Resumo: As redes sociais ocupam um papel central na vida atual, moldando comportamentos, relações e a percepção de si. Embora favoreçam conexões e acesso a informação, também podem intensificar conflitos internos e contribuir para quadros depressivos. A partir dos conceitos junguianos como persona, sombra, complexos e energia psíquica, o texto discute como o uso das redes potencializa comparações, favorecendo a unilateralização da atitude consciente e influenciando simbolicamente na construção de uma nova identidade contemporânea. O artigo destaca que as redes sociais distorcem profundamente a construção da personalidade, ampliando a distância entre ego e conteúdos inconscientes. Por fim, o artigo é um convite ao processo de autoconhecimento como via criativa para o resgate do indivíduo.
As redes sociais tornaram-se parte central da vida contemporânea, influenciando comportamentos, formas de interações e percepções de si mesmo.
Embasado nessa perspectiva, apesar de benéfica para conexões, informações e aproximações humanas, o risco é significativo para o desenvolvimento ou o agravamento de quadros depressivos.
A partir de conceitos como persona, sombra, complexo, energia psíquica e processo de individuação, podemos discutir como o uso das redes pode intensificar conflitos psíquicos, favorecer comparações e ativar complexos negativos. O artigo também analisa a função simbólica das redes sociais e sua influência na formação de uma nova identidade contemporânea.
As redes sociais têm o poder de transformar radicalmente o modo como o sujeito constrói e apresenta sua identidade.
Esse ambiente intensifica tensões entre persona, determinada aqui como máscara social, e sombra, enquanto aspectos não admitidos de si. Em muitos casos, tais tensões podem favorecer dinâmicas internas que alimentam quadros depressivos, especialmente quando a energia psíquica se fixa em comparações, expectativas idealizadas e buscas compulsivas por validação.
A depressão constitui uma categoria importante de transtorno psiquiátrico caracterizada como um transtorno do humor. Entretanto, ampliando na perspectiva junguiana, é compreendida como um fenômeno psíquico que pode emergir de influxos da energia psíquica e da dissociação entre consciência e inconsciente. Neste sentido, quando um indivíduo transita pelas redes sociais, encontra um espaço fértil para conflitos internos, intensificando o estado depressivo.
O conceito de persona, ou máscara social, bem elaborada por Jung, necessária para adaptação do ego, encontra-se nas redes sociais hiperestimulada: filtros, narrativas idealizadas e a autopromoção criam uma imagem que muitas vezes pouco corresponde à personalidade.
Ao analisarmos a persona, dissolvemos a máscara e descobrimos que, aparentando ser individual, ela é no fundo coletiva; em outras palavras, a persona não passa de uma máscara da psique coletiva. No fundo, nada tem de real; ela representa um compromisso entre o indivíduo e a sociedade, acerca daquilo que “alguém parece ser: nome, título, ocupação, isto ou aquilo”. (JUNG, 2015, p.47, §246)
Quando o indivíduo se identifica excessivamente com essa persona digital, inicia-se uma série de riscos à própria pessoa: perda das emoções autênticas, fortalecimento da comparação com personagens idealizados, imersão em um mundo fantasioso – criando um abismo entre o self e o ego -. Tais elementos, promovem a unilateralização do ego, gerando uma discrepância dolorosa entre quem se mostra e quem verdadeiramente se é, esbarrando num campo minado e fértil para os estados depressivos.
Outro fenômeno observável no ambiente das redes sociais é o que conhecemos como sombra.
Como conteúdos rejeitados pela consciência, a sombra nas redes sociais surge por meio de projeções, manifestando sentimentos como inveja, inferioridade, arrogância, ataques de fúria, ativando complexos ligados ao fracasso, abandono, culpa e perfeccionismo.
A parte inferior da personalidade. Soma de todos os elementos psíquicos pessoais e coletivos que, incompatíveis com a forma de vida conscientemente escolhida, não foram vividos e se unem ao inconsciente, formando uma personalidade parcial, relativamente autônoma, com tendências opostas às do consciente. A sombra se comporta de maneira compensatória em relação à consciência. Sua ação pode ser tanto positiva como negativa. (JUNG, 1986, p. 495)
Sendo assim, a sombra, enquanto características excluídas do processo adaptativo habita o que denominamos na psicologia junguiana de inconsciente pessoal.
Nesta camada do inconsciente há outro fenômeno importante para nossa discussão, denominado complexo. Os complexos são formados por núcleos autônomos, inconscientes ou semi-inconscientes, nunca conscientes – o que perderiam a característica de complexos -, influenciando comportamentos e emoções.
