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	<title>Arquivos psicologia junguiana - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Arquivos psicologia junguiana - Blog IJEP</title>
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		<title>Precisamos conversar com as árvores: imaginação, afeto e cura</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Daniella Schmidt]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 10 Sep 2026 14:14:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Filmes e Séries]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este ensaio propõe uma reflexão sobre a atitude simbólica na psicologia analítica, compreendendo a imagem como linguagem própria da psique e, o símbolo, como principal mediador da relação entre consciência e inconsciente. A partir das contribuições de Carl Gustav Jung, Nise da Silveira e outros autores da tradição junguiana, discute-se o potencial transformador da imaginação, dos símbolos e dos recursos expressivos no processo terapêutico.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>Resumo</strong>: Este ensaio propõe uma reflexão sobre a atitude simbólica na psicologia analítica, compreendendo a imagem como linguagem própria da psique e, o símbolo, como principal mediador da relação entre consciência e inconsciente. A partir das contribuições de <strong>Carl Gustav Jung</strong>, <strong>Nise da Silveira</strong> e outros autores da tradição junguiana, discute-se o potencial transformador da imaginação, dos símbolos e dos recursos expressivos no processo terapêutico.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como fio condutor da reflexão, utiliza-se o filme <strong>Sete Minutos Depois da Meia-Noite</strong>, no qual a relação entre Conor O&#8217;Malley e o Teixo-Monstro oferece uma rica metáfora para compreender o diálogo com as imagens interiores, a lida com o sofrimento e a função transcendente da psique.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O texto percorre o encontro entre o menino e a árvore como uma narrativa da transformação psíquica, mostrando como a imaginação, os sonhos, a arte e as histórias podem se tornar caminhos de elaboração, integração e cuidado com a alma. Defende-se que o desenvolvimento de uma atitude simbólica constitui uma via fundamental para a ampliação da consciência, a autorregulação psíquica e a construção de novos sentidos diante das experiências da vida.</p>



<h2 id="h-nao-encontrei-outra-forma-de-comecar-este-artigo-que-nao-fosse-por-esta-citacao-de-jung" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">Não encontrei outra forma de começar este artigo que não fosse por esta citação de Jung:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px"><em>“A psique cria a realidade todos os dias. A única expressão que me ocorre para designar esta atividade é fantasia. A fantasia é tanto sentimento quanto pensamento, é tanto intuição quanto sensação. Não há função psíquica que não esteja inseparavelmente ligada pela fantasia com as outras funções psíquicas.(&#8230;) Por isso, a fantasia me parece a expressão mais clara da atividade específica da psique. É sobretudo a atividade criativa donde provêm as respostas a todas as questões passíveis de resposta; é a mãe de todas as possibilidades onde o mundo interior e exterior formam uma unidade viva, como todos os opostos psicológicos. A fantasia foi e sempre será aquela que lança a ponte entre as exigências inconciliáveis do sujeito e objeto, da introversão e extroversão.” (Jung, 2013a, p.73)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">A psique produz imagens, atua através delas, e a lida com o universo imagético da psique demanda a entrega da lógica do controle, previsibilidade e de qualquer possibilidade de conhecimento de antemão ou metodologização. Simplesmente não é possível nenhum esquema predefinido ou domínio racional sobre o que nos é apresentado se quisermos um contato honesto, profundo, criativo e germinativo com as forças da psique. Precisamos iniciar o contato com as imagens através da máxima socrática “só sei que nada sei”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A energia psíquica se move através das ações tomadas conscientemente e, também, pelas fantasias e produtos inconscientes. A postura do ego diante das imagens dará os contornos de como o consciente se relaciona com a totalidade psíquica, podendo se enrijecer na explicação excessivamente racional e na literalização dos fenômenos, ou se abrir para a troca e o diálogo com as antinomias e a aceitação que algo nos escapará e nunca será assimilado conscientemente, ou seja, a adoção do olhar simbólico.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O pensamento simbólico abre mão da racionalidade que explica e se volta ao irracional criativo, fértil, que movimenta a energia psíquica e fomenta a relação e o encontro com novos sentidos e com a diversidade, auxiliando nas contínuas necessidades adaptativas frente aos mundos externo e interno. Sobre isso, José Luiz Balestrini Jr, membro didata do Ijep, destaca que:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:17px">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px"><em>“(&#8230;) caso o indivíduo não dê atenção aos conteúdos do inconsciente através de experiências simbólicas criativas, este irá encontrar maneiras de se manifestar que, certamente, serão disfuncionais e carregadas de sofrimento. É nesse sentido que a imagem simbólica desponta como fundamental, já que, para Jung, a linguagem do inconsciente se constrói por meio dessas imagens”. (Balestrini Junior, 2023, pag. 32).</em></p>
</blockquote>



<h2 id="h-o-fazer-criativo-a-autonomia-e-a-forca-transformadora-da-imagem" class="wp-block-heading" style="font-size:18px"><strong>O FAZER CRIATIVO, A AUTONOMIA E A FORÇA TRANSFORMADORA DA IMAGEM</strong><strong></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Trabalhar com as imagens internas está longe de ser uma atividade passiva, é uma <em>opus</em> que convoca o indivíduo para uma atitude tanto espontânea quanto ativa diante de seu processo terapêutico. As imagens e seu potencial simbólico demandam do ego, ao mesmo tempo, asas e raízes. Através de voos alçados pela imaginação e pelo fazer livre criativo é possível dar expressão concreta e forma visível aos conteúdos afetivos conscientes e inconscientes, proporcionando ao sujeito o confronto, a reflexão, o discernimento e as ações necessárias para ampliar e lidar com o que lhe ocorre.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A imaginação tem o poder de nos transformar, e a análise junguiana e as expressões criativas oferecem um vaso possível para acolher e explorar a força desse universo imaginal, como já nos contava a Dra. Nise da Silveira, psiquiatra brasileira e precursora da utilização da arteterapia para o tratamento de pessoas com esquizofrenia e em grave sofrimento psíquico:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px"><em>“O processo psíquico desenvolve seu dinamismo por intermédio da criação de imagens simbólicas. “O símbolo é o mecanismo psicológico que transforma energia”. Assim, a objetivação de imagens simbólicas no desenho ou na pintura poderá promover transferências de energia de um nível para outro nível psíquico. A imagem não é algo estático. Ela é viva, atuante e possui mesmo eficácia curativa.” &nbsp;(Silveira, 2015, pag. 135)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Tudo o que nos afeta é real, quer exista ou não na dimensão concreta e objetiva da experiência humana, e quando uma imagem nos alcança, vinda de uma vivência consciente ou pelas vias do inconsciente, somos atravessados por emoções, ideias, sensações, memórias, intuições. Os complexos afetivos, sombra, persona, arquétipos, instintos e tudo o mais que nos habita chegam como imagens carregadas de energia psíquica, sejam elas visuais, sensoriais, olfativas, auditivas, narrativas etc. O trabalho simbólico cria expressão e representação para os conteúdos afetivos, que ao serem ampliados e aprofundados, estimulam o intercâmbio da energia psíquica entre os diferentes aspectos autônomos para produzir a autorregulação do sistema.</p>



<h2 id="h-no-inicio-de-suas-pesquisas-atraves-do-teste-de-associacao-de-palavras-carl-gustav-jung-constatou-a-autonomia-do-inconsciente-e-a-existencia-de-aspectos-ocultos-que-constituem-a-totalidade-psiquica-e-interferem-na-vida-concreta-do-individuo-independente-da-vontade-do-eu" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">No início de suas pesquisas, através do teste de associação de palavras, Carl Gustav Jung constatou a autonomia do inconsciente e a existência de aspectos ocultos que constituem a totalidade psíquica e interferem na vida concreta do indivíduo, independente da vontade do eu.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Ao longo do desenvolvimento de sua teoria, que também foi construída a partir da relação criativa com suas imagens interiores, o psiquiatra suíço foi observando uma série de fatores que expressam essa autonomia, como, por exemplo, a precedência da dimensão coletiva instintiva e arquetípica, de onde a consciência nasce e se desenvolve, a dinâmica dos complexos afetivos e dos conteúdos sombrios, o mecanismo de projeção, a função transcendente e a manifestação dos sonhos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os processos da vida são, apenas em parte, compreendidos conscientemente. Sempre existirá o mistério e o incognoscível, aquele lado que nenhuma teoria que seja baseada na conhecida lógica e racionalidade conseguirá descrever, como aponta Jung:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:17px">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px"><em>“A ciência até hoje não foi capaz de apreender o enigma da vida, nem através da matéria orgânica, nem através das misteriosas séries de imagens que brotam da psique. Consequentemente ainda estamos à procura daquele princípio vital cuja existência devemos postular para além dos limites da experiência. Quem conhece os abismos da fisiologia fica aturdido, diante das suas manifestações, da mesma maneira como aquele que tem noções sobre a psique humana, terá uma sensação de desespero, só de pensar que este estranho ser especular jamais atingirá qualquer “conhecimento” por mais aproximado que seja”. (Jung, 2013b, p. 620)</em></p>
</blockquote>



<h2 id="h-a-totalidade-psiquica-e-transcendente-e-o-simbolo-e-a-melhor-expressao-possivel-de-algo-que-nao-se-pode-conhecer-completamente-unindo-aspectos-conscientes-e-inconscientes" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">A totalidade psíquica é transcendente e o símbolo é a melhor expressão possível de algo que não se pode conhecer completamente, unindo aspectos conscientes e inconscientes.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O símbolo designa “<em>algo que, por trás do sentido objetivo e visível, oculta um sentido invisível e mais profundo</em>” (Jacobi, 1990, pag. 75), comunica tanto uma presença quanto um vir a ser, aquele eterno mistério que faz com que a vida siga buscando. Segundo Goethe, &#8220;<em>o simbolismo transforma o fenômeno em ideia, a ideia em imagem, de tal modo que a ideia permanece sempre infinitamente ativa e inatingível na imagem e, mesmo expressa em todas as línguas, permaneceria indizível</em>” (apud Jacobi, 1990, pag. 75).</p>



<p class="wp-block-paragraph">A fim de que a totalidade psíquica se expresse e encontre harmonia é, então, vital simbolizar e, para tal, é preciso uma escolha consciente de estabelecer relação com o mundo imaginal, a linguagem da alma. O diálogo com o que fala a partir do inconsciente requer que o ego, centro gestor da consciência, adote uma atitude simbólica diante do que lhe chega. A escuta e interação com as imagens e afetos precisa estar ancorada em um espaço que vai além da racionalidade e que abraça o olhar metafórico, o mistério. Para explorar o potencial imagético é necessário a rendição da razão em favor da intuição e do irracional criativo, diverso e fértil de sentidos e significados.</p>



<h2 id="h-o-teixo-monstro-e-a-emergencia-do-simbolo" class="wp-block-heading"><strong>O Teixo-Monstro e a emergência do símbolo</strong><strong></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Para nos ajudar a ver melhor, recorro, nesse momento, à colaboração de um personagem especial que atuará como uma espécie de coautor nesse texto, o Teixo-Monstro, a árvore fantástica que aparece no imaginário de Conor O’Malley para conduzi-lo em sua jornada ao longo do filme “7 minutos depois da meia-noite”, lançado em 2016 e baseado em um livro homônimo. O companheiro que habita a totalidade psíquica junto com o jovem Conor, logo de início, lhe aponta o portal de entrada para o caminho que trilharão juntos:</p>



<h2 id="h-conor-o-malley-nbsp-como-esta-historia-comeca" class="wp-block-heading" style="font-size:16px"><em>Conor O’Malley:&nbsp; Como esta história começa?</em></h2>



<h2 id="h-teixo-monstro-nbsp-ela-comeca-como-muitas-outras-historias-com-um-garoto-muito-velho-para-ser-uma-crianca-e-muito-jovem-para-ser-um-homem-e-um-pesadelo" class="wp-block-heading" style="font-size:16px"><em>Teixo-Monstro:&nbsp; Ela começa como muitas outras histórias. Com um garoto muito velho para ser uma criança e muito jovem para ser um homem. E um pesadelo.</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph">O conto surge como uma porta de acesso, através da qual o Teixo-Monstro conduz ao reconhecimento e ampliações acerca da tensão dos opostos constelados, frutos do estiramento entre as polaridades encarnadas na situação consciente do menino: ele é só um garoto, precisando lidar com situações, emoções e afetos difíceis até para gente grande. A árvore convida a ver o que assusta e a reexaminar, por outros ângulos, as imagens narrativas experienciadas até ali. O filme “<strong>7 minutos depois da meia-noite</strong>” narra o drama vivido pelo garoto, que precisa lidar com a doença terminal de sua mãe, o <em>bullying</em> na escola, ausência paterna, mudanças estruturais inevitáveis que evidenciam a difícil relação com a avó materna e toda uma dinâmica que se impõe sobre uma psique infantil, obrigada a dar conta de um mundo de caos, medos e incertezas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O filme vai revelando um mosaico de angústias que expressa os conflitos, os sismos e a desordem que se precipitam sobre o caminho do menino, como se uma grande sombra se impusesse como escuridão e opressão sobre o destino que Conor tenta negar. Entre rabiscos, silêncios e desenhos secretos, a totalidade do pré-adolescente vai buscando suas válvulas e refúgios, até que emerge à consciência o Teixo-Monstro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse personagem imaginário é um daqueles seres que habitam as profundezas da psique, uma imagem arquetípica que, como tal, possui autonomia, com sua coerência e vontade própria. Conor começa a aprender sobre a inescapabilidade de certas situações da vida, quando fatores do mundo externo e interno, simplesmente, se forçam a acontecer, escapando do controle e do querer do ego. Mas o drama que surge através da tensão de opostos também é o que torna possível o intercâmbio e o movimento da energia psíquica, capaz de levar a consciência a uma nova experiência.</p>



<h2 id="h-jung-afirma-que-o-inconsciente-se-comporta-de-maneira-compensatoria-ou-complementar-em-relacao-a-consciencia-jung-2013b-p-132-visando-o-equilibrio-dinamico-e-a-autorregulacao-natural-do-aparelho-psiquico" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Jung afirma que “o inconsciente se comporta de maneira compensatória ou complementar em relação à consciência” (Jung, 2013b, p. 132), visando o equilíbrio dinâmico e a autorregulação natural do aparelho psíquico.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A presença do Teixo-Monstro nos lembra e alenta, assim como Jung, que as forças que atuam na natureza se compensam e se complementam todo o tempo, na tentativa de promover a harmonia possível. Do lado de fora, uma fenda inevitável estava à espreita de Conor. Do lado de dentro, uma força psíquica, tão instintiva quanto espiritual, capaz de ensinar sobre a vida e suas medicinas, começava a despertar o menino através de seu sonho.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O Teixo-Monstro se torna, então, a representação do confronto com a sombra, ao mesmo tempo que parece ser um velho sábio, o condutor curandeiro. Exemplo da vivacidade de uma imagem capaz de comunicar os símbolos necessários para a transformação energética dos conflitos vividos pelo pequeno herói, auxiliando-o a encontrar, ao longo do trajeto, novos sentidos para o que lhe ocorre e uma nova adaptação. O Teixo avisa ao garoto “eu vim para te convocar”, anunciando a seriedade da ação consciente necessária para a condução da relação com o imaginário e seus mistérios: é uma convocação.</p>



<h2 id="h-a-imaginacao-como-opus" class="wp-block-heading"><strong>A imaginação como <em>opus</em></strong><strong></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Enquanto Jung nos ensina que é a colaboração entre fatores conscientes e inconscientes que torna possível o surgimento de uma nova atitude diante de si e da vida, o Teixo-Monstro emerge e atesta: “<em>eu vim para te curar, Conor. Para que você possa enfrentar a pior coisa de todas e sobreviver</em>”. Conor consente a escuta e se abre para o diálogo com a Árvore, estabelecendo a atitude simbólica necessária para que aquela colaboração aconteça. Em termos analíticos, o garoto cria condições para que a função transcendente da psique se ponha em ação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Muito da elaboração simbólica de Conor é representada, no filme, através do trabalho com os sonhos e do que poderia ser compreendido como imaginação ativa, que são vias possíveis, na psicologia analítica, para dialogar e circumambular conteúdos inconscientes. Mas, no desenrolar do longa-metragem, é possível reconhecer uma série de outros recursos utilizados na clínica junguiana que auxiliam na amplificação e relacionamento com a imagem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Aparecem no filme ferramentas arteterapêuticas e técnicas expressivas como o desenho, pintura, fotografia, os próprios contos e narrativas. Permitindo que emoção, intuição e sensações espontaneamente se manifestem, desviando do controle e limitação impostos pelo excesso de lógica e racionalidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim, é possível exprimir afetos e criar consciência a partir dos símbolos que se apresentam, e, ao mesmo tempo refletir com a razão, buscando nomear e dar contornos às dinâmicas psíquicas em curso. O protagonista cria um espaço para representar suas imagens internas, acessar memórias e falar sobre elas, estar ativamente diante de insights e das forças criativas e vivas de sua imaginação.</p>



<h2 id="h-a-opus-ou-seja-o-trabalho-de-criacao-de-consciencia-requer-o-dialogo-da-expressao-das-emocoes-e-do-mundo-imaginal-com-a-compreensao-intelectual-como-destaca-nise-da-silveira" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">A <em>opus</em>, ou seja, o trabalho de criação de consciência, requer o diálogo da expressão das emoções e do mundo imaginal com a compreensão intelectual. Como destaca Nise da Silveira:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:17px">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px"><em>“Certamente será muito válido interpretar e compreender as produções da imaginação – sonhos, fantasias – nos distúrbios emocionais. Mas o caminho da interpretação intelectual não é o único caminho. Há também, segundo Jung, o método que sugere ao indivíduo a tentativa de dar forma visível às imagens internas que surgem em meio dos tumultos das emoções. Exprimir as emoções pela pintura será excelente método para confrontá-las. Não importa que essas pinturas sejam de todo desprovidas de qualidades estéticas. O que importa é proporcionar à imaginação oportunidade para desenvolver livre jogo e que o indivíduo participe ativamente dos acontecimentos imaginados. Mas, frisa Jung, a atividade plástica em si é insuficiente. O processo evolutivo da personalidade, num trabalho analítico, exige compreensão intelectual e emocional das representações perturbadoras, a fim de que possam ser integradas à consciência”. (Silveira, 2015, pag. 144)</em></p>
</blockquote>



<h2 id="h-sao-varios-os-recursos-expressivos-disponiveis-e-quando-o-ego-se-rende-a-postura-simbolica-e-metaforica-torna-se-possivel-vivenciar-o-potencial-gerador-de-significados-das-imagens" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">São vários os recursos expressivos disponíveis e, quando o ego se rende à postura simbólica e metafórica, torna-se possível vivenciar o potencial gerador de significados das imagens.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O Teixo reaparece para nos lembrar que estamos diante da figura de um infante protagonista e que a imaginação infantil costuma ser mais fértil, menos condicionada por fatores culturais e mais estimulada, autorizada. Crianças imaginam coisas, certo? Ter amigos imaginários e conversar com coisas invisíveis é possível para a criança. Estão próximas dessa linguagem e são ricamente atravessadas por ela. Mas Jung nos diz que “não é o intelecto que realiza a criação de algo novo, mas o instinto lúdico agindo por necessidade interna. O espírito criador brinca com o objeto que ele ama” (Jung, 2013a, p. 185). Resgatar a ludicidade, a pureza e liberdade diante do imaginar é um caminho possível para aproximar o adulto da tão necessária atitude simbólica. “E por que não”? – nos pergunta o Teixo. Por que não podemos mais conversar com as árvores?</p>



<h2 id="h-a-coragem-de-simbolizar" class="wp-block-heading"><strong>A coragem de simbolizar</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quando olhamos para a psique infantil com sua facilidade de acesso ao imaginário, sua flexibilidade para novos aprendizados e abertura ao desconhecido, podemos imaginar que o mundo interno, talvez, não seja tão raso e estreito como muitos racionalizam que é. O território da consciência tem seus limites, mas a dimensão inconsciente não. Ela é origem da consciência e suas imagens pulsam inquietas para criar mais vida. Talvez precisemos desconstruir crenças e condutas tacanhas a respeito da natureza da psique a qual pertencemos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outro ensinamento que a nossa grande amiga Árvore nos fala é que “<em>há momentos em que a destruição é necessária, para abrir espaço para o que precisa ser construído</em>”. Ela ensina a Conor sobre ciclos e o lugar construtivo da destruição. Podemos pegar uma carona e refletir quais ideias, crenças ou fantasias de limitação temos alimentado e que nos afastam do bendito e redentor olhar simbólico, que tanto pode compensar e complementar o racionalismo exacerbado dos nossos tempos.</p>



<h2 id="h-os-processos-nao-sao-apenas-do-ego-sao-da-psique-enquanto-totalidade" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Os processos não são apenas do ego, são da psique enquanto totalidade.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O eu é o gestor do campo daquilo que é consciente e enxerga apenas o que já conhece. Para que se amplie consciência é preciso o encontro com o diferente, com a diversidade, e o confronto com a sombra e as próprias convicções. O exercício da imaginação dá chances ao ego de resgatar e reintegrar uma linguagem capaz de ampliar a relação consciente &#8211; mundo interno e criar espaço para o inconsciente nutrir com originalidade as nossas vidas. Quando o Teixo-Arquetípico inicia seu contato com Conor o avisa: “<em>eu vim buscar a verdade, a sua verdade</em>”. Ele não falava das certezas egoicas, mas daquela verdade que se escondia nas dimensões profundas e negadas do menino, e de onde o assombrou até ser vista.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Já no final do filme, diante de sua mais temível perda, o garoto reencontra o amigo de sonhos e imaginação nos cadernos de desenho de sua mãe, onde o querido Teixo se apresenta, então, como elo psíquico, que guiou a mãe e conduziu o filho. Conor apreende algo sobre a imortalidade do vínculo, do que sempre continuará a ser compartilhado, trazendo novos significados para seu luto através da experiência verdadeiramente simbólica, ou seja, unificadora de opostos. Nada que pudesse ser aprendido através dos livros, apenas vivido com a alma. A relação Conor-Teixo também nos mostra que precisamos da interlocução que ajuda a questionar, elaborar o pensamento, a emoção e encontrar outras perspectivas.</p>



<h2 id="h-a-imagem-e-o-interlocutor-do-mundo-psiquico-e-ela-nao-esta-apenas-no-desenho-nos-contos-nas-fotografias-esta-na-angustia" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">A imagem é o interlocutor do mundo psíquico e ela não está apenas no desenho, nos contos, nas fotografias; está na angústia.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A angústia também é imagem, e a escuta também é olhar simbólico. O inconsciente, infindável, autônomo e dinâmico, buscará se expressar, de um jeito ou de outro. O ego estruturante será capaz de deixar o desconhecido se aproximar, criar relação e ser dialético.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Chegando ao fim desse artigo me dou conta de quanta história esse riquíssimo filme tem para contar, e o recorte que apresento, nesse momento, é apenas uma pequena centelha do tanto que ele ainda pode iluminar. Recomendo este filme fantástico para quem ainda não conhece, e, para aqueles que já assistiram, deixo o convite para revê-lo e, mais uma vez, imaginar.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/daniela-schmidt/">Daniella Schmidt &#8211; Membro Analista em Formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/" data-type="link" data-id="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/">José Luiz Balestrini Junior &#8211; Analista Didata Responsável</a></strong></p>



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</div></figure>



<h2 id="h-referencias-bibliograficas" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Referências Bibliográficas:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Balestrini Junior, José Luiz. Sonho, imagem, imaginação e o coração onírico. São Paulo: Eleva Cultural, 2023.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JACOBI, Jolande. Complexo, arquétipo, símbolo na psicologia de C.G.Jung. São Paulo: Cultrix, 1990.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. Tipos psicológicos. Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. A natureza da psique. Petrópolis: Vozes, 2013b.</p>



