Resumo: Não basta perceber a Matrix, é necessário enxergá-la. Para tal, o indivíduo precisa enxergar a si mesmo, compreender quem ele é de fato. A clareza da visão interior transformará radicalmente a sua visão do mundo. Ele precisa se iluminar para trazer luz à humanidade que padece pelas trevas da ilusão coletiva. Este artigo analisa o arquétipo do iluminado a partir do filme Matrix, sucesso de bilheteria e de grande profundidade filosófica. Nele, o caminho do herói é demonstrado de forma bem elaborada, enquanto conversa com a individuação proposta por C. G. Jung e a sabedoria oriental.
Poucos filmes, na história, influenciaram tanto o imaginário coletivo quanto Matrix. Lançado em 1999, o filme foi o primeiro de uma trilogia e é considerado por muitos não apenas o melhor dentre os três, mas também uma obra-prima atemporal. Na verdade, podemos dizer ainda que é um filme a cada dia mais atual, por mais estranho que pareça. O crescente interesse pelo autoconhecimento e a insatisfação com o sistema político-econômico vigente a cada dia mais acirrada produzem interpretações que se aprofundam com o passar dos anos.
Os véus da ilusão
Em Matrix, os seres humanos vivem em uma realidade virtual que simula a vida real. Ela é tão realista que a esmagadora maioria nem sequer desconfia de que vivem uma vida ilusória. A pergunta que surge é: será que a nossa vida é tão diferente assim?
Na filosofia védica há um conceito chamado de Véu de Maya, que se refere à nossa incapacidade de enxergar a realidade do mundo. Esse véu que cobre nossos olhos, na realidade, é de natureza espiritual e, portanto, nos impede de enxergar a nossa própria natureza, de descobrir quem realmente somos.
Mas o que acontece quando alguém desconfia da realidade das coisas? O que acontece quando se tenta enxergar por detrás do véu? No filme, muitos personagens desconfiaram e então despertaram para a vida real, com a ajuda de outros já despertos. A realidade dura de um mundo controlado pelas máquinas é o preço a ser pago pela liberdade. Para agravar a angústia, a humanidade se encontra escravizada e em sono profundo.
Nas palavras de Morpheus para Neo: “Assim como todo mundo, você nasceu em um cativeiro, preso em uma cela que você não pode sentir, provar ou tocar. Uma prisão para sua mente” (MATRIX, 1999).
Quando Carl Gustav Jung aborda essa busca pela natureza da alma, o centro da psique, ele explica que o ego passa a ocupar uma posição periférica, ou seja, não tão importante na percepção da própria identidade (Cf. JUNG, 2013a, p. 68-9). É o que acontece quando Neo descobre que vivia na Matrix e quase nada do que vivera antes poderia definir quem ele era, pois vivera uma vida fictícia até então. Isso é ilustrado pela cena em que ele volta para a Matrix pela primeira vez após o despertar e vê o restaurante que costumava frequentar, com certa melancolia, pois percebe que ele próprio já não é o mesmo e nenhuma daquelas lembranças realmente aconteceu.
Jung segue, então, para o questionamento do que é ilusão, visto que ainda se costuma considerar os fatores inconscientes como ilusórios e a vida consciente como realidade:
“Será que existe algo dentro da alma que possa ser chamado de “ilusão”? Quem sabe se essa ilusão é para a alma a forma mais importante e indispensável de vida, como o oxigênio para o organismo? Aquilo que chamamos de “ilusão” é, talvez, uma realidade psíquica de suprema importância.” (JUNG, 2013a, p. 68)
Já sobre o mundo externo do consciente ele diz que, “infelizmente, hoje ainda se costuma dogmatizar, como se aquilo que chamamos de realidade também não fosse ilusório” (JUNG, 2013a, p. 69). Morpheus também levanta essa questão ao responder sobre a realidade virtual:
“O que é real? Como você define o ‘real’? Se você está falando sobre o que você pode sentir, o que você pode cheirar, o que você pode saborear e ver, o real são simplesmente sinais elétricos interpretados pelo seu cérebro” (MATRIX, 1999).
Portanto, a ilusão é um fator psíquico que nos atinge a todos, logo arquetípico, e nos ludibria desde a infância sobre a realidade do mundo e de nós mesmos sem que a grande maioria desconfie. Para Jung (2015, p. 18), “é um fator inconsciente que trama as ilusões que encobrem o mundo e o próprio sujeito”.
