Resumo: Uma análise, à luz da psicologia junguiana, sobre como a espiritualidade contemporânea pode ser transformada em produto de luxo e status, afastando-se do verdadeiro processo de individuação, que exige o encontro e a integração da própria sombra.
Nas últimas décadas, as transformações socioeconômicas trouxeram mudanças não apenas nos padrões de consumo e de status material, mas também na forma como as pessoas buscam sentido, transcendência, saúde mental e espiritualidade. Em um cenário marcado pelo esgotamento do materialismo e do capitalismo, observamos o surgimento de uma nova tendência no mercado de alto padrão, com a mercantilização e elitização também da espiritualidade.
Nesse artigo, analisarei, sob a perspectiva junguiana, como esse fenômeno do que podemos chamar de “espiritualidade premium” ou “gourmetizada” passa por uma busca, cada vez mais vazia, de apropriação de práticas contemplativas e de rituais e saberes ancestrais por parte da indústria da espiritualidade.
Antigamente ostentação era ter uma mansão, um carrão importado, viajar para o exterior, como forma de mostrar ao mundo como o indivíduo era bem-sucedido. Hoje podemos perceber uma tendência de mudança nesse status. Ostentar hoje não é só sobre o que eu tenho, mas também demonstrar um estilo de vida saudável e espiritualizado. É ter uma alimentação impecável, ser fitness, vida equilibrada, meditar, ir à igreja todos os domingos, passar as férias em um retiro…
Claro que não há nada de errado em querer viver bem e saudável, a questão é, se isso é um verdadeiro chamado da alma, ou apenas algo bonito para mostrar nas redes sociais e provar para os outros. Será que não estamos apenas criando uma persona para atender as expectativas da sociedade, e assim, criando mais problema emocional e até físico em busca dessa vida perfeita e equilibrada?
Para Jung, a religião é a expressão mais antiga e universal da alma humana e, portanto, essencial para o indivíduo que, sem esta, ficará em desequilíbrio (Cf. Psicologia e Religião, pg.09). Assim, na visão da psicologia analítica, o fenômeno religioso representa um aspecto psicológico muito importante, uma vez que um dos propósitos básicos da religião é definir a ideia de bem e mal, contrapondo o mundo da escuridão ao mundo da luz, trazendo a ideia de céu e inferno e, dessa maneira determinar o comportamento moral da sociedade.
Há um impulso natural, arquetípico, de busca pelo sagrado.
Jung dizia ainda que, o afastamento do sagrado era uma das principais causas das neuroses, uma vez que as pessoas perdem o caminho para dentro delas mesmas. Cabe esclarecer que com isso ele não estava dizendo que a pessoa tinha que seguir uma religião, mas sim encontrar o seu próprio caminho, o seu sagrado.
Jung define a religião (do latim religere) como a observação cuidadosa e conscienciosa do “numinoso”, que é uma existência ou efeito dinâmico não causado por um ato arbitrário da vontade, mas que se apodera e domina o sujeito. Ele, entretanto, já ressaltava o problema da atuação prática onde deparamos com certas exceções, como o grande número de práticas e rituais que são executados unicamente com a finalidade de provocar deliberadamente o efeito do numinoso, numa busca de uma causa exterior e objetiva divina. (Cf. Psicologia e Religião, pg.12).
A obra junguiana analisa ainda o risco de transformar a experiência religiosa em algo puramente mundano ou estético, que parece ser o fenômeno que estamos vivendo hoje com essa espiritualidade ‘’premium’’.
Em uma das suas muitas análises de sonhos de pacientes, ele descreveu uma igreja que se adapta ao mundo moderno com jazz e um ambiente de “alegria de viver” epicurista (cf. Psicologia e Religião, pg.36) e critica essa atitude como um “compromisso muito barato e superficial”, onde a seriedade austera do espírito é minada por uma alegria perfumada, gourmetizada, ignorando o conflito moral e a dor da alma.
O mercado de luxo da espiritualidade, por sua vez, tenta imitar esse cenário, mas oferecendo o “numinoso” (o sagrado) destituído de sua força transformadora e substituindo-o por um sentimentalismo religioso que não produz um efeito moral e transformador real.
Conforme apontam os dados do Global Wellness Institute [1](2025), uma organização sem fins lucrativos com a missão de promover o bem-estar em todo o mundo, o setor de bem-estar mental e espiritual tem demonstrado crescimento exponencial, movimentando trilhões de dólares e consolidando o turismo de transformação como um dos segmentos mais lucrativos da economia global. Experiências que variam de retiros de silêncio imersivos em resorts luxuosos ou exótico jornadas xamânicas customizadas em instalações de alto luxo, exemplificam a convergência entre o sagrado e o excesso de materialismo.