<p class="wp-block-paragraph">SILVEIRA, Nise da. Imagens do inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Imagem: Conor e o Teixo. Foto por Travis Topa &#8211; © 2016 &#8211; Focus Features.<br>Cena do filme Sete Minutos Depois da Meia-Noite (2016), com <a href="https://www.imdb.com/name/nm0000553/?ref_=mv_desc">Liam Neeson</a> and <a href="https://www.imdb.com/name/nm6484968/?ref_=mv_desc">Lewis MacDougall</a>.<br>Disponível em: <a href="https://www.imdb.com/pt/title/tt3416532/">https://www.imdb.com/pt/title/tt3416532/</a></em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>
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		<title>A Herança Invisível na Educação dos Nossos Filhos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiza de Oliveira Burger]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 10 Sep 2026 12:39:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Educação]]></category>
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		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este artigo discute a dificuldade de romper padrões familiares na parentalidade, mesmo quando existe o desejo consciente de educar os filhos de forma diferente daquela vivenciada na própria infância. As experiências emocionais não elaboradas, e até mesmo as elaboradas, podem influenciar reações automáticas e a repetição de comportamentos herdados. Utilizando o mito grego de Urano, Cronos e Zeus como metáfora da transmissão transgeracional de padrões, o texto reflete sobre os desafios de transformar a própria história familiar.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>Resumo:</strong> Este artigo discute a dificuldade de romper padrões familiares na parentalidade, mesmo quando existe o desejo consciente de educar os filhos de forma diferente daquela vivenciada na própria infância. As experiências emocionais não elaboradas, e até mesmo as elaboradas, podem influenciar reações automáticas e a repetição de comportamentos herdados. Utilizando o mito grego de Urano, Cronos e Zeus como metáfora da transmissão transgeracional de padrões, o texto reflete sobre os desafios de transformar a própria história familiar.</p>



<h2 id="h-voce-ja-se-pegou-reproduzindo-com-seus-filhos-a-mesma-dinamica-que-voce-tinha-com-os-seus-pais-mesmo-que-elas-tenham-te-trazido-algum-tipo-de-sofrimento-e-que-voce-tenha-jurado-aos-quatro-ventos-que-na-sua-vez-faria-diferente" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Você já se pegou reproduzindo com seus filhos a mesma dinâmica que você tinha com os seus pais, mesmo que elas tenham te trazido algum tipo de sofrimento e que você tenha jurado aos quatro ventos que na sua vez faria diferente?</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A geração de pais das últimas décadas carrega um paradoxo: ao mesmo tempo em que deseja educar os filhos de forma diferente daquela que vivenciou, frequentemente se vê reproduzindo padrões que acreditava ter deixado para trás. Há um esforço genuíno para romper ciclos familiares, mas não é raro surgir a sensação de estar correndo atrás do próprio rabo. Quanto mais se tenta evitar determinados comportamentos, mais eles aparecem, revelando a força das marcas deixadas pela própria história.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa mesma geração de pais que tem à disposição uma gama de informações sobre educação e parentalidade, muitas vezes à um clique, tem que conviver com a angústia da distância entre a teoria e prática.</p>



<h2 id="h-mas-por-que-sera-que-isso-acontece-a-tarefa-de-romper-com-nossos-padroes-familiares-e-ardua-principalmente-quando-elas-tocam-em-nossos-complexos" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">Mas por que será que isso acontece? A tarefa de romper com nossos padrões familiares é árdua, principalmente quando elas tocam em nossos complexos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Para Jung os complexos são conteúdos carregados de afeto com um ou mais núcleos arquetípicos</strong>. Ou seja, a temática dos complexos é universal, mas a forma como experimentamos esses mesmos temas em nossas vidas faz com que nossa relação com eles seja positiva ou negativa;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px">
<p class="wp-block-paragraph"><em>Ao estudar os fenômenos da associação, indiquei que existem certos agrupamentos de elementos psíquicos em torno de conteúdos emocionais, que denominamos complexos. O conteúdo emocional, ou complexo, é constituído de um elemento nuclear e de uma grande quantidade de associações consteladas secundariamente. O elemento nuclear consta de dois componentes: em primeiro lugar, de uma condição, determinada pela experiência, portanto, de um fato vivido, causalmente vinculado ao ambiente e, em segundo lugar, de uma condição imanente de caráter individual de natureza disposicional (JUNG, 2013a, p.21).</em><em></em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">É muito comum falarmos que uma determinada situação que vivenciamos nos gerou algum gatilho emocional. Isso quer dizer que um acontecimento atual nos remeteu à uma situação antiga, mas que ainda têm o poder de nos provocar, ainda que muito tempo depois, algum tipo de desconforto.</p>



<h2 id="h-para-jung-um-complexo-afetivo-e-uma-imagem-de-uma-determinada-situacao-psiquica-de-forte-carga-emocional-e-alem-disso-incompativel-com-as-disposicoes-ou-atitude-habitual-da-consciencia-jung-2013b-p-43" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Para Jung, “um complexo afetivo é uma imagem de uma determinada situação psíquica de forte carga emocional e, além disso, incompatível com as disposições ou atitude habitual da consciência”. (JUNG, 2013b, p.43).</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Todo esse processo ocorre de forma inconsciente e gera reações imediatas, quase que automáticas, que fogem do nosso padrão de comportamento e que temos dificuldade de justificar depois. Quando isso ocorre, dizemos que o indivíduo foi tomado pelo complexo.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px">
<p class="wp-block-paragraph"><em>O complexo é um fator psíquico que, em termos de energia, possui um valor que supera, às vezes, os de nossas intenções conscientes&#8230; De fato, um complexo ativo nos coloca por algum tempo num estado de não liberdade, de pensamentos obsessivos e ações compulsivas para os quais, sob certas circunstâncias, o conceito jurídico de imputabilidade limitada seria o único válido. (JUNG, 2013b, p.43).</em><em></em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Para ilustrar como um complexo paterno negativo pode atuar influenciando na reprodução de padrões familiares, nesse estado de “não liberdade” das nossas própria ações e pensamentos, podemos pegar um exemplo da mitologia grega que envolve a história de três pais: Urano, Cronos e Zeus.</p>



<h2 id="h-complexo-paterno-negativo" class="wp-block-heading"><strong>Complexo paterno negativo</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo conta o mito, Urano, temendo que seus filhos fossem uma ameaça ao seu poder, mantinha-os aprisionados no ventre da mãe, Gaia. Um dia, descontente com essa situação, Gaia tenta convencer seus filhos a enfrentarem o pai. Apenas Cronos, o mais novo dos titãs, aceita. Ele ataca o pai com uma foice e o castra. Depois disso, Urano perde o poder, se afasta de Gaia e dos filhos, e Cronos passou a governar em seu lugar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cronos herda do pai&nbsp;o medo de ser destronado por um de seus filhos. Acreditando numa profecia, toda vez que sua esposa,&nbsp;Reia, dava à luz, Cronos engolia o bebê. Ele fez isso com&nbsp;Héstia,&nbsp;Deméter,&nbsp;Hera,&nbsp;Hades&nbsp;e&nbsp;Poseidon.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando nasce&nbsp;Zeus, Reia decide salvá-lo. Esconde o bebê e entrega à Cronos uma pedra enrolada em panos, que ele engole pensando ser o filho. Depois de adulto, Zeus obriga Cronos a vomitar os irmãos e lidera uma guerra contra ele, o derrotando e assumindo o poder do Olimpo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Zeus, por sua vez, engole a primeira esposa, Métis, ainda grávida, também por causa de uma profecia que dizia que seu segundo filho seria mais poderoso que ele. Métis era considerada umas das divindades mais sábias que existiam e continuou viva dentro de Zeus mesmo depois de ser engolida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Zeus ainda age movido pelo medo de perder o poder, mas o mito sugere uma mudança importante, o padrão não é apenas repetido, é parcialmente transformado. Ao engolir Métis, ele incorpora a própria sabedoria. Dela, nasce Atena, que emerge de sua cabeça, símbolo de uma consciência que começa a integrar aquilo que antes era apenas reprimido.</p>



<h2 id="h-da-mitologia-a-parentalidade" class="wp-block-heading"><strong>Da mitologia à parentalidade</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Esse mito nos mostra como é difícil mudar o que está sendo sustentado há tantas gerações. Na realidade de muitas famílias, a repetição de padrões pode aparecer na forma de violência física e psicológica, autoritarismo, abandono, controle excessivo, dificuldade em expressar afeto, e por aí vai. &nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">E quando esse mesmo padrão reacende nossas feridas, o desafio é ainda maior. E nessa hora não existe livro, educador, influencer, pedagogia ou educação positiva que dê conta disso. Porque a nossa história familiar impacta diretamente na forma como vamos educar nossos filhos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando lidamos com nossos filhos estamos de alguma forma dando conta da criança que fomos um dia e revivendo, em muitos momentos, experiências pelas quais passamos na nossa infância. Pensando dessa forma, os filhos podem ser um gatilho e tanto para aqueles complexos que poderiam estar adormecidos, mas que irrompem tão logo alguém coloque o dedo naquela ferida ainda aberta. Muitas vezes não reagimos ao filho que está diante de nós, mas ao filho que fomos.</p>



<h2 id="h-talvez-o-primeiro-passo-seja-a-consciencia-ter-consciencia-dos-padroes-que-repetimos-e-que-vem-das-nossas-familias-de-origem" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">Talvez o primeiro passo seja a consciência. Ter consciência dos padrões que repetimos e que vêm das nossas famílias de origem.</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Ter consciência dos nossos complexos é saber onde o nosso calo aperta e que não vamos apagar a nossa história, mas podemos ressignificá-la de forma que, quem sabe, percam sua potência para não passarmos os mesmos padrões adiante.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>No entanto, o que acontece em grande parte dos casos é repetirmos a mesma dinâmica de forma inconsciente</strong>. Ou que a necessidade de fazer diferente dos nossos pais e negar nosso modelo familiar de origem nos leve para outro polo, o da idealização da paternidade e da maternidade. “Eu abomino tanto a dinâmica estabelecida na minha família que vou para o caminho oposto, em vez de tentar encontrar um caminho do meio”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quem teve pais autoritários, por exemplo, pode se tornar igualmente autoritário, por repetição, mas também pode se tornar excessivamente permissivo, como compensação. À primeira vista parecem opostos, mas ambos continuam organizados em torno da mesma ferida.</p>



<h2 id="h-a-abordagem-conhecida-como-educacao-positiva-talvez-tenha-nascido-dessa-vontade-de-encontrar-uma-terceira-via" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">A abordagem conhecida como “educação positiva”, talvez tenha nascido dessa vontade de encontrar uma terceira via.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Ela prega a educação de crianças baseada em respeito mútuo, conexão emocional, limites firmes e desenvolvimento de habilidades socioemocionais, sem recorrer à violência física, humilhação ou punições excessivamente autoritárias.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Embora práticas associadas à educação positiva tenham raízes na Psicologia Individual de <strong>Alfred Adler</strong>, no início do século XX, o conceito ganhou maior difusão a partir das décadas de 1980/1990, especialmente com os trabalhos de Jane Nelsen e o avanço das pesquisas em desenvolvimento infantil e parentalidade responsiva. E mais ainda com a chegada das redes sociais, onde é muito comum encontrar profissionais e até mesmo influencers que se dedicam a falar sobre o tema.</p>



<h2 id="h-a-educacao-positiva-seria-um-bom-caminho-se-nao-tivesse-sendo-interpretada-muitas-vezes-a-partir-dos-nossos-complexos-talvez-tomados-por-eles-estejamos-sendo-levados-a-entender-a-educacao-positiva-como-um-modelo-de-nao-frustracao-as-criancas" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><strong>A educação positiva seria um bom caminho, se não tivesse sendo interpretada muitas vezes a partir dos nossos complexos. Talvez, tomados por eles, estejamos sendo levados a entender a educação positiva como um modelo de não frustração às crianças.</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">O medo de que meu filho sofra como eu sofri faz com que eu evite ao máximo que ele se chateie, mesmo que isso signifique eliminar da vida dele todo e qualquer foco de sofrimento, inclusive aqueles que dizem respeito aos “nãos” que são necessários para a formação da sua personalidade. Com isso, vemos uma legião de crianças e adolescentes que não sabem lidar com suas frustrações e com a angústia de que nem tudo na vida acontece da forma como gostariam.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Muitos pais não estão apenas tentando educar os filhos. Estão tentando curar a própria infância, reparar a relação com seus pais, provar para si mesmos que são diferentes.&nbsp; O problema é que a criança real acaba ocupando o lugar de um projeto de reparação emocional. E que peso para essas crianças.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/luiza-de-oliveira-burger/" data-type="link" data-id="https://blog.ijep.com.br/author/luiza-de-oliveira-burger/"><strong>Luiza de Oliveira Burger – Membro Analista em formação</strong> <strong>IJEP</strong></a></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/anapaulamaluf/" data-type="link" data-id="https://blog.ijep.com.br/author/anapaulamaluf/"><strong>Ana Paula Maluf – Analista Didata</strong> <strong>IJEP</strong></a></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="📃Artigo novo: &quot;A Herança Invisível na Educação dos Nossos Filhos&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/Ex0bLxDsLCs?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<h2 id="h-referencias" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><strong>Referências</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. A Energia Psíquica. 14. ed. Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ A Natureza da Psique. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 2013b.</p>



<p class="wp-block-paragraph">BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega – volume I. Petrópolis: Vozes.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.ijep.com.br"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="1024" height="369" src="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/09/banner-pos-graduacao-29.6.26-1-1024x369.png" alt="" class="wp-image-13831" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/09/banner-pos-graduacao-29.6.26-1-1024x369.png 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/09/banner-pos-graduacao-29.6.26-1-300x108.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/09/banner-pos-graduacao-29.6.26-1-150x54.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/09/banner-pos-graduacao-29.6.26-1-450x162.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/09/banner-pos-graduacao-29.6.26-1-1199x432.png 1199w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/09/banner-pos-graduacao-29.6.26-1.png 1280w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<item>
		<title>O Cuidado como essência da existência humana</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-cuidado-como-essencia-da-existencia-humana/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Andreia Guiotti di Gregorio]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Sep 2026 20:08:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Alquimia]]></category>
		<category><![CDATA[Ecologia]]></category>
		<category><![CDATA[Ética]]></category>
		<category><![CDATA[Natureza]]></category>
		<category><![CDATA[Processo de Individuação]]></category>
		<category><![CDATA[Setting Terapeutico]]></category>
		<category><![CDATA[alma]]></category>
		<category><![CDATA[alquimia]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[cuidado]]></category>
		<category><![CDATA[cuidar]]></category>
		<category><![CDATA[ecologia]]></category>
		<category><![CDATA[ética]]></category>
		<category><![CDATA[humanidade]]></category>
		<category><![CDATA[humano]]></category>
		<category><![CDATA[jung]]></category>
		<category><![CDATA[leonardo boff]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[reconexão]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O artigo aborda o cuidado como dimensão essencial da existência humana, articulando as contribuições de Leonardo Boff e da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung. Defende que o cuidado ultrapassa o campo ético e constitui uma condição ontológica do ser humano, presente desde a origem da vida e fundamental aos processos de transformação psíquica, às relações interpessoais e à reconexão com a natureza. Em um contexto de crises ecológicas, sociais e psíquicas, propõe o cuidado como caminho de regeneração da vida e de construção de uma cultura de paz.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Resumo</strong>: O artigo aborda o cuidado como dimensão essencial da existência humana, articulando as contribuições de Leonardo Boff e da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung. Defende que o cuidado ultrapassa o campo ético e constitui uma condição ontológica do ser humano, presente desde a origem da vida e fundamental aos processos de transformação psíquica, às relações interpessoais e à reconexão com a natureza. Em um contexto de crises ecológicas, sociais e psíquicas, propõe o cuidado como caminho de regeneração da vida e de construção de uma cultura de paz.</p>



<h2 id="h-gostaria-de-iniciar-esse-pequeno-ensaio-com-uma-pergunta-bem-simples-mas-profundamente-humana-o-que-sustenta-a-vida" class="wp-block-heading" style="font-size:18px"><strong>Gostaria de iniciar esse pequeno ensaio com uma pergunta bem simples, mas profundamente humana: o que sustenta a vida?</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Podemos pensar em inúmeros elementos indispensáveis à existência, como o ar, a água, os alimentos e os vínculos afetivos. Entretanto, talvez exista algo ainda mais fundamental: o cuidado.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O teólogo e pensador brasileiro Leonardo Boff, em sua obra <em>Saber cuidar: ética do humano, compaixão pela Terra</em>, afirma que o cuidado não constitui apenas uma virtude moral ou uma prática social. Para o autor, o cuidado representa um modo de ser, uma dimensão constitutiva da própria existência humana. Assim, mais do que simplesmente cuidar, somos seres de cuidado (BOFF, 2014).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Essa afirmação desloca o cuidado do campo exclusivamente ético para o campo ontológico. Em outras palavras, cuidar não corresponde apenas a uma ação eventual, mas expressa uma condição fundamental da existência humana. O cuidado constitui a forma pela qual nos relacionamos conosco, com o outro, com a natureza e com o próprio sentido da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Se observarmos o início da vida humana, essa realidade torna-se particularmente evidente. Um bebê não sobrevive sem ser acolhido e protegido desde os primeiros momentos de seu desenvolvimento. Antes mesmo do nascimento, sua existência depende de uma complexa rede de processos biológicos que tornam possível a continuidade da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No próprio instante da fecundação, a interação entre óvulo e espermatozoide não ocorre de maneira totalmente passiva, mas envolve sofisticados mecanismos bioquímicos de reconhecimento e compatibilidade entre os gametas. Ainda que a expressão &#8220;o óvulo escolhe o espermatozoide&#8221; possua caráter metafórico, ela remete à ideia de que a fecundação resulta de um processo altamente regulado, no qual diversos mecanismos celulares participam da formação da nova vida.</p>



<h2 id="h-ha-um-momento-do-cuidar-que-e-intuitivo-um-saber-ancestral-de-uma-mobilizacao-de-toda-a-atencao-para-permitir-um-encontro-perfeito" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Há um momento do cuidar que é intuitivo, um saber ancestral, de uma mobilização de toda a atenção para permitir um encontro perfeito.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O óvulo escolhe o espermatozoide e não deixa entrar outro a não ser aquele que resulta na <em>coniunctio</em> da concepção; com aquele estalo de luz que se faz no momento em que o espermatozóide adentra o óvulo. Desde esse primeiro instante o cuidado se faz presente. O milagre que se faz ali, inicia todo um processo de cuidado cauteloso.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A partir desse primeiro instante, inicia-se um delicado processo de desenvolvimento que exige constante proteção e equilíbrio. Em sentido simbólico, pode-se afirmar que o cuidado acompanha a vida desde sua origem. A vida começa, portanto, dentro de um campo de cuidado. Antes mesmo de desenvolver consciência ou linguagem, o ser humano já está inserido em uma rede de relações que o sustenta física, emocional e simbolicamente. Essa realidade revela um aspecto profundamente significativo: a existência humana nasce da relação, da interdependência e da reciprocidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Essa compreensão dialoga profundamente com a Psicologia Analítica quando Carl Gustav Jung afirma que o indivíduo jamais constitui uma entidade isolada, mas um ser inseparável de suas dimensões relacionais, psíquicas e simbólicas.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><em>Uma vez que o indivíduo não é um ser único, mas pressupõe também um relacionamento coletivo para sua existência, também o processo de individuação não leva ao isolamento, mas a um relacionamento coletivo mais intenso e mais abrangente.(JUNG, 2013, §853)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Nesse sentido, o <strong>processo de individuação</strong> não conduz ao afastamento do mundo, mas ao aprofundamento da relação consciente com ele. Tornar-se si mesmo implica ampliar a capacidade de estabelecer vínculos mais autênticos consigo, com o outro e com a coletividade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Sabemos que a psique não vive apenas de conceitos. Ela também se alimenta de imagens, símbolos, afetos, vínculos e significados. Talvez o cuidado seja uma das expressões mais concretas desse movimento de ligação entre os seres. Quando cuidamos, algo profundamente transformador acontece. A alquimia, tema central na obra de Jung, não se refere apenas à transformação de substâncias químicas. Ela descreve, sobretudo, os processos simbólicos de transformação da alma.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><em>O opus alquímico não concerne em geral unicamente aos experimentos químicos, mas a algo semelhante aos processos psíquicos, expresso numa linguagem pseudo química. (JUNG, 2011, §342)</em></p>
</blockquote>



<h2 id="h-a-materia-prima-da-alquimia-necessita-ser-aquecida-dissolvida-purificada-e-transformada-para-que-sua-essencia-possa-emergir" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">A matéria-prima da alquimia necessita ser aquecida, dissolvida, purificada e transformada para que sua essência possa emergir.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">De modo análogo, a psique humana também atravessa sucessivos processos de dissolução, reorganização e amadurecimento ao longo da existência. Em outras palavras, o indivíduo se realiza em suas transformações a partir do autoconhecimento e nesses processos o cuidado desempenha um papel fundamental.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Sob essa perspectiva, o cuidado pode ser compreendido como um verdadeiro recipiente alquímico — o <em>vas hermeticum</em> —, espaço simbólico no qual as transformações psíquicas se tornam possíveis. É dentro desse vaso relacional que experiências dolorosas podem ser elaboradas, afetos reprimidos encontram expressão e novas formas de ser começam lentamente a emergir.</p>



<h2 id="h-na-clinica-junguiana-sabemos-disso-intuitivamente-quantas-vezes-uma-escuta-verdadeira-permite-que-algo-endurecido-comece-a-se-dissolver-quantas-vezes-a-presenca-acolhedora-possibilita-que-uma-dor-antiga-finalmente-encontre-palavras-para-se-expressar" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Na clínica junguiana sabemos disso intuitivamente. Quantas vezes uma escuta verdadeira permite que algo endurecido comece a se dissolver? Quantas vezes a presença acolhedora possibilita que uma dor antiga finalmente encontre palavras para se expressar?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O cuidado cria um campo onde a transformação psíquica se torne possível. O cuidado então não é apenas uma atitude ética, mas parte essencial do humano, ele é também um espaço simbólico de transmutação.</p>



<h2 id="h-se-ampliarmos-nosso-olhar-perceberemos-que-o-cuidado-nao-diz-respeito-apenas-as-relacoes-humanas-ele-envolve-tambem-a-forma-como-nos-relacionamos-com-a-terra-e-com-todas-as-manifestacoes-da-vida" class="wp-block-heading" style="font-size:18px"><strong>Se ampliarmos nosso olhar, perceberemos que o cuidado não diz respeito apenas às relações humanas</strong>. Ele envolve também a forma como nos relacionamos com a Terra e com todas as manifestações da vida.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Nesse contexto, Leonardo Boff afirma que a humanidade atravessa uma profunda crise civilizatória, marcada pela ruptura da relação entre o ser humano e a natureza. Segundo o autor, a lógica da exploração substituiu progressivamente a lógica do cuidado, fazendo com que a Terra deixasse de ser percebida como um organismo vivo e passasse a ser tratada apenas como um conjunto de recursos disponíveis à exploração econômica (BOFF, 2014).</p>



<h2 id="h-sob-a-perspectiva-da-psicologia-analitica-essa-ruptura-ecologica-pode-ser-compreendida-tambem-em-seu-aspecto-simbolico" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Sob a perspectiva da Psicologia Analítica, essa ruptura ecológica pode ser compreendida também em seu aspecto simbólico.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O distanciamento da natureza não representa apenas um problema ambiental; ele reflete igualmente um processo de cisão psíquica. A ruptura entre o ser humano e o mundo natural espelha, simbolicamente, o afastamento entre consciência e inconsciente, entre ego e Self, entre a vida cotidiana e as imagens profundas que estruturam a experiência humana.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Os quatro elementos — terra, água, ar e fogo — constituem a composição do planeta e também habitam os mitos, os sonhos, as tradições religiosas e as narrativas simbólicas das mais diversas culturas. Na linguagem da Psicologia Analítica, esses elementos constituem imagens arquetípicas que expressam aspectos fundamentais da vida psíquica. </p>



