Resumo: O artigo aborda os desafios de exercer uma paternidade que se aproxime da realidade e não de uma idealização. Trazendo conceitos como arquétipo paterno e arquétipo materno e como a transição e o equilíbrio entre eles pode ajudar o indivíduo no seu desenvolvimento. Entendendo como ser um pai que também olha para o filho que foi um dia. Utilizando exemplos de mitos e contos de fadas o artigo ilustra essas dinâmicas e destaca que ser um “pai melhor” não é buscar um ideal, mas integrar a própria sombra, equilibrando disciplina e afeto, e aceitando a imperfeição, tornando-se uma presença autêntica e transformadora na vida dos filhos.
Na psicologia analítica de Carl Gustav Jung, os arquétipos são imagens primordiais que emergem do inconsciente coletivo e estruturam a experiência humana.
Entre eles, o arquétipo materno e o arquétipo paterno ocupam posição central, pois representam forças universais que moldam tanto o desenvolvimento psíquico quanto as narrativas simbólicas. Eles constituem dois polos fundamentais da experiência psíquica humana. E é importante ressaltar que eles não se reduzem às figuras concretas de pai e mãe, mas representam funções simbólicas universais que estruturam o desenvolvimento psicológico e aparecem de forma recorrente em mitos, contos de fadas e na jornada do herói.
O arquétipo materno, descrito por Jung como a “Grande Mãe”, traz nutrição, proteção e ligação com a natureza. Em sua face positiva, aparece como acolhimento e fertilidade; em sua sombra, como sufocamento e possessividade. Nos contos de fadas, essa ambivalência é dramatizada em fadas madrinhas e mães boas, mas também em madrastas cruéis e bruxas devoradoras.
Autores como Erich Neumann, em A Grande Mãe (2006), aprofundaram essa visão, mostrando como o materno é tanto fonte de vida quanto de ameaça, dependendo da forma como é vivido. Neumann amplia a ideia de Jung ao afirmar que a Grande Mãe é um arquétipo que contém em si todas as polaridades: é a matriz da criação, mas também a devoradora; é a terra fértil que dá alimento, mas também o abismo que engole. Ele destaca que a experiência humana com o materno é sempre ambivalente, pois a mesma força que protege pode aprisionar, e a mesma energia que nutre pode sufocar. Essa duplicidade é fundamental para compreender o desenvolvimento psíquico, já que o indivíduo precisa aprender a se separar da fusão materna sem perder o vínculo com sua dimensão nutritiva e instintiva.
Na jornada do herói, Neumann mostra que o materno é o ponto de partida: o herói inicia sua trajetória em um espaço protegido, marcado pela fusão com o materno, que simboliza acolhimento, nutrição e segurança.
Esse ambiente inicial é essencial, pois fornece ao indivíduo a base instintiva e emocional necessária para enfrentar o mundo. Contudo, permanecer nesse estado de fusão significa não amadurecer: o herói precisa se separar da Grande Mãe para conquistar autonomia e identidade. Essa separação não é simples, porque o materno é ambivalente. Ele é ao mesmo tempo fonte de vida e ameaça, terra fértil e abismo devorador. O herói, ao sair do espaço materno, enfrenta a sombra da Grande Mãe — a bruxa, a madrasta, a deusa destruidora — que simboliza o perigo de regressão e aprisionamento. Esse confronto é necessário para que o herói não permaneça infantilizado, dependente de uma proteção que, se prolongada, se torna sufocante.
A jornada, portanto, dramatiza o processo de individuação: o herói precisa romper com a fusão materna, atravessar o desafio da sombra e, ao final, integrar em si os aspectos positivos do materno — acolhimento, intuição, ligação com a vida — sem ser aprisionado por sua face negativa. Só assim ele pode avançar para o encontro com o arquétipo paterno, que introduz lei, ordem e transcendência, completando o ciclo de amadurecimento.
Nos mitos e contos de fadas, essa dinâmica aparece de forma recorrente.
Perséfone, ao ser arrancada do convívio com Deméter, simboliza a separação dolorosa do materno e a necessidade de transitar entre mundos. Em João e Maria, a casa de doces representa o acolhimento ilusório da Grande Mãe, que se revela devoradora na figura da bruxa. Em A Bela Adormecida, o sono profundo é metáfora da regressão ao materno, da qual a heroína precisa despertar para viver sua própria individuação.
