atuação é tanto causal quanto acausal, e sua temporalidade não se reduz à linearidade vetorial, mas inclui aquela qualidade paradoxal temporal-atemporal que Jung descobriu nos fenômenos sincronísticos. Deste ponto de vista, o tempo é um contínuo energético preenchido por qualidades, como afirma von Franz: “O fluxo de eventos no tempo tem uma qualidade particular a cada momento. Isso foi anteriormente ‘comprovado’ pela astrologia, quando as pessoas acreditavam que o momento no tempo em que uma pessoa nasce determina suas qualidades”(von Franz, 1988, pág. 34-35, tradução nossa) — proposição que beira o impensável para qualquer epistemologia algorítmica e científica reducionista causal.
A complementaridade entre os dois conceitos torna-se compreensível quando se percebe que o algoritmo pode ser compreendido, por exemplo, como uma constelação contemporânea dos arquétipos da Ordem, do Logos e/ou do Número enquanto ritmo ditado pelo próprio inconsciente. Aquilo que Pitágoras intuiu como harmonia musical das esferas, que os alquimistas buscaram em suas séries quaternárias e que Wolfgang Pauli vislumbrou ao reconhecer no número uma intuição matemática primordial, propondo que a série contínua dos números inteiros fosse incluída entre as ideias arquetípicas de Jung (Pauli, 1961 apud von Franz, 1974, p. 18).
Tudo isso ressurge, sob forma técnica e sem consciência de sua linhagem arquetípica, na proliferação algorítmica de nossa cultura. O algoritmo é, por assim dizer, uma cristalização do arquétipo do Número: poderoso, fascinante, mas também sujeito ao desequilíbrio típico das constelações arquetípicas que podem irromper trazendo a oposição caótica, sintomática e, porque não dizer, paranóica (Balestrini JR, 2025) – a qualquer momento.
Sincronicidade: o ato criativo do Self no tempo
É precisamente neste ponto que o conceito junguiano de sincronicidade se torna iluminador. Jung definiu a sincronicidade como um princípio de conexão acausal — a coincidência significativa entre um estado psíquico interno e um evento externo que não pode ser explicado por nenhuma relação causal direta (cf. Jung, OC vol.8/3). Tais fenômenos são raros, mas obstinadamente recorrentes na clínica e na vida, não se deixam reduzir nem ao mero acaso, nem à causalidade e nem à projeção subjetiva. Quando compreendidos como sincronicidades, sentido e significado são impostos de maneira supra-ordenada, quando racionalizados a partir de causas (mesmo que mágicas) e da projeção, perdem sua potência transformadora.
Jung conjecturou — e nisso teve em Wolfgang Pauli um interlocutor privilegiado — que a sincronicidade aponta para uma camada da realidade onde psique e matéria não estão ainda diferenciadas: o unus mundus. Nos fenômenos sincronísticos, essa unidade de fundo manifesta-se de modo esporádico, como uma criação contínua (creatio continua) que irrompe na superfície dos eventos sem regularidade previsível (cf. Jung; Pauli, 1955).
Daí a observação capital de von Franz: “Eventos sincronísticos espontâneos, no entanto, não podem ser previstos, mas só podem ser explicados após o evento; eles estão inevitavelmente ligados ao indivíduo que experimenta o significado” (von Franz, 2014, pág. 114, tradução nossa). Essa formulação é decisiva para a nossa discussão. Se a sincronicidade fosse previsível, poderia ser reduzida a algoritmos. Se fosse inteiramente aleatória, seria reduzida a ruído. Não é nem uma coisa nem outra, diz Jung: “(…) o espaço e o tempo podem ser relativizados até certo ponto, reduzindo-se, assim, ao mesmo tempo, também a possibilidade de um processo causal. O resultado é, então, uma espécie de creatio ex nihilo (criação a partir do nada), um ato de criação que não pode ser explicado causalmente” (Jung, OC 8/3, §902, ênfase nossa).
O Self — o centro arquetípico totalizante que Jung distinguiu do ego — manifesta-se aqui não como fórmula, mas como criador singular de sentido.
Cada evento sincronístico é uma resposta única a uma situação única; é a criação contínua de um padrão que existe desde toda a eternidade, repete-se esporadicamente, e não é derivável de nenhum antecedente conhecido.
Pensar a dimensão temporal aqui também é fundamental. O tempo da sincronicidade não é o tempo linear, vetorial, da física clássica e dos algoritmos. É um tempo qualitativo, em que cada momento possui uma configuração psicofísica própria — concepção que aproxima o pensamento junguiano da cosmologia chinesa do I Ching, na qual o tempo é uma sucessão de qualidades irrepetíveis, que são refletidas e apreendidas pela consciência através dos números. Pauli, a partir da física quântica, intuiu algo análogo ao pensamento chinês ao insistir, em diálogo com Jung, em que as séries dos números naturais e a noção de continuum constituiriam intuições primordiais, simultaneamente quantitativas e qualitativas, ligadas tanto à estrutura da matéria quanto à estrutura do inconsciente. Essa convergência entre o físico e o psíquico no terreno do número é, talvez, um dos legados mais provocadores da colaboração entre Pauli e Jung (cf. Jung; Pauli, 1955).
