Resumo: O presente artigo propõe uma leitura simbólica dos mitos de dilúvio, especialmente da narrativa de Noé, a partir da psicologia analítica de Carl Gustav Jung, buscando compreender sua relação com a metanoia e o processo de envelhecimento no indivíduo contemporâneo. Partindo da recorrência das narrativas cataclísmicas em diferentes civilizações, o texto investiga o dilúvio como imagem arquetípica associada à dissolução de antigas estruturas psíquicas, à desorientação e às experiências limiares que marcam o meio da vida. A metanoia é compreendida como um processo de transformação em que formas anteriores de adaptação e identificação começam a desorganizar-se, possibilitando o surgimento de uma nova relação com o si-mesmo. Nesse contexto, o artigo busca refletir sobre como essas imagens míticas ainda expressam aspectos fundamentais da experiência humana e das transformações psiquicas no meio da vida.
Existem momentos em que aquilo que organizava a existência deixa de oferecer direção.
O caminho desaparece, estruturas que sustentavam desabam ou tornam-se insuficientes e o indivíduo passa a atravessar regiões desconhecidas de si mesmo. Como a crisálida que dissolve o corpo da lagarta para que outra forma de vida possa emergir, a metanoia frequentemente é vivida como desorientação, colapso e travessia. Antes do nascimento da borboleta, existe dissolução.
A imagem do dilúvio aparece de maneira recorrente nas narrativas mitológicas de diferentes civilizações. Chuvas intermináveis, águas que invadem o mundo, continentes que afundam, deuses que se arrependem da humanidade, homens que constroem embarcações para atravessar o caos. Essas histórias carregam algo que ultrapassam o medo de catástrofes naturais, apontando para experiências psíquicas humanas.
Tal como a infância e a puberdade, Jung considera o meio da vida, que se situa aproximadamente aos quarenta anos, uma etapa crucial do desenvolvimento da personalidade, que pode acarretar profundas transformações no indivíduo. Embora expressões como “crise da meia idade”, “passagem do meio”, “experiencia limiar”, a noção de metanoia parece especialmente fecunda por indicar não apenas uma crise mas a possibilidade da uma significativa modificação das estruturas psicológicas. Nesse sentido, a metanoia pode ser compreendida como experiencia limiar, em que antigas estruturas, formas de adaptação e identificações, anteriormente eficazes começam a dissolver-se, desorganizando-se, enquanto uma nova relação com o si-mesmo busca emergir.
Assim ao voltarmos o olhar para os mitos de dilúvio, o que eles ainda poderiam revelar sobre o indivíduo contemporâneo e o processo de envelhecimento?
Com isso em mente, este artigo tem por objetivo principal colocar sob as lentes da psicologia analítica os mitos cataclísmicos, em especial o dilúvio trazido pela narrativa hebraica, buscando compreender de que forma essa imagem arquetípica se relaciona com a jornada de envelhecimento no indivíduo contemporâneo.
O mito.
Os mitos são manifestações da psique humana de grande valia para a investigação científica do inconsciente, pois atinge-se suas estruturas básicas através da exposição ao material cultural presente na mitologia, conforme ressalta Marie-Lousie von Franz (2022, p. 19).
Desta forma, voltar o olhar aos mitos é também aproximar-se dos processos psíquicos do homem contemporâneo, pois essas imagens arquetípicas continuam a dizer, sobre os movimentos de dissolução, conflito, transformação e renovação que atravessam a experiência humana.
É nessa direção, a de reconhecer o mito como linguagem da alma, que Jung escreve:
Todos os acontecimentos mitologizados da natureza tais como verão e o inverno, as fases da lua, as estações chuvosas etc., não são de modo algum alegorias destas experiências objetivas, mas sim, expressões simbólicas do drama interno e inconsciente da alma, que a consciência humana consegue aprender através da projeção – isto é, espelhadas nos fenômenos da natureza. (2014, § 7).