<h2 id="h-quando-perdemos-nossa-relacao-com-a-natureza-enfraquecemos-tambem-o-contato-com-essas-imagens-interiores-que-continuam-atuando-em-nossa-psique-independentemente-de-nossa-consciencia-delas" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Quando perdemos nossa relação com a natureza, enfraquecemos também o contato com essas imagens interiores, que continuam atuando em nossa psique independentemente de nossa consciência delas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Nesse sentido, afastar-se da natureza significa também afastar-se de dimensões profundas da própria alma. A sombra, os complexos, os arquétipos, as imagens simbólicas, bem como as figuras da <em>anima</em> e do <em>animus</em>, deixam de encontrar espaços de elaboração quando a experiência humana se restringe exclusivamente aos valores da racionalidade instrumental e da produtividade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Por essa razão, falar de ecologia significa também falar de reconexão. Reconexão com o corpo, frequentemente reduzido a um instrumento de desempenho; reconexão com a natureza, compreendida como extensão da própria existência; e reconexão com a alma, lugar onde habitam os símbolos, os afetos e os processos de transformação psíquica.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Talvez o cuidado seja precisamente a ponte que torna possível essa reconexão. Cuidar significa abandonar a ilusão da separação e reconhecer que toda forma de vida existe em permanente relação com outras formas de existência. Quando cuidamos da Terra, preservamos também nossa própria morada interior. Quando cuidamos uns dos outros, estamos protegendo a própria humanidade.</p>



<h2 id="h-a-cultura-contemporanea-frequentemente-valoriza-a-eficiencia-o-desempenho-e-o-controle" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">A cultura contemporânea frequentemente valoriza a eficiência, o desempenho e o controle. </h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O cuidado, entretanto, pertence a outra lógica: a lógica da presença. Cuidar exige disponibilidade para estar diante do outro sem reduzi-lo a um objeto, uma função ou um problema a ser resolvido. Dedicar atenção ao outro, externo e interno.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Essa presença manifesta-se por meio da atenção, da escuta, da sensibilidade e da disponibilidade afetiva. Exige tempo, paciência e abertura para acolher aquilo que ainda não pode ser completamente compreendido. Sob esse aspecto, o cuidado aproxima-se também da dimensão espiritual da existência.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Não se trata, necessariamente, de espiritualidade em sentido religioso, mas da capacidade de reconectar o ser humano com aquilo que confere sentido à sua vida. A experiência do cuidado nos recorda que viver não consiste apenas em produzir ou consumir, mas também em cultivar relações significativas consigo, com os outros e com o mundo.</p>



<h2 id="h-cuidar-e-reconhecer-o-valor-intrinseco-da-vida-e-oferecer-condicoes-para-que-algo-possa-crescer-amadurecer-e-florescer-segundo-sua-propria-natureza" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Cuidar é reconhecer o valor intrínseco da vida. É oferecer condições para que algo possa crescer, amadurecer e florescer segundo sua própria natureza.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Cada gesto de cuidado, por mais discreto que pareça, participa de um processo muito maior de transformação da realidade. Um gesto de escuta. Um olhar que verdadeiramente reconhece. Uma presença que sustenta o sofrimento sem a necessidade imediata de eliminá-lo. Essas pequenas experiências constituem verdadeiras operações alquímicas da vida cotidiana, nas quais algo profundamente humano continua sendo preservado. Leonardo Boff sintetiza essa perspectiva ao afirmar:</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><em>É urgente um novo ethos de cuidado, de sinergia, de re-ligação , de benevolência, de paz perene para com a Terra, para com a vida, para com a sociedade e para com o destino das pessoas, especialmente das grandes empobrecidas e condenadas da Terra. (BOFF, 2014, p. 39)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Mesmo diante das inúmeras crises que caracterizam o nosso tempo, o cuidado permanece como uma possibilidade permanente de regeneração da vida. Ele fortalece indivíduos, restaura vínculos, transforma comunidades e pode contribuir para reconstruir a relação entre a humanidade e a natureza.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Talvez possamos compreender o cuidado como uma verdadeira medicina da alma. Não porque elimine todas as dores da existência, mas porque oferece o espaço necessário para que elas possam ser simbolizadas, elaboradas e integradas ao processo de desenvolvimento psíquico.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><em>O ser humano é um ser de cuidado, mais ainda; sua essência se encontra no cuidado. Colocar cuidado em tudo o que protege e faz, eis a característica singular do ser humano. (BOFF, 2014, p. 35)</em><em></em></p>



<h2 id="h-em-tempos-marcados-pela-fragmentacao-das-relacoes-pela-exploracao-da-natureza-e-pelo-sofrimento-psiquico-crescente-recuperar-a-cultura-do-cuidado-talvez-seja-uma-das-tarefas-eticas-simbolicas-e-espirituais-mais-urgentes-do-nosso-tempo" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Em tempos marcados pela fragmentação das relações, pela exploração da natureza e pelo sofrimento psíquico crescente, recuperar a cultura do cuidado talvez seja uma das tarefas éticas, simbólicas e espirituais mais urgentes do nosso tempo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Cuidar do outro, cuidar da Terra e cuidar da própria alma não representam caminhos distintos, mas diferentes expressões de um mesmo compromisso com a preservação da vida. Viva o Planeta Terra! Que a paz prevaleça no mundo! Que o cuidado volte a ser nosso grito pela paz!</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Namastê!</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/andreia-guiotti-di-gregorio/" data-type="link" data-id="https://blog.ijep.com.br/author/andreia-guiotti-di-gregorio/">Andreia Guiotti di Gregório &#8211; Analista em formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/" data-type="link" data-id="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra E. Simone Magaldi &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="📃Artigo novo: &quot;O Cuidado como essência da existência humana&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/j4WsMIx9dKY?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<h2 id="h-referencias" class="wp-block-heading" style="font-size:16px"><strong>REFERÊNCIAS</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">BOFF, Leonardo. <em>Saber cuidar</em>: ética do humano, compaixão pela Terra. 20. ed. Petrópolis: Vozes, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HEIDEGGER, Martin. <em>Ser e tempo</em>. Tradução de Fausto Castilho. Campinas: Editora da Unicamp; Petrópolis: Vozes, 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>A natureza da psique</em>. 11. ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>Psicologia e alquimia</em>. 6. ed. Petrópolis: Vozes, 2011.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://www.institutojunguiano.com.br/xi-congresso-junguiano-alquimia-e-ecologia" data-type="link" data-id="https://www.institutojunguiano.com.br/xi-congresso-junguiano-alquimia-e-ecologia">Se interessa pelos tema da Alquimia e da Ecologia? Conheça o XI Congresso Junguiano do IJEP:</a></strong></p>



<figure class="wp-block-image size-full"><a href="https://www.institutojunguiano.com.br/xi-congresso-junguiano-alquimia-e-ecologia"><img decoding="async" width="1920" height="893" src="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/09/1.-congresso-xi-1-1.png" alt="" class="wp-image-13814" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/09/1.-congresso-xi-1-1.png 1920w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/09/1.-congresso-xi-1-1-300x140.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/09/1.-congresso-xi-1-1-449x209.png 449w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/09/1.-congresso-xi-1-1-148x69.png 148w" sizes="(max-width: 1920px) 100vw, 1920px" /></a></figure>



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		<title>Resiliência</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/resiliencia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[João Herck]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 28 Aug 2026 19:02:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Processo de Individuação]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[angústia]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[coletivo e individual]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A propaganda atual, para o caminho da felicidade, é: quanto mais conforto, melhor. As dificuldades são colocadas como inimigas a serem evitadas. Cada vez mais, somos ensinados a termos o que desejamos, sem limites. A nossa capacidade de suportar as contrariedades, saber esperar e conviver com os obstáculos é cada vez menor. Ficamos mais frágeis e impacientes. A insatisfação aumenta. Neste breve artigo, discorro sobre a resiliência e sua importância para o caminho de autoconhecimento. E as consequências de sua falta, nas pequenas coisas cotidianas corriqueiras, nas relações, no processo de autodesenvolvimento espiritual e no caminho da individuação.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>RESUMO:</strong> A propaganda atual, para o caminho da felicidade, é: quanto mais conforto, melhor. As dificuldades são colocadas como inimigas a serem evitadas. Cada vez mais, somos ensinados a termos o que desejamos, sem limites. A nossa capacidade de suportar as contrariedades, saber esperar e conviver com os obstáculos é cada vez menor. Ficamos mais frágeis e impacientes. A insatisfação aumenta. Neste breve artigo, discorro sobre a resiliência e sua importância para o caminho de autoconhecimento. E as consequências de sua falta, nas pequenas coisas cotidianas corriqueiras, nas relações, no processo de autodesenvolvimento espiritual e no caminho da individuação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Houve uma época, não há tanto tempo, em que costumávamos morar com família grande, dividir o quarto com irmãos, um banheiro para a turma toda. Tv pequena na sala, um telefone fixo, ar condicionado? não havia. Mesmo assim, as coisas funcionavam. O coletivo tinha mais força do que o individual. Tínhamos menos escolhas. A comida era a que tinha na geladeira, a mesma para todos, sem aplicativos para satisfazer os desejos imediatos. Precisávamos dividir, compartilhar, suportar a espera, as pequenas contrariedades, as impossibilidades.</p>



<h2 id="h-os-pequenos-desconfortos-sempre-funcionavam-como-treino-para-os-maiores-quando-nao-convivemos-mais-com-eles-qualquer-coisa-nos-tira-do-eixo-incomoda-apavora-hoje-uma-minoria-privilegiada-nao-sabe-o-que-e-viver-sem-uma-suite-uma-tv-e-um-celular-individual-com-wi-fi-ilimitado-sempre-em-busca-de-produtos-exclusivos-para-os-especiais" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Os pequenos desconfortos sempre funcionavam como treino para os maiores. Quando não convivemos mais com eles, qualquer coisa nos tira do eixo, incomoda, apavora&#8230; Hoje, uma minoria privilegiada não sabe o que é viver sem uma suíte, uma tv e um celular individual, com <em>wi-fi</em> ilimitado. Sempre em busca de produtos exclusivos, para os especiais.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Como já tratado no meu artigo anterior deste blog do IJEP: “<strong><a href="https://blog.ijep.com.br/nossa-epoca-sem-limites/">Nossa época sem limites</a></strong>”, a falta de resiliência emerge junto com a falta de limites. Um retroalimenta o outro. Segundo o dicionário, “resiliência” significa, entre outras coisas: “capacidade natural para se recuperar de uma situação adversa, problemática; superação. Capacidade de quem se adapta às intempéries, às alterações ou aos infortúnios; estoicismo” (RIBEIRO, 2019).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Numa era em que o conforto e os prazeres ilimitados são os objetivos, não podemos suportar qualquer contrariedade ou infortúnio, proveniente do mundo aparente externo e interno. Como lidar com o coletivo? Como acolher os complexos afetivos que nos invadem insistentemente? Como suportar os “seres” (de dentro e de fora) que ficam nos “testando” o tempo todo?</p>



<h2 id="h-o-valor-do-individualismo-e-da-satisfacao-dos-desejos-egoicos-nunca-estiveram-com-tanta-importancia" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">O valor do individualismo e da satisfação dos desejos egóicos nunca estiveram com tanta importância. </h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quando o indivíduo, sua consciência e vontades, estão sempre no centro, o convívio com o outro fica mais penoso. O coletivo importa menos. A conversa com o diferente, mais difícil. O mundo é ameaçador, qualquer um que atrapalhe MEU conforto e MINHA satisfação vira inimigo. A falta de tato na lida com o coletivo congela a pessoa no seu próprio mundo confortável, numa redoma segura, solitária, climatizada e infeliz.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Aliás, a impressão que dá é que a segurança, o controle e a anestesia nunca foram tão prescritos por aí, inclusive pelos profissionais da saúde. Precisamos garantir que não vamos passar mal, que tudo vai dar certo. Passamos a vida na esperança de termos o que queremos de forma garantida, que vamos ser saudáveis e felizes sempre. Melhor fazermos <em>check-up</em>, seguro de vida, garantir trabalho estável, aposentadoria e tomar um remédio para dormir logo. Não é mesmo? Evitamos o contato com a angústia, num tempo em que é muito mais importante controlar do que arriscar. A dúvida é ameaçadora. O encontro com o vazio ou com o outro tornam-se inseguros e o diálogo perigoso.</p>



<h2 id="h-as-criancas-ja-nao-aprendem-mais-como-suportar-o-coletivo-e-seus-limites-sao-ensinadas-e-estimuladas-a-terem-o-que-e-quando-quiserem-nao-podem-esperar-temem-o-tedio" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">As crianças já não aprendem mais como suportar o coletivo e seus limites. São ensinadas e estimuladas a terem o que e quando quiserem. Não podem esperar. Temem o tédio.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Comem na frente da tela, andam de carro climatizado, falam com os pais quando quiserem com seus <em>smartphones</em> modernos. Tem escola por aí em que os pequenos podem até se alimentar durante a aula; já pensou se eles passarem fome até o intervalo? Vivemos numa era em que confundimos desejo com necessidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não muito antigamente, tínhamos que ficar na fila no banco ou no ponto de ônibus e simplesmente esperar, conviver com o tédio, sem aplicativos para preencher aqueles minutos. Antes dos celulares, era comum ser impossível falar com as pessoas até que voltassem para casa no fim do dia. Para telefonar da rua, treinávamos paciência na fila no orelhão. Tínhamos mais tempo ocioso, tedioso, criativo&#8230;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Hoje, vamos sendo ensinados que temos que evitar qualquer tipo de sofrimento rapidamente, não podemos esperar, cada segundo precisa ser preenchido e útil. E paradoxalmente, nesta sociedade ansiogênica, nunca se ouviu tanto a frase: “eu não tenho tempo para nada”. Parecer super ocupado passou a ser associado à uma sensação de auto importância e orgulho.</p>



<h2 id="h-o-sintoma-desconforto-quando-aparece-deve-ser-suprimido-o-mais-rapidamente-possivel-seja-tedio-insonia-tristeza-calor-ou-dor-de-estomago-a-saude-cada-vez-mais-confunde-se-com-anestesia-e-capacidade-de-produtividade-o-bem-estar-com-ausencia-de-dor" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">O sintoma/desconforto, quando aparece, deve ser suprimido o mais rapidamente possível. Seja tédio, insônia, tristeza, calor ou dor de estômago. A saúde, cada vez mais, confunde-se com anestesia e capacidade de produtividade. O bem-estar, com ausência de dor.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Estimulados por uma indústria farmacêutica bilionária, tomamos remédios a cada incômodo que aparece. E esquecemos da Lei de Lavoisier: “na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma” (<em>apud</em> PINCELI). Quando usamos <em>spray</em> para nariz escorrendo, pode aparecer falta de ar ou insônia. Quando tomamos benzodiazepínicos de noite, apagamos; mas ficamos esquecidos, ansiosos e deprimidos no dia seguinte. Nunca consumimos tantos medicamentos psicotrópicos, drogas, séries e redes sociais, para fugirmos do tédio, da falta e da angústia onipresente. Mantemo-nos sempre ocupados.</p>



<h2 id="h-a-escolha-hegemonica-de-nos-anestesiar-assim-que-a-dor-surge-e-sustentar-o-prazer-ao-maximo-com-infinitas-pilulas-de-dopamina-durante-o-dia-como-nas-redes-sociais-transforma-o-dia-a-dia-numa-roda-de-ramster-num-scroll-infinito-em-que-nunca-e-suficiente-o-buraco-se-aprofunda-a-angustia-cresce-a-necessidade-de-antidepressivos-ansioliticos-alcool-e-drogas-aumenta-a-resiliencia-diminui" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">A escolha hegemônica de nos anestesiar, assim que a dor surge, e sustentar o prazer ao máximo, com infinitas pílulas de dopamina durante o dia, como nas redes sociais, transforma o dia-a-dia numa roda de ramster, num <em>scroll</em> infinito, em que nunca é suficiente. O buraco se aprofunda, a angústia cresce, a necessidade de antidepressivos, ansiolíticos, álcool e drogas aumenta. A resiliência diminui.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O “padrão ouro” para aprimorar uma habilidade é o treino e a persistência. O que será que estamos nos habituando, nesta sociedade que teme o desconforto e a pausa, em que os principais valores são o desempenho individual e a aparência de estar sempre alegre? Será que abrimos espaço para conviver com a tristeza e qualquer outra emoção perturbadora? Mesmo os bons sentimentos, será que damos o tempo à fruição?</p>



<p class="wp-block-paragraph">O constante preenchimento da vida com passatempos não permite o treino de estar consigo mesmo e com presença verdadeira nas relações. Não sobra espaço para conviver e sustentar o confronto do ego com os contrapontos que o incomodam. Não queremos nem podemos sentir o quanto somos incompletos e imperfeitos. Em “Presente e Futuro”, Jung nos chama a atenção: “o reconhecimento das sombras conduz à modéstia fundamental de que precisamos para admitir imperfeições. Esse reconhecimento e constatação conscientes devem sempre acompanhar as relações humanas” (JUNG, 2024. p. 63).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Abrir espaço para, eventualmente, sentirmos o desconforto nas relações pode complementar-nos, convidar-nos a transformações e trazer compensações, assim como o inconsciente faz com a consciência. Jung, insistentemente, nos lembra que quanto mais unilateral, mais fixado e mais congelado numa certeza garantida ou numa ideia inquestionável, fixa e solitária, maior a irrupção e invasão do outro lado negado, através das antinomias, dos polos complementares: “quanto mais capazes formos de nos afastar do inconsciente por um funcionamento dirigido, tanto maior é a possibilidade de surgir uma forte contraposição, a qual, quando irrompe, pode ter consequências desagradáveis” (JUNG, 1984, p. 3).</p>



<h2 id="h-no-contexto-atual-almejamos-cada-vez-mais-controle-das-situacoes-pela-consciencia-com-apego-ao-que-e-confortavel-e-previsivel" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">No contexto atual, almejamos cada vez mais controle das situações pela consciência, com apego ao que é confortável e previsível.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O “eu”, rígido nas próprias convicções, vai perdendo a prontidão necessária para entrar em contato com o “outro” que o ameaça, com o inconsciente e seus contrapontos incertos e perigosos. Como suportar então, com esta insegurança, o risco do diálogo com o polo oposto? E se nossos ideais, convicções e certezas forem abalados? E como realizar a função transcendente, se o ego não pode ser questionado ou contrariado?</p>



<h2 id="h-o-caminho-de-individuacao-e-baseado-na-escuta-e-dialogo-com-o-diverso-com-o-que-muitas-vezes-incomoda-o-ego-e-o-arranca-da-zona-de-conforto" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">O caminho de individuação é baseado na escuta e diálogo com o diverso, com o que muitas vezes incomoda o ego e o arranca da zona de conforto.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">É preciso coragem para o desenvolvimento e a possibilidade de trilhar uma terceira via, a <em>priori</em> desconhecida e por isso insegura,num caminho não dado, que só pode ser apreendido se deparando com o risco inerente do novo. Quanto maior a unilateralidade da consciência e sua tentativa de controle, menor a resiliência em sustentar a dúvida, com o desconhecido. Isto aumenta, portanto, a dificuldade para sair dos mesmos padrões seguros, congelados, confortáveis, conhecidos, e muitas vezes, infelizes.  </p>



<h2 id="h-o-que-e-estar-bem-sera-a-ausencia-de-sintomas-e-incomodos-uma-relacao-saudavel-nao-pode-ter-conflitos-estar-em-paz-e-sinonimo-de-nao-sentir-angustia" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">O que é estar bem? Será a ausência de sintomas e incômodos? Uma relação saudável não pode ter conflitos? Estar em paz é sinônimo de não sentir angústia?</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A falta de resiliência tende à uma busca incessante por algo que nos preencha. Quando vem a falta e a angústia, suportamos cada vez menos. Trocamos de objeto, de relação. Não serve mais. Tudo é descartável. A pressa em passar rapidamente para a próxima tela, notícia ou namorada deixa-nos inquietos, distraídos, desatentos, ansiosos, com déficit de atenção e insônia. Precisamos consumir, devorar. Falta contemplação. Vamos tirando centenas de fotos e nos esquecemos de <em>ver</em>. Parece que tudo vai ficando armazenado só no HD externo. As coisas vão ficando menos significativas e são esquecidas. Temos a impressão de que o ano passou muito rápido. E quem nos tornamos? O que sentimos? Será que nos desenvolvemos neste ano?</p>



<h2 id="h-a-verdadeira-fruicao-do-momento-e-demorada-toma-tempo-para-degustar-precisa-de-pausa" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">A verdadeira fruição do momento é demorada, toma tempo para degustar, precisa de pausa.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A psicologia analítica de Jung traz a ideia de sustentar os estados aflitivos. Propõe que possamos abrir espaço-tempo para conviver com a dor, a dúvida, os riscos, os caminhos incertos. Para ouvirmos e dialogarmos com as entidades em nós, os complexos afetivos, que não estão ali para nos deixar sempre confortáveis. Num cenário em que a resiliência e a espera, sem soluções e desfechos prontos, são condições para o autodesenvolvimento. Esta capacidade requer que aprendamos com os hábitos, precisamos ser capazes de treinar a partir das pequenas coisas, suportar primeiro os desconfortos menores do cotidiano, para podermos acolher as grandes angústias. Em “A natureza da psique”, Jung nos lembra que: “é sumamente improvável que haja uma terapia que elimine todas as dificuldades; elas são necessárias à sua saúde. E somente a sua excessiva quantidade nos parece desnecessária” (JUNG, 1984, p. 5).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Encarar as próprias sombras demanda tempo. O movimento de regressão para o mundo interno, o contato com a <em>nigredo</em> alquímica, a parte desagradável, feia e suja em nós, é parte do processo e também demanda resiliência e coragem, sem pressa. Para que possa surgir um novo caminho de progressão para o mundo “externo’, de forma mais autêntica, para contribuir com o entorno, com a integração dos próprios potenciais descobertos. Como numa sístole e diástole, ou numa melodia ritmada em que a pausa é condição fundamental.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/joao-herck/" data-type="link" data-id="https://blog.ijep.com.br/author/joao-herck/">João Herck – Analista em Formação – IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi – Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="📃Artigo novo: &quot;Resiliência&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/macZAhREVGQ?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p class="wp-block-paragraph"><strong>REFERÊNCIAS</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <em>A natureza da psique</em>. Petrópolis: Vozes, 1984.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>__________ Presente e futuro.</em> Petrópolis: Vozes, 2024</p>