O arquétipo paterno, representa lei, ordem e transcendência. Ele introduz limites, disciplina e abre o caminho para o mundo exterior, para a cultura e para o espírito, funcionando como uma força que conduz o indivíduo para fora da fusão materna e o lança em direção à autonomia. Sua face positiva aparece em reis justos, mentores sábios e pais protetores, figuras que oferecem direção e segurança sem sufocar a liberdade. Já sua sombra se manifesta em personagens autoritários, rígidos ou ausentes, que em vez de guiar acabam por aprisionar ou abandonar.
Marie-Louise von Franz, em A interpretação dos contos de fadas (2008), mostra como a ausência ou distorção da função paterna nos contos abre espaço para o caos ou para a tirania materna.
Quando o pai não cumpre sua função simbólica de estabelecer limites e mediar a relação entre o filho e o mundo, o materno pode se tornar excessivo, sufocante ou destrutivo. Essa ausência paterna, tão recorrente nas narrativas míticas e nos contos de fadas, revela a importância da função do pai como mediador entre o lar e o mundo, entre a proteção e a aventura.
Joseph Campbell, em O herói de mil faces (2007), descreve o pai como guardião do limiar, cuja função é testar o herói e permitir sua passagem para o mundo adulto.
O encontro com o pai, segundo Campbell, é um dos momentos decisivos da jornada: o herói precisa confrontar a autoridade, superar o medo e, muitas vezes, reconciliar-se com essa figura para alcançar maturidade. Esse guardião do limiar pode aparecer como um mestre benevolente que transmite sabedoria, ou como um adversário severo que desafia o herói a provar sua força. Em ambos os casos, o pai simboliza a transição necessária entre a infância e a vida adulta, entre a dependência e a autonomia.
Todo arquétipo possui uma face sombria. No caso do arquétipo paterno, ela se manifesta como autoritarismo, quando a lei se transforma em tirania; rigidez, quando as regras sufocam a espontaneidade; ou ausência, quando o pai não oferece presença emocional ou física. Também pode aparecer como projeção, quando o pai transfere suas frustrações para os filhos. Autores contemporâneos como James Hollis, em Sob a sombra de Saturno (1997), enfatizam que reconhecer e integrar a sombra é essencial para que o pai real se torne mais consciente e presente.
Nos mitos, essas forças aparecem dramatizadas em deuses e deusas que expressam tanto a luz quanto a sombra dos arquétipos.
O arquétipo materno é representado por figuras como Gaia e Deméter na mitologia grega, que simbolizam fertilidade e nutrição, ou por Ísis no Egito, protetora e cuidadora. Sua face sombria surge em divindades como Kali na tradição hindu, que encarna destruição e renovação. O arquétipo paterno, por sua vez, aparece em Zeus, autoridade suprema da mitologia grega, em Odin, guia espiritual e guerreiro da mitologia nórdica, e nas tradições monoteístas como o Deus Pai, legislador e transcendente. Esses mitos revelam a complementaridade e o conflito entre as forças maternas e paternas, dramatizando a necessidade de equilíbrio entre acolhimento e lei, raiz e direção.
No plano psicológico, o pai real que consegue integrar sua sombra e equilibrar disciplina com acolhimento aproxima-se dessa função simbólica, tornando-se não apenas autoridade, mas guia espiritual e humano.
Ser um pai melhor, portanto, não significa encarnar o ideal arquetípico, mas integrar a sombra e equilibrar as forças paternas e maternas dentro de si. Isso envolve autoconhecimento, para perceber padrões herdados da própria relação com o pai e evitar repeti-los de forma inconsciente; presença consciente, que valoriza a constância no cotidiano mais do que grandes gestos; diálogo e vulnerabilidade, mostrando aos filhos que o pai também erra e aprende, humanizando sua função; e equilíbrio com o materno, integrando acolhimento e escuta, não apenas disciplina e lei.
Nos contos e mitos, vemos como a ausência ou sombra de um dos arquétipos gera desequilíbrio: em Branca de Neve, o pai ausente abre espaço para a tirania da madrasta; em Cinderela, a sombra materna domina enquanto o pai passivo mostra fragilidade; em Star Wars, Luke enfrenta a sombra paterna em Darth Vader e encontra acolhimento materno simbólico na Força; em Rei Leão, Simba integra o legado paterno de Mufasa e supera a ausência materna para assumir sua identidade.
