RESUMO: A frase “Essa dor é mais fácil” me moveu a escrever esse artigo. Uma menina de seus quinze anos que se fere, com um pequeno estilete, na parte de dentro da coxa onde ninguém possa ver, retrata o alívio que apresenta ao sentir a dor da pele cortada, e a explicação, simples e seca é: “Essa dor é mais fácil”. Em plena adolescência, um pedido de socorro. Perguntas afloram minha mente. Que dor é essa, mais difícil de suportar do que o ato de automutilação? Assim, numa ativação do meu complexo Materno, desejo ardentemente entender quais são os mecanismos psíquicos que levam uma pessoa a cometer tal ato e, talvez assim, poder ajudá-la a encontrar uma saída dentro desse vasto mundo da psique.
AUTOMUTILAÇÃO
A pesquisa sobre a automutilação foi extremamente fácil. Parece ser um assunto em voga nos últimos anos. Encontrei em artigos científicos diversas referências, assim como em plataformas como o Youtube. Cutting é um nome bem popular para a automutilação, literalmente “cortar-se” em inglês,denominação que encontrei nas redes sociais em pesquisa dessa prática, usando as seguintes palavras: automutilação, adolescentes e psicanálise.
Segundo Moreira et al. (2020), em revisão bibliográfica sobre a automutilação em adolescentes, um estudo de sete países da Europa definiu a “automutilação como comportamentos não fatais em que o indivíduo intencionalmente causa lesões a si mesmo provocando cortes, arranhões ou queimaduras na própria pele” (MOREIRA et al., 2020, p.3946) prevalentemente, mas também é assim definido os casos de adolescentes que agem de forma imprudente como saltar de locais altos, ingerirem fármacos em altas doses, usarem drogas ilícitas ou substâncias psicoativas com o propósito de autoagressão e ingerirem substâncias ou objetos que não são comestíveis. (Cf. MOREIRA et al., 2020, p. 3946)
A incidência é sensivelmente maior em mulheres e tem se tornado epidêmica em grupos de adolescentes. Em sua maioria, a fala dessas garotas aduzem ao alívio de angústias através dessa prática.
Na revisão bibliográfica de Moreira et al. (2020) apontou-se diversos fatores de risco para a automutilação, além do gênero:
Pertencer ao sexo feminino, abuso físico e sexual, Bullying, consumo excessivo de álcool e drogas, término de relacionamento, baixa qualidade de relacionamento com a mãe, falta de apoio familiar, conhecer outra pessoa que se automutila, sono pobre, sintomas de impulsividade, baixa autoestima, baixo nível socioeconômico, autocrítica, dificuldade de resolução de problemas, não possuir identificação religiosa ou espiritual, baixa escolaridade, possuir identidade alternativa, apresentar problemas com a lei e dificuldade de expressar emoções são considerados fatores de risco para o desenvolvimento da automutilação. (MOREIRA et al., 2020, p.3949)
No mesmo trabalho os autores apontam que em alguns estudos foram investigadas evidências neurobiológicas que levassem à automutilação. “Um achado importante indica que o eixo hipotálamo-pituitária-adrenal dos adolescentes com automutilação é hiporresponsivo, portanto, a secreção de cortisol é reduzida e pode desempenhar fator de vulnerabilidade desses indivíduos no estresse agudo” (MOREIRA et al., 2020, p.3950)
Independentemente de fatores neurobiológicos, a angústia parece ser a grande dor. Uma dor forte demais e, pior que a dor da pele cortada, ela é auto cortada! Se Shakespeare fosse moda, talvez soubéssemos lidar melhor com nossas dores da alma, não nos anestesiaríamos com o excesso de medicalização que abunda todas as esferas do mundo ocidental. Em Macbeth (Ato IV, Cena lll), encontrei uma fala que, de alguma forma, tocaria a menina que sofre: “Vamos homem, não cubra o rosto: dê à tristeza palavras, pois a dor que não fala, sussurra ao coração assoberbado até rompê-lo” (SHAKESPEARE, 2016, p.96).
HOJE TEMOS QUE SER FELIZES, INCONDICIONALMENTE!
Vivemos uma cultura na qual o que domina é a abolição da dor. Han (2021) denomina a sociedade atual de Sociedade Paliativa, ou seja, que prefere se anestesiar a enfrentar qualquer tipo de dor. “Hoje impera por todo lugar uma algofobia, uma angústia generalizada diante da dor [que] tem por consequência uma anestesia permanente. Toda condição dolorosa é evitada.” (HAN, 2021, pp.9,10). O momento social exige a eterna felicidade, utilidade e produção. Evita-se qualquer pensamento negativo e, se algo ruim acontecer, deve-se catalizá-lo e transformá-lo numa possibilidade de crescimento. Porém, se necessário, sempre haverá medicamentos proporcionando bem-estar permanente. “A dor é vista como um sinal de fraqueza” (HAN, 2021, p.13).