No filme, esse fator inconsciente é evidente, uma vez que as pessoas estão literalmente dormindo e o sonho, que é a própria Matrix, é gerenciado pelas máquinas para manter a humanidade sob controle. Essa metáfora nos faz pensar o quanto estamos sonhando, inconscientes de nós mesmos e do controle imposto por aqueles que detém o poder. Quem são as “máquinas” desse mundo “real” que forçam a humanidade ao consumismo, à competição, à normalização da miséria, da violência e da desigualdade social? Essas ferramentas de controle não só nos distraem da busca pelos caminhos de libertação, como ainda nos transformam em defensores da ordem estabelecida. Nas palavras de Morpheus:
“Você precisa entender, a maioria dessas pessoas não está preparada para ser desplugada. E muitas delas estão tão inertes, tão desesperançosamente dependentes do sistema, que irão lutar para protegê-lo” (MATRIX, 1999).
O arquétipo do iluminado
Vale ressaltar que essa relação com o sistema é inconsciente e acontece porque o indivíduo se identifica intensamente com ele. Isso faz com que enxergue a realidade através da ótica desse sistema, que traz consigo toda uma carga histórico-cultural de certo e errado, de comportamento, de moralidade, de relação interpessoal e com a natureza. Mesmo aqueles com algum senso crítico não são capazes de enxergar a si próprios separados dessa simulação construída.
Pela visão da psicologia analítica, o indivíduo se identifica com o sistema porque, primeiramente, ele se identifica com a persona. Ele acredita que a sua própria identidade é essa “máscara” que foi forjada pela sociedade e para a sociedade. Ele olha no espelho e acredita que aquilo é tudo que ele é. Por isso, o caminho que leva à iluminação passa pelo abandono dos apegos quanto a essas falsas noções de identidade, tanto pessoais quanto coletivas. Segundo Jung (2014, p. 68), “a meta da individuação não é outra senão a de despojar o si-mesmo dos invólucros falsos da persona, assim como do poder sugestivo das imagens primordiais”.
Sobre desapego e iluminação Alan Watts explica:
“Desapego significa não ter arrependimentos pelo passado nem temores pelo futuro; significa deixar a vida seguir seu curso sem tentar interferir em seu movimento e mudança, sem tentar prolongar o estado de coisas agradáveis nem acelerar a partida de coisas desagradáveis. Fazer isso é seguir o ritmo da vida, estar em perfeita harmonia com sua constante mudança, e a isso se dá o nome de Iluminação. Em resumo, é desapegar-se do passado e do futuro e viver no eterno Agora.” (WATTS, 2020, p. 23)
Já o protagonista possui uma profunda falta de pertencimento em relação à Matrix. Ele não se identifica com aquele mundo e sente uma estranheza que não é capaz de explicar. Vive uma vida dupla: por um lado é um funcionário de uma respeitada empresa, por outro é um hacker famoso, como forma de rebeldia. Essa vida de hacker parece uma tentativa de viver uma vida mais real por detrás da máscara social. Mas, ainda sim, por mais que se aproxime um pouco de quem ele realmente é, continua sendo uma persona que pertence à Matrix.
Nas palavras de Trinity: “A Matrix não pode lhe dizer quem você é” (MATRIX, 1999).
Com esse importante desconforto, o caminho do herói de Neo se inicia. Ele representa o novo, a possibilidade de uma nova era de paz para a humanidade, o arquétipo do redentor. Desde o início dessa jornada, Morpheus deixa claro que acredita ser ele o Escolhido, aquele que libertará a humanidade do jugo das máquinas: um peso enorme para alguém que ainda está tentando entender onde está, quem é e o que é real.
Com isso, a caminhada começa cheia de dúvidas e crises.
No primeiro contato entre os dois, Neo se vê em uma situação perigosa em que precisa tentar escapar dos agentes e, então, se desespera: “Isso é loucura! Por quê está acontecendo comigo? O que eu fiz? Eu não sou ninguém. Eu não fiz nada. Eu vou morrer” (MATRIX, 1999).
Em outro momento decisivo de dúvida em que Neo pensa em desistir, Trinity pede que ele confie nela. Quando ele pergunta o porquê, ela responde: “Porque você já esteve lá. Você conhece essa rua. Você sabe exatamente onde ela termina. E eu sei que não é onde você quer estar” (MATRIX, 1999).
A crise final se expressa em total desespero ao ser informado sobre do que se trata a Matrix de fato e qual a verdadeira situação atual da humanidade.
