RESUMO: Nossa sociedade valoriza cada vez mais a ideia de não ter limites, como fonte de liberdade e caminho para a felicidade. O capitalismo se aproveita e usa esse slogan: “você sem limites”, então, você pode ter o que quiser. As pessoas têm acreditado que quanto mais tiverem, ou aparentarem ter, melhor. Os limites são colocados como inimigos, numa ilusão de que basta querer, para poder. Neste breve artigo, trago as implicações e consequências psíquicas e sociais de não ter limites. E como a psicologia analítica vê a importância de reconhecer os próprios limites, para o desenvolvimento da personalidade, no caminho da individuação.
“Você sem limites” – por que este slogan é tão usado e abusado hoje em dia? O que nos leva a querer comprar essa ideia?
Por que grandes empresas nos trazem essa promessa de que comprar um tênis ou celular, ter uma conta no banco ou um carro, tomar um refrigerante e assistir tv, com wi-fi e redes sociais ilimitados, são sinônimos de liberdade, sucesso e bem-estar? Quais são os valores desta sociedade que sustentam uma ideia, que beira a uma ingenuidade infantilóide, de que o “vencedor” é aquele que consegue ter o que quiser, quando desejar? No que se baseia este marketing, que se esforça para criar desejo de poder ilimitado, como garantia de felicidade e sucesso?
Não podemos sentir desconforto, sofrer, sentir dor, passar por contrariedades, ter tempo ocioso… Precisamos ser produtivos e alegres, sempre. O uso desenfreado de redes sociais, como pílulas de prazer e recompensa, reforça o “direito” de se distrair e de não lidar com o ócio, com o vazio e a angústia, vistos como inimigos a serem evitados. A distração, os prazeres ilimitados surgem, então, como projeções distorcidas de um bem-estar, nunca alcançado.
O lema é: “eu quero, eu posso, eu tenho”. E agora, como Guy Debord já antecipava na década de 1960, o que importa é o que aparento ter, nessa sociedade do espetáculo, que pede aplausos (Cf. DEBORD, 1997, p. 19). Fracassar significa não poder fazer o que quiser, ou melhor, não convencer a plateia e receber poucos likes.
E as crianças?
Como está a educação neste mundo de adultos, cada vez mais mimados, com pouca resiliência e a espera de reconhecimento por tudo que fazem?
Não podemos frustrar o filho, para não fracassarmos como pais. Afinal, assim como nós, ele merece ser feliz e ter o que quiser. Precisamos nos certificar do que exatamente ele deseja, para agradá-lo. Onde quer ir nas férias? Qual brinquedo? Está afim de ir, mesmo, pra escola hoje? E, assim, delegamos cada vez mais escolhas aos pequenos. Queremos agradar as crianças, por nossa insegurança, por medo de abandono. Uma pedagogia avessa à contrariedade. Vamos reforçando que “querer é poder”.
Esquecemos de ensinar a paciência, como suportar desconfortos, as perdas, o “não conseguir” e conviver com a dor. Evitamos, nós mesmos, a todo custo, a convivência com a falta, com a impossibilidade, com o não saber, com a dúvida, com a incerteza e com a possibilidade de frustração, e transferimos aos filhos. Segundo Carl Gustav Jung, a criança, em seu desenvolvimento, depende em grande parte, da vida psíquica dos pais. Ou seja, a nossa autoeducação é fundamental na criação dos filhos (Cf. ANTONIOLI in MAGALDI, p. 510).
Houve um tempo em que a criança transgressora era repreendida, quando causava um problema. Hoje, é normal que pais aflitos e inseguros tirem satisfação na escola, quando seu filho tão especial, vem com nota baixa, ou quando sofre consequências, por alguma conduta inadequada. As crianças superprotegidas, por pais sem limites, tornam-se fregueses, que exigem seus direitos e esquecem dos deveres. O indivíduo em formação aprende, com isto, que vale mais do que o coletivo, que merece um tratamento diferenciado, em detrimento dos outros. Aprende que não merece ser frustrado, e, assim, não pode ser confrontado.
Muitas opções, muitas escolhas
A sensação de poder o que quiser, é reforçada por um contexto em que, cada dia que passa, temos mais opções, mais escolhas, rumo ao ilimitado… vazio. Associamos o número de possibilidades a cada momento à liberdade de fazer o que queremos, afinal: “podemos escolher”. Vamos no mercado, temos inúmeras opções para cada item. Ligamos a tv, mais e mais canais disponíveis, qualquer filme, a qualquer hora. As músicas nos aplicativos, todas ali, infinitas. Quando surge uma dúvida, o google tá ali. O que queremos comprar agora? No celular tá tudo ali na mão, disponível, sem limites.