Então, numa sociedade que evita, de todas as formas, a dor e o sofrimento, exigente de uma vida perfeitamente feliz, como acontece a automutilação? Percebemos, como fala Jung (Cf. 2015, p.96), que é uma grande ingenuidade acreditarmos que somos os senhores em nossa própria casa pois um complexo autônomo nos atinge em cheio, no âmago do ego e, sem que percebamos, uma ação é cometida sem que possamos compreendê-la. “[…] um complexo ativo nos coloca num estado de não liberdade, de pensamentos obsessivos e ações compulsivas […]” (JUNG, 2013a, p.43).
O pensamento obsessivo advindo desses complexos de fato pode provocar ações que pensamos serem completamente absurdas, que jamais poderíamos sequer imaginar.
[…] pensamento obsessivo. Ideias extravagantes e absurdas dominam o doente, e ele é obrigado a pensar nelas de modo obsessivo. Analogamente, no pensamento obsessivo psicogênico, o doente geralmente percebe o absurdo das ideias, mas não consegue reprimi-las. Diz respeito a irrupções súbitas do complexo na consciência. (JUNG, 2013c, pp. 101-02)
Os conteúdos autônomos do inconsciente foram vivificados, pelos primitivos, como espíritos, demônios ou deuses e, para satisfazê-los, recorriam a ritos mágicos e sacrais. A sociedade contemporânea se libertou desses seres sobrenaturais, mas os conteúdos autônomos e suas exigências permaneceram e, um dos caminhos usados pela psique para que esses complexos cheguem à consciência é através da neurose (Cf. JUNG, 2013a, p.328).
Tudo o que é experimentado é psíquico, inclusive a dor física é a reprodução psíquica do que se experimenta (Cf. JUNG, 2013a, p.310). E a dor precisa de lugar.
Não é justo, nem sábio, querermos que ela se transforme em algo apenas mórbido, sem sentido, deixando escapar seu significado simbólico. Mas ela sabe se colocar. Vem através de sintomas. Oculte as dores da alma e ela aparece através de uma dermatite atópica, uma asma, uma diarreia crônica, ou talvez outros sintomas. E, mais do que isso, autonomamente podemos ser dominados pelo desejo insano de nos ferirmos e, assim, deliciarmo-nos com o prazer de sentir dor.
Lendo Neumann (2022), no capítulo A transformação dos Componentes Prazer-Desprazer, reflito mais sobre o prazer de sentir dor. A consciência e o inconsciente são como dois compartimentos que contêm energia psíquica, fluindo de um lado para o outro, provocando, ora num, ora noutro, prazer e desprazer, dor e satisfação, alternadamente. “[…] o conflito entre os dois leva também a um conflito psíquico das posições prazer-desprazer, uma vez que cada sistema parcial quer preservar a sua existência e reage ao perigo com desprazer e ao fortalecimento e crescimento, com prazer” (NEUMANN, 2022, p.288).
Numa criança, com baixo grau de desenvolvimento da consciência, esse conflito de prazer-desprazer é menor, mas com o amadurecimento e o desenvolvimento do ego e da consciência, há cada vez mais conflito entre as experiências prazerosas do ego e do inconsciente autônomo.
No decorrer do desenvolvimento, a consciência tenta se impor sobre o inconsciente, mesmo que continue a sofrer a pressão provinda do inconsciente, que continua a exercer pressão sobre o ego. (Cf. NEUMANN, 2022, pp.288-89).
No entanto, nas enfermidades psíquicas, como nas neuroses e, principalmente, nas histerias, as perturbações da consciência não são experimentadas como desagradáveis:
Nas reações neuróticas, e sobretudo nas histéricas, o fracasso e sofrimento do ego costuma ser acompanhado de “um sorriso de prazer” – por assim dizer, o sorriso do inconsciente vitorioso que se apossou do ego. O caráter medonho de tais manifestações neuróticas e, mais ainda, psicóticas, que correspondem, de certo modo, a uma disfunção das posições de prazer, tem a sua base justamente na dissociação, isto é, na não identidade com o ego. (NEUMANN, 2022, p.289)
Com esta fala de Neumann (2022), reflito que, talvez, a automutilação possa ser, da mesma forma, uma ação de conflito entre consciência e inconsciência no que tange ao prazer e a dor, por ainda não estar totalmente desenvolvido o ego, mas também pode ser causada por uma enfermidade psíquica, como uma histeria.
