O relacionamento fantasma ocorre quando uma pessoa se mostra interessada e disponível, mas, na realidade, está apenas se divertindo ou explorando a conexão sem qualquer intenção de compromisso. Ela pode ser carismática, charmosa e até mesmo sedutora, criando uma ilusão de envolvimento genuíno. No entanto, assim que a relação começa a exigir maior profundidade, ela desaparece como um fantasma, alegando que nada existiu entre eles, deixando para trás um rastro de confusão e frustração.
Para lidar com essa situação, que se torna cada vez mais frequente, é essencial desenvolver habilidades de percepção e autoproteção nas relações.
O primeiro passo consiste em reconhecer os sinais de alerta: inconsistência, evasividade em conversas mais profundas ou relutância em abordar o tema do compromisso indicam que algo está fora do lugar. Desenvolver o autoconhecimento e o autoamor é fundamental para identificar o que se busca em um relacionamento e, com o fortalecimento pessoal, ter autonomia para fazer escolhas conscientes.
Nesse processo, a terapia se apresenta como um espaço seguro e guiado para explorar essas questões. Auxiliando na identificação de padrões de comportamento, no fortalecimento da autoestima e na ressignificação de experiências passadas que possam estar perpetuando tais dinâmicas. É importante evitar o apego emocional a indivíduos que não demonstram disponibilidade genuína para a construção de algo sólido. Em última análise, a priorização do bem-estar e da felicidade pessoal deve prevalecer sobre a expectativa de mudanças alheias ou o investimento em relacionamentos onde não há disposição para compartilhar o caminho.
A imaturidade emocional, frequentemente manifestada na recusa em assumir responsabilidades e no medo de crescer, emerge como um desafio central nos relacionamentos contemporâneos.
Sob a perspectiva da psicologia analítica, essa dinâmica se entrelaça com a presença do arquétipo do “Puer Aeternus”, a eterna criança, presente no inconsciente coletivo. Este artigo explora como essa figura arquetípica, presente em diversas manifestações, influencia os padrões de comportamentos e a formação de vínculos, especialmente nos relacionamentos afetivos.
Analisaremos a visão da psicologia analítica sobre o “Puer Aeternus“. Desvendando sua influência no desenvolvimento de relacionamentos voláteis e na dificuldade de estabelecer laços duradouros em nossa sociedade.
Tenho observado, tanto na prática clínica com clientes quanto nas relações sociais, um aumento na imaturidade como padrão comportamental nos relacionamentos atuais.
Jung definiu arquétipos como modelos de comportamento inatos, compartilhados pelos seres humanos no inconsciente coletivo. Embora todos herdem esses padrões, algumas pessoas podem apresentar uma maior identificação com um arquétipo específico. A imaturidade, nesse contexto, manifesta-se através do arquétipo do “Puer Aeternus” – a eterna criança. Assim como outros arquétipos, o “Puer Aeternus” se expressa em duas polaridades apresentando a criatividade, a potencialidade de vida, a alegria e o entusiasmo em seus aspectos construtivos, e a imaturidade, frivolidade e o medo de crescer em seus aspectos destrutivos.
No processo de desenvolvimento psicológico, o ser humano naturalmente nasce, cresce, amadurece e, por fim, morre.
O “Puer Aeternus“, ou a eterna criança, encontra dificuldades em trilhar esse caminho de desenvolvimento e amadurecimento psicológico.
Ele se recusa a integrar o fluxo da vida adulta, negando o crescimento e permanecendo preso, de forma regressiva, à fase da infância. Simbolicamente, o “Puer” é como a semente que teme deixar de ser semente, que se recusa a germinar, e acaba por se tornar uma semente estéril. A criança, por sua própria natureza, não possui a responsabilidade por seus atos e não precisa responder ou atender às demandas da vida, encontrando na mãe – ou na figura materna – um lugar de segurança e conforto. A entrada na vida adulta, por outro lado, exige a assunção da responsabilidade pela própria existência. O “Puer” demonstra dificuldade em reconhecer os aspectos positivos do amadurecimento e da vida adulta.
A criança, vivendo como extensão dos pais, nutre a necessidade de se sentir genuinamente amada e valorizada – sentimentos essenciais para o desenvolvimento da autoestima e da autoconfiança, que a preparam para os desafios da vida. A transição da sensação de ser especial, vivenciada na infância, para a vida adulta, onde se torna “mais um na multidão” e se depara com normas, hierarquias e responsabilidades, pode assustar e paralisar o “Puer”.
Percebe-se, assim, que o receio de amadurecer está intrinsecamente ligado ao medo de assumir responsabilidades e compromissos, características fundamentais para o estabelecimento de vínculos. Esse medo de enfrentar os desafios da vida, típico da jornada do herói, leva-o a acomodar-se e a não avançar.
