Resumo: Este ensaio aborda o conceito de Sombra, conforme definido por C. G. Jung, examinando suas manifestações na mitologia e na arte cinematográfica. A fúria e a loucura, como manifestações sombrias, ocupam lugar central nas ampliações analisadas: o filme A Noiva e a deusa grega Lyssa. Ambas as manifestações dão contorno para a fúria e a loucura de uma perspectiva feminina, sendo ao mesmo tempo um chamado para o reconhecimento e integração desses aspectos sombrios que nos habitam.
A fúria e a loucura são aspectos em geral vivenciados como negativos, características sombrias que preferimos negar, controlar e reconhecer apenas nos outros, mas não em nós.
Tanto a mitologia quanto as artes dão contorno para esses aspectos, que compõem a psique humana e clamam por serem reconhecidos. A contemporaneidade trouxe a manifestação desses aspectos no filme A Noiva, enquanto na mitologia grega encontramos Lyssa, uma deusa pouco conhecida nos dias de hoje.
Frankenstein é um personagem amplamente conhecido e já retratado em diversas obras da cultura popular. No filme A Noiva, ele busca por uma companheira, que possa compartilhar com ele sua particular existência. Desta forma, assim como ele, a Noiva é considerada uma monstruosidade, renascida após a morte pela ação do homem. Ambos são, ao mesmo tempo, a expressão da arrogância máxima do ego, mas também de sua derrota. Assim, refletem o ego que se crê capaz de reverter a morte. Mas também evidenciam seu esfacelamento, não apenas pelo nascimento de monstros, mas pela loucura, expressada no filme e principalmente pela Noiva.
Para as conversas que envolvem a loucura, Dioniso é usualmente trazido. Mas para esta, eu gostaria de trazer mais uma convidada: Lyssa. Deusa da fúria e da ira, geralmente representada com um cachorro na cabeça, o que indica o ataque de raiva descontrolado e desmedido associado a ela (Cf. EURÍPIDES 815ff).
Logo no início do filme uma cisão violenta se apresenta e a loucura se manifesta, levando à morte concreta da personagem, o que poderia ser compreendido simbolicamente ao esfacelamento do ego. Através da noiva renascida de Frankenstein, Lyssa então se manifesta: raivosa, furiosa, dionisíaca. Ora fala pela falecida em cujo corpo habita, ora fala por tantas outras que foram caladas, abusadas, mortas. Falas descontroladas, desencontradas, ora em rima, ora sem sentido. Uma fala sem o centro ordenador do ego, uma psique que não consegue sequer saber seu nome antes da morte.
Como agente de Dioniso na mitologia, Lyssa também manifesta seus aspectos: a libertação, a transgressão, a orgia, o prazer, a dança. Aspectos positivos e negativos se manifestam desmedidos, desenfreados, arrebatadores. Dioniso sempre esteve rodeado por mulheres e não poderia ser diferente aqui. O contágio gerado por Lyssa em outras mulheres, que vemos arrebatadas no final do filme, reproduzindo sua vingança e violência, poderia ser visto como nos conta a mitologia: Dioniso usa Lyssa para enlouquecer as bacantes. (Cf. ÉSQUILO, fr. 85).
Lyssa se apresenta colérica e descontrolada na cena em que arranca com os próprios dentes a língua de um policial. O cão raivoso que a acompanha na mitologia se apresenta quase de forma literal na tela. E a língua arrancada se torna uma forma de manifestação coletiva, uma ação que se repete nas cenas finais e que une todas aquelas que se juntaram ao seu movimento. Por ser uma imagem arquetípica, Lyssa é contagiosa e virulenta, arrastando outras com ela. Nas palavras de Jung: “os arquétipos, quando surgem, tem um caráter pronunciadamente numinoso, que poderíamos definir como “espiritual”, para não dizer mágico”. (JUNG, 2013a, p.154)
Na mitologia, a loucura gerada por Lyssa não é um fim em si mesmo em todos os casos.
Ela também foi enviada por Hera para enlouquecer Hercules e fazê-lo matar os próprios filhos (Cf. EURÍPIDES 815ff). No filme, esse objetivo parece ser uma resposta ao patriarcado e à repressão do feminino. Uma vingança pelo silenciamento, pelas grandes e pequenas violências sofridas por séculos. Essa associação parece ser feita para ter ressonância com o espírito da época, que clama o lugar do feminino. Mas clamar pelo feminino significa também reconhecer essas expressões sombrias em nós. Como mulheres, gostamos de falar de Afrodite, Artemis, Perséfone ou Deméter. Mas não podemos nos esquecer de Lyssa e de outras tantas que negamos. Elas também nos compõem e clamam por se manifestar.
No que tange a expressões populares, talvez Lyssa surja, discreta e sutil, em expressões cotidianas como “soltar os cachorros em cima”.