O herói sente o peso de sua responsabilidade.
A partir desse momento, Neo se resigna e começa a buscar autoconhecimento e contribuir com seus parceiros. Ele está pronto para seguir seu destino, mesmo não acreditando nele. A conversa com o Oráculo o deixa convicto de não ser o Escolhido. Mais adiante, ele decide sacrificar a própria vida para salvar a de Morpheus. Ele sabia que morreria. Por pensar que não era o Escolhido, ele agiu como tal: salvou seu mestre, fez o que ninguém pensaria em fazer, agiu heroicamente. Seu altruísmo e sua capacidade de ação acima da média foram revelados. Ainda sim ele morreu, como previsto pelo Oráculo, mas ressuscitou de forma inesperada.
Morpheus tinha certeza de que Neo era o Escolhido, mas assim como todos os outros não fazia ideia de que forma isso se revelaria. Como mestre, ele só poderia mostrar o caminho: “Estou tentando libertar sua mente, Neo. Mas eu só posso lhe mostrar a porta. É você quem tem que atravessá-la” (MATRIX, 1999).
Só uma coisa seria capaz de dar a certeza que o protagonista precisava para renascer e assumir o seu papel na existência: o armor. Quando Trinity o beija e releva seu amor, toda dúvida desaparece. O amor é a força mais poderosa do universo e não deixa espaço para dúvidas. Tudo se encaixou, de repente, e as palavras do Oráculo fizeram sentido: “Ser o Escolhido é como estar apaixonado. Ninguém pode lhe dizer que você está apaixonado. Você apenas sabe” (MATRIX, 1999).
Após a dúvida e o altruísmo, a terceira fase da jornada chega de maneira arrebatadora: a certeza.
Neo se levanta e tem agora certeza de quem ele é. Ser o Escolhido era só uma ideia. Agora, ele enxerga sua própria natureza espiritual e, da mesma forma, enxerga a Matrix exatamente como ela é, com todos seus códigos e programações. Ele se iluminou e, como é dito sobre os iluminados, possui domínio sobre a natureza e sua vontade se manifesta no mundo. Com isso, ele derrota facilmente os agentes, que nada mais são do que programas de inteligência artificial. Essa experiência transformadora foi destacada por Jung como de grande importância:
“Experimentar e vivenciar esse si mesmo é a meta mais nobre da ioga indiana. Por este motivo, será bom para a psicologia do si mesmo que nos familiarizemos com os tesouros do saber indiano. Tanto aqui como na Índia, a experiência do si mesmo nada tem a ver com intelectualismo, mas é uma experiência vital e profundamente transformadora. O processo que conduz a ela foi por mim denominado processo de individuação.” (JUNG, 2013a, p. 129)
O arquétipo do iluminado é, em grande parte, uma herança do Oriente. Algumas tradições espirituais como o budismo, o taoísmo e o hinduísmo, em suas múltiplas vertentes, há milênios cultuam a figura do iluminado como modelo de perfeição humana e guia para todos aqueles que desejam sinceramente conhecer a si próprios. Suas histórias e vivências deram origem a livros sagrados, contos mitológicos, doutrinas religiosas e, principalmente, a fé de que o potencial da iluminação espiritual reside na alma de cada ser humano.
Para Swami Abhedananda, os iogues da Índia são um bom exemplo do que estamos tratando:
“Desde os tempos antigos, houve muitos desses verdadeiros yogues na Índia e em outros países. As descrições de suas vidas e ações são, além disso, tão notáveis e autênticas quanto a vida e os atos daquele ilustre Filho do Homem, que pregou na Galileia há quase dois mil anos. Os poderes e as obras deste pacifico, gentil e abnegado homem divino, que é reverenciado em toda a cristandade como a encarnação ideal de Deus e o Salvador da humanidade, provaram que era um tipo perfeito de quem é chamado na Índia de verdadeiro yogue.” (ABHEDANANDA, 2024, p. 78)
Jung também se utiliza da figura de Jesus para relacionar a alma humana com o brilho dos iluminados:
“No que precede, tentei mostrar em que espécie de matrix (matriz) a figura de Cristo foi recebida ao longo dos séculos. Se não houvesse uma afinidade (“magneto”!) entre a figura do Redentor e certos conteúdos do inconsciente, jamais uma mente humana teria podido enxergar a luz em Cristo e abraçá-la com toda a intensidade do coração. O elo entre os dois é o arquétipo do Homem-Deus; de um lado, este tornou-se realidade histórica em Cristo, e, de outro, domina a alma na sua condição de existente “eterno”, como totalidade superior, o si-mesmo.” (JUNG, 2015, p. 251)
O iluminado volta para a Matrix
No filme, Neo incorpora esse Homem-Deus, representado especialmente pela última cena, em que ele voa pelos céus afora, simbolizando a liberdade total, que é a grande promessa da iluminação (moksha na ioga). Para isso ser possível, muitos personagens cumpriram seu papel na trama, principalmente Morpheus como seu mestre ou guru (como é chamado na Índia). Figura essencial no Oriente, ele é aquele que aponta o caminho e transmite confiança ao discípulo. O profundo respeito de Neo por ele o colocou diante do enfrentamento final: a sombra coletiva, representada pelos agentes. Cada ser humano inconsciente é um agente em potencial, capaz de exercer um poder destrutivo e controlador na sociedade. Sozinho, diante de seus maiores medos, Neo descobre que o verdadeiro mestre está dentro dele mesmo.
