Uma análise de como o ato de tecer facilita o processo de autoconhecimento quando o tecer é entendido além da concretude e literalidade.
Resumo: Neste artigo, a proposta é aproximar a costura, um recurso usado no campo da arteterapia, através do tecido, a aspectos da psicologia analítica e pensar na magia que dá origem à imagem do encontro entre a arte e o próprio processo de análise. O tecido nesse artigo se apresenta como tela de expressão de alma. O texto apresenta o simbolismo do tecido e o tecer relacionando com a estrutura psíquica dentro do referencial Junguiano.
Sobre a arteterapia
As ferramentas que compõe o campo da arteterapia são de extrema importância para ajudar a tornar visível os temas psicoafetivos, revelando a vida anímica, onde a potência do material se torna visível aos olhos da descrente consciência diante dos aspectos sombrios que habitam o inconsciente.
“(…) Pintar aquilo que vemos diante de nós é uma arte diferente de pintar o que vemos dentro de nós.” (SILVEIRA, 2015, p. 86)
Sendo assim, “o estudo de uma obra de arte é fruto ‘intencional’ de atividades anímicas complexas” (JUNG, OC 15, § 133).
A arteterapia é a abordagem terapêutica que utiliza o fazer artístico como via de expressão, elaboração e transformação de material psíquico, onde, pelo ato criativo, o indivíduo dá forma simbólica, criando campo de diálogo entre consciência e inconsciente, favorecendo a função transcendente.
Sobre o Tecido e o Tecer
Falar de tecido é mergulhar na imensidão da história, reconhecendo o tecido como algo maior, assim como o ato de tecer.
O gesto diante do material com sua materialidade cria a trama, e a alma oferece o fio. Trabalha-se a partir da imagem que revela algo essencial do Self, onde a confecção na materialização é caminho lúdico e menos violento de confronto com o material sombrio.
A ideia do tecer, costurar e bordar, nos conecta ao pensamento e a dimensão espiritual, reconhecendo nas obras tecidas a intencionalidade do Self. Nessa ideia e ato são representadas a cosmovisão de um povo que carrega sentido pessoal, coletivo, cósmico, ao mesmo tempo em que se refere ao infra mundo, à fertilidade como potencial criativo do inconsciente e remete a diversidade de processos culturais e históricos que guardam memória; nota-se, então, o quão amplo e abrangente é esse recurso.
O ato de tecer remete a um processo quase alquímico, transforma a linha do tempo cronológico em presente presença nos trazendo à comunhão com Kairós, carrega carga mítica ancestral que nos faz associar a ideia dos arquétipos e inconsciente coletivo, além de expressar a identidade de quem elabora a tecitura, quem toca ou veste o tecido, revelando, também, os aspectos da Persona.
A Persona é estrutura que nos compõe e a possibilidade de estabelecermos relação saudável com o mundo externo, são como as roupas que nos vestem e roupas são feitas de fios.
Como seu nome revela, ela é uma simples máscara da psique coletiva, máscara que aparenta uma individualidade, procurando convencer aos outros e a si mesma que é uma individualidade, quando na realidade, não passa de um papel, no qual fala a psique coletiva. (JUNG, O.C. 7/2, § 245)
E sobre a sombra…
A sombra, porém, é uma parte viva da personalidade e por isso quer comparecer de alguma forma. Não é possível anulá-la argumentando, ou torná-la inofensiva através da racionalização. Este problema é extremamente difícil, pois não desafia apenas o homem total, mas também o adverte acerca do seu desamparo e impotência. (JUNG, O.C. 9/1, §44)
Quantos são os fios, ou melhor, que fios nos ligam para estarmos conectados nesse momento formando um tecido coletivo? E quais fios precisam ser cortados numa sociedade hiperconectada?
Tudo tem início nos primórdios da humanidade quando Adão e Eva, primeira história mítica judaico-cristã, se vestem e se cobrem por vergonha e culpa devido a desobediência ao provar do fruto proibido. Nesse momento, ocorre a queda do Paraíso, nos denunciando a perda da inocência e ingenuidade. Com o surgimento da Sombra e da consciência, pode-se refletir a respeito de cenas sociais tecidas a partir dos complexos culturais, ficando escancarado aos olhos a realidade sombria da qual fazemos parte, denunciando nossos pecados. São fios invisíveis que nos conectam criando a realidade visível.
Ao nos vestirmos, pensamos na própria Persona e, ao mesmo tempo, na Sombra. Com a Persona nos vestimos para a vida, onde a Sombra nos investe de energia, se sobrepõe ao Ego e nos atira ao mundo através do mecanismo de projeção sobre alguém ou algo.
O homem se veste para se proteger literal e metaforicamente. Nesse sentido, todo recurso desenvolvido criativamente pelo homem surge da necessidade de sobrevivência como princípio e adaptação ao meio.