Importa notar que a sincronicidade, embora arquetipicamente ancorada, não é causada pelo arquétipo. Jung foi explícito em rejeitar essa interpretação, que o reduziria a uma forma sutil de magia.
O arquétipo não “produz” o evento sincronístico como uma causa produz seu efeito; na verdade, constela um campo qualitativo no qual coincidências significativas se tornam mais prováveis (cf. Jung, OC 8/3, §955). A diferença é sutil mas importantíssima do ponto de vista epistemológico: enquanto a causalidade — e, com ela, a lógica algorítmica — opera pelo alinhamento temporal de antecedentes e consequentes, a sincronicidade opera por equivalência de sentido entre planos heterogêneos, sem que se possa estabelecer entre eles qualquer relação de produção. Por isso, podemos dizer que o adjetivo “acausal” em Jung não significa “anticausal”, e sim, poderíamos dizer, “transcausal”: indica um tipo de conexão que opera em paralelo à causalidade e não em substituição a ela.
Unus mundus: o fundo único da realidade da alma
O conceito de unus mundus, resgatado por Jung da tradição alquímica e escolástica, designa a unidade subjacente da qual emergem tanto o psíquico quanto o material como aspectos diferenciados. Trata-se de uma matriz potencial — o pano de fundo da existência, no qual ainda não se separaram um e múltiplo, mente e matéria, sujeito e objeto (cf. Jung, OC 14/2, §414). Marie-Louise von Franz dedicou parte substancial de sua obra, em especial seu livro Number and Time, a explorar as implicações desse conceito, sustentando que o número natural funciona como tertium comparationis entre psique e matéria, isto é, como aquela estrutura simultaneamente quantitativa (matéria) e qualitativa (psique) que permite reconhecer a unidade de fundo que se manifesta em ambos os polos (cf. von Franz, 1974).
Este é o solo no qual a oposição entre algoritmo e arquétipo encontra terreno comum sem se dissolver. O algoritmo opera sobre o número como quantidade pura, desnudado de seu caráter qualitativo; o arquétipo também impõe quantidade, mas opera também sobre o número como qualidade simbólica, escapando do seu caráter meramente operatório. O unus mundus e, mais especificamente, o inconsciente coletivo, é o campo no qual número-quantidade e número-qualidade ainda não se separaram — ou no qual, mais corretamente, jamais se separam efetivamente, embora a consciência os trate como distintos.
Daí decorre uma consequência filosófica significativa. As manifestações algorítmicas, por mais finitas que sejam, são, em linguagem de inspiração metafísica, uma espécie de “contração” parcial daquela ordem infinita do unus mundus. Cada algoritmo é, sob este ângulo, uma cristalização finita de um princípio de ordenamento que, em sua origem, é infinito. Os arquétipos, por sua vez, são as formas dinâmicas pelas quais o unus mundus se torna acessível, através de imagens, à experiência humana, sem jamais se exaurir nelas. A sincronicidade, finalmente, é o instante privilegiado em que essa unidade subjacente se manifesta, rompendo o véu da diferenciação entre sujeito e objeto, mundo interno e mundo externo, imaginação e concretude. A partir disso, a sincronicidade poderia ser vista, de certa forma, como uma das expressões mais puras daquilo que Jung denominou como símbolo.
Implicações epistemológicas e comportamentais da assimetria
Vale a pena refletir ainda sobre a tensão entre algoritmo e arquétipo em termos não apenas teóricos, mas também práticos. A cultura algorítmica contemporânea opera sob a suposição implícita e, muitas vezes inconsciente, de que tudo o que é relevante na experiência humana pode ser, em princípio, capturado por modelos finitos suficientemente complexos. Trata-se de uma escolha epistemológica — e, no fundo, uma escolha de horizonte espiritual e de cosmovisão, ou seja, do aprisionamento em um sistema de crença — que privilegia o previsível, o repetível e o quantificável. Há certa legitimidade nessa escolha: ela pode produzir algum conhecimento e informação, porém, acaba, por força da forte tendência de identificação dos indivíduos com os fenômenos (persona, complexos, valores, ideias, etc.), se transformando em exercício de controle e poder do outro e de si mesmo.
Está aí também o risco de se tomar a parte pelo todo, de confundir o mapa algorítmico com o território arquetípico, de imaginar que a finitude do procedimento esgota a infinitude da realidade da alma. Isso também fundamenta a busca pelas soluções mágico-tecnológicas para os problemas existenciais humanos, afinal, não são poucos os relatos de pessoas buscando ajuda psicoterapêutica na interação com a inteligência artificial. Dessa forma, a utilização de ferramentas algorítmicas se torna uma tentativa de afastamento, domínio ou destruição dos instintos e arquétipos do inconsciente coletivo, parte integrante da psique coletiva que se manifesta sempre no indivíduo, quer ele aceite essa condição ou não. O aprisionamento no jogo algorítmico, nesse sentido, torna-se apenas mais um exemplo do monoteísmo da consciência que nega a dimensão irracional da psique. Uma tentativa vã, para todos os efeitos.
