Resumo: Números do Ministério da Previdência Social mostram que, cada vez mais, há afastamentos do trabalho por questões de saúde emocional. A partir de 26 de maio deste ano, entra em vigor a RN1 que, entre outras coisas, visa mapear e prevenir também os riscos psicossociais no ambiente laboral. Os órgãos reguladores de estado se mexem e as empresas precisam se adaptar. Mas e os indivíduos? Estão olhando para si mesmos? Será que só os movimentos corporativos são o bastante? Será que a saúde no trabalho não passa também pela nossa capacidade individual de enxergar nele um sentido maior, enxergar nele entusiasmo?
O Brasil tem hoje 103 milhões de pessoas ocupadas, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
Em 2025, o número médio de trabalhadores ficou na casa dos 100 milhões também. Estamos falando de quase a metade da população brasileira. Faço parte desta estatística há um bom tempo, mas se tem algo ao que um analista junguiano não deve se limitar, embora também não deva ignorar, são as estatísticas.
O que orienta a relação dessas 103 milhões de pessoas com o trabalho que realizam? É impossível responder por todos, só posso responder por mim e você, que lê este texto e que também integra essa estatística, só pode responder por si próprio.
Uma pesquisa realizada pelo Instituto Ipsos, encomendada pelo Nubank, aponta que 23% do nosso tempo é dedicado ao trabalho remunerado. Teríamos, segundo a mesma pesquisa, 30% do tempo dedicado ao sono e 26% do tempo livre. Claro, como toda média, essa pesquisa não fala diretamente a mim nem a você, mas, seja como for, 23% não é pouca coisa: pensando no uso do nosso tempo desperto, estamos falando de um terço. Saber qual é o sentido de um terço da minha vida vígil me parece algo extremamente relevante.
Ainda num sobrevoo estatístico
Dados do Ministério da Previdência Social revelam 4,1 milhão de casos de afastamentos das funções laborais por questões de saúde em 2025, aumento de 17,1% em relação a 2024. Quando se coloca uma lente nesses números, descobre-se que mais de 546 mil afastamentos foram por motivos de saúde mental, um crescimento de 15,6%. A ansiedade foi responsável por mais de 166 mil afastamentos e a depressão, por quase 127 mil.
Colocar a “culpa” desses casos única e exclusivamente na conta do trabalho seria uma leviandade. Somos um todo, mesmo que não integrados, e, por mais que nossa racionalidade cartesiana se esmere por reduzir as causas dos nossos problemas a uma única área de atividade humana, uma reflexão mais sensata e profunda conseguiria nos revelar a complexa diversidade por trás de cada um desses afastamentos do trabalho.
Mas a minha experiência me leva a supor que, nesse universo crescente e nada desprezível de casos de afastamento do trabalho, há aquelas que, diante da pergunta, “o que significa para você o trabalho?”, se depara com um desolador nada, como se o tempo destinado a essa finalidade caísse no esquecimento da insignificância.
Visão de mundo e saúde emocional
Para Jung (p. 115), “a visão de mundo está diretamente relacionada com o bem-estar psíquico […] se pode dizer que as coisas são muito menos o que elas são do que como nós a vemos”. Saber o que significa o trabalho para alguém é entender como essa pessoa o enxerga, que lugar ele ocupa em sua cosmovisão e tal compreensão do contexto individual do trabalho, do ponto de vista psicológico, é tão ou mais importante do que uma visão sócio-corporativa.
O crescimento no número de afastamentos de trabalhadores por questões de saúde inspirou a NR1, Norma Regulamentadora nº 1, que, entre outras medidas, prevê a existência de um programa de mapeamento e prevenção de riscos à saúde do trabalhador no ambiente laboral, o que inclui riscos psicossociais. Isso é ótimo, mas o suporte psicológico apenas por compromisso legal e etiqueta corporativa, sem que a pessoa enxergue, nesse processo, um sentido maior numa perspectiva íntima e pessoal, provavelmente não terá o efeito desejado.
Em sua autobiografia, Jung (2016, p. 27) diz que o propósito de uma vida humana é a realização do próprio mito, o que equivale a deixar, como legado, uma história que expresse, a partir da universalidade que nos constitui, uma vida singular e, ao mesmo tempo, capaz de ser compreendida, servindo, possivelmente, de inspiração para que cada um empreenda sua própria jornada da forma mais genuína possível.