Um pouco mais aparente, ela se manifesta em “ficar puta ou emputecida”, forma bem corriqueira de expressar raiva e fúria. Puta e prostituta são praticamente sinônimos. No filme, a protagonista é uma prostituta antes de sua morte. Na narrativa, talvez ela funcione como gancho para uma figura popularmente associada a abuso pelo masculino, o que justificaria o desenrolar da história. Isso poderia também ser visto como mais um chamado para o reconhecimento e integração da sombra: a puta, a prostituta e a emputecida que nos habita.
Um fato curioso sobre Lyssa é que ela foi associada, pela medicina, à raiva transmitida pelo cachorro. Inclusive, os registros na mitologia são interpretados como possíveis evidências de que o vírus já existia naquela época (Cf. TSOUCALAS, 2024). O próprio vírus da raiva carrega em seu nome essa associação: Lyssavirus. Esse fato tende a fazer com que Lyssa seja minimizada, reduzida a ser “apenas” o vírus da raiva. Quando isso acontece, tendemos a dar menos espaço e importância psíquica na consciência para ela. Entretanto, sabemos que se algo na consciência é negado ou minimizado, ele ganha potência no inconsciente e tende a se manifestar de maneira sombria.
Os aspectos negados ou sombrios, que em geral ficam projetados nos outros com alta dose de crítica, quando integrados passam a ser também, de alguma forma, reconhecidos em nós mesmos. Assim, enquanto o filme busca mostrar um movimento coletivo feminino, deveríamos olhar para nós mesmas e fazer esse trabalho interno individualmente, por mais difícil que seja. É a partir do desenvolvimento individual que a coletividade se altera, como reflete Waldemar Magaldi: “…o melhor trabalho político, social e espiritual que podemos fazer é parar de projetar nossas sombras nos outros” (Cf. MAGALDI, 2022).
O reconhecimento da Sombra como real e presente envolve um grande esforço moral, mas é fundamental para o processo de desenvolvimento psíquico: “o encontro consigo mesmo significa, antes de mais nada, o encontro com a própria sombra” (Jung,2016, p.40).
A integração da sombra amplia a consciência em direção ao Si-mesmo, arquétipo central da psique, que compreende o consciente e o inconsciente e guia tanto o indivíduo quanto o coletivo. “O si-mesmo, em sua totalidade, situa-se além dos limites pessoais e quando se manifesta, se é que isto ocorre, é somente sob a forma de um mitologema religioso (…)”(JUNG, 2013b, p.44).
Nesse sentido, a personagem se vê invadida por várias, o filme todo, mas é digno de nota a principal invasora que a espreita desde a primeira cisão e que ressurge ao longo de todo o filme: a escritora de Frankenstein, Mary Shelley, deixando de maneira subliminar a ideia de que tudo é, de alguma forma, supraordenado. O papel central de Mary Shelley se deve também ao fato de que ela não é apenas mais uma dentre tantas mulheres representadas, mas também uma imagem arquetípica que representa coletivamente todas elas.
Filmes muitas vezes colocam na tela aquilo que não conseguimos ou não gostamos de reconhecer em nós mesmos. Apenas assistir e se sentir parte de algo coletivo seria como ignorar boa parte do chamado da alma. Este filme, como obra cinematográfica, é caótico, gótico, fantasmagórico, intenso, recortado. É considerado um filme de terror e causa desconforto em diversos momentos. Se conseguirmos enxergar o próprio horror que nos habita a partir dele, então talvez ele não seja só mais um filme da lista dos muitos que vemos.
Lívia Cristina da Silveira Ribeiro de Paiva – Analista em formação IJEP
José Balestrini – Analista Didata iIJEP
REFERÊNCIAS:
AESCHYLUS. Fragment 85 Xantriae. Tradução de Herbert Weir Smyth. In: THEOI Greek Mythology. Disponível em: https://www-theoi-com.translate.goog/Daimon/Lyssa.html?_x_tr_sl=en&_x_tr_tl=pt&_x_tr_hl=pt&_x_tr_pto=tc Acesso em 05 mai. 2026.
EURÍPIDES, Héracles. 815ff. Tradução de Philip Vellacott. In: THEOI Greek Mythology. Disponível em: https://www-theoi-com.translate.goog/Daimon/Lyssa.html?_x_tr_sl=en&_x_tr_tl=pt&_x_tr_hl=pt&_x_tr_pto=tc Acesso em 05 mai. 2026.
JUNG, Carl Gustav. A natureza da Psique. 10.ed. Petrópolis: Vozes, 2013a.
______. Aion. Estudo sobre o simbolismo do si-mesmo. 10.ed. Petrópolis: Vozes, 2013b.
______. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes, 2016.
MAGALDI, Waldemar. Citações e referências a documentos eletrônicos. https://blog.ijep.com.br/uma-historia-sombria-sombra-arquetipos-complexos-mitos-e-autoconhecimento/ Acesso em 05 mai. 2026. TSOUCALAS G. Lyssa: Goddess, Drug, Illness and Shield in Hellenic Antiquity. Acta Med Acad. 53(2):233-236. 2024.