A perspectiva junguiana, quando levada a sério, sugere que essa redução não é apenas filosoficamente frágil, mas psiquicamente perigosa. Quando o arquétipo do Número é constelado sob a forma técnica do algoritmo, sem consciência de sua dimensão simbólica, ele opera de modo unilateral e torna-se o deus inconsciente, força que rege sem ser compreendida. Talvez “dataísmo” seja precisamente o nome contemporâneo dessa constelação não reconhecida: uma religião do dado que não percebe a si mesma como tal e que, por isso mesmo, não pode dialogar com sua própria sombra.
A sincronicidade, como ato criativo do Self no tempo, oferece um antídoto a essa unilateralidade. Ela lembra que o sentido — aquilo que não é meramente correlação estatística, mas significado existencial — emerge sempre como algo imprevisível, como criação singular que vincula o instante ao eterno, conectando Cronos a Kairós. Nenhum algoritmo, por mais sofisticado que seja, pode produzir uma sincronicidade, pois sincronicidades não são produtos de processos conscientes, finitos e já exteriorizados, mas manifestações esporádicas daquela ordem mais profunda em que as próprias categorias de produção e processo ainda não se constituíram.
No plano clínico e existencial, essa distinção tem consequências práticas importantes. Quem se submete inteiramente à lógica algorítmica passa a viver uma vida estatisticamente otimizada — escolhendo trajetórias profissionais, parceiros afetivos e mesmo prazeres estéticos a partir de recomendações computacionais —, mas perde, no caminho, a capacidade de reconhecer a chamada singular do sentido que se expressa em coincidências, sonhos premonitórios, encontros aparentemente fortuitos. Von Franz (1988) observa que a abertura à sincronicidade pressupõe uma certa atenção contemplativa, uma qualidade de presença que justamente o ritmo da cultura algorítmica tende a corroer. Há, portanto, uma ascese contemporânea implícita no pensamento junguiano: aprender a habitar o tempo qualitativo sem renunciar aos benefícios do tempo quantitativo, manter a porta aberta para a irrupção do sentido sem cair na regressão mágico-causal, projetada hoje principalmente nas produções algorítmicas.
Complementaridade sem dissolução
Algoritmos e arquétipos não se anulam mutuamente. O algoritmo, em sua finitude, é uma forma legítima e poderosa de ordenamento – mas é um ordenamento parcial, voltado para a previsão e o controle. O arquétipo, em sua infinitude, é o solo gerador de toda forma de sentido – mas que, por ser transcendente, opera por manifestações que escapam ao cálculo consciente. A sincronicidade é o ponto em que ambos se tocam, na experiência humana, revelando a unidade do fundo (unus mundus) sem jamais reduzir um polo ao outro.
A grande contribuição da síntese que surge da colaboração entre Jung e Pauli, desenvolvida com tanto rigor por Marie-Louise von Franz, é justamente preservar essa complementaridade sem dissolver os termos. Há lugar, em uma vida humana plena, para a finitude eficaz dos algoritmos e para a infinitude criativa dos arquétipos. O que não há, sem custo grave, é lugar para a hegemonia exclusiva do poder algorítmico. Vivemos numa época em que a balança pende fortemente para esse lado — e talvez, justamente por isso, o pensamento junguiano sobre a sincronicidade e o unus mundus reapareça hoje com uma atualidade que poucos teriam previsto há cinquenta anos.
Em seu livro Psyche and Matter, von Franz registrou uma observação de Jung pouco antes de sua morte, ao perceber que a investigação dos números arquetípicos lhe abria portas que sua vida não bastaria para atravessar. Segundo ela, ele teria dito: “Agora tenho a sensação de que bati minha cabeça contra o teto. Eu não posso ir mais longe do que isso…” (von Franz, 1988, pág. 37, tradução nossa). Esta declaração, conservada por sua discípula como uma espécie de testamento que indicava também parte de sua missão como pesquisadora, talvez seja a fórmula mais honesta para a relação entre algoritmos e arquétipos: temos os instrumentos finitos, temos os indícios do infinito e temos a tarefa permanente de manter aberta, sem precipitação reducionista, a tensão criativa entre os dois.
O Self, principalmente através dos sintomas, sejam eles individuais e/ou coletivos, continuará a lembrar-nos, sempre que a balança se inclinar excessivamente para o monoteísmo da consciência, que a realidade da alma não se deixa reduzir ao calculável — e que o sentido, como o tempo qualitativo do pensamento taoista, é sempre criação, jamais mera repetição.
Nos resta fazer o trabalho árduo da análise, a opus contra naturam que leva à criação de consciência para que, transformando-nos, possamos atingir nosso entorno relacional. E, parafraseando Marie Louise von Franz, sustentar a esperança de que a sincronicidade surja, também como expressão do Self, como evento transformador na vida das pessoas.
José Luiz Balestrini Junior – Analista Didata IJEP
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Imagem: Foto de arquivo do autor.

