Resumo: O presente artigo busca refletir o dito popular “praga de mãe pega” a partir da Psicologia Analítica. Parte-se da hipótese de que os ditados populares podem ser compreendidos como representações arquetípicas, por condensarem experiências psíquicas recorrentes vividas coletivamente. Nesse sentido, o texto analisa especificamente o referido ditado à luz da teoria dos complexos, buscando compreender de que modo a palavra materna, adquire força organizadora na vida psíquica do indivíduo. A reflexão articula contribuições de Jung, o folclore brasileiro e narrativas míticas e contemporâneas, sustentando que o ditado traduz uma dinâmica psíquica profunda relacionada ao vínculo primário e às repetições que dele derivam.
Os ditados populares, ou provérbios, ocupam um lugar singular na cultura brasileira.
Embora sejam expressões breves e transmitidas sem autoria, propagam observações históricas, experiências comunitárias e formas de interpretar a vida cotidiana. São reconhecidos como verdades validadas pela coletividade e, desse modo, se tornam referência para ações e comportamentos. Segundo o Dicionário Michaelis (2025), provérbio é uma frase curta de caráter prático e popular, geralmente com ritmo e/ou rima, rica em imagens e sentidos figurados, que contém uma síntese a respeito de uma regra social ou moral.
Para Câmara Cascudo, um importante folclorista brasileiro, considerado um dos maiores intelectuais do Brasil, um ditado popular/provérbio tem como característica, ser breve, geral, de uso coletivo e de autoria anônima. Ele traz reflexões sobre entendimentos compartilhados e verdades percebidas pela comunidade. Assim como os mitos, contos de fadas, rituais religiosos etc., a linguagem é um veículo que expressa algumas regularidades da experiência humana.
Sobre isso, ao explicar o inconsciente coletivo, Jung afirma:
O inconsciente coletivo é a formidável herança espiritual do desenvolvimento da humanidade que nasce de novo na estrutura cerebral de todo ser humano. O inconsciente, […] é a fonte de todas as forças instintivas da psique e encerra as formas ou categorias que as regulam, quais sejam precisamente os arquétipos. Todas as ideias e representações mais poderosas da humanidade remontam aos arquétipos (Jung, vol. 8/2, §342).
À luz dessa concepção, os provérbios podem ser compreendidos também como expressões de conteúdos que ultrapassam a experiência individual, ou seja, manifestações arquetípicas. Câmara Cascudo observou que muitos desses enunciados surgem de práticas muito antigas nas quais a voz do povo era entendida como um veículo de autoridade superior. Ao discutir a expressão vox populi, vox Dei, ele destaca que sua origem vem das consultas religiosas antigas, em que a multidão funcionava como oráculo. Nesses rituais, a resposta divina era escutada através das vozes dispersas dos transeuntes, que se tornavam instrumentos involuntários da mensagem procurada. A coletividade, portanto, aparecia como canal para o sagrado.
Certamente esse processo de consultar a vontade divina através das vozes dispersas da multidão podia ter determinado a frase Vox populi, vox Dei, […] e não a indeterminada convergência intemporal da opinião pública. A voz do povo é a voz de Deus, o Deus dos cristãos, como o fora de Hermes ou Mercúrio, agora na intenção das fórmulas rogativas de Santa Rita dos Impossíveis, ou do profeta Zacarias, ou do apóstolo São Pedro. O oráculo de Acaia é a mais antiga forma dessa técnica. Consulta-se a Deus e o Povo responde, transmitindo a mensagem. Voz do povo, voz de Deus, evidentemente nessa acepção (Cascudo, 2012, p. 18).
Essa concepção histórica confere profundidade à ideia de que certas palavras do povo carregam um estatuto de verdade que expressam modos fundamentais de compreender a existência. No entanto, para a compreensão do fenômeno, é importante distinguir as diferenças entre o arquétipo em si e as formas pelas quais ele se torna visível na experiência humana.
Essa distinção é explicitada por Jung ao afirmar:
Não devemos confundir as representações arquetípicas que nos são transmitidas pelo inconsciente com o arquétipo em si. Essas representações são estruturas amplamente variadas que nos remetem para uma forma básica irrepresentável que se caracteriza por certos elementos formais e determinados significados fundamentais, os quais, entretanto, só podem ser apreendidos de maneira aproximativa. […] É preciso dar-nos sempre conta de que aquilo que entendemos por arquétipos é, em si, irrepresentável, mas produz efeitos que tornam possíveis certas visualizações, isto é, as representações arquetípicas. (Jung, vol. 8/2, §417)
Os ditos populares são concisos, possuem reconhecimento comunitário e são de origem desconhecida. Essas características nos conduzem à reflexão acerca de sua condição enquanto representações arquetípicas. Eles se mantêm porque capturam situações recorrentes da vida humana, funcionando como pontos de apoio para a interpretação dos acontecimentos do cotidiano.