Conforme ressaltado anteriormente a destruição da humanidade pela invasão das águas é uma temática que se repete em vários mitos, de diferentes civilizações ao longo da história. O registro mais antigo conhecido de um mito de dilúvio vem da antiga Mesopotâmia. Trata-se do texto sumério conhecido como Gênesis de Eridu (também referido como “história do dilúvio” ou “mito do dilúvio sumério”), datado de aproximadamente dezoito séculos antes de Cristo, e que reaparece com variações em obras posteriores como: Atrahasis (século XVII a.C.) e Epopeia de Gilgamesh.
Na epopeia de Gilgamesh, Utnapishim é advertido pelo Deus Ea (uma divindade associada às águas profundas, à sabedoria, à criação, e ao conhecimento oculto), que os outros deuses decidem enviar o dilúvio para destruir a humanidade e quebrando parcialmente o silêncio orienta Utnapishtim a construir uma embarcação para preservar a vida.
Na Índia antiga, o mito de Manu narra a travessia conduzida por Matsya, o peixe divino que o orienta a preservar as sementes da vida durante o grande dilúvio. Já na Grécia antiga, o mito de Deucalião e Pirra descreve a recriação da humanidade após uma inundação enviada por Zeus. Há ainda relatos de dilúvio nas mitologias nórdica, irlandesa, chinesa, polinésia e aborígene australiana, bem como na tradição egípcia. Narrativas semelhantes também aparecem entre povos ameríndios, como maias, muiscas, mapuches e hopis, demonstrando que o dilúvio não se refere apenas a uma catástrofe natural, mas à recorrente experiência simbólica de colapso, travessia e regeneração que acompanha a história humana.
No verbete Dilúvio, consta:
… Dentre os cataclismos naturais, o diluvio se distingue por seu caráter não definitivo. Ele é o sinal da germinação e da regeneração. Um dilúvio não destrói senão porque as formas estão usadas e exauridas mas ele é sempre seguido de uma nova humanidade e de uma nova história. Evoca a ideia de reabsorção da humanidade na água e de instituição de uma nova época, com uma nova humanidade. (CHEVALIER, 2022, p. 397).
Com exceção do mito indiano de Manu, nos mitos de dilúvio a catástrofe aparece associada a excessos da humanidade: transgressões morais, violações rituais, desobediência às leis divinas ou ultrapassagem de limites considerados sagrados. Em muitas narrativas, como na tradição bíblica, o próprio Deus se arrepende de ter criado o homem (Gn 6,6), indicando uma ruptura entre a humanidade e a ordem que sustenta a vida.
O arrependimento e a catástrofe.
Antes da chegada do dilúvio, os filhos de Deus se uniram as filhas dos homens e deram à luz a gigantes. Javé viu que a maldade do homem crescia na terra e se arrependeu de sua criação, no livro do Genesis consta:
Javé viu que a maldade do homem crescia na terra e que todo projeto do coração humano era sempre mau. Então Javé se arrependeu de ter feito o homem sobre a terra, e seu coração ficou magoado. E Javé disse: “Vou exterminar da face da terra os homens que criei, e junto também os animais, os répteis e as aves do céu, porque me arrependo de os ter feito”. (Gn 6, 1-7).
Para Edward F. Edinger (2020, p. 31), o mal decorre da relação proibida entre os reinos divino e humano. Ou seja, o eu está contaminado pela identificação com conteúdo arquetípico, resultando em inflação (os gigantes). Este estado de coisas provoca o dilúvio: O eu inflado alienou-se seriamente do si-mesmo e está ameaçado de extinção”.
Etimologicamente as palavras: “desastre” e “catástrofe”, descrevem experiências de ruptura da ordem. Desastre (de dis + astrum) traz a ideia de estar “fora do astro”, como se houvesse um desalinhamento entre céu e terra, crença antiga segundo a qual calamidades sinalizavam um desequilíbrio cósmico e, portanto, uma quebra na relação entre o humano e as forças maiores que sustentam o mundo. Já catástrofe, de raiz grega, indica um “fim súbito” e uma virada para baixo (kata), como no teatro grego, quando os acontecimentos se voltam contra o protagonista e a verdade se impõe: ela envolve derrota, desilusão, limites impostos de fora e o encerramento de uma narrativa que já não pode continuar como antes.