<p class="wp-block-paragraph">RIBEIRO, Débora (2019). Dicionário online de português. Disponível em:&nbsp; <a href="https://www.dicio.com.br/resiliencia/">https://www.dicio.com.br/resiliencia/</a> Acesso em 13 mai. 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a></a>PINCELI, Carlos Ricardo. Disponível em: <a href="https://sites.fem.unicamp.br/~em313/paginas/person/lavoisie.htm">https://sites.fem.unicamp.br/~em313/paginas/person/lavoisie.htm</a> Acesso em 14 mai. 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<title>ENTRE O EXCESSO E A ESSÊNCIA: reflexões sobre o que realmente conta</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/entre-o-excesso-e-a-essencia-reflexoes-sobre-o-que-realmente-conta/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Isa Carvalho]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 26 Aug 2026 13:03:47 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O que é suficiente para uma vida humana? Essa questão, aparentemente simples, atravessa diferentes tradições do pensamento ocidental e ressurge, em cada época, como uma crítica às diversas formas de excesso que caracterizam a experiência humana. Para Sêneca, tratava-se do excesso de desejos e da dependência dos bens exteriores; para os transcendentalistas, do afastamento da natureza e da simplicidade; para Jung, da identificação com a persona e da perda de contato com o Si-mesmo. Embora formuladas em contextos distintos, essas perspectivas convergem na compreensão de que o sofrimento humano não decorre apenas da escassez, mas também do acúmulo: de posses, de papéis, de expectativas e de tudo aquilo que obscurece a experiência do essencial.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Resumo</strong>: O que é suficiente para uma vida humana? Essa questão, aparentemente simples, atravessa diferentes tradições do pensamento ocidental e ressurge, em cada época, como uma crítica às diversas formas de excesso que caracterizam a experiência humana. Para Sêneca, tratava-se do excesso de desejos e da dependência dos bens exteriores; para os transcendentalistas, do afastamento da natureza e da simplicidade; para Jung, da identificação com a persona e da perda de contato com o Si-mesmo. Embora formuladas em contextos distintos, essas perspectivas convergem na compreensão de que o sofrimento humano não decorre apenas da escassez, mas também do acúmulo: de posses, de papéis, de expectativas e de tudo aquilo que obscurece a experiência do essencial.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Este artigo está sendo escrito na sequência da realização e participação no <a href="https://www.institutojunguiano.com.br/xi-congresso-junguiano-alquimia-e-ecologia" data-type="link" data-id="https://www.institutojunguiano.com.br/xi-congresso-junguiano-alquimia-e-ecologia">XI Congresso Junguiano do IJEP</a><a href="#_ftn1" id="_ftnref1"> [1]</a>, quando foram apresentadas inúmeras palestras que trataram de um tema tão emergente quanto perturbador: como podemos transmutar a consciência para que seja possível regenerar nosso castigado e exaurido planeta Terra?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Pesquisando para a minha apresentação, realizada junto com a analista-didata, Lilian Wurzba, e a colega, Tania Pulier Garrido, deparei-me com vários exemplos da atual cultura do acúmulo e do excesso e, imediatamente, emergiu das profundezas, daquele lugar onde ficam armazenadas as boas ideias e iniciativas que parecem ter sido esquecidas, a seguinte pergunta: o que é suficiente para uma vida humana?</p>



<h2 id="h-essa-questao-aparentemente-simples-atravessa-diferentes-tradicoes-do-pensamento-ocidental-e-ressurge-em-cada-epoca-como-uma-critica-as-diversas-formas-de-excesso-que-caracterizam-a-experiencia-humana" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Essa questão, aparentemente simples, atravessa diferentes tradições do pensamento ocidental e ressurge, em cada época, como uma crítica às diversas formas de excesso que caracterizam a experiência humana.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Para Sêneca, tratava-se do excesso de desejos e da dependência dos bens exteriores; para os transcendentalistas, do afastamento da natureza e da simplicidade; para Jung, da identificação com a persona e da perda de contato com o Self. Embora formuladas em contextos distintos, essas perspectivas convergem na compreensão de que o sofrimento humano não decorre apenas da escassez, mas também do acúmulo: de posses, de papéis, de expectativas e de tudo aquilo que obscurece a experiência do essencial.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Talvez hoje em dia não se fale tanto de movimentos como o minimalista, mas desde que algumas de suas ideias começaram a circular e a conquistar simpatizantes na filosofia, na arte, na estética, na arquitetura, na espiritualidade, nos costumes, na moda, nos estilos de vida e na alimentação, em meados do século XX, o minimalismo tem sido um dos poucos movimentos abertamente críticos aos princípios devoradores do capitalismo pós-industrial que tomou de assalto o planeta, principalmente após a Segunda Guerra.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Não é possível afirmar que o movimento tenha “desaparecido”, mas nem que esteja “atuante” enquanto ideal de vida, já que se encontra, considerando nossos tempos neoliberais e excessivamente consumistas, em um estado próximo do “agonizante”, cercado pela bruma do esquecimento, ou melhor dizendo: “fora das mídias sociais”. O que testemunhamos hoje, principalmente após a queda do muro de Berlim em 1989, é uma aparente escassez de iniciativas que sejam capazes de contrastar a hegemonia do sistema capitalista, que assumiu uma versão jamais imaginada devido ao avanço da tecnologia digital.</p>



<h2 id="h-mas-sera-que-e-assim-mesmo" class="wp-block-heading" style="font-size:20px">Mas será que é assim mesmo?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Não muito tempo atrás, as ideias minimalistas provocavam debates acalorados, onde expressões como “menos é mais”; “menos dependência material = mais liberdade”; ou “simplifique, simplifique!” – atribuídas a Mies van der Rohe, aos estoicos e a Henry David Thoreau, respectivamente – “viralizavam” (mais devagar do que hoje em dia, claro) nos jornais, revistas e livros, alguns impressos, outros já digitais. Em torno dos anos 2000-2010, o movimento tentou ressuscitar e atuar como um último grito contra o iminente perigo do hiperconsumo, da cultura digital e do esgotamento de recursos em níveis globais resultantes da produção acelerada de bens. Mas, aparentemente, sem muito sucesso.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O presente artigo não tem a intenção de ser pessimista, mas apenas demonstrar que, muito provavelmente, o minimalismo perdeu a batalha, mas, quem sabe, não a guerra, visto que ainda encontramos iniciativas importantes que tentam resgatar os ideais do movimento. Veremos algumas dessas ideias contemporâneas ao final do artigo, mas, antes, talvez seja importante conhecer as bases do minimalismo. Não todas, pois não caberiam em um artigo, mas especificamente dois de seus pilares: <strong>o estoicismo e o transcendentalismo</strong>. Após apresentar as ideias-chave dos dois movimentos, o artigo buscará traçar paralelos entre estas e alguns conceitos da psicologia junguiana, no sentido de entrelaçar e apontar interseções entre ideais de vida coletiva e dinâmicas psíquicas individuais.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Sêneca (Lúcio Aneu Sêneca) nasceu no ano I d.C., em Córdoba, na Espanha que, na época, pertencia ao império romano. De família abastada &#8211; que se transferiu para Roma quando Sêneca tinha 5 anos &#8211; estudou com o estoico Átalo e com dois neopitagóricos, Sótion de Alexandria e Papírio Fabiano, que professavam uma doutrina que combinava o estoicismo e o pitagorismo. Sendo um dos maiores representantes do estoicismo, Sêneca, ironicamente, também foi um dos homens mais ricos de sua época. Acumulou posses e viveu cercado de intrigas políticas, ambições e lutas pelo poder. Talvez exatamente por isso tenha tido a necessária clareza ao desenvolver sua crítica e afirmar: “A vida não é curta, mas sim desperdiçada” (SÊNECA, 2017, p.1).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Em torno de seus 62 anos, tendo sido preceptor do imperador Nero, Sêneca solicitou um afastamento das atividades públicas, pedido que lhe foi negado. No entanto, alegando idade avançada e saúde precária, conseguiu uma licença para se dedicar ao <em>Otium</em> (ócio), que significava se envolver apenas com atividades de leitura e escrita. Nessa época, escreve um tratado em forma de carta filosófica intitulado <em>Sobre a brevidade da vida</em>. Nesta, Sêneca dirige-se a um funcionário público, Paulino, um homem sempre ocupado, sobrecarregado de deveres e obrigações, que simbolizava o indivíduo que vive para todas as coisas exteriores menos para si mesmo e sua interioridade. Uma vida corrida, voltada para as conquistas materiais e de poder, de cargos e promoções, status social e acúmulo de bens, mas que sempre adia a própria vida.</p>



<h2 id="h-ja-no-primeiro-paragrafo-da-carta-filosofica-seneca-escreve" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Já no primeiro parágrafo da carta filosófica, Sêneca escreve:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">I. A maior parte dos mortais, Paulino, queixa-se da malignidade da natureza, porque somos gerados para uma curta existência, porque esse espaço de tempo que nos é dado transcorre tão veloz, tão rápido, que, com exceção de bem poucos, os demais a vida os deixa exatamente nos preparatórios para a vida. E não é, conforme opinam, só a massa de insensatos que deplorou esse mal comum: esse sentimento provocou queixas também de homens ilustres. Daí aquela conhecida frase do maior dos médicos: “A vida é breve, a arte é longa”<a href="#_ftn2" id="_ftnref2">[2]</a> (SÊNECA, 2017, p. 1).</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Sêneca, no trecho acima, não fala da quantidade de anos, mas da qualidade de presença e de sentido que damos à vida. Também menciona o quanto a nossa vida é “roubada” e que esses “ladrões” muitas vezes nem são reconhecidos como tal. Manifestam-se na forma da avareza, da ambição, do empenho em tarefas inúteis, dos vícios, da inércia, da preguiça, da dependência de aprovação, do medo de julgamentos, da necessidade de status, do desejo irrefreável de consumir, comerciar, lucrar, conquistar. “É diminuta a parte da vida que vivemos” (2017, p. 2) escreve Sêneca ao seu colega.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Um retrato triste da Roma antiga e também da nossa sociedade contemporânea. Sêneca, em <em>Sobre a brevidade da vida</em>, dirige-se a nós, indivíduos do século XXI. Quase dois mil anos depois, ele está falando “de” e “para” nós. Está falando dos nossos desejos incessantes com mais atualidade do que gostaríamos de admitir, especialmente quando escreve:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Nunca lhes é possível voltar-se para si mesmos. Se alguma vez lhes advém casualmente algum repouso, agitam-se, tal como em alto-mar, onde mesmo depois dos ventos, subsiste a turbulência, e jamais se veem desocupados de seus desejos. (SÊNECA, 2017, p. 2).</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Sobre a brevidade da vida</em> é uma reflexão filosófica densa e profunda e um alerta sobre o perigo de uma vida longa e vazia baseada em uma “turvação das mentes humanas” diante das tentações dos infindáveis desejos: &#8220;Tendes medo de tudo como mortais, desejais tudo como imortais” (2017, p. 3). Não é difícil imaginar, lendo essas citações, o porquê do estoicismo representar um dos pilares do minimalismo, pois uma das ideias centrais do movimento é o reconhecimento do quanto de suor, desgaste, estresse e destruição comporta o vertiginoso crescimento vertical apregoado pelo sistema capitalista/neoliberal e o quanto de sofrimento isso representa para o indivíduo, a sociedade e o planeta.</p>



<h2 id="h-e-quanto-ao-transcendentalismo-do-que-se-trata" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">E quanto ao transcendentalismo, do que se trata?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Trata-se de um movimento nascido nos Estados Unidos no século XIX que influenciou fortemente o minimalismo existencial, sendo que este último emergiu em meados do século XX. A pergunta central de ambos os movimentos poderia ser resumida em: “Afinal, do que realmente precisamos para viver bem?”. Essa questão central do transcendentalismo nos remete a alguns princípios básicos tanto do minimalismo quanto do estoicismo, o que demonstra o entrelaçamento entre as três correntes: redução ao essencial; autonomia; clareza; desapego; silêncio e vazio; desaceleração; moderação e liberdade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Nascido em 12 de julho de 1817, na região da Nova Inglaterra, nos Estados Unidos, Henry David Thoreau destacou-se como ensaísta, poeta, filósofo e observador atento da natureza. Como jovem inserido no ambiente intelectual e reformista de seu tempo, estudou em Harvard e chegou a atuar como professor, profissão que abandonou por se opor aos métodos disciplinares baseados em punição física. Próximo de Ralph Waldo Emerson, Thoreau tornou-se uma das principais vozes do transcendentalismo, corrente que valorizava a intuição, a espiritualidade e a reconexão entre o ser humano e a natureza. Sua obra mais conhecida, <em>Walden</em> (1854), transformou a experiência de vida simples em meio natural numa reflexão filosófica sobre liberdade, essencialidade e crítica à sociedade materialista.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Entre 1845 e 1847, Henry David Thoreau retirou-se para uma pequena cabana erguida por ele próprio nas proximidades do Lago Walden, em uma propriedade pertencente ao amigo Ralph. Mais do que um isolamento voluntário, a experiência representou uma tentativa concreta de experimentar uma vida simples, consciente e autônoma, reduzida ao indispensável. Dessa vivência nasceu <em>Walden</em>, obra que ultrapassou o relato autobiográfico, consolidando-se como um dos textos fundadores do pensamento ecológico moderno.</p>



<h2 id="h-walden-e-uma-obra-lirica-e-filosofica-que-analisa-temas-universais-envolvendo-a-busca-pelo-significado-a-autodeterminacao-a-autenticidade-e-a-essencialidade" class="wp-block-heading" style="font-size:18px"><em>Walden</em> é uma obra lírica e filosófica que analisa temas universais envolvendo a busca pelo significado, a autodeterminação, a autenticidade e a essencialidade.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Nela vemos descrições detalhadas da natureza e da relação do homem com seus ritmos e tempos, levando o leitor a questionar as prioridades e necessidades da vida moderna acelerada e sem sentido. O livro nos convoca a uma reflexão profunda: “o que seria ter uma existência e uma vida realmente plenas?” Nas palavras de Thoreau (2010, p. 9): “Não pretendo escrever uma ode à melancolia, e sim trombetear vigorosamente como um galo ao amanhecer, no alto de seu poleiro, quando menos para despertar meus vizinhos”.</p>



<h2 id="h-mesmo-separados-por-quase-dois-mil-anos-os-autores-assumem-estilos-fragmentarios-e-meditativos-muito-semelhantes" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Mesmo separados por quase dois mil anos, os autores assumem estilos fragmentários e meditativos muito semelhantes:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Thoreau escreve em primeira pessoa, em forma de relato das suas experiências e reflexões cotidianas; Sêneca escreve na terceira pessoa do singular e do plural, em forma epistolar e argumentativa, a partir de uma posição íntima, indiretamente (mas claramente) falando de si mesmo. Ambos se colocam dentro da narrativa, misturando filosofia, experiência e aconselhamento. Há um tom confessional e ensaístico muito forte nas duas obras. Em vez de construírem tratados sistemáticos, escrevem quase como quem conversa com o leitor, conduzindo-o a uma revisão da própria vida.</p>



<h2 id="h-ha-tambem-nas-duas-obras-uma-inquietacao-parecida-diante-do-excesso" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Há também nas duas obras uma inquietação parecida diante do excesso.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Sêneca observa homens que atravessam a vida ocupados demais para realmente vivê-la; sufocados por ambições, distrações, luxos e pela eterna sensação de que o tempo nunca basta. Henry David Thoreau enxerga algo semelhante na América industrializante, onde o trabalho incessante e o acúmulo transformam os indivíduos em estrangeiros de si mesmos. Em épocas distantes, ambos percebem a mesma ferida: uma humanidade tão absorvida pelo ruído do mundo que já não consegue ouvir a própria essência.</p>



<h2 id="h-tambem-se-encontram-na-defesa-de-uma-liberdade-interior-que-nasce-da-simplicidade" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Também se encontram na defesa de uma liberdade interior que nasce da simplicidade. </h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Para Sêneca, pertencer a si mesmo é talvez a maior forma de riqueza e para Thoreau, a verdadeira liberdade começa quando diminuímos as necessidades inventadas e reaprendemos a habitar o silêncio e a própria presença. Nesse sentido, <em>Sobre a Brevidade da Vida</em> e <em>Walden</em> antecipam muito do que seria incorporado pelo pensamento minimalista em meados do século XX. Ainda que separados por séculos, os dois textos convergem numa mesma recusa ao excesso, sugerindo que existe uma verdade escondida sob o acúmulo e que viver talvez represente um exercício de retirada dessas camadas de distração.</p>



<h2 id="h-muitas-das-reflexoes-de-seneca-e-thoreau-podem-ser-posicionadas-em-categorias-tematicas-proximas-de-alguns-conceitos-desenvolvidos-por-carl-g-jung" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Muitas das reflexões de Sêneca e Thoreau podem ser posicionadas em categorias temáticas próximas de alguns conceitos desenvolvidos por Carl G. Jung.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No entanto, para o psiquiatra suíço nascido no século XIX &#8211; que desenvolve grande parte de seus conceitos e ideias ao longo do século XX &#8211; o excesso deixa de ser apenas material, moral, estético, social ou econômico e passa a ser também psíquico. Para Jung, o excesso pode significar um caminho de afastamento do centro da psique, do Self, o núcleo mais profundo e autêntico da personalidade, isto é, da essência. Os papéis sociais, a produtividade, o consumo, a adaptação excessiva às exigências e aos valores coletivos fazem com que a essência se perca na aparência, sendo que esta última é implacável e insaciável em seus desejos e necessidades.</p>



<h2 id="h-jung-tambem-fala-da-pos-modernidade-como-produtora-de-individuos-inflados-de-exterioridade-e-carentes-de-sentido" class="wp-block-heading" style="font-size:20px">Jung também fala da pós-modernidade como produtora de indivíduos “inflados” de exterioridade e “carentes” de sentido.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O culto à eficiência e ao status, o distanciamento da natureza, do inconsciente, dos valores e símbolos da espiritualidade, o incentivo ao acúmulo material e o excesso de ruído psíquico acabam dando primazia e extrema importância ao ego, à persona e suas consequentes fragmentações e inflações:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ao analisarmos a persona, dissolvemos a máscara e descobrimos que, aparentando ser individual, ela é no fundo coletiva; em outras palavras, a persona não passa de uma máscara da psique coletiva. No fundo, nada tem de real; ela representa um compromisso entre o indivíduo e a sociedade, acerca daquilo que “alguém parece ser: nome, título, ocupação, isto ou aquilo”. De certo modo, tais dados são reais; mas, em relação à individualidade essencial da pessoa, representam algo de secundário, uma vez que resultam de um compromisso no qual outros podem ter uma quota maior do que a do indivíduo em questão. A persona é uma aparência, uma realidade bidimensional, como se poderia designá-la ironicamente (JUNG, 2014, p.246).</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O movimento oposto a essa cacofonia psíquica seria o envolvimento do sujeito com seu processo de individuação, isto é, a lenta reaproximação de sua essência através do exercício de escuta e troca com o inconsciente, normalmente colocados em prática a partir da observação dos sonhos, da contemplação, do silêncio, da vida simbólica, da espiritualidade e do contato com a natureza, com as artes, com a imaginação. Jung, através da famosa torre de Bollingen, que lembra, de certo modo, a cabana de Thoreau, promove uma retirada do excesso civilizatório da modernidade para que se abra espaço para um reencontro com a própria interioridade. Assim como Sêneca critica o homem consumido pelas ocupações e Thoreau denuncia a vida absorvida pelo acúmulo, Jung percebe o perigo de uma existência inteiramente organizada em torno da persona, isto é, da máscara social necessária, mas potencialmente alienante e vazia de sentido:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A questão decisiva para o homem é: ele está se colocando em relação com algo infinito ou não? Tal é o critério de sua vida. [&#8230;] Quanto mais o homem acentua uma falsa posse, menos pode sentir o essencial e tanto mais insatisfatória lhe parecerá a vida. Sente-se limitado porque suas intenções são cerceadas e disso resulta inveja e ciúme. Se compreendermos e sentirmos que já nesta vida temos uma ligação com o infinito, nossos desejos e atitudes se modificam. Em última análise, só valemos pelo essencial que encarnamos; e, se não acedemos a ele, a vida foi desperdiçada. (JUNG, 1978, p. 281).</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Sendo fiel à proposta inicial do artigo, isto é, a de não ser pessimista em relação à presença de movimentos que sejam capazes de contrastar a hegemonia do sistema capitalista contemporâneo, apresento algumas iniciativas e ideias que emergiram e que possuem suas fontes no movimento minimalista, isto é, vimos o que veio antes e agora veremos o que emergiu depois.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Na Roma Antiga, com Sêneca e o estoicismo; quase dois mil anos depois, no século XIX, com Thoreau e o transcendentalismo; e no século XX com o movimento minimalista, assistimos ao surgimento de vozes que defendiam uma vida mais simples e mais próxima da própria natureza. Já no século XXI, redescobrimos essa necessidade com novas roupagens. Das <em>tiny houses</em> ao minimalismo digital, do <em>slow living/food</em> à economia circular, multiplicam-se iniciativas que procuram reduzir o ruído do excesso, no entanto, gostaria de destacar um movimento intitulado <em>degrowth</em> (decrescimento), por identificar em seus princípios algumas possibilidades de expansão e continuidade dos ideais minimalistas.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><a>Serge Latouche (1940-), filósofo e economista francês, um dos principais divulgadores do movimento <em>degrowth</em> e autor de dois livros que se propõem a lançar as bases do movimento e de seus desdobramentos práticos – <em>Pequeno Tratado do Decrescimento Sereno</em> e <em>A Aposta pelo Decrescimento</em> – parte de uma crítica contundente à ideia de crescimento econômico ilimitado. Como afirma, “nosso crescimento econômico excessivo choca-se com os limites da finitude da biosfera (&#8230;) e a capacidade de regeneração da Terra já não consegue acompanhar a demanda” (LATOUCHE, 2009, p. 27). O autor relaciona ainda essa expansão à desigualdade na apropriação dos recursos naturais, apontando para a insustentabilidade tanto ecológica quanto social do modelo de crescimento.</a></p>



<h2 id="h-latouche-propoe-uma-sociedade-de-decrescimento-que-priorize-a-reducao-do-consumo-a-relocalizacao-da-producao-e-a-redefinicao-do-bem-estar-alem-dos-indicadores-de-produto-interno-bruto-pib" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Latouche propõe uma “sociedade de decrescimento” que priorize a redução do consumo, a relocalização da produção e a redefinição do bem-estar além dos indicadores de produto interno bruto (PIB).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O economista também desafia o paradigma dominante da economia de mercado e sugere uma reorganização dos valores culturais e econômicos. Sua obra é referência nos debates sobre sustentabilidade e economia ecológica, apresentando uma alternativa ao capitalismo globalizado e ampliando a discussão para os planos social e cultural quando levanta a ideia de uma sociedade baseada na suficiência e no abandono da obsessão pelo crescimento econômico vertical ilimitado.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Outros autores e obras sobre o movimento <em>degrowth</em> seriam importantes de serem citados, tais como, Tim Jackson, filósofo e economista ecológico, com seu livro <em>Prosperidade sem Crescimento: economia para um planeta finito</em>; George Kallis, economista ecológico e político, com sua obra <em>Decrescimento</em>; e Federico Demaria, economista ecológico e pesquisador, organizador, junto com Kallis, da obra <em>Decrescimento: vocabulário para um novo mundo</em><em>.</em> Todos os autores colaboram entre si e mantém um diálogo bastante profícuo sobre o tema, o que demonstra que muito tem sido produzido em termos de alternativas ao atual estado lamentável para o qual a frenética economia capitalista neoliberal e globalizada nos conduziu.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Logo abaixo, nas referências, será possível encontrar mais detalhes sobre as obras citadas acima. Leituras fortemente recomendadas, pois nos apresentam reflexões e evidências para aqueles que não acreditam na possibilidade de desaceleração da economia sem recessão. O que nos levanta outra questão fundamental: afinal, o que significa “recessão” quando a vida no planeta está ameaçada? O que significa “recessão” para uma terra exaurida e infértil? O que significa “recessão” para uma sociedade pautada pela desigualdade social e pelo acúmulo absurdo de bens e riquezas que permanecem concentrados nas mãos de uma assustadora minoria? Já estamos vivendo na tal “recessão” há, pelo menos, alguns séculos, se considerarmos os valores humanos e ecológicos, e não apenas os valores econômicos.</p>