Um ditado que sempre chamou a minha atenção desde a infância, talvez por tê-lo ouvido muitas vezes, ou por ter escutado histórias relacionadas a ele, é “Praga de mãe pega”. Não surpreendentemente, é comum, na prática clínica, ouvir de alguns pacientes relatos que sugerem que a experiência com a mãe influencia de modo significativo em suas escolhas e percursos de vida, até mesmo incidindo de maneira decisiva sobre os caminhos que essas pessoas constroem.
Embora, à primeira vista o ditado pareça apenas uma superstição, ele revela uma percepção sobre o impacto que a palavra da mãe exerce na formação psíquica, por exemplo, no desenvolvimento moral dos indivíduos. A figura materna com suas dimensões criadoras e destrutivas deixou na história inúmeras narrativas míticas e folclóricas, que tratam a voz da mãe como algo capaz de abençoar ou amaldiçoar, proteger ou ferir, orientar ou condenar. Essa recorrência sugere que estamos diante de um padrão que expressa uma dinâmica psíquica complexa, ligada ao vínculo entre mãe e filho. A Psicologia Analítica oferece um arcabouço teórico para compreender imagens e padrões que se repetem em diferentes contextos culturais. Sendo assim, o ditado “praga de mãe pega” pode ser refletido como expressão de um fenômeno compartilhado, que aparece tanto em narrativas primitivas, quanto em fenômenos contemporâneos.
Para analisarmos a validade geral do ditado popular, é necessário pensarmos na teoria dos complexos. Jung define da seguinte forma:
O que é, portanto, cientificamente falando, um “complexo afetivo”? É a imagem de uma determinada situação psíquica de forte carga emocional e, além disso, incompatível com as disposições ou atitude habitual da consciência. Esta imagem é dotada de poderosa coerência interior e tem sua totalidade própria e goza de um grau relativamente elevado de autonomia, vale dizer: está sujeita ao controle das disposições da consciência até um certo limite e, por isto, comporta-se, na esfera do consciente, como um corpus alienum (corpo estranho), animado de vida própria. (Jung, vol. 8/2, §201)
Sabemos que a relação com a mãe é determinante na constituição das primeiras organizações afetivas da vida humana. Nesse contexto a palavra materna adquire um peso emocional de ser muitas vezes, vivida como lei, verdade, sentença. Mesmo fora do contexto individual, essa imagem aparece em mitos antigos, contos folclóricos e narrativas contemporâneas que retratam a mãe como uma figura cuja fala pode moldar o destino.
A Psicologia Analítica ensina que todo complexo tem em seu núcleo, um arquétipo.
Como afirma Jung: “O arquétipo materno é a base do chamado complexo materno” (Jung, 2014, p. 90). Este, apresenta uma multiplicidade de formas e expressões que atravessam diferentes níveis da experiência humana, desde a figura concreta da mãe e da avó até imagens culturais mais amplas, que remetem tanto ao cuidado, à proteção, à nutrição e ao crescimento, mas também aspectos sombrios, associados ao devorador, ao sedutor, ao obscuro e ao ameaçador. (Cf. Jung, 2014, p. 87–90)
Trata-se, portanto, de uma configuração marcada pela ambivalência, na qual convivem a mãe amorosa e a mãe terrível. Assim, muitas das fantasias, medos e conflitos ligados à figura materna, ultrapassam o que poderia ser atribuído exclusivamente à mãe empírica, remetendo a imagens muito mais amplas e profundas, que pertencem ao inconsciente coletivo.
Isto significa que não é apenas da mãe pessoal que provêm todas as influências sobre a psique infantil descritas na literatura, mas é muito mais o arquétipo projetado na mãe que outorga à mesma um caráter mitológico e com isso lhe confere autoridade e até mesmo numinosidade. (Jung, vol. 9/1, §159)
Ainda assim, não se pode perder de vista que a mãe empírica também modela a vida emocional da criança desde o início e marca o curso do seu desenvolvimento. Jung afirma que “a influência pessoal da mãe é um dos fatores mais decisivos na formação do destino psíquico da criança” (Jung, 2014, p. 90). Assim, a palavra da mãe tem influência direta na formação de um dos complexos primordiais da experiência afetiva.