No mesmo sentido, assistimos a olhos vistos o surgimento cada vez maior de igrejas e templos luxuosos, de gurus famosos cultuados por celebridades, cerimônias que parecem um espetáculo, bem como, de inúmeras possibilidades de imersões, cursos e retiros que custam uma fortuna, no que muitas vezes parece uma busca por ganância e poder, no lugar da real transcendência espiritual. Uma religiosidade voltada para a riqueza e prosperidade material. E aqui, não estamos falando de uma religião específica, pois esse é um fenômeno que podemos observar nas mais diversas religiões, cultos e crenças.
Somos uma sociedade que visa o poder, lucro e acúmulo. Para cada vez mais ter, em vez de ser e para ostentar ao outro uma vida perfeita, feliz e equilibrada. E as religiões massificantes seguem essa lógica do mercado, descontruindo a alma.
“Você não se torna iluminado imaginando figuras de luz, mas sim ao tornar a escuridão consciente.” (Jung)
Apenas pensar em coisas boas, frequentar lugares bonitos, que aparentemente irradiam luz, paz e espiritualidade, fingindo que a sombra não existe, não traz uma maturidade e evolução real.
Raras são as religiões que auxiliam o indivíduo nesse trabalho de ir para dentro, de se autoconhecer, em sua luz e sombra, de busca por uma evolução real, que sabemos não é fácil. Esse processo passa por se despir da persona, que nos serve também como escudo e proteção, evidenciando o nosso outro lado, a sombra. E, abrir mão dessa imagem ideal de nós mesmos, é um processo dinâmico e dolorido, com mortes simbólicas, mas que permitem a expressão do nosso verdadeiro eu. Fazendo isso o indivíduo também se libertará e romperá com essa dinâmica lucrativa do mercado.
No entanto, verificamos que a grande maioria das pessoas não estão dispostas a fazer esse mergulho de se religar à sua alma, pois dá trabalho e não é algo confortável.
Na busca desse caminho mais fácil, a paz interior pode se tornar um bem de consumo privado e uma ferramenta de otimização da performance individual. A busca não é por transcendência, por evolução como ser humano. Não se busca a prática da caridade, do coletivo e a evolução espiritual, mas sim, somente mais uma forma de se sentir especial e privilegiado.
Diante desse contexto, a ascensão do mercado espiritual premium, nos traz a reflexão das contradições intrínsecas à transformação da busca por sentido em um produto de luxo. Dessa forma, devemos nos questionar de que maneira a mercantilização do sagrado opera realmente para preencher ou apenas anestesiar o vazio existencial da elite contemporânea.
Na perspectiva junguiana, o processo de individuação, o torna-se si mesmo, é um processo teleológico que busca a existência de uma lógica com sentido e significado existencial. É o sair da uniformidade rasa e alienante da normalidade coletiva, onde cada indivíduo poderá valorizar sua singularidade na pluralidade e diversidade. Tem, assim, como meta a realização do Self, sendo parecido com o caminho da Iluminação.
O sentido onde caminha a nossa existência, é ser total, integral. É juntar todas as nossas partes, até mesmo aquelas que renegamos, que não gostaríamos de ter, mas que também nos constituem.
O processo de individuação não busca a perfeição, mas a realização do ser na sua plenitude, permitindo o reconhecimento e integração dos pares de opostos e da sombra, fazendo com que a vida se torne mais harmoniosa.
Como visto anteriormente, para Jung a religião é um fenômeno psíquico que existe de modo irracional, assim como a fisiologia e anatomia, e, portanto, essencial para o equilíbrio do indivíduo. Podemos, assim, reconhecer a religião como uma das “ferramentas” do processo de individuação.
Em sua obra, Jung aborda a religião como uma função da psique, tratando desse conceito não como definição de uma crença, mas sim trazendo a importância e relação das experiências religiosas para os processos internos:
“Na medida em que o fenômeno religioso apresenta um aspecto psicológico muito importante, trato o tema dentro de uma perspectiva exclusivamente empírica: limito-me, portanto, a observar os fenômenos e me abstenho de qualquer abordagem metafísica ou filosófica.” (JUNG, 1978, pg.10).
Jung explica que, o que ele entende pelo termo religião significa aquilo que nos impute zelo e um sentimento de reverência por algo de ordem superior, que ultrapassa aquilo que nos é conhecido, geralmente chamado de Divino. Religar a si mesmo. Aquilo que, segundo Jung, foi apresentado pelo alemão Rudolf Otto como numinoso (Cf.1978, pg.11). Assim, trazendo para uma leitura psicológica, religião é uma atitude transformada pela experiência do que transcende a consciência. É o reconhecimento de que existe algo além de nós mesmos e que interfere na nossa vida.