Entretanto, cada vez que precisamos fazer uma escolha, surgem dúvidas, momentos de pequenos estresses, de inseguranças, de aumento de cortisol, de ativação do sistema nervoso simpático. Será que estamos preparados para tantas alternativas, em um mesmo dia? Será que escolhemos o melhor programa de tv para hoje? Quantos outros estamos perdendo, a cada momento?
Além disto, a possibilidade de escolher qualquer música, por exemplo, diminui a fruição, damos menos valor do que na época que precisávamos esperar o disco chegar às lojas. O excesso, paradoxalmente, pode desanimar-nos. Não conseguimos desfrutar das experiências, calmamente. A respiração fica entrecortada, agitada. Chegamos num ponto em que adolescentes, frequentemente, consomem músicas e filmes em velocidade aumentada, para não perderem tempo. Será que esta oferta ilimitada gera mais felicidade?
Trabalhar para consumir, consumir para trabalhar
O capitalismo surfa nessa onda e reforça a ideia da necessidade de nos sentirmos especiais, únicos, com bens exclusivos, para os “escolhidos”. Surge, consequentemente, a exclusão da maioria, que assiste e inveja. Os limitados financeiramente, que não podem bancar, transformam-se nos perdedores marginalizados, numa sociedade de meritocracia.
Byung-Chul Han nos lembra que estamos mergulhados cada vez mais nesta “sociedade do cansaço”, onde os valores centrais são a produtividade e o sucesso, sem limites no tempo-espaço. Mais produção, mais ocupação e mais consumo, rumo à perfeição, nunca alcançada. Para chegar aonde?
A vida privada se confunde, através das telas, com as demandas do trabalho que não têm mais hora, nem lugar. As pessoas vão se tornando seus próprios chefes, seus algozes, que, neste contexto, passam a gerir seus horários, em nome de uma produtividade ilimitada (Cf. Han, 2017, p. 105). O desaparecimento do “chefe” externo traz uma ideia de liberdade, de trabalhar quando, e, se quiser, neste fenômeno agora conhecido como “uberização” do trabalho. Sem bater ponto, sem local definido, sem direitos. Quanto mais trabalhar, mais ganha, será? As pessoas têm acordado de madrugada para adiantar as demandas.
É de praxe dizermos com orgulho: “não tenho tempo pra nada”. E nos esquecemos que “o tempo” talvez seja o nosso bem mais valioso e que a “vida não é útil”, como insiste em nos lembrar Ailton Krenak (Cf. 2020). Precisamos de tempo, de ócio, para sentir, para refletir, para fruir a experiência da vida, e talvez chegar a intuir e experenciar o mundo como uma unidade, interdependente.
E a saúde mental, como fica?
Neste contexto acelerado, o número de pessoas com insônia e ansiedade no Brasil vem crescendo a cada dia. Segundo a Fiocruz, em 2023, 72% dos brasileiros sofriam com alterações no sono (Cf. site GOV, 2023). (Assista em nosso Canal: Insônia e a febre do Zolpidem)
Não é à toa: sem limites, sem tempo consigo mesmo e sem sono. Mas a produtividade e a performance têm que continuar, daí o uso ilimitado de pílulas para dormir, para acordar, para produzir, para ficar alegre… E o sistema capitalista, através das grandes indústrias farmacêuticas, novamente comemora.
A medicina do século XXI tem se dedicado mais em aprimorar qualidades desejadas pelo “cliente”, do que tratar doenças.
Agora, diante de um menu de opções cada vez maior, o freguês vai ao médico, em busca de melhorar o que quiser – da aparência à performance. Cirurgias plásticas estéticas, pílulas para se concentrar, para render melhor nos estudos, para ganhar músculos, para foco, para melhorar a performance sexual, para ser um vencedor. A fórmula é: “seja quem você quiser, você pode”. Isto, sem contar com os filtros usados nas redes sociais, para mascarar ainda mais as aparências. As pessoas se confundem com suas personas, cada vez mais indiferenciadas, como espécies de avatares digitais, ou robôs desalmados.
Contudo, esse ideal de vida parece mostrar-se como uma armadilha, se considerarmos, por exemplo, as estatísticas da saúde mental. O Brasil é o país mais ansioso do mundo segundo a OMS, com dezoito milhões de pessoas ansiosas. Segundo o Ministério da Previdência Social, em 2025, os afastamentos do trabalho, neste país, por diagnóstico de ansiedade dobraram com relação ao ano anterior (Cf. site G1, 2025).
Não ter limites é não ter um porto seguro. É não ter aonde chegar, não há um ponto final. Nunca é o bastante. A insatisfação é garantida. E reforçada pela comparação ilimitada em tempo real, através das telas, numa corrida por ultrapassar as barreiras. A falta de um anteparo nos tira do momento presente. Sem bordos, sofremos por antecipação, sentimos frio na barriga, insegurança, medo, ansiedade.