A partir de uma leitura psicológica do fenômeno, podemos dizer que a palavra da mãe adquire uma força singular porque atinge um núcleo afetivo fundamental na estruturação da psique. A própria cultura reconhece essa potência, traduzindo-a em narrativas onde a figura materna além de educar e orientar, também pode determinar o curso dos acontecimentos. Essas histórias não descrevem fatos literais, mas, expressam como dramas coletivos, as tensões internas que podemos identificar na psique individual.
Ao examinarmos figuras míticas como Medeia ou Hera, percebemos que a ideia de uma “praga de mãe” é a expressão de uma experiência humana constante, e a desorganização do vínculo com a mãe parece, muitas vezes, desorganizar também a própria estrutura do destino. Muitas narrativas de fundo arquetípico constroem a figura da mãe cuja palavra funciona como uma sentença. É exatamente neste ponto que os mitos se transformam em aliados essenciais para a compreensão de um ditado popular. Eles ampliam, dramatizam e tornam visível aquilo que percebemos no cotidiano, na bronca, na exasperação ou na raiva de uma mãe humana.
Alguns textos de folclore e mitologia regional também mencionam explicitamente a velha crença “praga de mãe pega”, ligando isso ao fato de a mãe ser a maior e primeira autoridade de nossas vidas.
Para ilustrar, lembro da lenda de Romãozinho, originada no centro Oeste do Brasil. Segundo Câmara Cascudo, Romãozinho era um menino travesso e cruel. A mãe um dia pediu-lhe que levasse o almoço do pai na roça onde trabalhava. No caminho, o menino comeu toda a galinha e entregou apenas os ossos para o pai. Ao ser questionado, o menino mentiu que a mãe havia comido tudo com outro homem. Ao voltar para casa, o pai, tomado de raiva e acreditando na mentira, mata a mãe. No seu último sopro, ela lança uma maldição: que Romãozinho “nunca encontre descanso” e “ande para sempre como espírito danado”. A praga pega: a lenda o descreve como um menino eterno, que corre pelas matas, nunca cresce e atormenta quem cruza seu caminho. (Cascudo, 2014).
A figura de Romãozinho, condenado a permanecer numa errância sem fim, preso a uma infância que não se transforma, remete inevitavelmente ao motivo da criança eterna, o puer aeternus, imagem recorrente na psicologia e nos mitos. A condição de um ser que não amadurece, que se mantém suspenso num tempo que não avança, guarda afinidade com aquilo que, em Jung, aparece como uma fantasia de autonomia do consciente que, na realidade, permanece atado às forças profundas do inconsciente materno. (Cf. Jung, 2013b, §393). Embora essa associação seja extremamente fecunda do ponto de vista interpretativo, ela não será desenvolvida no presente trabalho. Aqui, o interesse é sobre o poder atribuído à palavra materna enquanto força que marca, determina e orienta os rumos da vida psíquica, tal como se manifesta, de modo contundente, na ideia de que a “praga de mãe pega”.
Como Jung observou, a figura materna “adquire proporções simbólicas, tornando-se maior do que a experiência real” (Jung, 2014, p.93).
No caso de Romãozinho, a mãe empírica é uma mulher pobre, trabalhadora, vítima de uma injustiça doméstica. Mas sua palavra final ultrapassa a esfera humana porque como já dito, reconhece-se no vínculo materno uma força que se estende. A maldição se apresenta no caráter compulsório do complexo, como Jung descreve quando afirma que a mágica autoridade do feminino é um dos traços essenciais do arquétipo materno (Cf. Jung, 2014, §158).
Entre as narrativas contemporâneas que trabalham a maternidade como força psíquica determinante, podemos mencionar a história de Carrie White, personagem criada por Stephen King (1974) e adaptada três vezes para o cinema.
Carrie é uma adolescente tímida e isolada que cresce sob a opressão de uma mãe fanática, cuja religiosidade extrema transforma a casa em um ambiente de medo e culpa. Ridicularizada pelas colegas e silenciada dentro de casa, Carrie descobre na adolescência, poderes tele cinéticos que surgem justamente quando sua dignidade é ferida. A relação com a mãe, marcada por controle, ameaças e previsões de desgraça, molda profundamente sua percepção de si mesma e de seu destino. Quando uma humilhação pública ultrapassa o limite do suportável, um conteúdo irrompe de forma devastadora, transformando Carrie numa das figuras mais emblemáticas da literatura de horror psicológico, símbolo do impacto de vínculos familiares adoecidos e da violência emocional que se acumula.