Tecer é tão antigo quanto a humanidade. Num primeiro momento, o homem tece utilizando-se de fibras vegetais e, depois, pele animal.
A tecelagem nasce da observação da natureza, das raízes que se entrelaçam, das teias de aranha, dos ninhos de pássaros, do bicho da seda e dentre outros.
Portanto, o homem desenvolve a tecitura na própria relação com a natureza externa e pautada no que constitui a natureza interna. A tecitura envolve entrelaçar fios, o que nos faz pensar na própria relação humana que exige encontro e entrelaçamento.
A ideia do encontro e entrelaçamento nos constitui como humanos biopsicossocial, ou seja, somos constituídos a partir do encontro do material masculino e feminino. Somos também constituídos por figuras que se contrapõe ao nosso gênero. A contraparte masculina (Animus) na mulher, e a contraparte feminina (Anima) no homem, evidenciando a ideia de sermos seres gregários.
Há uma imagem coletiva da mulher no inconsciente do homem, com o auxílio da qual ele pode compreender a natureza da mulher. Esta imagem herdada é a terceira fonte importante da feminilidade da alma. (JUNG, O.C. 7/2, § 301)
“Não há homem algum tão exclusivamente masculino que não possua em si algo de feminino” (JUNG, O.C. 7/2, § 297)
Nos entrelaçamos o tempo todo, daí surge a ideia do tear como se houvesse um tear cósmico. Existe uma relação entre parte e todo, entre Ego e Self que se relaciona através de um eixo, um fio de comunicação.
Somos constituídos fisicamente por tecidos: tecido neural, conjuntivo, e contornados pela pele, que é nosso maior órgão, com uma infinidade de terminações nervosas. Fomos constituídos e nutridos em nossa formação pelo cordão umbilical e vamos formando linhas de impressão digital que revela nossa identidade.
O tecido, fruto de diferentes técnicas de tecitura, está ligado ao espírito do tempo, ou seja, é a linha histórica, que carrega valores morais e espirituais de uma época, através das vestes ligadas ao povo.
No início, a tecelagem era realizada por mulheres, e, só depois os homens desenvolvem esse ofício, por volta da idade média. Como tecnologia, o tear evolui até a padronização mais sofisticada, utilizando-se do tear mecânico. Mas, mesmo antes da criação do tear, o homem já desenvolvia o ato de fiar, torcer e costurar no intuito de unir partes. A união de partes é a base do processo de individuação.
Simbolicamente, estamos falando das tramas criadas também psiquicamente durante nosso processo de vida que compreende o processo de individuação no encontro e integração de partes que um dia, durante nosso desenvolvimento psíquico, foram separadas. Nascemos do todo, de forma inconsciente, e retornamos à totalidade de forma consciente. Então, a busca de união de partes é tendência natural que depende de uma certa dose de vontade.
Da aproximação de partes que se opõem surge a função transcendente, conceito desenvolvido por Jung que ocorre como fruto de tensão no encontro de opostos, surgindo, assim, uma terceira forma criativa diferente do que estava na consciência, e acalmando material inconsciente, que pressiona a consciência, para poder se fazer presente. Somos constituídos por materiais que se opõe em sua natureza.
Pensemos no arquétipo do fio da vida, que liga a realidade consciente e inconsciente que se contrapõe e se complementam. Podemos pensar o fio como material do fiar, pode se mostrar símbolo do processo de individuação e tudo que o envolve.
Hoje, na contemporaneidade, onde a tecnologia mecânica é maravilhosa e necessária, tendemos a negligenciar, perdendo algumas ações simbólicas e significativas. Mas, como diz Jung, “[…] mesmo no melhor e precisamente no melhor, existe o germe do mal. E nada é tão mal que não possa produzir um bem.” (JUNG, OC 10/2, § 461)
Precisamos resgatar os gestos manuais, nos reconectando às nossas raízes.
Tecemos história e vida a todo momento, envolvendo movimento, ritmo, razão (Logos), relação (Eros), tensão (tônus), imaginação, a relação entre Cronos e Kairós onde o tecer fios envolve Matemática, Química, Espiritualidade e envolve todo aparelho sensorial evocando memoria pessoal e ancestral como dito anteriormente. Tudo isso, o que não é pouco, é também o que compõe vida. Vamos percebendo pelo ato de fiar o que é de nosso feitio ou não, entendendo feitio como a forma habitual de atuação como atitude da consciência.
O ato de trançar, entrelaçar fios e unir, representa o movimento em direção aos encontros e à descoberta da beleza na união de fios e partes diversas em nós onde muitas dessas foram negadas.
É possibilidade de lidar com a diversidade das tantas partes que nos compõe, reconhecendo-nos um retalho que compõe uma grande colcha através do encontro e integração do estranho e diferente que nos habita. O diverso carrega oposições, representando o próprio entrelaçamento dos diferentes fios com o movimento e tônus.