<h2 id="h-sob-a-perspectiva-da-psicologia-analitica-de-jung-uma-crise-coletiva-nunca-e-apenas-uma-crise-das-instituicoes-sejam-elas-economicas-politicas-ou-sociais-ela-tambem-expressa-um-estado-da-psique-coletiva" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Sob a perspectiva da psicologia analítica de Jung, uma crise coletiva nunca é apenas uma crise das instituições, sejam elas econômicas, políticas ou sociais: ela também expressa um estado da psique coletiva.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A lógica do crescimento ilimitado, da acumulação sem fim e da busca incessante por expansão pode ser compreendida psicologicamente como uma manifestação da inflação do ego, isto é, da fantasia de autonomia absoluta que rompe seus vínculos com os limites da natureza, do corpo e da própria condição humana.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Concluo o presente artigo com mais perguntas do que respostas, porque, para que as alternativas sejam consideradas, é preciso, antes de tudo, questionar profundamente o modelo de crescimento econômico infinito, do tipo que pode chegar aos trilhões concentrados na mão de um único indivíduo. Somente uma economia baseada na total ausência de sentido de vida é capaz de produzir tamanha aberração, principalmente, quando este indivíduo declara já possuir “alternativas” para a vida fora do planeta Terra, mas que, infelizmente, todas elas serão apenas para os poucos milionários privilegiados, afinal, “para quem pode pagar, sempre haverá mundos”, propõem os capitalistas do século XXI (AMARAL, 2026).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/isacarvalho/" data-type="link" data-id="https://blog.ijep.com.br/author/isacarvalho/">Isa Carvalho &#8211; Membro Analista IJEP</a><strong> </strong>&nbsp; / &nbsp;</strong>isafvc@gmail.com</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/lilian/" data-type="link" data-id="https://blog.ijep.com.br/author/lilian/"><strong>Lilian Wurzba</strong> &#8211; <strong>Analista Didata IJEP</strong></a></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="📃Artigo novo: &quot;ENTRE O EXCESSO E A ESSÊNCIA: Reflexões sobre o que realmente conta&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/ImvkEonEH2w?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<h2 id="h-referencias" class="wp-block-heading" style="font-size:18px"><strong>REFERÊNCIAS:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">AMARAL, M. <em>Elon Musk: o trilionário extremista que quer apagar as estrelas do céu</em>. Revista Online Publica – <a href="https://apublica.org/2026/06/elon-musk-o-trilionario-extremista-que-quer-apagar-as-estrelas-do-ceu/">https://apublica.org/2026/06/elon-musk-o-trilionario-extremista-que-quer-apagar-as-estrelas-do-ceu/</a> &#8211; Acesso em : 19 de junho de 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph">D&#8217;ALISA, G.; DEMARIA, F.; KALLIS, G. (orgs.). <em>Decrescimento: vocabulário para um novo mundo</em>. Porto Alegre: Tomo Editorial, 2016.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JACKSON, T. <em>Prosperidade sem Crescimento: economia para um planeta finito</em>. São Paulo: Planeta Sustentável, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <em>Memórias, Sonhos e Reflexões</em>. 5.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1978.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>O eu e o inconsciente</em>. Petrópolis: Vozes, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">KALLIS, G. <em>Decrescimento</em>. São Paulo: Elefante, 2023.</p>



<p class="wp-block-paragraph">LATOUCHE, S. <em>Pequeno Tratado do Decrescimento Sereno</em>. São Paulo: Martins Fontes, 2009.</p>



<p class="wp-block-paragraph">SÊNECA, C. A. <em>Sobre a brevidade da vida; Sobre a firmeza do sábio</em>.São Paulo: Cia. das Letras, 2017.</p>



<p class="wp-block-paragraph">THOREAU, H. D. <em>Walden: A vida nos bosques.</em> Porto Alegre: L&amp;PM, 2010.</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref1" id="_ftn1">[1]</a> Ver <a href="https://www.institutojunguiano.com.br/congressosjunguianos">https://www.institutojunguiano.com.br/congressosjunguianos</a> &#8211; Palestra: “De repente deserto: a árida desumanização na busca incessante por mais”.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref2" id="_ftn2">[2]</a> Frase atribuída a Hipócrates, “Ars longa, vita brevis”.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Complexo de Cassandra: uma leitura sobre a endometriose</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/complexo-de-cassandra-uma-leitura-sobre-a-endometriose/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Michella Paula Cechinel Reis]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 25 Aug 2026 18:02:29 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mitologia e Símbolos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O presente ensaio é um convite à reflexão simbólica do Complexo de Cassandra e a endometriose. A narrativa mítica apresenta um contexto para pensar sobre os significados da histeria e fazer uma releitura desse diagnóstico de forma simbólica. Esse texto não se propõe a esgotar o tema, mas a aprofundar a reflexão acerca do descrédito do feminino e do enlouquecimento do feminino sob uma leitura arquetípica do complexo materno negativo.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>Resumo</strong>: <strong>O presente ensaio é um convite à reflexão simbólica do Complexo de Cassandra e a endometriose</strong>. A narrativa mítica apresenta um contexto para pensar sobre os significados da histeria e fazer uma releitura desse diagnóstico de forma simbólica. Esse texto não se propõe a esgotar o tema, mas a aprofundar a reflexão acerca do descrédito do feminino e do enlouquecimento do feminino sob uma leitura arquetípica do complexo materno negativo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Durante milhares de anos a condição chamada “histeria” foi documentada como uma condição médica. Muito embora tal condição tenha sido excluída dos manuais diagnósticos de doenças mentais, desde a criação do DSM III (Manual de Estatística e Diagnóstico das Doenças Mentais), sua importância continua se fazendo relevante nos dias de hoje.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há de se ter em mente que tal condição foi documentada sempre do ponto de vista médico na era patriarcal, sendo um diagnóstico com a intenção de diminuir as densidades emocionais femininas. Contudo, tal condição guarda em si um componente arquetípico que não deve ser ignorado. Esse ensaio se propõe a fazer uma leitura possível sobre a endometriose e o enlouquecimento do feminino a partir da análise do mito de Cassandra. A proposta é observar como o diagnóstico de histeria continua tendo valor no que tange a descrição sintomatológica e fazer uma releitura sobre suas características para a elaboração do feminino desacreditado.</p>



<h2 id="h-o-mito-de-cassandra-e-a-experiencia-do-descredito" class="wp-block-heading"><strong>O mito de Cassandra e a experiência do descrédito</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Inicialmente, analisaremos o mito de Cassandra, sob a perspectiva de Laurie Schapira:</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>“Cassandra foi uma das filhas de Príamo e de Hécuba, reis de Tróia. Um dia em que se achava no tempo de Apolo, o deus surgiu à sua frente e prometeu conceder-lhe o dom da profecia se ela concordasse em se deitar com ele. Cassandra aceitou o presente que o deus lhe oferecia, mas recusou-se a cumprir a sua parte no acordo.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Dizem que os favores divinos, uma vez concedidos, não podem ser tomados de volta. Apolo, então, implorou a Cassandra que lhe desse um beijo e, quando ela o fez, ele soprou-lhe a boca (segundo outras versões, cuspiu) condenando-a, desta forma, a que ninguém acreditasse em suas profecias.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Desde o início da guerra de Tróia, Cassandra vaticinou-lhe o triste fim – ninguém, porém, deu ouvidos às suas predições. Avisou que o cavalo de madeira servia de esconderijo para os gregos – os troianos não deram crédito às suas palavras. Era seu destino prever os desastres iminentes e nada poder fazer para evitá-los”.</em> SCHAPIRA (2018, p. 21, 22)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Depreende-se do relato mitológico que Cassandra era uma mulher inocente, praticamente juvenil. Pode-se especular que inicialmente tenha se sentido honrada de ser cortejada pelo deus Apolo, com suas promessas de torná-la uma de suas Pítias. Contudo, recebendo o dom da profecia, pode ter sentido o peso da responsabilidade do que estava oferecendo em troca. No mundo antigo não era possível dizer não a um deus. Pode-se dizer que o simples fato de Cassandra apresentar algum grau de ambivalência sentimental ao acordo e não sustentar essa dualidade interna entre a luz e a sombra foi o que de fato a levou ao quadro de histeria.</p>



<h2 id="h-complexo-materno-negativo-e-a-constituicao-psiquica-de-cassandra" class="wp-block-heading"><strong>Complexo materno negativo e a constituição psíquica de Cassandra</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Em realidade, a dualidade apresentada por Cassandra revela um complexo materno negativo, em que ela não é capaz de sustentar o peso da própria existência. Em algumas origens do mito, conta-se que Cassandra durante a festa foi dormir no templo de Apolo. Os pais, embriagados voltaram para casa sem ela, e posteriormente foi encontrada pelos pais com serpentes envoltas em si mesma. Tal relato, revela o descaso dos pais com relação à própria filha. Percebe-se na personalidade de Cassandra a dúvida em relação ao que ela mesma é capaz de suportar. Ela escolhe aceitar o dom da profecia, mas ao recebê-lo, não parece ser capaz de suportar as consequências de sua decisão. Falta-lhe o guia interno que é oferecido pelo materno.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ensina Jung, que o complexo é um conjunto associativo de experiências do indivíduo com tonalidades afetivas, no qual reside um núcleo arquetípico. O complexo materno é de suma importância, por ser o primeiro complexo a ser constituído. Quando nascemos somos indiferenciados com a mãe, sendo que conhecemos o mundo a partir dessa figura que cuida, alimenta e protege, na maioria das vezes assim deveria ser. No caso de Cassandra, parece se apresentar uma forma de complexo materno negativo intermediário. Tal complexo é descrito por Jung da seguinte forma:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px">
<p class="wp-block-paragraph"><em>“</em><em>Trata-se, nesse tipo intermediário, menos de uma exacerbação ou bloqueio dos instintos femininos do que uma defesa contra a supremacia da mãe que prevalece sobre o resto. Este caso é o exemplo típico do complexo materno negativo. Seu lema é: qualquer coisa menos ser como a mãe! Trata-se, por um lado, de um fascínio que, no entanto, nunca se torna uma identificação, e, por outro, de uma exacerbação do eros que se esgota, porém numa resistência ciumenta contra a mãe. Tal filha sabe tudo o que não quer, mas em geral <strong>não tem clareza acerca do que imagina ser seu próprio destino</strong>. Seus instintos concentram-se na mãe, sob a forma de defesa, <strong>não se prestando, pois, à construção de sua própria vida</strong>.</em> <em>Todos os processos e necessidades instintivos encontram dificuldades inesperadas; a sexualidade não funciona ou os filhos não são bem-vindos, ou os deveres maternos lhe parecem insuportáveis, ou ainda as exigências da vida conjugal são recebidas com irritação e impaciência. De certa forma, tudo isso não pertence às realidades essenciais da vida, uma vez que seu fim último é constituído unicamente pela defesa persistente contra o poder materno. Em tais casos, podemos ver em todos os seus detalhes os atributos do arquétipo materno. Por exemplo, a mãe enquanto família, ou clã, produz uma violenta resistência ou falta de interesse por tudo o que representa família, comunidade, sociedade, convenção etc. <strong>A resistência contra a mãe, enquanto uterus, manifesta-se muitas vezes através de distúrbios da menstruação</strong>, dificuldade de engravidar, horror da gravidez, hemorragias e vômitos durante a gravidez, partos prematuros etc. A mãe enquanto matéria provoca impaciência em relação ao objeto, desajeitamento na manipulação de ferramentas e louças, bem como mau gosto no vestir</em><em>.</em> <em>A partir da defesa contra a mãe verifica-se ocasionalmente um desenvolvimento <strong>espontâneo da inteligência, com o intuito de criar uma esfera em que a mãe não exista. Esse desenvolvimento resulta das necessidades próprias da filha e não visa homenagear um homem que ela queira impressionar, simulando uma camaradagem espiritual</strong>. O propósito é quebrar o poder da mãe através da crítica intelectual e cultura superior, de modo a mostrar-lhe toda a sua estupidez, seus erros lógicos e formação deficiente. O desenvolvimento intelectual é acompanhado de uma emergência de traços masculinos em geral.</em>” (JUNG, 2014, §§ 170, 171) (Grifos nossos)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">A partir das explicações de Jung, reflete-se que Cassandra, uma jovem que apresenta um complexo materno negativo, uma vez dotada do dom da profecia, manifesta uma desorientação diante das visões que a acometeram. Como Jung descreveu, ela não tem clareza acerca do próprio destino, e como não possui repertório afetivo, confunde a “camaradagem espiritual” e torna-se uma histérica neurótica.</p>



<h2 id="h-o-simbolo-do-vaso-o-feminino-ferido-e-a-histeria" class="wp-block-heading"><strong>O símbolo do vaso, o feminino ferido e a histeria</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Compreende-se que a figura do vaso, na alquimia é o recipiente no qual a experimentação aconteceria. O vaso, pode ser representação do feminino também. O útero, é o recipiente do qual emerge a vida. No complexo materno descrito por Jung, numa resistência contra a mãe, Cassandra apresentaria uma rachadura psíquica, em que seu útero seria ferido. Tal compreensão é consubstanciada pela sua recusa ao deitar-se simbolicamente com o masculino Apolo (deus da razão). Vê-se uma nítida desarticulação entre eros (a união) e o logos (a razão). Muito embora Cassandra apresente um desejo de tornar-se portadora da voz do deus (razão), ela não é capaz de articular a própria voz do feminino em si. Sendo assim, como descreve SCHAPIRA (2018, p. 22): “Era seu destino prever os desastres iminentes e nada poder fazer para evitá-los”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ainda sobre esse assunto, SCHAPIRA (2018, p. 23, 24), esclarece:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px">
<p class="wp-block-paragraph"><em>“No processo divinatório, sabia-se que a Pítia tornar-se-ia ‘entheos, plena deo’, o que significa que ‘o deus entraria dentro dela e usaria seus órgãos vocais como se a ele pertencessem’.</em> <em>Arquetipicamente, o “vaso” está associado ao feminino, a capacidade receptiva, ao útero. No aspecto pessoal, o vaso psicológico de uma mulher é o seu ego. Cassandra tinha um vaso frágil. Essa foi sua trágica falha. Ela não era virgem no sentido psicológico.</em></p>
</blockquote>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px">
<p class="wp-block-paragraph"><em>Cassandra, como as histéricas, faria qualquer coisa para ser amada. Disse não a Apolo, por ter sido essa a única forma que encontrou para sobreviver ante o esmagador poder do masculino. Infelizmente não foi capaz de repudiar Apolo de maneira mais consciente e direta, nem de enfrentar sua sombra voraz e misógina. Se o tivesse feito, teria reivindicado sua realidade feminina e defendido a virgindade que, eventualmente, lhe possibilitaria cumprir seu destino de vaso sagrado para o deus.”</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Ou seja, sua não integridade psíquica foi o que a levou de fato à loucura. O fato de não integrar a sombra do feminino ferido, a tornou indisponível para ligar-se eroticamente com a figura do masculino. Não possuindo as características necessárias para se direcionar, aprovar-se e ser honesta a si mesmo, negou a capacidade da intuição profética. Ao não suportar a tensão dual entre o saber do destino e o acreditar, tornou-se descreditada perante todos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para SCHAPIRO (2018, p. 60):</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px">
<p class="wp-block-paragraph"><em>“Cassandra personifica o conflito arquetípico entre os valores matriarcais e patriarcais, ambos pugnando pela supremacia e sem vínculo de Eros para uni-los. A histeria tem sido através dos tempos uma manifestação dessa ruptura psíquica. [&#8230;] Como vimos, a tragédia de Cassandra consubstanciou-se em sua incapacidade para realizar seu destino de Pítia, vaso sagrado para a profecia divina. Sob um enfoque psicológico, seu complexo materno negativo subverteu o desenvolvimento de um ego ligado à matriz do Self feminino. Devido a isso, Cassandra carecia de uma limitação feminina para o ego – com efeito: ela não tinha útero.”</em></p>
</blockquote>



<h2 id="h-histeria-utero-e-adoecimento-psicossomatico" class="wp-block-heading"><strong>Histeria, útero e adoecimento psicossomático</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Diferentemente do que prega Schapira, e apoiado na teoria Junguiana, defendemos que Cassandra tinha sim um útero. Prova-se que tinha pois foi capaz de receptar o dom da profecia. Contudo, o útero demasiado ferido por seu complexo materno, apresentou um adoecimento físico e psíquico. O adoecimento físico, é resultado de um processo psicossomático, em que a loucura se manifestou no corpo como um desvio de função uterina.</p>



<h2 id="h-sobre-o-conceito-de-histeria-ensina-schapiro-p-60-61" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Sobre o conceito de histeria, ensina SCHAPIRO (p. 60, 61):</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px">
<p class="wp-block-paragraph"><em>“Existe na verdade, uma tradição de quatro mil anos que considera a histeria como uma doença do útero. [&#8230;] Documentos médicos egípcios datam de 1900 a. C.; o mais antigo desses – o Papiro de Kahun – trata especificamente da histeria, que descreve como uma doença feminina, causada por “fome do útero ou por seu deslocamento ascendente, com a consequente compressão dos outros órgãos”.</em></p>
</blockquote>



<h2 id="h-os-gregos-aceitaram-essa-teoria-e-ate-batizaram-a-doenca-com-o-nome-de-hystera-que-significa-utero-eis-aqui-a-vivida-descricao-de-platao" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Os gregos aceitaram essa teoria e até batizaram a doença com o nome de <em>hystera,</em> que significa útero. Eis aqui a vívida descrição de Platão:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px">
<p class="wp-block-paragraph"><em>“No que denominamos útero ou matriz, existe uma criatura viva, dotada de grande desejo de procriar que, se não der frutos no seu tempo devido, irrita-se e sente-se lesada, passando a perambular por todo o corpo, impedindo a respiração por bloquear as vias respiratórias, causando à paciente extrema angústia e desencadeando um sem-número de distúrbios. ”</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">A endometriose é uma doença inflamatória crônica e benigna em que células semelhantes ao endométrio (tecido que reveste o interior do útero) crescem fora dele. Diante disso, vê-se que o que Platão relata como histeria, muito se assemelha ao conhecido hoje por endometriose.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pode-se compreender que Cassandra foi incapaz de receber Apolo sexualmente, mas que quando ele cospe em sua boca, e a amaldiçoa, ele também toma para si a voz dela. A representação do útero aqui se manifesta também no poder de proclamar as tragédias, manifestando o trauma de não poder controlá-los ou evitá-los. A voz de Cassandra foi tomada de tal forma que impossibilita que ela tenha controle sobre sua autoimagem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A endometriose, embora atualmente reconhecida como uma doença inflamatória crônica de elevada prevalência entre mulheres em idade reprodutiva, permanece marcada por longos períodos de subdiagnóstico, banalização da dor e descrédito das experiências narradas pelas pacientes. Esse fenômeno evidencia que o sofrimento decorrente da doença não se restringe aos seus aspectos orgânicos, mas é atravessado por construções históricas, sociais e culturais acerca do corpo feminino e de sua capacidade de expressar legitimamente o sofrimento. O adoecimento físico é resultado de um processo psicossomático, em que a loucura se manifestou no corpo como um desvio de função uterina.</p>



<h2 id="h-poder-corpo-e-descredito-do-sofrimento-feminino" class="wp-block-heading"><strong>Poder, corpo e descrédito do sofrimento feminino</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Nessa perspectiva, a contribuição de Michel Foucault possibilita compreender que as categorias de normalidade, doença e desvio são produzidas por regimes de saber e poder que organizam a forma como determinados discursos são reconhecidos ou desautorizados socialmente (FOUCAULT, 1978; FOUCAULT, 2006).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em História da Loucura, Foucault (1978) demonstra que a constituição da racionalidade moderna implicou a produção de mecanismos de exclusão de sujeitos cujas experiências não se adequavam aos critérios socialmente estabelecidos de verdade. Embora sua análise tenha como foco a construção histórica da loucura, suas reflexões permitem compreender processos mais amplos de invalidação discursiva, nos quais determinadas narrativas deixam de ser reconhecidas como legítimas em razão das relações de poder que sustentam o saber científico. Posteriormente, ao analisar a emergência do poder psiquiátrico, o autor evidencia que a medicina não apenas descreve os fenômenos do adoecimento, mas também produz formas de subjetivação, definindo quais discursos possuem autoridade para nomear o sofrimento e quais permanecem relegados à suspeita ou ao silêncio (FOUCAULT, 2006).</p>



<h2 id="h-essa-perspectiva-mostra-se-particularmente-relevante-para-a-compreensao-da-experiencia-vivida-por-mulheres-com-endometriose" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Essa perspectiva mostra-se particularmente relevante para a compreensão da experiência vivida por mulheres com endometriose.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Diversos estudos apontam que a dor feminina, sobretudo quando relacionada à saúde reprodutiva, historicamente foi interpretada como exagero, fragilidade emocional ou consequência natural da condição de ser mulher, contribuindo para atrasos diagnósticos que frequentemente ultrapassam vários anos. A persistente necessidade de reafirmar a realidade da própria dor diante de profissionais, familiares e instituições revela que o sofrimento produzido pela endometriose é também relacional, uma vez que decorre da constante deslegitimação da experiência subjetiva.</p>



<h2 id="h-a-experiencia-vivida-por-mulheres-com-endometriose-ultrapassa-os-limites-da-dimensao-biomedica-e-evidencia-a-interseccao-entre-corpo-subjetividade-e-construcoes-socioculturais" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">A experiência vivida por mulheres com endometriose ultrapassa os limites da dimensão biomédica e evidencia a intersecção entre corpo, subjetividade e construções socioculturais.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Embora a doença possua etiologia orgânica reconhecida, seu percurso diagnóstico frequentemente é marcado pela banalização da dor, pela demora na investigação clínica e pela recorrente deslegitimação da narrativa das pacientes. Tal realidade permite compreender que o sofrimento associado à endometriose não decorre exclusivamente das lesões endometriais, mas também das relações históricas de poder que determinaram quais corpos, sintomas e discursos seriam considerados legítimos no campo da saúde.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Michel Foucault (2011), ao analisar o surgimento da medicina moderna em <em>O nascimento da clínica</em>, demonstra que o saber médico não constitui apenas um instrumento de descrição objetiva da doença, mas um regime de produção da verdade sobre o corpo. O denominado &#8220;olhar clínico&#8221; reorganiza a experiência do adoecimento ao deslocar a autoridade interpretativa do sujeito para o especialista. Nesse processo, a narrativa da pessoa enferma tende a perder centralidade diante dos critérios objetivos estabelecidos pela racionalidade biomédica.</p>



<h2 id="h-essa-reflexao-mostra-se-particularmente-pertinente-para-compreender-a-experiencia-da-endometriose-uma-vez-que-inumeras-mulheres-relatam-anos-de-sofrimento-antes-que-sua-dor-seja-reconhecida-como-manifestacao-de-uma-condicao-clinica-legitima" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Essa reflexão mostra-se particularmente pertinente para compreender a experiência da endometriose, uma vez que inúmeras mulheres relatam anos de sofrimento antes que sua dor seja reconhecida como manifestação de uma condição clínica legítima.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse contexto, evidencia-se um paradoxo: enquanto os sintomas dolorosos são, muitas vezes, desacreditados ou negligenciados, a infertilidade tende a mobilizar a atenção da medicina reprodutiva, área que atualmente movimenta um mercado expressivo em torno do tratamento da infertilidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa análise é aprofundada quando <strong>Foucault</strong> (2017) discute a constituição do biopoder e das tecnologias disciplinares que incidem sobre os corpos. O corpo feminino passa a ocupar posição estratégica nas práticas de normalização, sobretudo por sua vinculação histórica à reprodução, à sexualidade e à maternidade. A medicina, nesse contexto, deixa de exercer apenas uma função terapêutica e passa igualmente a normatizar comportamentos, definir padrões de saúde e produzir discursos acerca do que significa ser uma mulher considerada saudável ou normal. A dor menstrual intensa, por exemplo, frequentemente foi interpretada como parte inerente da feminilidade, contribuindo para que manifestações compatíveis com a endometriose permanecessem invisibilizadas durante longos períodos históricos.</p>