No arquétipo paterno temos dois polos – Pai e Filho. É necessário integrar o polo “filho” para que se possa realizar uma paternagem satisfatória, ou seja, o indivíduo precisa estar bem com a dimensão “Ser-filho” para conseguir viver o “Ser-pai”.
Faz-se necessário que o indivíduo olhe para sua própria história de vida, a história vivida com seus próprios pais. Estando diante do filho resgatar também a criança que já foi um dia, e que talvez ainda precise receber paternagem – se essa não foi bem realizada. Dessa maneira, integrando essas polaridades para não sobrecarregar o filho com expectativas e desejos de realização, fechando o ciclo Pai-Filho-Pai.
Lembro de uma música de Toquinho e Vinícius que, para mim, fala exatamente disso: O Filho que eu quero ter*. A letra da música traz o início do ciclo, o desejo de ser pai, e ao se tornar pai ver-se no filho como a criança que já foi, e ver no filho o adulto que quer se tornar pai. E assim fecha-se o ciclo.
O pai real é sempre um ser humano em tensão. Ele não pode ser o rei perfeito, mas pode ser uma presença autêntica, consciente e transformadora.
Ao reconhecer suas limitações e integrar sua sombra, aproxima-se de uma vivência saudável do arquétipo paterno: não como ideal inatingível, mas como função viva que oferece aos filhos direção e acolhimento. Assim, ajudar um homem a ser um pai melhor significa trazer o arquétipo para a realidade, aceitando a imperfeição e valorizando a constância. O pai que consegue equilibrar lei e afeto, disciplina e escuta, aproxima-se daquilo que Jung chamaria de individuação: tornar-se inteiro e, nesse processo, oferecer aos filhos não apenas regras, mas também humanidade.
Assim, o arquétipo paterno é essencial para o processo de individuação. Ele desafia, testa e orienta, mas também pode falhar e se tornar opressor. Reconhecer essa ambivalência é fundamental para compreender tanto os mitos quanto a vida cotidiana: o pai é sempre uma figura em tensão entre lei e afeto, entre proteção e rigidez, entre presença e ausência. É nesse espaço de tensão que se dá a possibilidade de crescimento, tanto para o filho quanto para o próprio pai, que precisa aprender a ser não o “Grande Pai” idealizado, mas um homem real capaz de oferecer direção sem sufocar, e disciplina sem abandonar.
* O Filho Que Eu Quero Ter
É comum a gente sonhar, eu sei, quando vem o entardecer
Pois eu também dei de sonhar um sonho lindo de morrer
Vejo um berço e nele eu me debruçar com o pranto a me correr
E assim chorando acalentar o filho que eu quero ter
Dorme, meu pequenininho, dorme que a noite já vem
Teu pai está muito sozinho de tanto amor que ele tem
De repente eu vejo se transformar num menino igual à mim
Que vem correndo me beijar quando eu chegar lá de onde eu vim
Um menino sempre a me perguntar um porque que não tem fim
Um filho a quem só queira bem e a quem só diga que sim
Dorme menino levado, dorme que a vida já vem
Teu pai está muito cansado de tanta dor que ele tem
Quando a vida enfim me quiser levar pelo tanto que me deu
Sentir-lhe a barba me roçar no derradeiro beijo seu
E ao sentir também sua mão vedar meu olhar dos olhos seus
Ouvir-lhe a voz a me embalar num acalanto de adeus
Dorme meu pai sem cuidado, dorme que ao entardecer
Teu filho sonha acordado, com o filho que ele quer Ter.
Me. Keller Villela – Analista Didata em formação IJEP
Dra. E. Simone Magaldi – Analista Didata IJEP
Referências:
CAMPBELL, J. (2007). O herói de mil faces. São Paulo: Cultrix/Pensamento.
HOLLIS, J. (1997). Sob a sombra de Saturno. São Paulo: Paulus.
JUNG, C. G. (2012). Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes.
NEUMANN, E. (2006). A Grande Mãe. São Paulo: Cultrix.
VON FRANZ, M.-L. (2008). A interpretação dos contos de fadas. São Paulo: Paulus.

