“Dize tua relação com a dor, e te direi quem és! […] A nossa relação com a dor mostra em que sociedade vivemos. Dores são cifras. Elas contêm a chave para o entendimento de toda sociedade. Assim, cada crítica da sociedade tem de levar a cabo a hermenêutica da dor” (HAN, p. 9, 2025).
Resumo: A cultura contemporânea transformou a felicidade em uma exigência normativa e a tristeza em sinônimo de fracasso. No entanto, ao negarmos a dor e o sofrimento, reduzimos o sentido da existência humana e favorecemos o anestesiamento e o surgimento de formas sutis de adoecimento. A partir da psicologia junguiana, o sofrimento é compreendido como expressão simbólica necessária ao processo de individuação e transformação. No entanto, a lógica da positividade e da medicalização tende a silenciar o sintoma antes que ele revele seu sentido. Sustentar a dor, nesse contexto, torna-se um gesto de resistência e condição para uma experiência mais autêntica e profunda da vida.
A cultura contemporânea transforma a felicidade em performance moral.
Ao negar o sofrimento como experiência humana legítima, empobrece o sentido da vida psíquica e favorece formas sutis de adoecimento emocional. Não se trata mais de um estado possível da alma, mas de uma exigência normativa. Ser feliz tornou-se evidência de competência emocional; sofrer passou a significar inadequação.
Vivemos a era da positividade, onde todo o mal deve ser neutralizado e a tristeza é encarada como disfunção a ser corrigida. Precisamos ser felizes, otimistas e positivos, sempre. Como observa o filósofo Byung-Chul Han no livro Sociedade Paliativa: a dor de hoje, “pensamentos negativos devem ser substituídos imediatamente por pensamentos positivos e ser positivo também virou sinônimo de performance. A lógica do desempenho permanentemente feliz, o mais insensível à dor possível”. (Cf. HAN, 2025, p. 11-12).
Segundo Byung-Chul Han, vivemos em uma sociedade que não suporta a dor.
A chamada sociedade paliativa não busca compreender ou integrar o sofrimento, mas neutralizá-lo. Em contraste com o que a Organização Mundial da Saúde denomina cuidados paliativos — ações voltadas ao alívio do sofrimento, sem, contudo, negá-lo —, essa sociedade investe em estratégias de anestesiamento que vão da curtição superficial à lógica dos likes e à medicalização das experiências desconfortáveis da vida cotidiana, convertendo a dor em algo intolerável e, portanto, algo que deve ser eliminado.
Mas como sabemos se somos felizes? Quem determina o que é felicidade?
No contexto atual, responder a essas perguntas parece um grande desafio. Porém, acredito que mais importante do que apresentar respostas é refletir sobre a profundidade e complexidade dessas questões. Como observa Bruckner no livro A Euforia Perpétua: ensaio sobre o dever da felicidade, a felicidade é algo indefinido, vazio e que chega a conta-gotas. (Cf. 2002, p. 14-15).
Nos dias de hoje, a dor tornou-se sinônimo de fraqueza e fracasso.
“A passividade do sofrer não tem lugar na sociedade ativa dominada pelo poder. Hoje se remove à dor qualquer possibilidade de expressão”, afirma HAN (2025, p.14). Remove-se da dor qualquer forma de simbolização.
Na perspectiva Junguiana, o sofrimento – ou a tristeza – não é algo a ser negado ou recalcado, pois se trata da manifestação simbólica de uma tensão entre consciente e inconsciente. A dor pode ser o anúncio de que algo na personalidade precisa ser integrado. Ao suprimir a dor, suprime-se também a possibilidade de transformação e o contato com a alma. “A alma é o ponto de partida de todas as experiências humanas, e todos os conhecimentos que adquirimos acabam por levar a ela. A alma é o começo e o fim de qualquer conhecimento” (JUNG, 2020a, p. 71).
O conflito entre a consciência e o inconsciente é o que nos leva à Função Transcendente – a capacidade de sustentar a angústia e entrar em contato com algo profundo e desconhecido. Enquanto a consciência nos leva ao processo de adaptação ao mundo, o inconsciente envia sinais sobre os desejos mais íntimos da nossa alma.
A tendência do inconsciente e da consciência são dois fatores que formam a função transcendente. É chamada transcendente, porque torna possível organicamente a passagem de uma atitude para a outra, sem perda do inconsciente (JUNG, 2020a, p. 18. Grifos do autor).
Nesta sociedade paliativa, como denominou Han, fugimos sistematicamente do desconforto. Não somos mais capazes de suportar a tensão entre o bem e o mau, a felicidade e a tristeza, o saber e o não saber, o sucesso e o fracasso.