James Hollis (p. 101) escreve:
“Ao dizer sim ao seu o vocatus, Jesus torna-se o Cristo. Jung disse então que a adequada imitatio Christi não era viver como o Nazareno da Antiguidade e, sim, viver a própria individuação, a própria vocação, tão plenamente quanto Jesus viveu o Cristo.”
Creio que o mito de cada um de nós envolva, de forma nada desprezível, o tempo dedicado ao trabalho. Por mais profano que possa parecer, o trabalho pode ser consagrado.
A jornada etimológica da palavra trabalho
Trabalho é a prova do caráter simbólico das palavras porque carrega em si uma essência antinômica. Isso significa dizer que não é unilateral, é complexo por excelência, carrega luz e sombra, tem, em seu ventre, a força vital da tensão de uma multiplicidade de opostos complementares e, dessa forma, é transdutor: permite-nos transcender e encontrar uma nova e terceira dimensão de nós mesmos.
A palavra, vastamente usada em três línguas, o português, o francês e o espanhol, vem do latim tripalium, tri (três) palus (paus): objeto com diversos usos laborais na lida agrária na Roma Antiga, mas que também era usado para torturar escravos. A ferramenta se constituía de três estacas que formavam, numa composição, uma espécie de asterisco, com dois paus em xis e o terceiro disposto verticalmente entre esses dois. O escravo era amarrado aí, quase como um crucificado. Cabia ao carrasco tripaliare o escravo “insubordinado”.
Mas com o correr dos anos, décadas, séculos e milênios, trabalho incorporou a nobreza de outras palavras, como ofício, que é a junção de obra (opus) e fazer (facere).
Virou sinônimo de dignidade na sociedade capitalista de ética protestante e incorporou a expressão da boa e velha realização pessoal. Contudo, ainda carrega e sempre haverá de carregar um bocado do sofrimento de que se origina. Ouso dizer que carregaria o sofrimento em qualquer situação em que se associasse à ideia de vida. Que me valham os budistas!
A “saída”, então, é encontrar, no trabalho, algo que transcenda o sofrimento, que nos permita extrapolar sua dimensão mundana, conectando-o também com o sagrado. É assim, então, que transformamos sofrimento em sacrifício — sacer (sagrado) officium (fazer uma obra) — por meio do trabalho. A palavra sacrifício, por origem, traduz o ato de conferir a algo mundano caráter divino: um objeto, um alimento, uma vida ofertada aos deuses. Na cultura cristã, o termo virou sinônimo de renúncia pessoal por um bem maior. Afinal, é Cristo quem dá-se a si mesmo em sacrifício.
Para que e pelo que se sacrificar?
Jesus tinha um “para que” sacrificar-se, tinha o seu trabalho sagrado e eu acredito que cada um de nós tenha o seu próprio e somente na mais íntima singularidade podemos encontrá-lo. “Misterioso demais”, alguém pode dizer. Mas há pistas para acharmos esse íntimo sagrado que, com certeza, não são promessas paradisíacas de euforia sem fim. Não há caminho fácil para o sagrado que nos habita.
O mitólogo Joseph Campbell (p. 127) em entrevista ao jornalista Bill Moyers, que viraria o livro O poder do mito, aponta para uma direção:
“[…] pondo-se no encalço de sua bem-aventurança, você se coloca numa espécie de trilha que esteve aí o tempo todo, à sua espera, e a vida que você tem que viver é essa mesma que você está vivendo.”
Num sentido literal, bem-aventurança significa estar de bem com o que há de vir na vida. Em certa medida, é encarar o que nos acontece, por pior que seja, como uma bênção, mas para que eu seja capaz de enxergar a vida dessa maneira, preciso me guiar pelo que me entusiasma, por aquilo que me leva a sentir que Deus (Theos) não está apenas fora, mas também dentro (en): en-Theos, de onde nasce a palavra entusiasmo.
Campbell (Cf. 2014, p. 126) cita, na mesma entrevista, sua experiência como professor, o que o levava, muitas vezes, a desempenhar o papel de orientador vocacional. Ele dizia aos alunos algo como: siga a sua bem-aventurança, porque é o que lhe fará suportar e encontrar sentido nas inevitáveis frustrações que o caminho lhe reserva.