Uma postura religiosa para Jung é uma postura de respeito, de cuidado, que vai além do ego, é encontrar essa imagem divina (de totalidade) em cada um de nós. Assim, em linguagem religiosa, o processo de individuação pode ser compreendido como a realização do “divino” no homem. E, o objetivo não é o homem perfeito, mas o homem completo com sua luz e escuridão.
O mercado de luxo espiritual tende, entretanto, a alimentar a hybris da consciência e a inflação do ego, onde o indivíduo “escolhe o eu, em sua miserabilidade visível, para senhor do universo” (1978, pg.119). A verdadeira sabedoria espiritual, entretanto, envolve o ego se ‘’curvar’’ a algo maior.
A espiritualidade premium foca somente no bem-estar, na luz e no positivo, fazendo com que o indivíduo se sinta cada vez mais único, superior e especial. No entanto, para Jung, o encontro com o Self é, primeiramente, o encontro com a nossa própria sombra.
Ao profetizar e comercializar apenas o lado “luminoso”, o mercado da espiritualidade pode dificultar a integração da sombra, não havendo uma transformação real, mantendo o indivíduo em um estado de inocência infantil e unilateralidade.
Segundo a Bíblia “Muitos são chamados, mas poucos são escolhidos” (Mateus 22:14). Ao contrário do que possa parecer numa primeira leitura, essa metáfora, não trata de um Deus elitista selecionando nomes para uma área VIP ou premium no céu, onde somente uma minoria especial ou privilegiada terá acesso.
Se analisarmos essa passagem segundo a psicologia de Jung, o “chamado” é na verdade um apelo da nossa alma para expandir a consciência e se conectar com o Self (o nosso Eu mais profundo e verdadeiro). A “escolha”, por sua vez, não é um passe premiado que cai do céu, pois, como visto, o processo de autoconhecimento é duro e contínuo.
O convite para essa transformação é facultado para todo mundo, mas a maioria prefere deixar esse chamado, para se distrair com a rotina, com os prazeres rápidos do consumo e com as regras do “rebanho”, que diariamente nos inundam as redes sociais.
E, assim, transformamos essa busca ancestral e essencial em um produto de status. A espiritualidade vira vitrine, se torna apenas mais uma forma para exibir riqueza e busca para se sentir especial.
O chamado continua ecoando o tempo todo. Mas, ser “escolhido” não é uma questão de ter um Deus lá fora te apontando o dedo ou de pagar caro por um retiro exclusivo ou pelo alto dízimo imposto, é a decisão de encarar o próprio mundo interior e aceitar o convite desafiador de se conectar com a totalidade e o numinoso que já habita em nós.
“Então, contou‑lhes esta parábola: ― Ninguém tira um remendo de roupa nova e a costura em roupa velha. Se o fizer, estragará a roupa nova; além disso, o remendo da nova não se ajustará à velha. E ninguém põe vinho novo em odres velhos; se o fizer, o vinho novo romperá os odres, se derramará, e os odres se estragarão. Ao contrário, vinho novo deve ser posto em odres novos.” Lucas 5:36-38, Bíblia
A espiritualidade autêntica flui da plenitude da vida, que inclui tanto o sofrimento quanto a alegria, o belo e o feio, o bem e mal, o pobre e o rico. Um mercado que foca apenas no luxo e no conforto corre o risco de oferecer apenas “odres velhos” para o “vinho novo” da transformação psíquica, falhando em preparar o indivíduo para verdadeira jornada de auto transcendência e encontro real com o divino.
Itala Resende – Membro Analista em Formação pelo IJEP
Dra. E. Simone Magaldi – Membro Didata do IJEP
REFERÊNCIAS
– JUNG, Carl Gustav. Psicologia e Religião. Edição Digital. Petrópolis: Vozes, 1978
____________ Fundamentos da Psicologia Analítica. 07ª Edição. Petrópolis: Vozes 1996.
____________ A Natureza da Psique. Edição digital. Petrópolis: Vozes, 2014.
____________ Memórias, Sonhos, Reflexões. 31ª Edição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016.
____________ O Eu e o Inconsciente. 27ª Edição. Petrópolis: Vozes, 2021a.
____________ Psicologia do Inconsciente. 24ª Edição. Petrópolis: Vozes, 2021b.
[1] https://globalwellnessinstitute.org/industry-research/2025-global-wellness-economy-monitor/