<h2 id="h-essa-perspectiva-dialoga-diretamente-com-simone-de-beauvoir-2019-para-quem-a-experiencia-feminina-nao-decorre-exclusivamente-da-biologia-mas-da-construcao-historica-e-cultural-das-relacoes-de-genero" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Essa perspectiva dialoga diretamente com Simone de Beauvoir (2019), para quem a experiência feminina não decorre exclusivamente da biologia, mas da construção histórica e cultural das relações de gênero.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Ao afirmar que &#8220;não se nasce mulher: torna-se mulher&#8221;, Beauvoir evidencia que as formas de perceber, interpretar e expressar o próprio corpo são socialmente aprendidas. Sob essa ótica, a naturalização do sofrimento ginecológico integra um processo mais amplo de socialização feminina, no qual suportar a dor frequentemente é apresentado como atributo esperado das mulheres. A consequência é a produção de subjetividades que tendem a relativizar ou silenciar seus próprios sintomas, dificultando o reconhecimento do adoecimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Susan Bordo (1997), por sua vez, demonstra que o corpo feminino constitui um território privilegiado de inscrição das normas culturais. Em sua análise, as experiências corporais das mulheres são constantemente reguladas por expectativas sociais relacionadas ao controle, à produtividade, à aparência e à funcionalidade. A doença, especialmente quando produz dor crônica e limitações físicas, rompe esse ideal normativo e pode conduzir à desqualificação da experiência vivida. Assim, o sofrimento deixa de ser compreendido apenas como fenômeno biológico para tornar-se também uma experiência socialmente mediada, na qual o reconhecimento da dor depende das representações culturais acerca do corpo feminino.</p>



<h2 id="h-a-aproximacao-entre-cassandra-e-a-experiencia-da-endometriose-revela-significativa-potencia-simbolica" class="wp-block-heading" style="font-size:19px">A aproximação entre Cassandra e a experiência da endometriose revela significativa potência simbólica.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Muitas mulheres descrevem anos de peregrinação por diferentes serviços de saúde, repetindo narrativas sobre dores incapacitantes, infertilidade, fadiga ou alterações menstruais antes de receberem confirmação diagnóstica. Essa repetição produz uma experiência psíquica que ultrapassa a doença orgânica: instala-se a vivência de falar reiteradamente uma verdade corporal que permanece sem reconhecimento. Nessa perspectiva, o complexo de Cassandra deixa de representar apenas um fenômeno intrapsíquico para expressar também uma configuração relacional e cultural, na qual a invalidação sistemática da palavra feminina intensifica o sofrimento emocional.</p>



<h2 id="h-dessa-forma-o-complexo-de-cassandra-oferece-uma-importante-chave-interpretativa-sob-a-otica-da-psicologia-analitica" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Dessa forma, o complexo de Cassandra oferece uma importante chave interpretativa sob a ótica da Psicologia Analítica.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Derivado da narrativa mítica da princesa troiana condenada a prever acontecimentos verdadeiros sem jamais ser acreditada, o complexo simboliza a experiência psíquica de possuir uma percepção autêntica que encontra repetidamente descrédito no outro. Transposto para o contexto da endometriose, esse arquétipo expressa o sofrimento de mulheres que reconhecem a gravidade de seus sintomas, mas encontram sucessivas respostas de minimização, patologização ou invisibilização de sua experiência corporal. O núcleo do sofrimento deixa, assim, de residir exclusivamente na doença orgânica, passando a incluir a ruptura do reconhecimento do feminino interno.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A queda de Tróia, prevista por Cassandra, representa um momento histórico e mítico de profundas transformações nas relações entre povos e formas de organização social. Na tradição simbólica, Tróia pode ser compreendida como uma das últimas grandes referências de estruturas vinculadas ao imaginário matriarcal a sucumbir diante da consolidação das formas patriarcais de poder. Nesse contexto, é natural que Cassandra se torne um dos maiores arquétipos do descrédito do feminino, da mulher que sabe, vê e anuncia, mas cuja voz é sistematicamente desacreditada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa dinâmica alcança seu desdobramento mais emblemático no ciclo posterior da Casa de Atreu, culminando no julgamento de Orestes, filho de Clitemnestra e Agamenon. Ao matar a própria mãe para vingar o pai, Orestes torna-se protagonista de um dos episódios mais significativos da transição simbólica entre valores matriarcais e patriarcais na cultura grega. Contudo, essa é uma história que merece ser contada à parte. E será justamente ela o tema do próximo artigo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/michellacechinel/" data-type="link" data-id="https://blog.ijep.com.br/author/michellacechinel/">Me. Michella Paula Cechinel Reis – Membro Analista em Formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/paula-penas/" data-type="link" data-id="https://blog.ijep.com.br/author/paula-penas/">Paula de Azevedo Bernardi Peñas – Membro Analista em Formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/" data-type="link" data-id="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Dalvio Magaldi – Analista Didata e Diretora do IJEP</a></strong></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="📃Artigo novo: &quot;Complexo de Cassandra: uma leitura sobre a endometriose&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/4MLUlV2esw4?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<h2 id="h-referencias" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">BEAUVOIR, Simone de. <em>O segundo sexo: fatos e mitos</em>. 5. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2019. v. 1.</p>



<p class="wp-block-paragraph">BEAUVOIR, Simone de. <em>O segundo sexo: a experiência vivida</em>. 5. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2019. v. 2.</p>



<p class="wp-block-paragraph">BORDO, Susan. <em>O corpo e a reprodução da feminilidade: uma apropriação feminista de Foucault.</em> In: JAGGAR, Alison M.; BORDO, Susan R. (org.). Gênero, corpo, conhecimento. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1997.</p>



<p class="wp-block-paragraph">FOUCAULT, Michel. <em>História da loucura na Idade Clássica</em>. Tradução de José Teixeira Coelho Netto. São Paulo: Perspectiva, 1978.</p>



<p class="wp-block-paragraph">FOUCAULT, Michel. <em>O poder psiquiátrico: curso no Collège de France</em> (1973-1974). Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 2006.</p>



<p class="wp-block-paragraph">FOUCAULT, Michel. <em>O nascimento da clínica</em>. 7. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2011.</p>



<p class="wp-block-paragraph">FOUCAULT, Michel. <em>Microfísica do poder</em>. 30. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2017.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>Os arquétipos e o inconsciente coletivo</em>. 11.ed. Petrópolis: Vozes, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">SCHAPIRA, Laurie Layton. <em>O complexo de Cassandra: Histeria, descrédito e o resgate da intuição feminina no mundo moderno.</em> 2ª ed. São Paulo: Cultrix<em>,</em> 2018.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<item>
		<title>SINTOMAS, SINTO, MAS&#8230;</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/sintomas-sinto-mas/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Cristiane dos Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 18 Aug 2026 18:09:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicossomática]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[emoções]]></category>
		<category><![CDATA[jung]]></category>
		<category><![CDATA[medo de sentir]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
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		<category><![CDATA[sentimento]]></category>
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		<category><![CDATA[sintomas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por que temos tanta dificuldade em sentir? Por que somos condicionados a ocultar nossas emoções e sentimentos? Se o sintoma é a expressão visível do complexo, se é tão benéfico para o nosso aperfeiçoamento, por que o evitamos de forma tão hercúlea? Por que temos tanto medo de nos entregarmos a ele? Se ele é o condutor para o nosso inconsciente, por que rejeitamos esse tesouro? O que em nós, ou quem em nós resiste a esse chamado e nos impede de seguirmos a estrada rumo à nossa transformação interior?</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p><em>“Se é a razão que faz o homem, é o sentimento que o conduz.”</em> </p><cite>Jean-Jacques Rousseau</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Resumo</strong>: Por que temos tanta dificuldade em sentir? Por que somos condicionados a ocultar nossas emoções e sentimentos? Se o sintoma é a expressão visível do complexo, se é tão benéfico para o nosso aperfeiçoamento, por que o evitamos de forma tão hercúlea? Por que temos tanto medo de nos entregarmos a ele? Se ele é o condutor para o nosso inconsciente, por que rejeitamos esse tesouro? O que em nós, ou quem em nós resiste a esse chamado e nos impede de seguirmos a estrada rumo à nossa transformação interior?</p>



<h2 id="h-por-que-temos-tanta-dificuldade-em-sentir-por-que-somos-condicionados-a-ocultar-nossas-emocoes-e-sentimentos" class="wp-block-heading" style="font-size:18px"><strong>Por que temos tanta dificuldade em sentir? Por que somos condicionados a ocultar nossas emoções e sentimentos?</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Sintoma é uma palavra de origem grega <em>sýmptoma</em>, que significa &#8220;aquilo que cai junto&#8221; ou &#8220;o que ocorre junto com outra coisa, é uma sensação desagradável ou uma alteração no corpo físico ou na mente que gera desconforto.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A Psicologia Analítica, de Carl Gustav Jung, nos convida a ampliar esse significado, pois o sintoma, apesar de ser um sinal de desordem, tem como objetivo principal equilibrar a tensão existente na psique entre os conteúdos inconscientes e os conscientes, buscando a integração e a homeostase do sistema, o sintoma é, portanto, um desejo de “cura” e de transformação.</p>



<h2 id="h-a-psicossomatica-afirma-que-o-individuo-e-um-ser-biopsicosocioespiritual-em-que-todas-as-partes-estao-integradas-e-conectadas" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">A Psicossomática afirma que o indivíduo é um ser biopsicosocioespiritual, em que todas as partes estão integradas e conectadas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Essas esferas não podem ser separadas e quando há um desequilíbrio entre a consciência e o inconsciente, surge o sintoma, que poderá se manifestar em qualquer uma das partes, pois não há separação entre energia e a matéria, o psíquico e o somático e o corpo e o espírito.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>A consciência se desequilibra e isso se torna visível e palpável na forma de sintomas corporais e, para tanto, torna-se necessário apurarmos a escuta desse sintoma. A partir disso, podemos pensar a doença e a cura como refletindo estados de consciência. A doença seria a perda da harmonia ou de uma ordem até então conquistada e, nesse caso, a cura não seria a vitória sobre o sintoma, mas ela teria como pressuposto uma expansão da consciência, isto é, nossa própria busca da totalidade. (GUARNIERI, 2024, p. 4)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Escutar o sintoma é dar o primeiro passo rumo à transformação, para descobrir as feridas da alma e realinhar nossa conduta aos desígnios do Self, dando sentido e significado às nossas vidas.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando negamos ou reprimimos o sintoma, nós fornecemos mais força a ele, que oportunamente nos visitará com uma intensidade muito maior e mais perturbadora.</p>



<h2 id="h-como-diz-jung-2013-aquilo-que-meu-eu-recusa-e-algo-que-ameaca-sinistramente-controlar-minha-vida" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Como diz Jung (2013) “Aquilo que meu eu recusa é algo que ameaça sinistramente controlar minha vida.”</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O sintoma é como um símbolo que precisa ser decifrado e como símbolo, ele jamais poderá ser conhecido em sua plenitude, pois transcende as dimensões e possibilidades humanas.</p>



<h2 id="h-para-jung-2002-p-75-o-simbolo-e-a-expressao-sensoriamente-perceptivel-de-uma-vivencia-interior-e-a-expressao-do-enriquecimento-da-consciencia-atraves-da-vivencia" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Para Jung (2002, p.75), o “símbolo é a expressão sensoriamente perceptível de uma vivência interior” e a “expressão do enriquecimento da consciência através da vivência”.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-e-por-meio-do-simbolo-que-a-psique-consegue-se-manifestar-no-corpo-somatizar-permitindo-que-a-pessoa-perceba-atraves-do-sintoma-a-desordem-que-esta-ocorrendo-internamente" style="font-size:18px">É por meio do símbolo que a psique consegue se manifestar no corpo, &#8216;somatizar&#8217;, permitindo que a pessoa perceba, através do sintoma, a desordem que está ocorrendo internamente.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A simbologia de uma fratura no pé expressa muito mais do que uma lesão ortopédica, ela pode representar a falta de direcionamento na vida, um problema em criar vínculos, ou a dificuldade da pessoa se sustentar financeiramente ou emocionalmente.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A aterosclerose que cientificamente é o acúmulo de placas de gordura e inflamação nas artérias, simbolicamente pode querer demonstrar que a pessoa está muito rígida psicologicamente, ou que endureceu suas emoções ou que perdeu a flexibilidade na vida.</p>



<h2 id="h-uma-pessoa-que-so-se-relaciona-com-parceiros-agressivos-e-abusadores-pode-estar-repetindo-um-padrao-de-relacionamento-de-sua-familia-de-origem" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Uma pessoa que só se relaciona com parceiros agressivos e abusadores pode estar repetindo um padrão de relacionamento de sua família de origem.</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Enquanto o símbolo for a resposta verdadeira e, portanto, capaz de solucionar uma situação que lhe corresponda, ele é verdadeiro, válido, “absoluto”. Mas se a situação mudar e o símbolo continuar simplesmente perpetuado, ele nada mais é do que um ídolo que atua de modo empobrecedor ou embrutecedor, pois só age inconscientemente e não dá nenhuma explicação ou esclarecimento. (JUNG, 2002, p. 76)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O símbolo só terá a potência que carrega se a pessoa o vivenciar e permitir que ele exista, caso contrário, será só um signo ou um sinal e não auxiliará a pessoa no enriquecimento da consciência.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O sintoma tem uma linguagem peculiar e individual, por essa razão é imprescindível a análise de todos os aspectos da vida do indivíduo, pois suas condições físicas, mentais, emocionais, culturais, sociais e espirituais, estão totalmente interligadas e vão interferir na doença e na cura, pois ambas são faces de uma mesma moeda.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A contemporaneidade exige uma atividade muito intensa da consciência; como consequência, existe um risco considerável do indivíduo se distanciar do inconsciente, com isso, ele evita entrar em contato com o sintoma e procura através da medicalização o anestesiamento e a fuga do confronto.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Algumas pessoas buscam o refúgio no álcool, outras na comida ou no sexo, outras nas compras, no trabalho excessivo, ou nos jogos de azar, enfim, qualquer possibilidade que desvie o olhar do problema, sem perceberem que agindo desta maneira, estão aumentando cada vez mais o conflito e retardando o processo de autoconhecimento e desenvolvimento pessoal.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Hollis (1995) alega que os sintomas devem ser vistos como presentes, para que possamos reajustar a rota de nossas vidas e que devem ser bem recebidos, pois são um poderoso convite à renovação.</p>



<h2 id="h-jung-2013-afirma-que-os-complexos-possuem-energia-especifica-propria-e-sao-a-via-regia-que-nos-conduz-ao-inconsciente-atraves-dos-sonhos-e-dos-sintomas" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Jung (2013) afirma que os complexos possuem energia específica própria e são a <em>via regia</em> que nos conduz ao inconsciente, através dos sonhos e dos sintomas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Se o sintoma é a expressão visível do complexo, se é tão benéfico para o nosso aperfeiçoamento, por que o evitamos de forma tão hercúlea? Por que temos tanto medo de nos entregarmos a ele? Se ele é o condutor para o nosso inconsciente, por que rejeitamos esse tesouro?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O que em nós, ou quem em nós, resiste a esse chamado e nos impede de seguirmos a estrada rumo ao autoconhecimento e à transformação interior?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ao negligenciarmos o sintoma, aumentamos a possibilidade das situações exteriores desencadearem processos psíquicos, afetando certos conteúdos e, desta forma, ativando complexos, e toda vez que um complexo está constelado, isso implica em um estado perturbado de consciência.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>O complexo afetado vai se constelar, ou seja, ganhará uma estrutura de disponibilidade, expectativa e prontidão à reação, que se dará a partir dos parâmetros definidos por experiências anteriores. Quando isso se dá, o complexo se revitaliza e se atualiza, aglutinando o resultado desta nova experiência em torno de si. A partir deste mecanismo, o complexo assume uma espécie de magnetismo para vivências semelhantes, que envolvam a mesma temática. &nbsp;A cada repetição, ele se cronifica: ganha mais vigor e, mais robusto, é capaz de atrair novas experiências que o confirmem e o atualizem. (ANTONIOLI, 2024, p. 10)</em></p>
</blockquote>



<h2 id="h-as-seguintes-perguntas-nortearam-a-abertura-deste-texto-por-que-temos-tanta-dificuldade-em-sentir-por-que-somos-condicionados-a-ocultar-nossas-emocoes-e-sentimentos" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">As seguintes perguntas nortearam a abertura deste texto: Por que temos tanta dificuldade em sentir? Por que somos condicionados a ocultar nossas emoções e sentimentos?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Talvez o magnetismo do complexo seja uma das razões pelas quais lutamos tão arduamente para evitar encarar o sintoma e trilhar uma estrada diferente da habitual.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Talvez o <em>status quo</em>, caracterizado pela lei do mínimo esforço e pela busca do maior ganho com o menor investimento, ou simplesmente a estabilidade da zona de conforto façam com que o processo de autoconhecimento e autorrealização se torne tão moroso e desafiador.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Talvez a certeza de que tenhamos que tomar decisões que afetarão, direta ou indiretamente, nossas vidas e a vida de outras pessoas nos paralise.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Talvez o medo de nos depararmos com quem realmente somos seja o algoz dessa travessia, ou o medo de que os outros descubram a nossa real natureza, reconhecendo nossas fraquezas e tendências.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Talvez seja um pouco de tudo isso, ou nada disso, o que realmente importa é que precisamos dar voz aos nossos sentimentos e emoções e escutá-los com acolhimento e empatia, pois só assim poderemos nos sentir mais conectados e em harmonia conosco, com o outro e com o universo em que vivemos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>E você?</strong></p>



<h2 id="h-voce-tem-escutado-os-seus-sentimentos" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Você tem escutado os seus sentimentos?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Boa reflexão!</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/cristiane-santos/" data-type="link" data-id="https://blog.ijep.com.br/author/cristiane-santos/">Cristiane dos Santos &#8211; Analista Junguiana em formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/" data-type="link" data-id="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. Ercília Simone Magaldi &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 id="h-referencias" class="wp-block-heading" style="font-size:18px"><strong>REFERÊNCIAS:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">ANTONIOLI, Luciana. <em>Os Complexos e o Simbolismo do Adoecimento</em><em>. </em>Curso dePsicossomática, IJEP. São Paulo, 2024. Apostila de aula.</p>



<p class="wp-block-paragraph">GUARNIERI, Maria Cristina. <em>Introdução à Psicossomática</em>. Curso de Psicossomática, IJEP. São Paulo, 2024. Apostila de aula.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HOLLIS, James. <em>A Passagem do Meio:</em> da miséria ao significado na meia-idade. São Paulo: ed. Paulus, 1995.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>A Natureza da Psique.</em> 10.ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______<em>Cartas</em>; tradução Edgar Orth. 2.ed. Petrópolis: Vozes, 2002.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.google.com/search?q=sintoma+etimologia&amp;rlz=1C1GCEA_pt">https://www.google.com/search?q=sintoma+etimologia&amp;rlz=1C1GCEA_pt</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">ORIGEM DA PALAVRA. <em>Palavra sintoma</em>. 2012. Disponível em: &lt;https://origemdapalavra.com.br/palavras/sintoma/&gt;. Acesso em: 10 ago. 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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]]></content:encoded>
					
		
		
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		<title>Sobre o amor: Eros sobreviverá ao nosso medo dos vínculos</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/sobre-o-amor-eros-sobrevivera-ao-nosso-medo-dos-vinculos/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Pollyana de Padua]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 13 Aug 2026 17:07:27 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Amor]]></category>
		<category><![CDATA[Relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[amor]]></category>
		<category><![CDATA[amor e medo]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[cg jung]]></category>
		<category><![CDATA[eros]]></category>
		<category><![CDATA[jung]]></category>
		<category><![CDATA[paixão]]></category>
		<category><![CDATA[projeção]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[relacionamento]]></category>
		<category><![CDATA[relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[relações amorosas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Em uma contemporaneidade marcada pelo individualismo, pela lógica da produtividade e pelo excesso de controle racional sobre a vida, as relações amorosas parecem atravessar uma crise de indisponibilidade psíquica. Partindo da psicologia analítica de Carl Gustav Jung, este artigo propõe uma reflexão sobre o amor enquanto experiência de transformação e vulnerabilidade, investigando as dificuldades contemporâneas em sustentar vínculos afetivos profundos. A partir dos conceitos de projeção, Eros e Logos, discute-se como o apaixonamento pode funcionar como uma abertura para o inconsciente e para o autoconhecimento, ao mesmo tempo em que ameaça a fantasia moderna de autonomia absoluta. O texto também problematiza como o amor é algo constantemente adiado em nome de ideais de estabilidade e sucesso.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Resumo</strong>: Em uma contemporaneidade marcada pelo individualismo, pela lógica da produtividade e pelo excesso de controle racional sobre a vida, as relações amorosas parecem atravessar uma crise de indisponibilidade psíquica. Partindo da psicologia analítica de Carl Gustav Jung, este artigo propõe uma reflexão sobre o amor enquanto experiência de transformação e vulnerabilidade, investigando as dificuldades contemporâneas em sustentar vínculos afetivos profundos. A partir dos conceitos de projeção, Eros e Logos, discute-se como o apaixonamento pode funcionar como uma abertura para o inconsciente e para o autoconhecimento, ao mesmo tempo em que ameaça a fantasia moderna de autonomia absoluta. O texto também problematiza como o amor é algo constantemente adiado em nome de ideais de estabilidade e sucesso.</p>



<h2 id="h-falar-sobre-amor-na-contemporaneidade-talvez-seja-falar-justamente-sobre-aquilo-que-estamos-aprendendo-a-evitar" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Falar sobre amor na contemporaneidade talvez seja falar justamente sobre aquilo que estamos aprendendo a evitar.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Em pleno século XXI, nunca houve tantas possibilidades de conexão e, paradoxalmente, tanta dificuldade em sustentar vínculos profundos. O amor parece ter se tornado um risco alto demais para sujeitos treinados a sustentar uma persona de produtividade, capaz de gerir racionalmente a própria existência.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung, em sua época, já era procurado por várias pessoas porque não conseguiam manter o casamento. Com o passar do tempo, essa realidade ainda atormenta vários casais, apesar da flexibilização dos modelos de relação afetiva e dos avanços em relação à liberdade da mulher. É importante destacar que trata-se de uma reflexão dentro de um contexto brasileiro, onde a relação amorosa e o casamento entre pessoas do mesmo sexo estão garantidos por lei, além de existirem movimentos sociais consistentes contra a discriminação de pessoas LGBTQIAPN+, em favor da mulher e daqueles que motivam reflexões sobre relacionamentos monogâmicos, poliamorosos ou amores livres.</p>



<h2 id="h-entretanto-independentemente-da-configuracao-escolhida-para-viver-a-afetividade-algo-parece-atravessar-todas-elas-uma-crescente-indisponibilidade-psiquica-para-o-encontro-amoroso" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Entretanto, independentemente da configuração escolhida para viver a afetividade, algo parece atravessar todas elas: uma crescente indisponibilidade psíquica para o encontro amoroso.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Não se trata apenas da dificuldade em manter relações duradouras, mas da própria dificuldade em suportar aquilo que o amor inevitavelmente convoca — vulnerabilidade, ambiguidade, frustração, transformação e perda de controle.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Na verdade, independentemente da intenção individual em estabelecer um vínculo amoroso de longo prazo ou das opiniões coletivas, as pessoas parecem cada vez menos estarem disponíveis para um relacionamento romântico e para suas desventuras. Isto porque, num contexto de estresse profissional, demandas de ideias de felicidade e ideais estéticos, e um vício em redes sociais, sobra muito pouco tempo de qualidade para si e para o relacionar-se. Eros é colocado na gaveta como o melhor “custo-benefício” do que pode ser deixado para depois.</p>