Os limites e a psicologia analítica
Por outro lado, a constatação, a confrontação e a aceitação dos nossos limites não são fáceis. Doem, ferem, angustiam. O nosso corpo, se tudo der certo, vai envelhecer, adoecer, perecer. Não somos perfeitos, as coisas não são garantidas e a realidade não aparece como gostaríamos. Não acordamos todos os dias bem-dispostos. Nossos sonhos, durante a noite, não são sempre belos. Temos pesadelos, medos, angústias, inseguranças. Não controlamos nossa mente. Emoções nos atravessam diariamente, sem serem chamadas.
Segundo Jung, somos invadidos e tomados insistentemente por complexos afetivos. O ego não é o “chefe” da psique, como bem gostaria. Não consegue controlá-la, por mais que tente. Quando um complexo é constelado, ficamos num estado de não-liberdade, de pensamentos obsessivos e ações compulsivas, e modificamos, inconscientemente, a personalidade (Cf. JUNG, 1984, p.33).
Temos desejos que nos fazem mal, vontade de nos empanturrar com coisas deliciosas, que engordam. Sofremos as consequências das nossas escolhas. Se bebermos demais, passamos mal. Se dormirmos muito tarde, não conseguimos acordar de bom humor. Se ultrapassamos a velocidade na estrada, tomamos multa. Sem saber bem porque, fazemos coisas por impulsos, movidos por emoções perturbadoras que aparecem sem serem chamadas. E as pessoas a nossa volta, não correspondem às idealizações.
Jung, traz, exaustivamente a necessidade do indivíduo se conhecer e se desenvolver para se tornar mais completo, não perfeito. Inteiro, não partido.
A pessoa é convidada a confrontar-se com os próprios aspectos sombrios, inadequados, feios, indesejáveis, para se diferenciar e, assim, contribuir com o coletivo (Cf. JUNG, 2022b, p. 131). Tornar-se um indivíduo (indivisível) requer força e coragem para se deparar com as próprias limitações. A completude, a união dos opostos, a coniunctio, almejada no caminho da individuação, pressupõe e necessita do limite. Para encontrar um sentido na própria vida. Para conviver com as limitações e decepções do mundo, que não atende às nossas expectativas.
Jung traz, como exemplo, a confecção de mandalas (praticado também há milênios por praticantes orientais budistas), com centro, raios e circunferência, que delimita. Neste exercício, podemos elaborar e visualizar os próprios limites, e consequentemente, nossos potenciais. Simbolicamente, visualizamos a totalidade, para o desenvolvimento da personalidade. Podemos, então, vitalizar a criatividade.
Segundo Jung, no caminho para individuação, deveríamos submeter nossa vontade, enquanto energia disponível, à esta totalidade, isto é, ao self (Cf. JUNG, 1984, p. 161).
Reconhecer os próprios limites, nos permite integrar e contribuir com o todo. Possibilita olhar para os nossos defeitos e os dos outros com menos crítica, mais compaixão. Aprendemos a suportar as diferenças, as dúvidas, as faltas. Podemos olhar para as outras ideologias, incompletas, com menos sectarismo e mais tolerância.
Os limites, portanto, são como bordas numa estrada escura, nos mantém e nos lembram de um caminho. As barreiras nos protegem de nos perder e de cair no precipício. Os limites acalmam e dão contorno. Trazem à tona os nossos potenciais.
Podemos aprender a olhar-nos como parte da natureza, também com seus limites, numa inseparatividade do dentro e fora, da psique e matéria, no que Jung chama de unus mundus. Em suas memórias, ele diz que a idade avançada: “acrescentou em mim tantas coisas: as plantas, os animais, as nuvens, o dia e a noite e o eterno no homem. Quanto mais se acentuou a incerteza em relação a mim mesmo, mais aumentou meu sentimento de parentesco com as coisas” (JUNG, 2015, p. 352). Só assim, a natureza pode deixar de ser apenas um “recurso” finito, para satisfazer nossos desejos infinitos, para, então, reconhecermo-nos uno, na nossa alma.
João Herck – Analista em Formação – IJEP
Waldemar Magaldi – Analista Didata – IJEP
REFERÊNCIAS:
DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.
HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis, RJ: Vozes, 2017.
KRENAK, Ailton. A vida não é útil. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.
JUNG, C. G. A natureza da psique. Petrópolis: Vozes, 1984.
______ Memórias, sonhos, reflexões. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015.
______O eu e o inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2022.
MAGALDI, Waldemar (Org.). Fundamentos da psicologia analítica. São Paulo: Eleva Cultural, 2022.
Sites acessados em 09/12/2025:
GOV- https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2023/marco/voce-ja-teve-insonia-saiba-que-72-dos-brasileiros-sofrem-com-alteracoes-no-sono