De acordo com Jung (2013b, p. 202), “esse mestre que lhe é superior não é outra coisa senão o si-mesmo.”
Essa cena do vôo demonstra, também, que o protagonista permaneceu na Matrix. Ele agora se sente completamente à vontade nela e já não tem porque fugir. O que era um incômodo inconsciente, passou a ser uma aversão consciente, até se transformar em paz supraconsciente. No budismo, existe um antigo ditado que diz:
“Para aquele que nada sabe sobre o budismo, montanhas são montanhas, águas são águas e árvores são árvores. Depois de ler as escrituras e compreender um pouco da doutrina, as montanhas para ele não são mais montanhas, as águas não são mais águas e as árvores não são mais árvores. Mas quando ele está completamente iluminado, então as montanhas são outra vez montanhas, as águas, águas e as árvores, árvores.” (WATTS, 2020, p. 146-7)
Porém, a permanência de Neo não está ligada apenas a como ele se sente em relação a si mesmo, mas também em relação à humanidade. A iluminação não tem propósito egoísta, pelo contrário, é uma desidentificação com ego e uma síntese do eu com o inconsciente coletivo (JUNG, 2013b, p. 127). Ele se iluminou pelo amor e para o amor. O iluminado se sente um com a humanidade e com a própria Matrix, portanto continua no mundo com um grande propósito: servir.
Jung aborda esse tema ao comparar individualismo com individuação:
“Contrapondo-se a isso, o processo da individuação natural produz uma consciência do que seja a comunidade humana, porque traz justamente à consciência o inconsciente, que é o que une todos os homens e é comum a todos os homens. A individuação é o “tornar-se um” consigo mesmo, e ao mesmo tempo com a humanidade toda, em que também nos incluímos.” (JUNG, 2013a, p. 137)
Por fim, gostaria de destacar que, por mais misteriosa que seja a experiência da iluminação, é uma experiência fundamentalmente humana. Neo é o novo eu que anseia nascer em cada um de nós. O Self não é exclusivo dos escolhidos, mas herança psíquica de toda a humanidade. Jung deixa isso claro quando comenta sobre o satori, como é chamada a iluminação no Budismo Zen:
“Não tenho dúvidas de que a experiência do satori ocorra também no Ocidente, pois entre nós existem igualmente pessoas que entreveem finalidades últimas e não recuam diante de nenhuma fadiga ou trabalho para se aproximarem delas. Mas se calam a respeito das próprias experiências, não por pudor, mas porque estão conscientes de que é inútil qualquer tentativa de comunicá-las aos outros.” (JUNG, 2013c, p. 105)
Leonardo Salek – Membro Analista em formação pelo IJEP
Waldemar Magaldi – Analista Didata do IJEP
Referências:
ABHEDANANDA, Swami. Como tornar-se yogue. São Paulo: Ajna, 2024. E-book.
JUNG, Carl Gustav. A prática da psicoterapia. Petrópolis: Vozes, 2013a. E-book.
______ Ab-reação, análise dos sonhos e transferência. Petrópolis: Vozes, 2013b. E-book.
______ Psicologia e religião oriental. Petrópolis: Vozes, 2013c. E-book.
______ O eu e o inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2014. E-book.
______ Aion. Petrópolis: Vozes, 2015. E-book.
WATTS, Alan. Torne-se o que você é. Petrópolis: Vozes, 2020. E-book.

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