Essa sucessão de acontecimentos cria uma configuração emocional facilmente reconhecível dentro da psicodinâmica do complexo materno.
A mãe ocupa, desde o início, uma posição de magnitude afetiva que ultrapassa sua individualidade concreta. A história de Carrie mostra como a personagem vive o peso das palavras maternas de maneira desproporcional, ilustrando como forças internas atuam no desenvolvimento psíquico feminino (Cf. Jung, 2014, p. 88–89).
Pela posição originária que ocupa, a mãe pode exercer sua influência no sentido mais amplo e profundo sobre o destino psíquico do indivíduo, tanto de forma benéfica quanto destrutiva.
As manifestações do complexo materno, nesse sentido, não são uniformes, assumindo configurações distintas na experiência psíquica de homens e mulheres (Cf. Jung, 2014, p. 90–91).
A pergunta que move este artigo “Praga de mãe pega?” quando compreendida à luz da teoria dos complexos, traz como resposta a hipótese que o ditado não se refere a acontecimentos objetivos no sentido literal, mas ao modo como a psique reage à constelação de um complexo afetivo.
Uma vez ativado, o complexo passa a organizar as experiências do sujeito a partir de sua carga emocional específica, interferindo nas percepções, nas escolhas, nos vínculos e nas formas de agir no mundo. A força de atuação do complexo reside justamente em seu caráter autônomo e em sua capacidade de assimilar a consciência, levando o indivíduo a interpretar a realidade e a se conduzir segundo a lógica emocional que o complexo impõe (Cf. JUNG, 2013a, p. 43–45).
Nesse sentido, podemos compreender algumas razões que acabam levando o indivíduo a literalizar o que é dito pela mãe, pois o afeto passa a orientar repetidamente as experiências, produzindo concretizações coerentes com essa organização interna. O ditado se mantém vivo porque corresponde a uma experiência humana recorrente.
Jung descreve esse tipo de permanência ao afirmar que o complexo se forma como núcleo carregado de sentido, apto a reorganizar a vida sempre que ativado. (Cf. Jung, 2013a, p.45-48).
A partir das reflexões acima, vemos que o que a mãe diz, não deve ser encarado como uma condenação literal que determina diretamente os acontecimentos da vida. A palavra materna atua porque faz parte daquilo que organiza as primeiras referências de segurança, ameaça, valor e pertencimento, exercendo uma função estruturadora, orientando repetições, expectativas, escolhas e modos de relação.
À luz da teoria dos complexos de Jung, não é a “praga” em si que concretiza, mas a dinâmica psíquica que, uma vez estruturada, tende a se atualizar na experiência concreta. Assim, o ditado “praga de mãe pega” traduz em linguagem popular, uma verdade psíquica recorrente: aquilo que se forma no vínculo originário, quando não elaborado, tende a retornar sob a forma de destino.
“Um frio percorreu o coração de todo o mundo: praga de mãe pega, porque Deus ouve, o diabo concorda e os anjos dizem amém” (Ajuricaba, o Rebelde da Amazônia, 1977).
Ana Carolina Brígido Tostes – Analista em formação
José Luiz Balestrini – Analista Didata
Referências:
Imagem: Acervo pessoal
AJURICABA, o rebelde da Amazônia. Direção: Oswaldo Caldeira. Roteiro: Oswaldo Caldeira; Almir Muniz. Brasil, 1977. Filme (longa-metragem, drama).
CASCUDO, L. da C. Coisas que o povo diz. 1. ed. digital. São Paulo: Global, 2012.
—. Lendas brasileiras para jovens. São Paulo: Globo, 2014. Edição digital.
DICIONÁRIO MICHAELIS. Michaelis dicionário brasileiro da língua portuguesa. São Paulo: Melhoramentos, 2025. Disponível em: https://michaelis.uol.com.br. Consulta realizada em: 01 dez. 2025.
JUNG, C. G. A natureza da psique. Tradução de Dora Ferreira da Silva. Petrópolis: Vozes, 2013a. (Obras Completas, v. 8/2).
—. Símbolos da transformação. Tradução de Dora Ferreira da Silva. Petrópolis: Vozes, 2013b. (Obras Completas, v. 5).
—. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Tradução de Dora Ferreira da Silva. Petrópolis: Vozes, 2014. (Obras Completas, v. 9/1).
KING, S. Carrie. Tradução de Adriana Lisboa. Rio de Janeiro: Suma, 2014.