<h2 id="h-vivemos-sob-a-logica-da-otimizacao-constante-otimizacao-do-tempo-do-corpo-da-carreira-das-emocoes-e-ate-dos-afetos-amar-porem-e-improdutivo" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Vivemos sob a lógica da otimização constante: otimização do tempo, do corpo, da carreira, das emoções e até dos afetos. Amar, porém, é improdutivo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O amor interrompe planejamentos, relativiza certezas e nos coloca diante do outro como alteridade radical — algo que escapa completamente à fantasia contemporânea de autonomia total.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A consequência são indivíduos intolerantes à diversidade e ao acaso, pessoas que controlam cada segundo de suas vidas, acreditando que lidar com os próprios desejos e com os desejos do outro é perda de tempo. E, neste controlar, neste deixar para depois o amor enquanto não se tem a “vida perfeita” e suas estabilidades fictícias nos aspectos profissionais e financeiros, os dias passam, a idade avança e a possibilidade de uma relação que favoreça o encontro com si-mesmo se esvai.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Talvez o grande paradoxo contemporâneo seja o fato de que nunca tivemos tanta liberdade para escolher nossos vínculos e, ainda assim, nunca estivemos tão amedrontados diante deles. Jung parte do princípio de que só podemos nos conhecer a partir do relacionar; “cumprimos” nosso papel se nos relacionarmos. A vida humana é uma relação interna e externa. O indivíduo se relaciona com a sociedade através da persona, mas também através da projeção.</p>



<h2 id="h-na-psicologia-analitica-nao-existe-processo-de-individuacao-sem-relacao" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Na psicologia analítica, não existe processo de individuação sem relação.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O sujeito só se conhece verdadeiramente ao encontrar aquilo que o desestabiliza no outro. Nesse sentido, o amor deixa de ser apenas uma experiência romântica e passa a ser também um fenômeno profundamente psicológico.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A projeção, que geralmente é vista no universo da psicologia analítica como um fenômeno negativo, é uma porta de entrada para o autoconhecimento. Projetamos no outro nossos aspectos inconscientes não integrados, tanto os bons quanto os ruins. Diz-se que o apaixonamento nada mais é do que uma projeção, como se isso fosse algo unicamente pejorativo. Entretanto, o apaixonamento inaugura uma abertura psíquica rara. Algo no outro nos captura porque toca dimensões adormecidas da nossa própria alma.</p>



<h2 id="h-como-um-bom-paradoxo-junguiano-o-apaixonar-se-e-uma-possibilidade-dupla" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Como um bom paradoxo junguiano, o apaixonar-se é uma possibilidade dupla.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Podemos “erroneamente” nos apaixonar por um indivíduo cujas características na verdade dizem muito mais respeito a nós do que ao outro, mas é também a partir deste “erro” que baixamos a guarda e nos tornamos vulneráveis. A partir de um “ponto-cego”, nos deixamos levar por afetos que nos tiram do controle, que fazem nosso coração acelerar, esquecendo compromissos de trabalho, nos fazendo criativos, sonhando acordado, escrevendo poemas e cartas de amor (ahhhh, as cartas de amor em outros idos…).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Talvez por isso o apaixonamento seja tão ameaçador para a subjetividade contemporânea. Apaixonar-se significa interromper momentaneamente a ilusão narcísica de autossuficiência. O sujeito apaixonado perde eficiência, distrai-se, torna-se permeável ao imprevisível. Há algo de profundamente anticapitalista na experiência amorosa.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O apaixonamento pode ser visto talvez como a última arma que resta ao inconsciente para conseguir dialogar com uma consciência unilateralizada, “dona de si”, totalmente voltada ao capitalismo, à produtividade e ao enriquecimento a qualquer custo.</p>



<h2 id="h-entretanto-jung-diferencia-claramente-paixao-e-amor" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Entretanto, Jung diferencia claramente paixão e amor.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A paixão inaugura o processo; o amor é aquilo que pode surgir depois da queda das idealizações. E qual seria então a segunda parte? Onde está o amor? O amor aparece no PROCESSO. Amor é processo! Ele surge se e somente se a primeira paixão, cheia de ilusões, se esvazia pela dura realidade das contradições, dos equívocos, dos maus humores e dos ruídos naturais de ser vivo e de estabelecer relação com o outro.</p>



<h2 id="h-e-somente-quando-o-outro-deixa-de-ser-fantasia-e-passa-a-existir-concretamente-com-limites-e-falhas-que-o-amor-pode-comecar" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">É somente quando o outro deixa de ser fantasia e passa a existir concretamente, com limites e falhas, que o amor pode começar.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Amar talvez seja sustentar a tensão entre aquilo que idealizamos e aquilo que o outro efetivamente é. E a relação surge aqui, com o famoso Eros. Eros, para a mitologia grega, e Cupido, dentro da mitologia romana, são personificações da imagem arquetípica das paixões e do impulso instintivo da procura pela relação afetiva.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Dentro da psicologia junguiana, Eros é o contraponto de Logos. “Eros” é o colocar-em-relação e “Logos”, o distinguir, o julgar, o reconhecer (JUNG, 2012, § 218). Mais do que conceitos abstratos, Eros e Logos representam modos fundamentais de estar no mundo. Logos organiza, separa, analisa e controla. Eros aproxima, vincula, mistura e transforma. Uma vida psíquica saudável depende da circulação entre essas duas forças.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Neste sentido, faz-se necessária uma vida que consiga ser pendular e agir dentro destes dois polos nas circunstâncias e situações que lhes cabem. Infelizmente, Eros é constantemente subjugado em detrimento da supremacia do Logos, como indicado no início deste texto.</p>



<h2 id="h-a-contemporaneidade-privilegia-sujeitos-altamente-funcionais-eficientes-e-estrategistas" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">A contemporaneidade privilegia sujeitos altamente funcionais, eficientes e estrategistas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O excesso de Logos produz indivíduos extremamente adaptados ao desempenho social, mas emocionalmente empobrecidos. Há pouco espaço para a demora, para o mistério e para a experiência subjetiva profunda.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Quero acrescentar que o logos só é ideal quando contém o eros; de outra forma o logos não é nada dinâmico. Um homem que é apenas logos pode ter um intelecto muito afiado, mas não é nada além de um racionalista árido, e o eros que não contém nenhum logos em si nunca entende coisa alguma, não há nada nele além de um cego apego. Essas pessoas podem estar ligadas a deus sabe o quê, como certas mulheres totalmente absorvidas por uma pequena família feliz — primos, parentes etc. — e em toda está maldita coisa não há nada, é tudo completamente vazio. (JUNG, Traumanalyse, 748, apud JUNG, 2005, p. 35)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Eros está mais para o tempo de Kairós e Logos mais para o tempo de Cronos, uma vez que as relações amorosas precisam de tempo para acertos e erros, desencontros, descobertas, conflitos e resoluções. O tempo do amor não é um tempo linear ou produtivo que tem uma meta precisa no final da jornada; o amor é a jornada. Talvez por isso tantas relações fracassem prematuramente: espera-se do amor eficiência emocional imediata. Ao primeiro conflito, silêncio ou frustração, interpreta-se a relação como “errada”. O sujeito contemporâneo parece cada vez menos preparado para sustentar a lentidão e os atravessamentos inevitáveis do vínculo amoroso.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Neste sentido, Eros também é fundamental para o despertar da vida anímica. Sem a capacidade de buscar este amor externo e sustentar seus desafios, parece quase impossível o surgimento de uma consciência capaz de sustentar o paradoxo de, primeiro, não ser o único dono da casa psíquica, e, em segundo, se relacionar com figuras como sombra, complexos e animus e anima, sendo estes últimos os grandes elementos projetados dentro de uma relação romântica.</p>



<h2 id="h-controlar-o-amor-talvez-seja-uma-tentativa-desesperada-de-evitar-sofrimento-psiquico" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Controlar o amor talvez seja uma tentativa desesperada de evitar sofrimento psíquico. </h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Controlamos porque temos medo da perda, da rejeição, da dependência, do abandono e, principalmente, do desconhecido que emerge em nós quando entramos verdadeiramente na relação. A relação amorosa confronta o ego com seus limites. O outro não corresponde exatamente às nossas expectativas, não sente quando queremos, não deseja como desejamos. Eros constantemente frustra a fantasia de controle absoluto da consciência.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Como sustentar a oposição abismante entre ego/persona e sombra se não consigo ainda lidar com as projeções e contradições do encontro com outros indivíduos? Quem dirá sustentar a relação com animus e anima, que é pura sedução, que faz uma força contra a vontade do ego e o “tudo saber” da consciência? Por isso, tantas relações contemporâneas tornam-se excessivamente negociadas, racionalizadas e monitoradas. Busca-se prever tudo: intenções, sentimentos, respostas, fidelidade, futuro.</p>



<h2 id="h-contudo-quanto-mais-o-amor-e-submetido-a-logica-do-controle-menos-espaco-resta-para-eros" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Contudo, quanto mais o amor é submetido à lógica do controle, menos espaço resta para Eros.</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>O modo de apetecer é tão importante porque confere ao objeto a qualidade estética e moral do bom e do belo e com isto influencia profundamente nosso relacionamento com os outros e com o mundo. A natureza é bela porque eu a amo, e bom é tudo aquilo que meu sentimento considera “bom”. Os valores se originam sobretudo do tipo de reação subjetiva. Com isto não negamos a existência dos assim chamados valores “objetivos”. Mas estes são válidos graças a um consenso geral. No domínio do Eros, torna-se bem claro quão pouco vale o objeto e quanto vale o ato subjetivo. (JUNG, 2013, §126)</em></p>
</blockquote>



<h2 id="h-a-questao-talvez-nao-seja-evitar-a-projecao-mas-atravessa-la-conscientemente" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">A questão talvez não seja evitar a projeção, mas atravessá-la conscientemente.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Não existe encontro amoroso sem algum grau de ilusão inicial. A projeção é inevitável porque enxergamos o outro também através das imagens internas que carregamos. O perigo não está em projetar, mas em permanecer aprisionado eternamente à fantasia sem aceitar a realidade concreta da relação. O amadurecimento amoroso exige a dolorosa retirada das projeções. Aquilo que amamos revela menos o objeto amado e mais nossa própria forma de desejar o mundo. O amor é também um espelho da alma. Neste sentido, negar Eros em nome de uma vida completamente racional talvez seja negar uma dimensão essencial da experiência humana: “Eros não é a totalidade em nós, mas é pelo menos um dos seus aspectos principais” (JUNG, 2014, §33).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Talvez a grande pergunta do nosso tempo não seja mais “o que é o amor?”, mas sim: “ainda conseguimos suportá-lo?” Eros exige disponibilidade psíquica, tempo, vulnerabilidade e capacidade de transformação. Ele ameaça o ego porque rompe a ilusão de controle absoluto sobre si e sobre a vida. Amar implica aceitar que não somos inteiramente senhores da própria casa psíquica.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Talvez o desafio contemporâneo seja justamente o de recuperar uma forma de relação que não seja nem pura racionalização defensiva, nem pura fusão inconsciente. Um amor capaz de suportar paradoxos, diferenças e imperfeições. No fim, Eros talvez sobreviva apenas naqueles que ainda conseguem se arriscar ao encontro.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/pollyana-guilhermino-de-padua/">Pollyana Guilhermino de Pádua &#8211; Membro Analista em Formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/" data-type="link" data-id="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra E. Simone Magaldi &#8211; Analista Didata  IJEP</a></strong></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="📃Artigo novo: &quot;Sobre o amor: Eros sobreviverá ao nosso medo dos vínculos&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/nml-sjNVVcY?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<h2 id="h-r-eferencias" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><strong>R</strong>eferências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>Sobre o amor</em>. Tradução de Inês Antonia Lohbauer. Aparecida: Ideias &amp; Letras, 2005.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>Mysterium coniunctionis</em>: pesquisas sobre a separação e a composição dos opostos psíquicos na alquimia. 6. ed.&nbsp; Petrópolis: Vozes, 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>Símbolos da transformação. </em>Análise dos prelúdios de uma esquizofrenia. 9. ed.&nbsp; Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______<em>Psicologia do inconsciente</em>. 24. ed. Petrópolis: Vozes, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<title>Uma leitura simbólica e alquímica do saneamento básico no Brasil</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/uma-leitura-simbolica-e-alquimica-do-saneamento-basico-no-brasil/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Paula Borba dos Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 10 Aug 2026 18:44:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ecologia]]></category>
		<category><![CDATA[Meio ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[água]]></category>
		<category><![CDATA[alquimia]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[ecologia]]></category>
		<category><![CDATA[esgoto]]></category>
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		<category><![CDATA[jung]]></category>
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		<category><![CDATA[nigredo]]></category>
		<category><![CDATA[prima materia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[saneamento básico]]></category>
		<category><![CDATA[saúde]]></category>
		<category><![CDATA[segurança]]></category>
		<category><![CDATA[simbologia do esgoto]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.ijep.com.br/?p=13699</guid>

					<description><![CDATA[<p>Este ensaio propõe uma leitura simbólica e alquímica do saneamento básico no Brasil a partir da psicologia analítica. Articulando dados da crise sanitária brasileira com conceitos de Jung, Hillman, Bauman, Mbembe e Nego Bispo, o texto compreende água, resíduo sólidos, esgoto e drenagem de água pluvial como imagens da psique coletiva. A reflexão discute temas como sombra, inconsciente coletivo, colonialidade, higienismo psíquico e transformação, propondo a “confluência básica” como ética simbólica de integração e ampliação da consciência coletiva.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>Resumo</strong>: Este ensaio propõe uma leitura simbólica e alquímica do saneamento básico no Brasil a partir da psicologia analítica. Articulando dados da crise sanitária brasileira com conceitos de Jung, Hillman, Bauman, Mbembe e Nego Bispo, o texto compreende água, resíduo sólidos, esgoto e drenagem de água pluvial como imagens da psique coletiva. A reflexão discute temas como sombra, inconsciente coletivo, colonialidade, higienismo psíquico e transformação, propondo a “confluência básica” como ética simbólica de integração e ampliação da consciência coletiva.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A escolha deste tema nasceu de uma experiência profundamente afetiva. Durante minha visita à exposição<em> A alma humana, você e o universo de Jung,</em> em São Paulo, fui surpreendida pela mostra Água, do fotógrafo Érico Hiller, que também estava em exposição no MIS. Suas fotografias, através de diferentes culturas e paisagens, evidenciam a água como força essencial que entrelaça espaços, existências e narrativas coletivas e subjetivas. No entanto, mais do que sua potência de vida, aquelas imagens também evocavam sua ausência: a aridez da pele, da terra e da existência quando privadas desse recurso essencial. Foi nesse atravessamento que fui provocada ao ler, nas paredes da exposição, a expressão “saneamento básico”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em um ano eleitoral, pareceu-me oportuno investigar o saneamento básico no Brasil à luz da psicologia analítica, a partir de uma lente simbólica e alquímica. Tornou-se fundamental a pergunta: o que as condições sanitárias do nosso país revelam sobre sua psique coletiva? Este artigo nasce, assim, do encontro entre imagem, símbolo e realidade histórica e social. Uma tentativa de compreender como as águas e os resíduos externos e internos de uma sociedade podem refletir seu próprio processo de individuação.</p>



<h2 id="h-o-saneamento-no-brasil-e-basico" class="wp-block-heading"><strong>O saneamento, no Brasil, é básico?</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Para iniciar essa reflexão, é importante destacar que, segundo a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), o saneamento básico corresponde ao “conjunto de serviços públicos, infraestruturas e instalações operacionais de abastecimento de água potável, limpeza urbana e manejo de resíduos sólidos, drenagem e manejo das águas pluviais urbanas”. Em uma perspectiva mais ampla, o conceito amplamente aceito internacionalmente “situa-se na interseção entre infraestrutura, saúde pública, meio ambiente e direitos humanos. [&#8230;] Deixou de ser entendido como um conjunto de obras de engenharia para tornar-se um sistema integrado de proteção à vida, à dignidade e ao planeta”. (PEREIRA, 2026, p. 5)</p>



<h2 id="h-apesar-de-ser-um-direito-garantido-pela-constituicao-federal-desde-1988-o-brasil-possui-estatisticas-desanimadoras-quando-o-tema-e-saneamento-basico" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Apesar de ser um direito garantido pela Constituição Federal desde 1988, o Brasil possui estatísticas desanimadoras quando o tema é saneamento básico.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O Estudo de Perdas de Água 2025 (SINISA, 2023), aponta que <strong>o país desperdiça 40,31% da água tratada antes mesmo que ela chegue às torneiras</strong>, o que poderia abastecer cerca de 50 milhões de pessoas por ano. Além disso, o Ranking do Saneamento 2026,<a href="#_ftn1" id="_ftnref1">[1]</a> apresenta os seguintes dados:</p>



<ul class="wp-block-list">
<li>Cerca de <strong>90 milhões de pessoas</strong> <strong>vivem sem coleta de esgoto, </strong>o que representa cerca de 43% da população brasileira.</li>



<li>Entre os <strong>100 municípios avaliados</strong>, os <strong>20 piores</strong>, <strong>concentrados no</strong> <strong>Norte e Nordeste</strong><strong>, possuem apenas</strong> <strong>28,06% de cobertura de esgoto</strong>, cerca de <strong>70 pontos percentuais a menos</strong>que os<strong>20 melhores</strong><strong>.</strong></li>



<li>Aproximadamente, <strong>32 milhões de brasileiros consomem água sem tratamento adequado</strong>.</li>
</ul>



<p class="wp-block-paragraph">Ao analisar esse cenário, percebe-se que refletir sobre o saneamento básico no Brasil significa, antes de tudo, expor as profundas desigualdades e violências históricas que constituíram e ainda se fazem presentes em nosso país. Seus indicadores revelam uma nação marcada por contrastes severos, convocando-nos a pensar sobre saúde, dignidade, pertencimento, excessos, faltas e sobre a maneira como cuidamos (ou negligenciamos) dos recursos mais essenciais à preservação da vida humana.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Neste contexto, emerge uma dimensão política profundamente inquietante, que pode ser compreendida à luz da necropolítica proposta por Achille Mbembe. O autor apresenta a noção de “guerra infraestrutural”, na qual o controle desigual sobre recursos essenciais pode funcionar como mecanismo de subjugação social, produzindo condições de vulnerabilidade extrema e verdadeiros “mundos de morte”. Sob essa perspectiva, a precarização ou negligência das políticas sanitárias pode ser interpretada como expressão estrutural de desigualdades históricas que ainda submetem parcelas significativas da população brasileira a condições degradantes de existência (MBEMBE, 2018, p. 36-48).</p>



<h2 id="h-um-olhar-simbolico-para-o-saneamento-basico" class="wp-block-heading"><strong>Um olhar simbólico para o saneamento básico</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">A palavra saneamento deriva do latim <em>“sanus”,</em> cuja tradução remete a “sadio” ou “em bom estado de saúde”. Em sua acepção mais direta, sanear corresponde ao processo de restaurar, purificar ou promover condições saudáveis. Sob uma perspectiva simbólica, poderíamos pensar que o espírito da época nos conduz a uma noção higienista de saúde psíquica: uma tentativa constante de manter-se limpo, organizado e distante dos próprios resíduos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao ampliar simbólica e imageticamente, a <strong>água</strong> pode representar a essência da vida, nosso encontro com a alma e é, ao mesmo tempo, o que nos une à natureza e, portanto, com sua beleza e finitude<strong>.</strong> Segundo o Dicionário de Símbolos, “as significações simbólicas da água podem ser reduzidas a três temas dominantes: fonte de vida, meio de purificação e centro de regeneração.” (CHEVALIER, 2015, p.15)</p>



<h2 id="h-o-simbolo-do-esgoto-se-conecta-com-os-aspectos-sombrios-mais-viscerais-e-instintivos" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">O símbolo do <strong>esgoto </strong>se conecta com os aspectos sombrios mais viscerais e instintivos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A imagem da rede de esgoto pode ilustrar como os conteúdos psíquicos rejeitados – individuais, familiares e coletivos – se encontram pelos dutos subterrâneos do inconsciente.  A partir daí, quando há tratamento e elaboração, aquilo que era rejeito pode transmutar-se em recurso, fertilidade e renovação da vida. Sem esse processo, porém, o que permanece oculto infiltra-se silenciosamente, contaminando o solo psíquico e causando doenças.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O contínuo e alarmante aumento dos<strong> resíduos sólidos </strong>oferece uma imagem relevante: a sustentação da persona bem adaptada à sociedade contemporânea, marcada pelo consumo excessivo. Na modernidade líquida descrita por Bauman, consumir tornou-se, muitas vezes, uma forma de pertencimento e reconhecimento social, ainda que isso implique a produção contínua de rejeitos. Psiquicamente, esse movimento pode ser associado ao desejo de afastamento da sombra e, consequentemente, de seu potencial transformador.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A <strong>drenagem pluvial</strong>, na concretude, visa evitar inundações e alagamentos. Diante disso, pode-se pensar que só é preciso drenar, porque o solo é impermeável.&nbsp; Simbolicamente, pode revelar uma consciência rigidamente estruturada, na qual o ego tenta proteger-se do contato com o inconsciente. Isso gera, a longo prazo, uma pressão insustentável, resultando em &#8220;inundações&#8221; catastróficas, literais e simbólicas.</p>



<h2 id="h-a-agua-como-prima-materia" class="wp-block-heading"><strong>A água como <em>prima matéria</em></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">No saneamento, a água também revela sua multiplicidade, fazendo-se presente em diferentes momentos e sob diversas formas: inicialmente como água potável; no esgoto, como água putreficada; no lixo, na forma de chorume; e, ao cair do céu como chuva, sendo drenada e retornando aos rios ou ao mar. &nbsp;Da mesma forma, em seus estudos alquímicos, Jung observou que tanto para a alquimia quanto para a psicologia, este elemento é poderoso e com elevado potencial de transformação:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">Como a &#8220;prima matéria&#8221;<em> a água tem mil nomes; <a>diz-se</a> mesmo que ela é o material original da pedra. Apesar disto, por outro lado se <a>afirma</a> que a água é extraída da pedra ou da ‘prima matéria’ como sua alma vivificadora (anima), <a>[&#8230;]</a> mas ao mesmo tempo é o seu solvente.”</em> <em>(JUNG, 2012a, p. 249-251).</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Em termos estatísticos, o desperdício de água potável no Brasil está relacionado a problemas estruturais no sistema de distribuição. Portanto, esses números não incluem o desperdício decorrente do uso inadequado por parte da população. Sob uma perspectiva alquímica, tais dados podem revelar um profundo descaso com a matéria-prima, indicando não apenas uma falha de infraestrutura, mas também uma ausência de compromisso ético e simbólico com aquilo que sustenta a vida. Coletivamente, parecemos distantes da reverência que os alquimistas projetavam sobre a matéria. Talvez isso ocorra porque ainda não fomos capazes de reconhecer, na própria água, o potencial de transformação contido na Pedra Filosofal.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Além disso, ao pensarmos a água como imagem do inconsciente, os índices de desperdício também podem revelar o modo como nossa sociedade se relaciona com a própria vida psíquica. Assim como desperdiçamos água potável, parecemos desperdiçar nossa capacidade de simbolizar e de entrar em contato com as dimensões mais profundas da existência. O inconsciente, muitas vezes, permanece negligenciado ou subestimado, o que Jung considerou uma “omissão de graves consequências”, pois impede a adaptação ao mundo interior. (JUNG, 2015, p.95)</p>