Dor e felicidade: irmãos inseparáveis
Dor e felicidade são, segundo Nietzsche, dois irmãos e gêmeos, que crescem juntos ou […] juntos – permanecem pequenos”. Se se impede a dor, a felicidade se achata, assim em um conforto surdo. Quem não é receptível à dor se fecha à felicidade profunda (Nietzsche apud HAN, 2025, p. 31-32).
Essa dialética entre a pós-modernidade e a contemporaneidade, aponta para a base da perspectiva Junguiana sobre a condição humana: a intensidade da vida depende da capacidade de suportar sua ambivalência.
Ao sentirmos medo da dor, deixamos de ir para vida, pois o sofrimento é parte desse jogo. Precisamos sentir a pulsação do coração que bate forte de alegria e que trêmula de tristeza. Quando evitamos a dor a qualquer custo, evitamos também a profundidade da alegria. A vida emocional se torna rasa. Portanto, quando apenas um polo é valorizado — a felicidade, a produtividade, a positividade — a sombra ganha ainda mais energia psíquica. E aquilo que não é simbolizado retorna como sintoma e como adoecimento.
Jung alertava que toda unilateralidade gera compensação inconsciente. Quanto mais uma cultura exalta a ideia da Tirania da felicidade de formacompulsória, mais produz sintomas depressivos, ansiosos e estados de vazio. Ao temermos a dor, deixamos de nos lançar na experiência. No entanto, sofrer é parte constitutiva do processo de individuação, do autoconhecimento, do tornar-se um eu estruturante e consciente.
A cultura da positividade não elimina a dor; ela apenas a desloca para a sombra.
A Positividade Tóxica da vida Instagramável
A vida “instagramável” não é apenas estética — é moral. A imagem feliz torna-se evidência de valor. A tristeza não fotografa bem e o fracasso não engaja. Como muito bem pontuou Han, “ser feliz é a nova fórmula de dominação” (Cf, 2025, p. 26).
Precisamos estar motivados, sermos positivos, felizes e realizados. Esses são os novos pré-requisitos de pertencimento no universo social digital. Assim, nos tornamos referência, seres que influenciam e ganhamos likes. Esse padrão fala de uma carência, um vazio da alma. Uma súplica por pertencer. “O contínuo curtir leva a um embotamento, a uma desconstrução da realidade. A digitalização é anestesiação” (HAN, 2025, p.65. Grifo do autor).
Segundo uma pesquisa publicada pela revista Nature: “Críticas severas e expectativas irrazoáveis pioram a saúde mental dos estudantes de doutorado”, a pressão social para ser feliz está diretamente ligada à queda significativa da sensação de bem-estar. O estudo que entrevistou estudantes de doutorado em quarenta países apontou que quanto mais as pessoas são impactadas por discursos superpositivos, maior o sentimento de tristeza, inadequação e solidão. A antítese do que a narrativa positiva se propõe.
Contrariamente a todo otimismo oficial, nada existe de mais intolerável do que a visão da felicidade do outro quando não estamos bem. O espetáculo dessa gente a desfilar, gratificadas ao máximo pelos dons da fortuna, da saúde e do amor, a maneira ostensiva com quem enchem o peito, pavoneiam-se, é odioso! (BRUCKNER, 2002, p. 121-122).
Sob esse aspecto, entendo o quanto a rede social e a vida espetacularizada, reforça um adoecimento coletivo que evidencia uma verdadeira apatia e anestesia da realidade.
A Tirania da Felicidade e a Medicalização da Condição Humana
“Só uma ideologia do bem-estar permanente pode levar a que medicamentos que eram originariamente usados na medicina paliativa sejam usados com grande pompa também nos saudáveis” (HAN, 2025, p. 12).
A medicalização pode, em muitos casos, ser necessária e até urgente — mas, quando transformada em resposta automática à dor existencial, corre o risco de silenciar o sintoma antes que ele revele seu sentido. “A dor é, agora, um mal sem sentido, que deve ser combatido com analgésicos” (HAN, 2025, p.41).
Nesse contexto, a crítica de Juliana Diniz, em O que os psiquiatras não te contam, torna-se especialmente relevante. A autora chama atenção para o modo como experiências humanas fundamentais — como tristeza, angústia, frustração e vazio — vêm sendo progressivamente traduzidas em categorias diagnósticas e, consequentemente, tratadas de forma protocolar. Sem desconsiderar a importância e, muitas vezes, a necessidade do uso de medicação, Diniz alerta para o risco de uma prática clínica que, ao priorizar a eliminação rápida do sintoma, pode acabar desconsiderando sua dimensão existencial e subjetiva.
Muitas vezes, o tratamento psiquiátrico não vai ter nada a ver com remédios. Nem sempre eles serão essenciais. Quando o sofrimento for muito agudo, os remédios vão ser bons coadjuvantes, mas não são protagonistas. A grande maioria dos pacientes não tem um desvio significativo na atividade dos receptores (DINIZ, 2025, p. 31-35)
Diante do paradoxo entre sofrimento e bem-estar que a tirania da felicidade suscita, Bruckner faz a seguinte reflexão: “[…] hoje em dia, o homem sofre também por não querer sofrer, da mesma maneira como se pode adoecer de tanto procurar a saúde perfeita. […] Infelicidade não é mais somente infelicidade: é pior ainda, o fracasso da felicidade” (BRUCKNER, 2002, p.16).