O Puer e A Puella na mitologia
Os mitos são narrativas ancestrais que carregam uma história arquetípica, emergindo do inconsciente coletivo para nutrir e orientar a psique consciente. São histórias numinosas, dotadas da capacidade de transformar aqueles que as escutam. Por possuírem infinitas facetas, podem ser ampliados sob diversos ângulos da narrativa. Um exemplo clássico do “Puer” é retratado no mito de Eros e Psique. Apresento, de forma resumida, um olhar sobre a imaturidade nas relações, relacionada ao “Puer Aeternus”.
Eros surge como a personificação do “Puer”, a semente que não germinou, aprisionada na infância e que carrega sua frivolidade para o mundo.
Eros, o famoso cupido, personifica o “Puer” em sua essência. Ele se entrega a uma existência inconsequente, utilizando o arco e flecha para manipular os sentimentos alheios, provocando paixões efêmeras e, por vezes, destrutivas, a mando de sua mãe, Afrodite.
Eros é, acima de tudo, o leal companheiro de Afrodite. Embora ela seja a deusa do amor, não o direciona ao casamento, permanecendo ela mesma em um matrimônio infeliz e distante com Hefesto. A crença de que Afrodite criou Eros sozinha reforça a ideia de um voto incondicional de lealdade, representando a “mãe terrível” que exige a companhia do filho e não se importa com suas “aventuras” amorosas, desde que ele retorne sempre a ela, sua parceira feminina. Essa dinâmica estabelece uma participação mística entre Eros e sua mãe, ilustrando a situação arquetípica do “Puer” nas relações.
Nesse contexto, o “Puer” pode desenvolver uma vida sexual, mas sua lealdade e amor permanecem atrelados à figura materna, aquela que lhe oferece proteção e segurança.
Consequentemente, ele se envolve em relacionamentos, mas ao perceber a necessidade de compromisso, recua, paralisado. Mesmo quando consegue estabelecer um vínculo, enfrenta dificuldades em criar laços duradouros e em se entregar plenamente e ser um parceiro comprometido.
A versão feminina do Puer é a Puella.
O mito de Demeter e Perséfone, em um dos seus ângulos, retrata a narrativa em que Perséfone é uma mulher que não consegue se libertar da mãe, só se casa porque é raptada por Hades- deus do submundo. Mesmo tendo o seu próprio reino, prefere deixar de ser rainha para manter-se princesa. Renuncia a tudo para estar de volta à casa da mãe pela maior parte do tempo. Percebe-se que ela está mais preocupada em não contrariar a mãe do que em entregar-se a um caminho de sua escolha. Revisita Hades com quem pode ter uma vida sexual, mas retorna sempre para o seio materno num movimento circular.
Fazendo uma ampliação desta analise, Paranaguá, nos esclarece que:
“Para manter-se próxima a mãe, a Puella desenvolve um padrão de relacionamentos insatisfatórios, quiçá destrutivos e abusivos, com o intuito de sempre ter uma justificativa para voltar para casa materna. Nesse caso, se une àqueles que, de alguma forma, correspondem ao seu animus, que está constelado em matizes negativos sem que ela saiba disso.” (PARANAGUÁ, p. 124)
A autora complementa que outro padrão comum na relação entre mãe e filha, que pode favorecer o desenvolvimento da “Puella”, é a mãe que mina a autonomia e a autoconfiança da filha, levando-a a acreditar que é incapaz de gerir a própria vida.
Nesse contexto, a proximidade e o cuidado materno podem parecer a opção mais atraente. Contudo, essa dinâmica pode resultar na supressão dos talentos da filha, impedindo-a de florescer e de produzir frutos nutritivos.
Um indivíduo identificado com o arquétipo do “Puer” pode manifestar-se como um homem/mulher-criança, superficialmente fascinante e atraente, porém imaturo, incapaz de se comprometer, de procriar e de estabelecer laços duradouros. Dotado de grande potencial, mas frequentemente consumido por sonhos irreais e sem a capacidade de se entregar a compromissos, ele encontra na ligação íntima com a mãe arquetípica um refúgio, uma forma de escapar das responsabilidades inerentes à vida adulta.
Imaturidade e vínculo fantasma
No âmago do ser humano, reside uma profunda necessidade de estabelecer vínculos, impulsionada por impulsos instintivos como a carência afetiva, o vazio existencial e o medo da solidão. O “Puer”, tal qual qualquer ser humano, anseia por segurança e satisfação afetiva, porém, evita a responsabilidade inerente ao compromisso, vivendo em uma tentativa constante de conciliar essa dicotomia. É nesse conflito que reside o cerne de sua neurose: a psique se confronta entre o consciente e o inconsciente, podendo conduzir a uma solução através da função transcendente.
Segundo Jung, este fenômeno refere-se à capacidade de simbolizar e transcender o conflito como meio de reequilíbrio psíquico.