<h2 id="h-a-psique-coletiva-brasileira-colonialidade-sombra-e-nigredo" class="wp-block-heading"><strong>A psique coletiva brasileira: colonialidade, sombra e <em>Nigredo</em></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Ao pensarmos nos números alarmantes em relação ao esgoto do país, pode-se simbolicamente pensar aspectos da fase da <em>nigredo</em>, considerada o estágio inicial e a base fundamental da obra alquímica. Psicologicamente, Jung a identifica como o encontro com a sombra e Hillman a descreve como um estado necessário de &#8220;morte&#8221; e desconstrução do literalismo. &nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><em>A inconsciência original, ainda meio animal, era conhecida ao adepto como nigredo (negrura), caos, massa confusa e com um entrelaçamento difícil de desfazer entre alma e corpo, com o qual ela forma uma unidade sombria (unio naturalis). Justamente dessas cadeias queria ele libertá-la pela separatio (separação) e estabelecer uma posição contrária de natureza psíquico-anímica, isto é uma compreensão consciente e conforme à razão, que se apresentasse como superior às influências do copo. (JUNG, 2012b, p. 302).</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez a psique coletiva brasileira ainda atravesse uma longa <em>nigredo,</em> estágio alquímico marcado pelo confronto com a decomposição, a sombra e a transformação. Sob essa perspectiva, os componentes do saneamento básico podem ser compreendidos como imagens simbólicas dos aspectos psíquicos que permanecem desprezados em nossa realidade coletiva. Como nação, talvez ainda estejamos imersos em um lento processo de elaboração desse material sombrio.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;Arriscaria dizer que isso, possivelmente, tem relação com o fato de que o vaso alquímico brasileiro ainda não possui um fechamento hermético. Sabe-se que esse é um dos símbolos mais fundamentais e misteriosos da alquimia, representando o lugar onde a alma é trabalhada e transformada. Portanto, somos um povo que está acertando as contas diante de tantas violações sofridas.&nbsp; A hipótese que aqui levanto para reflexão simbólica é revelar uma nação lidando com a constelação de complexos culturais diretamente ligados à invasão colonial, que provocou marcas profundas na alma brasileira.</p>



<h2 id="h-confluencia-como-etica-de-transformacao" class="wp-block-heading"><strong>Confluência como ética de transformação</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph"> A partir da psicologia analítica, este texto se propôs a realizar uma leitura, entre tantas outras possíveis, buscando denunciar a crise sanitária atual e promovendo uma reflexão através de provocações imagéticas.  Como forma de sustentar o paradoxo, proponho: E se o desafio não for apenas sanear, mas aprender a confluir? É nesse ponto que a reflexão de <strong>Nego Bispo</strong> amplia profundamente esta discussão:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><em>A confluência é a energia que está nos movendo para o compartilhamento, para o reconhecimento, para o respeito. Um rio não deixa de ser um rio porque conflui com outro rio, ao contrário, ele passa a ser ele mesmo e outros rios, ele se fortalece. Quando a gente confluência, a gente não deixa de ser a gente, a gente passa a ser a gente e outra gente – a gente rende. A confluência é uma força que rende, que aumenta, que amplia. (BISPO, 2015, p. 15)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">A proposta de “Confluência Básica” amplia o debate para além da lógica corretiva ou higienista, propondo uma ética do encontro, compartilhamento e integração. Talvez assim, tenhamos um Brasil mais digno e humano com seus filhos, sem esgotos a céu aberto e com acesso garantido à água potável.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/paula-borba-dos-santos/"><strong>Paula Borba dos Santos &#8211; Analista em formação</strong> <strong>IJEP</strong></a> / <em>paula_borba@hotmail.com</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/mgloriagmiranda/"><strong><strong>Maria da Glória G. de Miranda</strong></strong> &#8211; <strong>Analista Didata</strong> <strong>IJEP</strong></a></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: Uma leitura simbólica e alquímica do saneamento básico no Brasil" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/srR2Xj9BqB0?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<h2 id="h-referencias" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><strong>Referências:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">AGÊNCIA NACIONAL DE ÁGUAS E SANEAMENTO BÁSICO (ANA<em>).<strong> Águas no Brasil</strong></em>. Brasília, DF: ANA, [s.d.]. Disponível em: <a href="https://www.gov.br/ana/pt-br/aguas-no-brasil?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="noreferrer noopener">https://www.gov.br/ana/pt-br/aguas-no-brasil</a>. Acesso em: 08 maio 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph">BATISTA, Mônica. <strong>Manual do Saneamento Básico</strong>. TecnoBlog, 2026. Disponível em: <a href="https://tratabrasil.org.br/wp-content/uploads/2022/09/manual-imprensa.pdf">https://tratabrasil.org.br/wp-content/uploads/2022/09/manual-imprensa.pdf</a>. Acesso em 11 de maio de 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph">BAUMAN, Zygmunt. <strong>Vidas desperdiçadas.</strong> E-book. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.</p>



<p class="wp-block-paragraph">SANTOS, Antônio Bispo dos.&nbsp;<strong>Colonização, Quilombos: modos e significações.</strong> Brasília:&nbsp;<a href="http://cga.libertar.org/wp-content/uploads/2017/07/BISPO-Antonio.-Colonizacao_Quilombos.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">INCT de Inclusão / UnB</a>, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph">CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. <strong>Dicionário de símbolos</strong>. Rio de Janeiro, José Olympio, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HILLER, Érico. <strong>Água</strong>. São Paulo: Museu da Imagem e do Som (MIS), 2025. Disponível em: <a href="https://mis-sp.org.br/exposicao/agua-de-erico-hiller/?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="noreferrer noopener">https://mis-sp.org.br/exposicao/agua-de-erico-hiller/</a>. Acesso em: 11 maio 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HILLMAN, James. <strong>Psicologia Alquímica.</strong> Petrópolis, Vozes, 2011.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HIRATA, Ricardo Alvarenga. <strong>O rio da alma: reflexões da ecologia arquetípica sobre o complexo cultural paulistano</strong>. Boletim de Psicologia, São Paulo, v. 57, n. 127, p. 195-214, dez. 2007</p>



<p class="wp-block-paragraph">INSTITUTO TRATA BRASIL. <strong>Ranking do Saneamento 2026</strong>. São Paulo: Instituto Trata Brasil, 2026. Disponível em: <a href="https://tratabrasil.org.br/ranking-do-saneamento/?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="noreferrer noopener">https://tratabrasil.org.br/ranking-do-saneamento/</a>. Acesso em: 11 maio 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <strong>Psicologia e Alquimia. </strong>6ª. ed. – Petrópolis, Vozes, 2012a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">_____, Carl Gustav.&nbsp; <strong>Mysterium Coniunctionis 2,&nbsp; </strong>3ª. ed. – Petrópolis, Vozes, 2012b.</p>



<p class="wp-block-paragraph">_____, Carl Gustav.&nbsp; <strong>A natureza da Psique.&nbsp; </strong>10ª. ed. – Petrópolis, Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">_____, Carl Gustav.&nbsp; <strong>O eu e o inconsciente.&nbsp; </strong>27ª. ed. – Petrópolis, Vozes, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph">ORIGEM DA PALAVRA. <strong>Palavra “saneamento”.</strong> Disponível em: <a href="https://origemdapalavra.com.br/?s=saneamento">https://origemdapalavra.com.br/?s=saneamento.</a> Acesso em: 03 maio 2026</p>



<p class="wp-block-paragraph">PEREIRA, Luciane Dusi. <strong>O saneamento investigado por três abordagens diferentes: científica, filosófica e metafísica</strong>. Revista Científica Interdisciplinar de Universitas (RECIU), v. 1, n. 1, 2026.</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref1" id="_ftn1">[1]</a> &nbsp;O Instituto Trata Brasil (ITB), em colaboração com a GO Associados, apresenta a 18ª edição do Ranking do Saneamento, direcionada aos 100 municípios mais populosos do país. A elaboração do estudo baseou-se nos indicadores mais atualizados do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (SINISA), referentes ao ano-base de 2024, divulgados pelo Ministério das Cidades.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/uma-leitura-simbolica-e-alquimica-do-saneamento-basico-no-brasil/">Uma leitura simbólica e alquímica do saneamento básico no Brasil</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Ghosting, Love bombing e a liquidez das relações na era digital</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/ghosting-love-bombing-e-a-liquidez-das-relacoes-na-era-digital/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Daniela Aimar Euzebio]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 05 Aug 2026 19:23:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Não Categorizado]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Redes Sociais]]></category>
		<category><![CDATA[Relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[bauman]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[ghosting]]></category>
		<category><![CDATA[jung]]></category>
		<category><![CDATA[love bombing]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[redes sociais]]></category>
		<category><![CDATA[relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[relações líquidas]]></category>
		<category><![CDATA[relações modernas]]></category>
		<category><![CDATA[Zygmunt Bauman]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>ocê já foi intensamente desejado para pouco tempo depois ser completamente ignorado? Onde conversas antes fluídas são friamente bloqueadas nos aplicativos e nos afetos? Entre o fascínio e a descartabilidade, o love bombing e o ghosting bailam na superfície das relações digitais , onde projeções, idealizações e rupturas se entrelaçam. Num encontro dialético entre Carl Gustav Jung e Zygmunt Bauman, este ensaio é um convite para refletir sobre a liquidez das relações e a sombra das projeções na era digital. Se o love bombing aponta para uma inflação do ego e o ghosting para a descartabilidade sombria, ambos denunciam a dificuldade de sustentar a alteridade. Entre a fusão e a fuga, a relação revela a dificuldade em estabelecer vínculos. Jung diz que "o amor custa caro e nunca deveríamos tentar torná-lo barato", e nos tempos líquidos e de fuga, talvez seja a profundidade e a alteridade que nos permitirá encontrar a plenitude no amor."</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/ghosting-love-bombing-e-a-liquidez-das-relacoes-na-era-digital/">Ghosting, Love bombing e a liquidez das relações na era digital</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>Resumo</strong>: &#8220;Você já foi intensamente desejado para pouco tempo depois ser completamente ignorado? Onde conversas antes fluídas são friamente bloqueadas nos aplicativos e nos afetos? Entre o fascínio e a descartabilidade, o&nbsp;<em>love bombing</em>&nbsp;e o&nbsp;<em>ghosting</em>&nbsp;bailam na superfície das relações digitais numa coreografia da psique, onde projeções, idealizações e rupturas se entrelaçam.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Num encontro dialético entre Carl Gustav Jung e Zygmunt Bauman, este ensaio é um convite para refletir sobre a liquidez das relações e a sombra das projeções na era digital.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Brevemente falando, se o&nbsp;<em>love bombing</em>&nbsp;aponta para uma inflação e o&nbsp;<em>ghosting</em>&nbsp;para a descartabilidade, ambos denunciam a dificuldade de sustentar a alteridade. Entre a fusão e a fuga, a relação cede lugar à defesa e a dificuldade em estabelecer vínculos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung diz que &#8220;o amor custa caro e nunca deveríamos tentar torná-lo barato&#8221;, e nos tempos líquidos e de fuga, talvez seja a profundidade e a alteridade que nos permitirá encontrar sentido e plenitude no amor.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um dia, estamos no app de relacionamentos deslizando de cá e para lá as opções de pessoas no cardápio das possibilidades afetivas, quando finalmente acontece o <em>match</em>. A conversa começa e são descobertas afinidades, tudo fica fluído e gostoso, quando naturalmente evolui para um encontro. Jantar, beijos, a sedução da primeira noite e, logo no dia seguinte, uma declaração apaixonada mas claramente fora de tom. As coisas evoluem rápidas demais, não há tempo de estabelecer profundidade na relação e começam as falas precipitadas de intenção de namoro, morar juntos, apresentação para a família, filhos. E, de repente, o ‘amor’ se esvai. Quando menos se espera, o outro some e há o bloqueio nas redes sociais e em todo canal de comunicação. A pessoa fica desorientada, um tanto perdida, se perguntando o que fez de errado para ter recebido tamanha descartabilidade. Este é apenas um exemplo da realidade da liquidez das relações na era digital: o <em>love bombing</em> e o <em>ghosting</em>. Embora sejam expressões recentes, esses comportamentos tocam dinâmicas psíquicas e culturais mais antigas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para alinhamento conceitual, <em>love bombing</em> é um “bombardeio de amor”, ou seja, são demonstrações intensas e repentinas de afeto, atenção e idealização no início da relação. E <em>ghosting</em> vem do inglês <em>ghost</em> (fantasma), é o ato de sumir e interromper abruptamente uma relação ou comunicação sem qualquer explicação ou despedida. A pessoa simplesmente deixa de responder mensagens, evita contato e desaparece da vida do outro, como se nunca tivesse existido. Curiosamente são fenômenos opostos, onde um é marcado pelo excesso de presença e o outro pelo desaparecimento contumaz mas, quando observados à luz da Psicologia Analítica, ambos parecem participar de um mesmo sombrio campo psíquico.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na sociologia, ambos os fenômenos evidenciam marcas do Espírito da Época, atravessado por profundas transformações socioculturais. Para Zygmunt Bauman, vivemos um tempo de conexões instáveis, caracterizado pelos chamados “amores líquidos”, nos quais os laços afetivos, nas sociedades contemporâneas, tornam-se progressivamente mais frágeis e transitórios (BAUMAN, 2004). Neste contexto, as relações afetivas passam a ser vividas sob uma tensão permanente entre o desejo de proximidade e o medo de compromisso, terreno fértil para o <em>ghosting</em> e <em>love bombing</em> se manifestarem.</p>



<h2 id="h-para-a-psicologia-analitica-as-relacoes-humanas-se-estabelecem-muito-alem-entre-dois-egos-cada-encontro-mobiliza-dimensoes-psiquicas-profundas-compostas-por-imagens-arquetipicas-complexos-sombras-e-conteudos-inconscientes-que-tendem-a-se-projetar-no-outro" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Para a Psicologia Analítica, as relações humanas se estabelecem muito além entre dois egos, cada encontro mobiliza dimensões psíquicas profundas compostas por imagens arquetípicas, complexos, sombras e conteúdos inconscientes que tendem a se projetar no outro.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Jung (OC 9/2, §17) entende que as projeções se dão pelo inconsciente, “por isso não se cria a projeção: ela já existe de antemão”, e sua consequência “é um isolamento do sujeito em relação ao mundo exterior, pois ao invés de uma relação real o que existe é uma relação ilusória. As projeções transformam o mundo externo na concepção própria, mas desconhecida”. Nas relações amorosas, essa dinâmica manifesta-se de maneira particularmente intensa: os parceiros tornam-se portadores de conteúdos psíquicos que encarnam imagens interiores carregadas de sentido simbólico. Assim, muitas experiências amorosas têm início no encontro entre duas pessoas reais, além do encontro entre o eu e a imagem psíquica que projeta sobre o outro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por isso, o <em>love bombing</em> pode ser entendido como um intenso processo de projeção, onde o parceiro ou parceira rapidamente se torna um receptáculo de expectativas grandiosas, idealizações e fantasias irreais. No início da relação, essa dinâmica pode produzir uma sensação de extraordinário entusiasmo e encantamento, em gestos grandiosos de afeto, promessas intensas e declarações apaixonadas surgem com rapidez, criando a impressão de um vínculo excepcional. Mas esse estado dificilmente se sustenta e rapidamente a realidade começa a contrastar com a imagem idealizada que foi projetada. Quando isso ocorre, a projeção tende a se dissolver. Por não querer (ou saber) lidar com a frustração entre fantasia e realidade, aquilo que antes parecia perfeito revela suas limitações humanas e o abandono se estabelece.</p>



<h2 id="h-a-luz-da-psicologia-analitica-esse-movimento-pode-ser-compreendido-como-a-projecao-da-anima-o-contraponto-feminino-da-consciencia-masculina-ou-do-animus-o-complemento-masculino-da-consciencia-feminina" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">À luz da Psicologia Analítica, esse movimento pode ser compreendido como a projeção da anima – o contraponto feminino da consciência masculina &#8211; ou do animus – o complemento masculino da consciência feminina.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Nessas circunstâncias, o parceiro deixa de ser percebido como real e passa a encarnar uma figura interior e imaginal, carregada de significado psíquico. A intensidade afetiva característica do <em>love bombing</em> pode ser compreendida como o fascínio produzido por essa projeção em que não se ama a pessoa, mas a imagem interior que nela foi depositada. Quando a convivência prolongada começa a revelar as ambiguidades, imperfeições e limites do outro, a projeção perde sua força, e aquilo que parecia um encontro extraordinário transforma-se rapidamente em distanciamento ou ruptura.</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-bauman-2004-acrescenta-que-os-vinculos-contemporaneos-frequentemente-se-desenvolvem-sob-a-logica-da-rapidez-e-da-intensidade-emocional" style="font-size:16px">Bauman (2004) acrescenta que os vínculos contemporâneos frequentemente se desenvolvem sob a lógica da rapidez e da intensidade emocional. Em vez de amadurecer lentamente, as relações tendem a surgir sob a pressão de uma experiência imediata. Na modernidade líquida, os indivíduos buscam vínculos que possam ser facilmente estabelecidos e desfeitos, priorizando a conveniência em detrimento da profundidade, o que torna os laços inerentemente precários.</p>



<h2 id="h-boa-parte-dos-love-bombings-sao-precedidos-por-um-ghosting-se-o-love-bombing-representa-uma-inflacao-da-projecao-amorosa-o-ghosting-pode-ser-entendido-como-uma-manifestacao-da-sombra-no-campo-das-relacoes" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Boa parte dos <em>love bombings</em> são precedidos por um <em>ghosting</em>. Se o <em>love bombing</em> representa uma inflação da projeção amorosa, o <em>ghosting</em> pode ser entendido como uma manifestação da sombra no campo das relações. </h2>



<p class="wp-block-paragraph">Na teoria junguiana, a sombra corresponde aos aspectos da personalidade que a consciência tende a rejeitar ou negar. Para Jung (OC 11/1, §131) “todo indivíduo é acompanhado por uma sombra, e quanto menos ela estiver incorporada à sua vida consciente, tanto mais escura e espessa ela se tornará”. No contexto relacional, enfrentar o término de um vínculo exige reconhecer sentimentos difíceis como quebra de expectativas, culpa, frustração, decepção e medo de ferir o outro. Desaparecer sem explicação pode funcionar como uma estratégia (por vezes inconsciente) para evitar o confronto. É como se a fantasia operasse como “vai sumir se ignorar”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Bauman (2004) acredita que os vínculos contemporâneos são marcados por uma ambivalência fundamental, onde as pessoas desejam relações próximas, mas ao mesmo tempo temem a dependência emocional que elas implicam, resultando em conexões que permanecem deliberadamente &#8216;frouxas&#8217; para que possam ser desfeitas a qualquer momento, sem grandes perdas.</p>



<h2 id="h-se-quem-pratica-o-ghosting-foge-do-conflito-para-quem-o-recebe-pode-ser-profundamente-perturbador-um-dos-aspectos-mais-dolorosos-e-a-ausencia-de-explicacao" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Se quem pratica o <em>ghosting</em> foge do conflito, para quem o recebe pode ser profundamente perturbador. Um dos aspectos mais dolorosos é a ausência de explicação.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O fim da relação ocorre sem narrativa, sem despedida e sem possibilidade de elaboração conjunta ou entendimento, expresso num frio e impessoal bloqueio. A pessoa fica desorientada, tentando entender onde foi que errou e como pode ter desagradado o outro. Essa dor pode encontrar ressonância em experiências afetivas anteriores que permanecem vivas no inconsciente, ativando os complexos. Essa descartabilidade emocional pode despertar sentimentos ligados ao abandono, rejeição, perda e desamparo, intensificando o sofrimento para além da situação concreta.</p>



<h2 id="h-curiosamente-a-palavra-ghosting-contem-uma-imagem-simbolica-significativa-em-que-o-fantasma-e-uma-presenca-que-assombra-aparece-e-desaparece" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Curiosamente, a palavra <em>ghosting</em> contém uma imagem simbólica significativa, em que o fantasma é uma presença que assombra, aparece e desaparece.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Nas relações contemporâneas digitais, a pessoa que some do mundo virtual torna-se uma presença fantasmática na memória do outro. Nesse sentido, o <em>ghosting</em> é uma espécie de metáfora cultural da fragilidade dos vínculos modernos. Como observa Bauman (2004), na modernidade líquida as relações permanecem sempre sob a possibilidade de dissolução, pois os indivíduos evitam compromissos que possam restringir sua liberdade futura, onde os vínculos tornaram-se &#8220;reais até segunda ordem&#8221; ou &#8220;enquanto durar a satisfação&#8221;.</p>



<h2 id="h-diante-desse-cenario-talvez-o-maior-desafio-das-relacoes-contemporaneas-seja-justamente-recuperar-a-dimensao-da-alteridade-e-assumir-que-o-outro-nao-e-uma-extensao-de-nos" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Diante desse cenário, talvez o maior desafio das relações contemporâneas seja justamente recuperar a dimensão da alteridade, e assumir que o outro não é uma extensão de nós.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Encontrar o outro implica reconhecer que ele não existe para confirmar nossas fantasias ou sustentar as imagens que projetamos. A profundidade surge quando o encanto inicial cede espaço para um encontro mais real, onde a diferença, a imperfeição e a humanidade do outro possam ser reconhecidas. Aquilo que antes era projetado começa a retornar à própria psique, abrindo espaço para ampliação da consciência e integração interior.</p>



<h2 id="h-sob-essa-perspectiva-o-amor-talvez-nao-seja-o-que-inaugura-muitas-relacoes" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Sob essa perspectiva, o amor talvez não seja o que inaugura muitas relações.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Amar implica sustentar o encontro para além das imagens perfeitas, acolher a alteridade e suportar a tensão entre proximidade e diferença. Para Jung (OC 10/3, §231), “faz parte do amor a profundidade e fidelidade do sentimento, pois sem elas o amor não seria amor, mas simples capricho”. Jung (OC 10/3, §231) acredita que “o verdadeiro amor sempre pressupõe um vínculo duradouro e responsável. Precisa da liberdade para a escolha, não para a realização. Todo amor verdadeiro e profundo é um sacrifício”. Ao nos vincularmos verdadeiramente a alguém, abrimos mão de inúmeras ilusões e projeções, pois é na entrega e na aceitação do outro que o sentimento amadurece para além do encanto inicial. Sem essa disposição para renunciar às fantasias, dificilmente o amor alcançaria sua dimensão mais consistente, e permaneceríamos afastados da experiência de um vínculo realmente profundo.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:17px"><blockquote><p>“O amor só revela seus mais altos segredos e maravilhas àquele que é capaz de entrega total e de fidelidade ao sentimento.” </p><cite>JUNG, OC 10/3, §232</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Em um tempo marcado pela liquidez dos vínculos, cultivar relações mais profundas pode exigir uma atitude psíquica rara de dialogar quando seria mais fácil bloquear, e reconhecer o outro alguém complexo, vulnerável e humano. “O amor custa caro e nunca deveríamos tentar torná-lo barato. Nossas más qualidades, nosso egoísmo, nossa covardia, nossa esperteza mundana, nossa ambição, tudo isso quer persuadir-nos a não levar a sério o amor” (JUNG, OC 10/3, §234).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Viver o amor talvez seja a experiência mais contraditória e fascinante da vida. O amor em mim e o amor ao outro, é o exercício contínuo de sustentar a tensão entre quem somos e quem o outro nos desafia a ser, e transformar o peso do cuidado na liberdade de não estarmos mais sós.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/daniela/" data-type="link" data-id="https://blog.ijep.com.br/author/daniela/">Me. Daniela Aimar Euzebio – Analista Didata em formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/" data-type="link" data-id="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi – Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="📃Artigo novo: &quot;Ghosting, Love bombing e a liquidez das relações na era digital&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/d_aGGOJ9rVE?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<h2 id="h-referencias" class="wp-block-heading">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. Aion: estudos sobre o simbolismo do si-mesmo. Petrópolis: Vozes, 2013. (Obras Completas de C. G. Jung, v. 9/2).</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes, 2016. (Obras Completas de C. G. Jung, v. 9/1).</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. Tipos psicológicos. Petrópolis: Vozes, 2013. (Obras Completas de C. G. Jung, v. 6).</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. Psicologia e religião. Petrópolis: Vozes, 2013. (Obras Completas de C. G. Jung, v. 11/1).</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. Civilização em transição. Petrópolis: Vozes, 2013. (Obras Completas de C. G. Jung, v. 10/3).</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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