Gosto do paralelo que ele faz com os ensinamentos hindus, por meio do conceito de Sat-Chit-Ananda. Essas palavras, do sânscrito, significam, bem grosseiramente falando: Ser, Consciência e Bem-Aventurança (Enlevo). Então, Campbell (p. 128) diz: “Não sei se minha consciência é propriamente consciência ou não; não sei se o que entendo pelo meu ser é o meu próprio ser ou não; mas sei onde está o meu enlevo [bem-aventurança]. Então, vou apegar-me ao meu enlevo, e isso me trará tanto a minha consciência como o meu ser”.
Estar no próprio eixo é buscar ser por inteiro
A nossa bem-aventurança precisa, necessariamente, estar associada ao que se faz na vida para ganhar dinheiro? Creio que não. A vida é multifacetada, composta de diversas áreas e a bem-aventurança é o eixo que integra todas elas da melhor forma possível. É possível que haja um bocado de bem-aventurança em cada uma delas e esses bocados, acredito, estão relacionados ao amor próprio.
Naturalmente, entusiasmo e bem-aventurança dialogam com e podem ser sinônimos de vocação, do latim vocatio, chamado (vocatus) ou voz.
Nosso entusiasmo é uma “voz” que não pode ser ignorada nem confundida com euforia nem empolgação, porque não é efêmera, tampouco só vem de fora, é a eternidade que palpita em nossa psique e nos faz sentir que aquilo que está dentro sempre esteve no mundo.
O ponto é que nem sempre é possível ou viável fazer da nossa vocação nosso trabalho remunerado (Cf. Hollis, p.100-101). Às vezes, o que nos enche de sentido e significado é cuidar e proteger. Às vezes, é ser poeta onde a maioria das pessoas não entendem o valor da metáfora. Aliás, poesia vem de poiesis, do grego; quer dizer “ato de fazer”, é trabalho que, muitas vezes, não enche o nosso prato, mas nutre a nossa alma. Porém, não raramente, alguém precisa sustentar o poeta.
James Hollis (p. 100-101) escreve que:
“deixar de responder à nossa vocação pode causar dano à alma”, mas, ao mesmo tempo, “quase todos nós teremos de trabalhar a vida inteira[…] para ganhar dinheiro e satisfazer nossas necessidades econômicas”.
Não é incomum, então, que o trabalhador que vive no artista seja seu próprio mecenas. Há um lindo dorama chamado Navillera que mostra como um carteiro venceu o tempo para, no fim da vida, dar à luz um bailarino.
Guiar-se pelo entusiasmo é ter coragem de ir a fundo na própria alma, responsabilizar-se por si mesmo e se saber dependente, mas, ao mesmo tempo, ter consciência de que os vínculos de dependência, como costuma dizer Waldemar Magaldi, devem ser escolhas nossas. Seguir o próprio entusiasmo é ouvir o vocatus e fazer da própria vida a “grande” obra, não aos olhos dos outros, mas aos próprios olhos. Só assim será possível encontrar sentido e significado, inclusive no trabalho.
Wagner H P Borges — Membro Analista em Formação pelo IJEP
Dra. E. Simone Magaldi — Membro Didata pelo IJEP
Vídeo convite:
Bibliografia:
CAMPBELL, Joseph. O poder do mito. 29ª ed. São Paulo: Palas Athenas, 2012.
HOLLIS, James. A passagem do meio — da miséria ao significado da meia-idade. São Paulo: Paulus, 1995.
JUNG, C. G. A prática da psicoterapia. 16ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013.
_________. Memórias, Sonhos e Reflexões. 35ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2021.
MARACCINI, Gabriela. Brasileiros têm apenas 26% do tempo livre ao longo da vida, diz estudo. CNN Brasil, 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/saude/brasileiros-tem-apenas-26-do-tempo-livre-ao-longo-da-vida-diz-estudo/. Acesso em: 09 de maio de 2026.
CASEMIRO, Poliana; MOURA, Rayane. Brasil tem 4 milhões de afastamentos do trabalho em 2025, maior número em cinco anos. G1, 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/trabalho-e-carreira/noticia/2026/01/26/brasil-tem-4-milhoes-de-afastamentos-do-trabalho-em-2025-maior-numero-em-cinco-anos.ghtml. Acesso em: 09 de maio de 2026.