Paranaguá, por sua vez, esclarece que “quando esse recurso não opera adequadamente, em vez da transcendência, observa-se o agravamento da neurose e a instalação de comportamentos sintomáticos e compensatórios, que, em última análise, não promovem o equilíbrio psíquico” (PARANAGUÁ, p. 126). Assim, emerge o vínculo fantasma, resultado do embate entre a busca por uma conexão autêntica e a aversão ao compromisso.
O termo “vínculo fantasma” foi ampliado por Tatiana Paranaguá em sua obra “Vínculo Fantasma – Os Relacionamentos Voláteis da Atualidade“. Segundo a autora, uma das principais características do vínculo fantasma é a desconexão entre pensamento, sentimentos, ações e palavras. Ele se manifesta, com frequência, em relacionamentos onde as expectativas dos envolvidos divergem. Um dos parceiros pode almejar um relacionamento estável e duradouro, enquanto o outro, mesmo ciente disso, mantém a situação em um estado de ambiguidade, enviando sinais de que a relação está progredindo em direção a um compromisso.
Essa dinâmica geralmente se estende até que a necessidade de uma conversa mais profunda sobre o futuro da relação surja, ou quando um desafio que exige companheirismo e comprometimento se apresenta.
O “fantasma” busca no outro experiências que lhe proporcionem conforto e satisfação, alguém que atenda às suas expectativas e sustente suas projeções.
Assim, ele permanece na relação enquanto ela for divertida, prazerosa, interessante e descomplicada. No entanto, quando a relação e a pessoa se tornam reais, ele a rejeita e se afasta friamente, negando qualquer envolvimento e dizendo que nada existiu entre eles. O parceiro, então, fica desolado, sem compreender o que aconteceu e questionando-se se fez algo de errado.
É crucial notar que o envolvimento sexual entre duas pessoas, quando consensual e com objetivos alinhados, não configura um vínculo fantasma. Este último se caracteriza pela busca de compromisso por parte de um dos envolvidos, enquanto o outro se esquiva.
O indivíduo regido pelo arquétipo do “Puer” demonstra dificuldades em assumir responsabilidades e em se comprometer, inclusive com seu próprio desenvolvimento pessoal.
Consequentemente, essa dificuldade se estende ao relacionamento com o outro e à construção de vínculos. Para ele, as relações tendem a ser efêmeras, valendo a pena apenas enquanto se mantêm leves e prazerosas. Embora possa, por vezes, iniciar um relacionamento, diante das dificuldades inerentes à vida, o “Puer” tende a se afastar, buscando refúgio na segurança dos laços familiares. Dessa forma, indivíduos identificados com esse arquétipo frequentemente vivenciam os vínculos fantasmas.
A crescente prevalência desse padrão comportamental nos leva a refletir sobre a imaturidade presente em nossa época.
A tecnologia, embora capaz de aproximar pessoas, também contribui para tornar os vínculos cada vez mais voláteis e pueris. Em suma, a imaturidade emocional, personificada pelo arquétipo do “Puer Aeternus” e seus comportamentos associados, evidencia os desafios atuais nos relacionamentos, gerando os “vínculos fantasmas”.
A busca por segurança e a aversão ao compromisso, ilustradas nos mitos de Eros e Psique e Deméter e Perséfone, revelam a dificuldade em estabelecer laços autênticos.
Essa prevalência nos convida à reflexão sobre a importância do amadurecimento emocional e da busca por conexões genuínas. Oferecendo um caminho para a construção de relacionamentos mais saudáveis e significativos.
Para lidar com essa situação, que se torna cada vez mais frequente, é essencial desenvolver habilidades de percepção e autoproteção nas relações. O primeiro passo consiste em reconhecer os sinais de alerta: inconsistência, evasividade em conversas mais profundas ou relutância em abordar o tema do compromisso indicam que algo está fora do lugar.
Desenvolver o autoconhecimento e o autoamor é fundamental para identificar o que se busca em um relacionamento. E, com o fortalecimento pessoal, ter autonomia para fazer escolhas conscientes.
Nesse processo, a terapia se apresenta como um espaço seguro e guiado para explorar essas questões, auxiliando na identificação de padrões de comportamento, no fortalecimento da autoestima e na ressignificação de experiências passadas que possam estar perpetuando tais dinâmicas. É importante evitar o apego emocional a indivíduos que não demonstram disponibilidade genuína para a construção de algo sólido.
Em última análise, a priorização do bem-estar e da felicidade pessoal deve prevalecer sobre a expectativa de mudanças alheias ou o investimento em relacionamentos onde não há disposição para compartilhar o caminho.
Caroline Costa – Analista em formação IJEP/ @carolinecosta.terapeuta
Waldemar Magaldi – Analista Didata IJEP
Referência
- JUNG, C. G. A natureza da psique. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 2013
- PARANAGUÁ, Tatiana. Vínculo fantasma: os relacionamentos voláteis da atualidade. Rio de janeiro: Record, 2024.

