Este ensaio completa a trilogia iniciada com o chamado vocacional no artigo intitulado Muitos são chamados, mas poucos são escolhidos e continuada pela descida ao mundo das sombras em O Retorno à Caverna: O Mito da Caverna e Individuação na Arte de Ser Vagalume no Escuro. Recentemente, um cliente compartilhou uma angústia profunda após mergulhar na obra de Byung-Chul Han sobre a sociedade do cansaço. Ele expressou o desejo de que sua existência não se resumisse ao excesso de obrigações e produtividade. Observamos muitos indivíduos que, sob o manto de uma suposta motivação, escondem o vício no trabalho e negam suas obsessões por fama e capital. Convido você a descer da “esteira rolante” dos automatismos cotidianos e mergulhar em uma jornada da Alquimia da Vontade e individuação. Vamos conversar sobre como esse processo nos permite trocar o chumbo da servidão voluntária pelo entusiasmo do Self.
O Divertimento como Fuga e o Vazio do Hiperconsumo
Ao estruturar este fechamento, decidi investigar a alquimia entre os verbos tenho que, preciso e quero. Busco a profundidade da psicologia analítica em diálogo com pensadores que moldaram minha visão ao longo de décadas. Recorro ao conceito de “divertimento” de Blaise Pascal, que denuncia a distração como uma fuga de si mesmo, e ao vazio descrito por Gilles Lipovetsky na era do hiperconsumo. Encontro ecos no “amor líquido” de Zygmunt Bauman e no “espetáculo” de Guy Debord, onde a imagem artificial substitui a vivência pulsante da alma. Resgato o “direito à preguiça” de Paul Lafargue e o “ócio criativo” de Domenico De Masi, além da sensibilidade de Hermann Hesse na arte dos ociosos.
A Natureza e o Mercado: O Resgate do Sagrado
Ailton Krenak e Davi Kopenawa nos lembram da urgência de reintegrar o humano à natureza contra o utilitarismo predatório que devora o sagrado. Por fim, as críticas de Karl Marx e Max Weber sobre a desumanização do homem transformando-o em um mero autônomo do mercado capitalista, fundamentam esta reflexão. O sistema tenta transformar a vida em bem de produção, mas a psicologia junguiana nos convoca ao resgate da subjetividade. A vida é curta demais para sermos pequenos e o processo de individuação exige que troquemos a engrenagem do mercado pelo pulsar do coração.
O Caminho do Meio: Entre o Velho Sábio e a Criança Divina
Aquele que conseguiu se entregar ao chamado e enfrentou a saída e o posterior retorno à caverna torna-se um místico por integrar os arquétipos do Velho Sábio com a Criança Divina, encontrando a liberdade no serviço e construindo pontes para o infinito. Muitas pessoas, contudo, são tomadas pela compulsão pela liberdade ao negar vínculos, obrigações e dependências. Na realidade, tornam-se escravas de um “complexo de liberdade“. Segundo Spinoza, o livre-arbítrio genuíno não é sobre ter liberdade de escolha sem restrições, mas sim sobre compreender as causas que nos influenciam. A liberdade é o resultado do entendimento das causas que determinam nossas ações; ao compreendê-las, agimos de maneira mais livre e racional.
Do Espelho à Alma: Autoestima e Individuação
Através do autoconhecimento, torna-se possível compreender nossas peculiaridades, diferenciar-nos da imago parental e dos condicionamentos adquiridos, reconhecendo os aspectos sombrios e os complexos para nos tornarmos mais íntegros. Conscientes de quem, como e o que somos, conquistamos a autoestima e o amor-próprio, aprendendo a respeitar a nós mesmos para poder dar e exigir respeito. Sabemos agora o que nos pertence, o que desejamos e o que não desejamos, tanto para o Si-mesmo quanto para os demais.
Isso nos possibilita a autonomia, que nos confere a liberdade para escolhas conscientes de dependência ou servidão, livres de códigos morais rígidos, pois encontramos a dimensão ética do existir e do “bom combate”. O prisioneiro que retorna à caverna, agora consciente da luz, enfrenta a tirania dos automatismos cotidianos. Ele percebe que a maioria caminha em uma esteira rolante invisível, movida por impulsos alheios. Para o analista junguiano, isso revela uma patologia da vontade, onde a alma se perde entre o dever imposto e a carência fabricada.
O Despertar do Querer: A Alquimia da Liberdade no Retorno à Caverna
O prisioneiro que retorna à caverna, agora consciente da luz, enfrenta um novo tipo de sombra: a tirania dos automatismos cotidianos. Ele percebe que a maioria das pessoas caminha em uma esteira rolante invisível, movida por impulsos que elas não escolheram. Para o analista junguiano, esse cenário revela uma patologia da vontade, onde a alma se perde entre o dever imposto e a carência fabricada. Precisamos, portanto, dissecar os verbos que sustentam nossas correntes ou que, se bem compreendidos, forjam nossa libertação.
O “Tenho Que”: O Algoz que Habita em Nós
O verbo “tenho que” representa a voz do algoz internalizado. Ele manifesta o superego social, as exigências do mercado e as expectativas familiares que sequestram nossa autenticidade. Quando dizemos “tenho que ser produtivo” ou “tenho que ser feliz“, estamos servindo a uma Persona que não nos pertence. Jung descreve esse estado como uma servidão voluntária, onde o indivíduo se torna uma peça funcional da engrenagem coletiva, mas perde o contato com sua essência singular.