Essa dinâmica aparece, em muitos mitos, como a imagem do ser humano tentando se apoderar do poder dos deuses — ou agindo em desrespeito a eles. É o que os gregos chamavam de hybris: a desmedida, o ultrapassar dos limites humanos. Em termos psicológicos, podemos compreender a hybris como uma identificação do ego com conteúdos arquetípicos.
Conforme Jung (2012b, §563) a consciência: “se hipnotiza a si mesma e, portanto, não é aberta ao diálogo. Consequentemente está exposta a calamidades que podem até ser fatais”.
Em outra passagem (JUNG, 2014, §254) segue advertindo que o grande risco psíquico associado à individuação, “o tornar-se quem se é”, está na possibilidade de identificação do ego com o si-mesmo; essa atitude gera uma inflação que ameaça dissolver a consciência.
Assim sendo, quando um desastre nos atinge, somos forçados a encarar uma verdade incontornável: a impotência do ego diante de forças infinitamente maiores. A própria experiência do desastre derruba a fantasia de que podemos viver sem limites, de modo autônomo e plenamente independente. Com a catástrofe a virada se impõe, e os limites se escancaram.
Culturalmente estes mitos também tinham a função de através da ameaça de um dilúvio mundial encorajar a percepção de Deus, o que psicologicamente verifica-se igualmente verdadeiro, uma vez que, conforme ressalta Edward F. Edinger (2006, pág. 87): “…uma ameaça de inundação vinda do inconsciente pode ter efeito salutar sobre um ego presunçoso e produzir a consciência da necessidade de relacionamento com o transpessoal”.
Noé: o herói solar.
Ao contrário da humanidade que perece, Noé não busca apropriar-se de poderes que não lhe pertencem, recusando assim a identificação com o arquétipo que caracteriza a inflação. Essa renúncia é a condição de possibilidade da escuta. Uma vez que, conforme Jung (2012b, §563) leciona, uma consciência inflacionada enxerga apenas a si mesma, só tendo consciência de sua própria presença, não aprende com o passado, não compreende o presente e não extrai lições uteis para o futuro.
De tal modo, é precisamente porque Noé não usurpa o lugar do divino que pode ouvi-lo. Colocando-se a serviço da voz que o chama, ele mantém o eixo ego-self em funcionamento: recebe orientação sem se tornar a fonte dessa orientação. A construção da arca é, nesse sentido, menos uma obra de Noé do que uma obra através de Noé, o ego atuando como instrumento consciente de uma inteligência que o transcende.
Conforme Jung (2013, §311) explica, a jornada de Noé é um exemplo de herói solar, aonde: “todos os seres vivos morrem; só ele e a vida preservada por ele são levados para uma nova criação”. A arca, assim como o mar, é um símbolo feminino, análogo ao ventre materno, na qual o sol mergulha para renascer.
É com este horizonte em vista que Jung escreve:
A caixa ou arca é um símbolo feminino, isto é, o ventre materno, que era um conceito familiar aos mitologistas antigos. A caixa, a pipa ou cesta com o precioso conteúdo muitas vezes é imaginada como flutuando sobre a água, o que constitui uma analogia à trajetória do Sol. O Sol transpõe o mar como o deus imortal que toda noite submerge no mar materno para renascer pela manhã (JUNG, 2013, §307).
Assim, o dilúvio não expressa apenas aniquilamento; ele figura uma regressão ao estado indiferenciado, ao caos inaugural das águas, chamada pelos alquimistas de solutio, que psicologicamente pode ser traduzido como uma ativação do inconsciente que ameaça dissolver as estruturas enrijecidas do ego e um retorno a prima matéria (Edinger, 2006, p. 87). Sendo que as grandes transições da vida costumam ser experiencias de solutio.