Podemos pensar também num quadro em que a dor psíquica não seja vivida adequadamente por razões múltiplas, como uma educação rígida em que a raiva e o medo sejam sentimentos sem espaço de serem vivenciados.
Woodman (2020) traz essa narrativa ao abordar a situação de mulheres que, ao invés de agirem fisicamente em momentos de extremo estresse, o trocam pela compulsão alimentar:
Quando as reações físicas à emoção e à dor não são traduzidas em ações, é concebível que o excesso de adrenalina e de açúcar no sangue venham a ter efeitos patológicos. […] Uma reação emocional tem muitas características da resposta reflexa; se o estímulo for ignorado, ele pode permanecer de maneira inconsciente até criar um estado patológico, assim como pode simplesmente parar de funcionar. […] As emoções repetitivas que produzem os impulsos nervosos podem causar desastrosas consequências no organismo. (WOODMAN, 2022, pp. 90-2)
As consequências orgânicas desastrosas podem ser cortes intencionais na pele, por uma invasão do inconsciente que sofre, mas não tem o direito de sofrer. Jung (Cf. 2013b, p.145) narra que, mesmo com um intelecto relativamente reservado, o motivo de qualquer ação anormal deveria ser procurado no campo do sentimento pois qualquer decisão de vontade é tomada por uma cadeia de ideias com valor sentimental.
Será que podemos pensar também nessa autoimolação como um sacrifício heroico para a libertação do grande medo da morte que se apossa, vindo do inconsciente, de jovens que não têm espaço para lidar com ele, dentro dessa sociedade massificada que aboliu o sofrimento?
O sacrifício proporciona libertação do medo mortal e reconciliação com o exigente Hades. […] o herói, que desde tempos remotos vence todo mal e a morte, transformou-se na figura principal e divina, ele se torna o sacerdote auto- imolador e o regenerador da vida. […] No sacrifício o consciente renuncia à posse e ao poder, a favor do inconsciente. Isto torna possível uma união de opostos cuja consequência consiste numa libertação de energia. (JUNG, 2013d, pp. 501-02)
A DOR FAZ PARTE TAMBÉM…
O enfrentamento heroico dos medos, sentir a dor e dar lugar a ela, para conscientizar-se de que coisas monstruosas existem e fazem parte da passagem da infância para a vida adulta. Não são momentos fáceis. Exigem, a cada passo, autoanálise, um pouco mais de luz nesse mundo inconsciente que insiste em cutucar e afrontar, para que haja a manifestação autocurativa da psique.
As motivações que levaram a menina de quinze anos a se mutilar podem ser diversas, tanto quanto o é nossa psique. Minha mente foi clareada e, de alguma forma, minha empatia prevaleceu no meio dos meus questionamentos. O seu desejo de falar sobre sua dor foi um grande pedido de socorro e poderemos caminhar juntas em descobertas e reflexões. A jornada da menina apenas se inicia, a minha continua, e podemos, ambas, trilhar esse caminho de autoconhecimento, descortinando um pouquinho mais os mistérios da psique.
Denise Largman – Analista em formação IJEP
Lia Romano – Analista Didata IJEP
REFERÊNCIAS:
HAN, Byung- Chul. Sociedade paliativa: a dor hoje. Petrópolis: Vozes, 2021
JUNG, Carl Gustav. A natureza da psique. 10. ed.Petrópolis: Vozes, 2013a.
______ Estudos psiquiátricos. 5. ed. Petrópolis: Vozes, 2013b.
______ Psicogênese das doenças mentais. 6. ed. Petrópolis: Vozes, 2013c.
______ Símbolos da transformação. 9. ed. Petrópolis: Vozes, 2013d.
______ O eu e o inconsciente. 27. ed. Petrópolis: Vozes, 2015.
MOREIRA, Érika de Sene, et al. Automutilação em adolescentes. In: Ciência e Saúde. ABRASCO. Disponível em: scielosp.org/pdf/csc/2020.v25n10/3945-3954/pt Acesso em: 08 maio 2026.
NEUMANN, Erich. História das origens da consciência: uma jornada arquetípica, mítica e psicológica sobre o desenvolvimento da personalidade humana. 2. ed. São Paulo: Pensamento-Cultrix, 2022.
SHAKESPEARE, William. A tragédia de Macbeth. Florianópolis: UFSC, 2016.
WOODMAN, Marion. A coruja era filha do padeiro: um estudo revelador sobre anorexia nervosa, obesidade e o feminino reprimido, 5. ed. São Paulo: Pensamento-Cultrix, 2020.