Como é que surge então um complexo autônomo? Por alguma razão uma região até agora inconsciente da psique é ativada; pela reanimação ela se desenvolve e se amplia mediante inclusão de associações afins. Naturalmente a energia necessária para este fim é retirada do consciente […]. A intensidade de atividades e interesses conscientes diminui gradativamente, surgindo ou uma apatia […] ou um desenvolvimento regressivo das funções conscientes, isto é, uma descida às suas condições infantis e arcaicas, algo como uma degenerescência. As parties inférieures des fonctions, como disse Janet, impõem-se: o instintivo sobre o ético, o ingênuo-infantil sobre o ponderado, o adulto e a inadaptação sobre a adaptação. […] O complexo autônomo desenvolve-se usando a energia retirada do comando consciente da personalidade. (JUNG, 2013b, § 123)
A dependência da aprovação externa, reforçada pelo aumento das ‘’curtidas’’, pelas reações e devolutivas negativas e agressivas, intensifica a ação dos complexos e a perda de autonomia do ego. Aqui mora um monstro escondido no inconsciente, pronto para aparecer e fragilizar o ego, aumentar o sentimento de vazio, retrair a energia psíquica, alimentando os sintomas depressivos.
Sendo assim, quando esses complexos são ativados exaustivamente dentro do contexto do uso excessivo das redes sociais, a energia psíquica disponível para o ego pode ser drenada.
Em outras palavras, caracteriza-se como transtorno depressivo: perda do interesse ou prazer, humor deprimido na maioria dos dias – quase todos os dias, no período de duas semanas -, alteração do apetite e do peso, insônia ou hipersonia, alterações cognitivas, fadiga ou perda de energia, sentimentos de inutilidade, evoluindo para pensamentos recorrentes de morte, ideação suicida sem plano ou com plano especifico para então cometer o suicídio (ASSOCIAÇÃO PSIQUIÁTRICA AMERICANA, 2014, p. 161).
Esse sofrimento tem um significado importantíssimo para o indivíduo, um convite agridoce à interiorizar-se. Este chamado se apresenta na própria etimologia da palavra, que surge a partir do verbo deprimere, significando “pressionar para baixo” ou “afundar”.
Sendo assim, o indivíduo precisa se reorganizar, se reconhecer como um ser único e capaz, rico em possibilidades, reconhecer seus conteúdos sombrios projetados, rever os complexos que o constituem, e retomar o laço com o si-mesmo (Self).
Como a palavra sugere, numa depressão a pessoa é pressionada para baixo, comprimida, em geral porque uma parte da libido psicológica está embaixo e tem de ser resgatada; a verdadeira energia da vida caiu numa camada mais profunda da personalidade e só pode ser alcançada por meio de uma depressão. Assim, a menos que haja uma psicose latente, as depressões devem ser encorajadas e as pessoas, aconselhadas a entrar nelas e ser deprimidas […], se as depressões dizem que a vida nada significa e que nada vale a pena, deve-se aceitar isso e perguntar o que fazer. O que há a fazer é ouvir, mergulhar cada vez mais fundo, até se atingir o nível da energia psicológica em que alguma ideia criativa pode surgir; de repente, no fundo, aparecerá um impulso de vida e de criatividade que havia sido ignorado. (FRANZ, 2022, p. 175)
Conclui-se que a depressão pode ser um chamado de alerta para se distanciar do virtual, reviver o real, o toque, sentir o calor do sol.
Uma resposta prática para iniciar o confronto com esta doença é praticar atividades físicas, promovendo a liberação de endorfinas, aumentando a dopamina – que participa dos circuitos de recompensa e motivação. Neste sentido, estimulando as atividades prazerosas e interações sociais, há o aumento de serotonina, associado a regulação do humor, sono, apetite e da sensação de bem estar. Longe de ser atitudes definitivas, elas são suporte para o ego que precisa ir de encontro com seus conteúdos inconscientes em prol do autoconhecimento.
Por fim, não podemos esquecer que na perspectiva junguiana, o confronto com estes sentimentos de angústia e com este vazio precisa ser encarado também de uma forma criativa. Associar a visão da psiquiatria e da psicologia analítica é uma estratégia que pode iluminar este embate. Também é importante não perder de vista o problema do uso abusivo das redes sociais. Como tratamos, seu excesso evidência e corrobora para a impotência do ego diante da identificação com a persona, a projeção da sombra e a invasão de complexos. A depressão não vai desaparecer enquanto não embarcarmos no processo de individuação. É preciso coragem.
Pollyana Guilhermino de Pádua – Membro Analista em Formação do IJEP
Dra. E. Simone Magaldi – Analista Didata e Fundadora do IJEP
Referências:
ASSOCIAÇÃO PSIQUIÁTRICA AMERICANA. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais : DSM-5. 5. ed. Porto Alegre : Artmed, 2014.
FRANZ, Marie-Louise von. Alquimia : uma introdução ao simbolismo e seu significado na psicologia de Carl G. Jung, 2. ed. São Paulo: Editora Cultrix, 2022.
JUNG, Carl Gustav. A natureza da psique. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 2013a.
______ O espírito na arte e na ciência. 8. ed. Petrópolis: Vozes, 2013b.
______ O eu e o inconsciente. 27. ed. Petrópolis: Vozes, 2015.
______ O homem e seus símbolos. 3. ed. Rio de Janeiro: HarperCollins Brasil, 2016.
______ Memórias, Sonhos, Reflexões 35. ed. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1986.
SADOCK, Benjamin J. Compêndio de psiquiatria : ciência do comportamento e psiquiatria clínica. 11. ed. Porto Alegre : Artmed, 2017.
Canais IJEP:
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