Nesse estágio, a vida se transforma em um inventário de obrigações sem alma. O indivíduo autômato executa tarefas com perfeição, mas carrega um vazio que nenhum sucesso material consegue preencher. Ele habita a “sociedade do cansaço”, onde o excesso de positividade e a cobrança por desempenho esgotam a libido criativa. O “tenho que” é a sombra da caverna que tenta nos convencer de que a liberdade é apenas uma escolha entre diferentes formas de obediência.
O “Preciso”: A Armadilha da Carência Fabricada
Se o “tenho que” vem de fora, o “preciso” simula uma necessidade interna que, muitas vezes, é artificial. O sistema de consumo sequestra o verbo “precisar” para criar a ilusão de falta constante. Acreditamos que precisamos do último modelo de celular, da aprovação constante nas redes sociais ou de um corpo que atenda a padrões irreais. Essa necessidade fabricada mantém o ego em um estado de carência eterna, impedindo que ele mergulhe nas águas profundas do Ser.
A carência é a alavanca do mercado. Ela transforma desejos legítimos da alma em necessidades urgentes do corpo e do ego. Quando confundimos o que é essencial para nossa nutrição psíquica com o que é imposto pela vitrine, e pelos algoritmos, perdemos nossa bússola. O “preciso” torna-se uma corrente que nos prende ao objeto, impedindo o fluxo da vida. Na perspectiva da psicossomática, essa busca incessante por preenchimento externo muitas vezes se manifesta em sintomas físicos, lembretes dolorosos de que a alma está faminta por sentido, não por produtos.
O “Quero”: A Bússola da Alma e o Bom Combate
O verbo “quero” é o mais perigoso para qualquer sistema de controle e, por isso, é o mais sufocado. O querer autêntico não nasce da falta, mas da plenitude do Si-mesmo (Self). Ele é a manifestação do entusiasmo, que em sua raiz grega, entheos, significa “ter um deus dentro”. Quando um indivíduo descobre o que realmente quer, ele inicia o “bom combate” pela sua autenticidade.
Diferente do desejo caprichoso do ego, o “quero” junguiano é teleológico: ele aponta para uma finalidade maior. Ele é a energia que flui do centro da psique para o mundo, organizando a ação de forma coerente e vigorosa. Quem quer de verdade não se cansa da mesma maneira que quem apenas obedece. A ação que nasce do querer é devocional, é um sacrifício consciente do ego em favor da totalidade. Esse querer revolucionário permite que o indivíduo retorne à caverna não como um pregador arrogante, mas como um canal de vida que contagia o entorno com sua presença e verdade.
A Integração: O Caminho da Individuação
A individuação não exige que abandonemos todas as obrigações ou necessidades. Ela propõe uma mudança na fonte do impulso. O indivíduo consciente minimiza o “tenho que” ou o transforma em um compromisso ético com seu próprio processo. Ele usa o “preciso” com sabedoria, distinguindo o que nutre a alma do que apenas entulha a existência. E, acima de tudo, ele coloca o “quero” como o mestre de sua jornada.
Viver de forma integral significa aceitar o paradoxo de ser um ser comum, mas singular. A vida é curta demais para sermos pequenos, como costumo dizer. Ser pequeno é aceitar a vida crônica, repetitiva e sem brilho. Ser grande é assumir a responsabilidade por nossa própria luz, integrando nossas sombras e falando a linguagem do coração.
Ao final desta trilogia, o convite permanece: que possamos trocar a esteira rolante pela dança ativa com o destino. Que o nosso fazer seja um “sacro ofício“, uma religação constante entre o que realizamos no mundo e o que somos em essência. A liberdade não é a ausência de limites, mas a escolha consciente de quais limites servem ao nosso crescimento. Que o seu “quero” seja a luz que ilumina não apenas o seu caminho, mas também o daqueles que ainda buscam a saída da própria escuridão. Por isso, mais importante do que a quantidade ou a intensidade do seu fazer é a certeza de que esse fazer está alinhado com seu chamado, proporcionando sentido, significado e valor pessoal, coletivo e ambiental.
Referências Bibliográficas
Bauman, Z. (2004). Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
De Masi, D. (2000). O ócio criativo. Rio de Janeiro: Sextante.
Debord, G. (1997). A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto.
Han, B.-C. (2015). Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes.
Hesse, H. (1984). A arte dos ociosos. Rio de Janeiro: Record.
Jung, C. G. (2011). A vida simbólica (Vol. 18/1). Petrópolis: Vozes.
Kopenawa, D., & Albert, B. (2015). A queda do céu: palavras de um xamã yanomami. São Paulo: Companhia das Letras.
Krenak, A. (2019). Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras.
Lafargue, P. (1999). O direito à preguiça. São Paulo: Hucitec.
Lipovetsky, G. (2005). A era do vazio: ensaios sobre o individualismo contemporâneo. Barueri: Manole.
Magaldi Filho, W. (2006). Dinheiro, saúde e sagrado: uma análise junguiana da relação do homem com o dinheiro. São Paulo: Eleva.
Marx, K. (2013). O capital: crítica da economia política. São Paulo: Boitempo.
Pascal, B. (2004). Pensamentos. São Paulo: Martins Fontes.
Spinoza, B. (2015). Ética. Belo Horizonte: Autêntica.
Weber, M. (2004). A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Companhia das Letras.