Na perspectiva da psicologia Junguiana, o sintoma não é apenas disfunção; é também uma manifestação da alma que pede socorro.
Se medicamos toda tristeza, toda angústia, toda frustração, podemos impedir que a psique realize o trabalho de transformação. A sociedade contemporânea não apenas elimina a dor física; ela elimina o espaço simbólico do sofrimento psíquico. E sem sofrimento simbolizado não há individuação — apenas adaptação.
Vivemos identificados com a persona — a máscara social que melhor se adapta às expectativas externas. Uma versão formatada para o sucesso e a performance, capaz de silenciar as demandas do mundo interno, mesmo quando este grita por atenção. “A persona […] não passa de um papel, no qual fala a psique coletiva” (Cf. JUNG, 2020b, p. 46-47).
A identificação exagerada com a persona nos leva a falta de conexão com o si-mesmo e a um desconhecimento sobre os nossos limites sociais e psíquicos.
“Para sobreviver à angústia que acompanha as nossas limitações será preciso aprender a conviver com ela, porque uma coisa é certa: nossas angústias não vão desaparecer. Nós seres humanos, somos seres angustiados” (DINIZ, 2025, p.13).
Ao tentar eliminar o sofrimento, corremos o risco de esvaziar a própria experiência de estar vivo. A recusa da dor não nos protege — ela nos distancia de nós mesmos. Quando tudo precisa ser leve, positivo e funcional, perdemos a capacidade de sustentar aquilo que nos transforma. A dor, quando escutada, não nos reduz; ela nos aprofunda, nos desloca, nos confronta com limites e verdades que não cabem nas narrativas prontas de felicidade. “A dor marca os limites, destaca distinções. Sem a dor, tanto o corpo como o mundo se afundam em in-diferença” (HAN, 2025, p.63. Grifos do autor).
Talvez o problema não esteja no sofrimento em si, mas na urgência em silenciá-lo. Nem toda dor precisa ser corrigida imediatamente; algumas precisam ser compreendidas. É nesse intervalo — entre sentir e tentar apagar o que se sente — que pode surgir um espaço de elaboração, de sentido e de contato mais autêntico com a própria experiência.
Em uma cultura que valoriza respostas rápidas, produtividade emocional e bem-estar constante, sustentar a dor pode ser um gesto de resistência. Não como exaltação do sofrimento, mas como reconhecimento de que há dimensões da vida que não se resolvem, apenas se atravessam.
Para finalizar este artigo, gostaria de citar mais uma vez Bruckner com uma frase que acredito expressar exatamente o que eu aprendi com a vida e com Jung e que refleti muitas vezes ao escrever esse texto: “Eu amo demais a vida para querer apenas ser feliz!” (2002, p.18).
Clarisse Grand Court – Analista Junguiana em Formação pelo IJEP
Maria Cristina Mariante Guarnieri – Analista Didata IJEP
Referências:
DINIZ, Juliana. O que os psiquiatras não te contam. 1.ed. São Paulo: Fósforo, 2025.
HAN, Byung-Chan. Sociedade paliativa: a dor de hoje. 1.ed. Petrópolis: Vozes, 2021.
JUNG, Carl Gustav. Natureza da psique. 13.ed. Petrópolis: Vozes, 2020a.
______, O eu e o Inconsciente. 27. Ed. Petrópolis: Vozes, 2020b.
Revista Nature (2020): Críticas severas e expectativas irrazoáveis pioram a saúde mental dos estudantes de doutorado. Disponível em
https://www.nature.com/articles/d41586-024-04187-3 . Acesso em 23 de março de 2026.
The Conversation (2024). Críticas severas e expectativas irrazoáveis pioram a saúde mental dos estudantes de doutorado. Disponível em
https://theconversation.com/a-saude-mental-dos-alunos-de-doutorado-e-ruim-e-a-pandemia-piorou-a-situacao-mas-ha-estrategias-para-enfrentar-o-problema-221915 Acesso em 23 de março de 2026.
Veja Rio. Sociedade paliativa: a dor de hoje. 1.ed. Petrópolis: Vozes, 2021.

XI Congresso Junguiano IJEP – Ecologia Alquímica: Transmutar a Consciência para Regenerar a Terra- Dias 8, 9 e 10 de Junho – Online e Gravado – 30h de Certificação – Aberto a todos os interessados – Inscrições abertas: https://www.institutojunguiano.com.br/xi-congresso-junguiano-alquimia-e-ecologia