Ao desenvolver esta reflexão, Jung afirma que:
Quando a libido se afasta do “mundo superior” luminoso — seja por decisão, inércia ou imposição do destino — ela recua para as próprias profundezas, reencontrando a fonte de onde um dia irrompeu. Esse movimento de regressão a conduz de volta ao ponto em que, pela primeira vez, entrou no corpo. (JUNG, 2013, §449).
Estamos constantemente realizando pequena transformações e adaptações, por meio de compensações inconscientes, que nos mantem adaptáveis e flexíveis para continuar vivendo, contudo, grandes transformações a que está se referindo aqui, costumam exigir uma quantidade significativa de energia e um longo período de tempo.
Como observa Murray Stein (2007, p. 39), esse processo pode durar anos e se expressar por sintomas recorrentes, como depressão e desinteresse, sensação de fracasso e desilusão (com a vida ou com pessoas), frustração por sonhos não realizados, medo da morte e a percepção de que já não há tempo para viver o que se considera uma vida plena, que muitas vezes é acompanhado por uma dor profunda daquilo que se foi e que jamais se voltará a ser.
Esquecida, a arca flutua sobre as águas.
Noé tinha seiscentos anos quando entra na arca e Javé fecha a porta por fora, “quando se arrebatam as fontes do oceano e se abriram as portas do céu” (Gn 7,11).
Neste contexto a vida de Noé dentro da arca pode ser compreendida como o símbolo não apenas de proteção, mas da capacidade de sustentar o processo, o que não significa o fim da tormenta mas onde a arca torna-se então imagem de contenção da própria transformação psíquica, um espaço onde o velho mundo já não existe, enquanto o novo ainda não pode ser alcançado. Suspenso sobre as águas, ainda à mercê de muitos perigos, representa a condição intermediária da travessia, onde só lhe cabe sustentar uma relação com aquilo que o ultrapassa sem possuir garantias, respostas imediatas ou direção clara. A entrada na arca não é a cessação da tormenta, mas o início de uma fase, uma vez que Javé fechou a porta por fora, criando um ambiente hermético e percebe-se no decorrer dos versículos que esqueceu de Noé e a arca.
Os quarenta dias e quarentas noites em que a chuva cai por toda a terra, parecem análogos aos quarenta dias de Jesus no deserto, que ressaltam o sofrimento que decorre de assumir o serviço imposto pelo Self. É, contudo, um sofrimento de natureza diferente: existe uma aliança já em curso, mas este é o momento em que a voz silencia e nenhuma bússola pode detectar um caminho. Apenas capacidade de suportar a incerteza, a frustração, a impaciência, e o esforço para perseverar mesmo diante de todas essas condições, sustentando a vida dentro da arca.
O retorno da pomba ao entardecer com um ramo novo de oliveira.
O capítulo oito do Gênesis, marca mais uma mudança na dinâmica do dilúvio. Após o período de inundação, suspensão e confinamento dentro da Arca, inicia-se lentamente um movimento de retirada das águas e reaparecimento da terra. Contudo, esse processo não ocorre de forma imediata. A narrativa insiste na duração, na lentidão e na espera. Mesmo após Deus “lembrar-se” de Noé, as águas continuam baixando pouco a pouco, e a terra permanece por longo tempo inabitável. Psicologicamente, isso sugere que a transformação psíquica não se resolve no momento em que a consciência estabelece relação com o si-mesmo; ao contrário, existe um prolongado período intermediário onde o novo, apesar de já poder ser vislumbrado, ainda não pode ser habitado.
Após as águas começarem a baixar Noé envia o corvo e depois a pomba, que retorna sem nada, e na segunda vez volta trazendo um ramo novo de oliveira, surgindo a primeira imagem de renovação. Contudo trata-se de um sinal frágil, visto que a oliveira é uma arvore de crescimento lento, que exige tempo para amadurecer e produzir, mas que quando o faz produz por séculos, cujas raízes descem tão fundo que sobrevivem ao fogo e ao corte, rebrotando do que parecia destruído. A nova terra se anuncia, mas o que chega não é uma possibilidade ainda não consolidada de prosperidade, ou seja, não é uma recompensa, mas uma vocação. Não se trata assim de reconstruir o mundo anterior, mas do surgimento gradual de uma nova relação com a existência.