Esse movimento só é possível pela confiança que deriva do fiar com a vida e o Self. Aliás, nos entrelaçamentos dos encontros, é que construímos histórias onde as relações saudáveis se sustentam na confiança, criando uma trama entre almas envolvendo os nós e laços. Os nós podem ser associados aos complexos, que são conteúdos psíquicos carregados de afetividade. Uma curiosidade é que os tapetes mais valiosos são feitos a partir de torcitura e nós.
Os complexos são constituídos por tramas que se encontram no inconsciente como fruto de nossa história.
Não existe ninguém que não tenha um complexo, assim como não há ninguém que não tenha sentimentos. Assim mesmo as pessoas são muito diferentes de acordo com a força de seus sentimentos. O pensar e agir das pessoas bem como suas associações são constelados através de seus complexos conforme a intensidade de seus sentimentos. (JUNG, O.C. 2, § 736)
Para tecer história profunda e almada, precisamos arriscar a própria pele, aceitando os espinhos da carne. Cada um de nós tece a própria história na vida, mas é o Self quem guarda o padrão invisível do tecido. Podemos compreender esse padrão como potencial do vir a ser, onde o Self intencionalmente nos chama ao caminho de realização de um propósito. Sendo assim, a vida é uma tapeçaria inacabada, sendo a vida não vivida, um fio que pede para ser tecido. O que em nós clama por movimento no sentido do tecer?
O que estamos tecendo? Qual a trama da qual fazemos parte? Qual é o tear do nosso tempo?
Somos todos artistas da realidade contemporânea.
[…] Assim a arte representa um processo de autoregulação espiritual na vida das épocas e nações. (JUNG, O.C. 15, § 131)
O artista é o tecelão e tecelã do invisível através do ato criativo, desenvolvendo e concretizando material que vai além de si. A obra, por sua vez, é o que acontece quando deixamos a consciência puxar o fio do inconsciente.
A vida é obra que se tece no encontro de fios onde a alma costura experiências desconexas a princípio, ligando passado, presente e futuro, criando tempo, novo ritmo e novos tecidos.
A psicologia analítica, que dá referência e base ao processo de análise envolve a tecitura entre analista e analisando, indivíduo (particular) e mundo (universal), as experiências e o sentido. No processo, costuramos, fios se rompem, se refazem, mudam de forma, de espessura, fiamos memória, esticamos o fio, com paciência desatamos nós, e, quando não tem jeito, aprendemos que muitas vezes na vida, vai com nó mesmo. Pegamos o fio do passado que leva ao futuro e se faz no presente. Transformamos fatos em história com sentido através de fios simbólicos.
As sincronicidades, sintomas, sonhos, e a própria expressão artística são fios condutores no processo de individuação.
O percurso da vida e o processo de análise nos apresentam metaforicamente um tear simbólico onde somos artesãos que compactuam com a trama, tecendo fios de reflexão na busca de sentido seguindo o afeto, que é o fio que nos leva ao que de fato é essencial e habita o mundo imaginal de onde se desencadeiam as emoções.
A partir de um fio condutor, vai sendo tecida alma e vida, criando um grande tecido coletivo. Os tecidos que se apresentam na sessão arte terapêutica formam uma grande pele que nos abraça, nos acolhe e nos assegura para uma viagem profunda.
O processo de tecitura é um tecer de forma circular que vai nos conduzindo por um percurso fluido, profundo e sensível, levando o indivíduo a confrontar a própria existência, saindo do anestesiamento e do monoteísmo da consciência.
O tecido é flexível e poroso, assim como a pele, e no processo de análise se busca flexibilidade e porosidade do Ego na tentativa de tecer uma sociedade mais igualitária, amorosa, menos rígida, preconceituosa e literal, resgatando, assim, a humanidade do homem.
Ana Paula Zaidan Maluf – Analista Didata e Professora do IJEP
Referências:
JUNG, C. G. Obras Completas v. 2 Estudos Experimentais. Petrópolis: Vozes, 2011;
JUNG, C. G. Obras Completas v. 7/2. Dois Escritos Sobre Psicologia Analítica. O Eu e o Inconsciente. 23ª ed. Petrópolis: Vozes, 2011;
JUNG, C. G. Obras Completas v. 9/1. Os Arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes, 2016;
JUNG, C. G. Obras Completas v. 15. O Espírito na Arte e na Ciência. Edição digital. Petrópolis: Vozes, 2013;
PEZZOLO, D. B. Tecidos – histórias, tramas, tipos e usos. 5ª ed. rev. e atual. São Paulo: Senac, 2019;
KOLTUV, B. B. A Tecelã: Ensaios sobre a Psicologia Feminina. São Paulo: Cultrix, 1992;
SILVEIRA, Nise da. Imagens do Inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2015.