O Arco íris e a aliança .
Sobre o arco-íris, Jung discorre:
Ele propôs ao ancestral Noé uma “aliança”`[…] Para fortalecer esta aliança e mantê-la viva, Javé instituiu o arco-íris como sinal do pacto. Mais tarde, ao produzir as nuvens que traziam os raios e a inundação em seu bojo, também faria aparecer o arco-íris que lembraria a ele, Javé, e a seu povo o pacto outrora celebrado. De fato, a tentação de utilizar um aglomerado de nuvens para a experiência de um dilúvio não era pequena e por isso era aconselhável ligar a este fenômeno um sinal que indicasse a autoria da obra e advertisse, enquanto era tempo, contra uma possível catástrofe. (2012a, §577).
O arco íris vem como símbolo da aliança selada com Deus e os homens, que sugere que após sobreviver a dissolução provocada pelo diluvio, uma conexão entre ego e o si-mesmo torna-se possível. Após a destruição, o próprio Deus parece modificar sua posição perante a humanidade, garantindo que não irá mais destrui-la, sendo o arco entre as nuvens uma lembrança para si mesmo deste compromisso.
A narrativa bíblica afirma que, embora “os projetos do coração do homem sejam maus desde a juventude” (Gn 8,21), Deus decide não mais destruir a terra. Há aqui um reconhecimento da própria condição humana, de sua imperfeição e ambiguidade constitutivas.
Psicologicamente, isso pode ser compreendido como o estabelecimento de uma relação menos afastada entre consciência e inconsciente, na qual a existência das tensões e contradições humanas já não exige extermínio, mas pode ser sustentada dentro de uma relação dialética. O que não significa que o inconsciente deixe de existir de forma autônoma, imprevisível e muitas vezes perturbadora, nem uma promessa de ausência de sofrimento e conflitos, a imperfeição permanece, o que muda é a relação com ela.
Nos textos alquímicos, Jung esclarece que o arco íris, “omnes colores” (todas as cores) é a integração de todas as qualidades, sendo um símbolo análogo ao pavão e de fundamental importância para a compreensão da obra. Assim escreve:
O arco-íris como “nuncia Dei” (mensageiro de Deus) é naturalmente de importância especial para compreensão da opus (obra), pois a integração de todas as cores, por assim dizer, indica a chegada ou a proximidade ou até mesmo a presença de Deus. (JUNG, 2012c, §52).
Contudo, diante disso, cabe notar que toda esta jornada não elimina o sofrimento, nem tampouco conduz à perfeição, mas inaugura a possibilidade de uma vida menos organizada por uma unilateralidade da consciência e mais aberta à escuta da alma, ao mistério e à sustentação dialética entre consciência e inconsciente. A transformação consiste justamente nessa mudança qualitativa da consciência.
Dessa forma, muito mais do que uma vista cansada ou a diminuição do vigor físico, o meio da vida pode representar uma oportunidade, não sem riscos, de um intenso desenvolvimento psicológico, em que o indivíduo finalmente deixa de viver uma existência provisória e começa a habitar uma vida mais alinhada com as forças suprapessoais que o constituem, estabelecendo a religação com o self.
Isso revela como a visão contemporânea do envelhecimento frequentemente conduz a uma regressão psíquica: o indivíduo permanece preso à tentativa de voltar para terras antigas que já não existem mais, em vez de se abrir às novas possibilidades que emergem nesse tempo da vida.
Estamos, portanto, muito longe de saber quanta vida cabe em uma vida, quando ela não é reduzida à repetição de um único manual de existência. Quando as águas sobem, e as terras conhecidas já não existem mais, é preciso coragem para se lançar ao desconhecido, mas o sofrimento de permanecer pode ser profundamente mais dolorido e vazio. E que tipo de vida pode nascer daí? Essa resposta não pode ser pensada de antemão. Ela só pode ser vivida.
Adriane Grein Basso – Analista em formação pelo IJEP
José Luiz Balestrini Junior – Analista Didata IJEP
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