RESUMO: Quando aquilo que sustenta a identidade do indivíduo já não faz mais sentido, talvez não seja fracasso — mas um chamado. A Psicologia Analítica compreende esse vazio da maturidade como uma exigência de renascimento psíquico: uma travessia em que o antigo eu precisa morrer para que algo mais verdadeiro possa emergir. “Partejar a si mesmo” é a imagem desse processo — doloroso, inevitável e profundamente transformador. Este artigo propõe olhar o envelhecimento não como declínio, mas como território iniciático, onde a pergunta decisiva finalmente se impõe: quem sou eu quando já não sou quem fui?
Há momentos da vida em que aquilo que antes sustentava o sentido — trabalho, papéis sociais, expectativas, reconhecimento, posição social — deixa de responder às perguntas mais profundas da alma.
A vida segue, mas algo essencial se perde. Aquilo que antes organizava a identidade já não oferece sustentação. Instala-se um sentimento de vazio, uma perda de vitalidade, um desânimo, que frequentemente é confundido com fracasso pessoal ou até mesmo uma patologia. Esse estado costuma ser vivido com angústia, no entanto, esse esvaziamento não é, em si, depressão nem sinal de adoecimento psíquico.
Trata-se, muitas vezes, de uma crise de identidade: o indivíduo já não se reconhece naquilo que antes lhe dava contorno.
O que agradava, já não satisfaz mais; valores que eram importantes perdem a força; surge a experiência de não saber mais quem se é. Esse desconhecimento de si pode ser profundamente desestabilizador — e exatamente por isso, carregado de potencial transformador. Perguntas antes irrelevantes tornam-se urgentes. “Por que eu gostava disso e agora não gosto mais?”, “O que, afinal, ainda faz sentido para mim?, “O que a vida quer de mim?”
Na Psicologia Analítica, esse momento pode indicar uma exigência psíquica de transformação, típica da segunda metade da vida. A busca que se impõe já não é externa. Não se trata de novos projetos, novos papéis ou novos reconhecimentos. Trata-se de uma busca interior, que não pode ser simplesmente decidida ou planejada. Ela precisa ser gestada, sustentada e, finalmente, parida. É nesse horizonte que emerge a imagem central deste artigo: “partejar a si mesmo”, como símbolo de um processo interno árduo, inevitável e criativo do amadurecimento psíquico.
As etapas da vida
Jung descreve a primeira metade da vida como orientada fundamentalmente pela adaptação ao mundo exterior. O desenvolvimento da psique, nesse período, está centrado no fortalecimento e na estruturação do ego, que precisa se diferenciar progressivamente do inconsciente (JUNG, 2013).
Nessa etapa o indivíduo desenvolve a personalidade parcialmente consciente, constrói a persona, sua vida funcional e produtiva. Trabalho, família, vida social e conquistas materiais tornam-se eixos organizadores da identidade. Trata-se de uma fase necessária e legítima do desenvolvimento psíquico. Sem um ego suficientemente estruturado, não há base para desenvolvimento de processos mais complexos.
Contudo, Jung é enfático ao afirmar que essa lógica não pode reger toda a existência. Na segunda metade da vida surge uma relação diferente entre ego e Self. É o que Jung denomina metanoia: uma crise profunda de reorientação psíquica, na qual ocorre um questionamento radical dos valores até então vigentes. A libido (energia psíquica), antes predominantemente dirigida ao mundo externo, volta-se para o mundo interno. O ego passa a buscar o si-mesmo (centro regulador da psique) a procura de uma nova orientação para a vida. É chegado o momento do resgate da alma. A esse movimento Jung dá o nome de processo de individuação, entendida como o objetivo do desenvolvimento psíquico em direção à realização da totalidade da personalidade, ao tornar-se verdadeiramente quem se é.
Para ilustrar essa inversão de valores, Jung compara o desenvolvimento humano ao curso diário do sol:
“Suponhamos um Sol dotado de sentimentos humanos e de uma consciência humana relativa ao momento presente. De manhã, o Sol se eleva do mar noturno do inconsciente […] Precisamente ao meio-dia, o Sol começa a declinar e este declínio significa uma inversão de todos os valores e ideais cultivados durante a manhã” (JUNG, A natureza da psique, OC 8/2, §778).
Essa inversão não é patológica nem opcional, simplesmente acontece. Quando o ego insiste em viver a maturidade segundo a lógica da juventude — expansão, produtividade, adaptação externa —, o sofrimento é inevitável.
“Da mesma forma que o indivíduo preso à infância recua apavorado diante da incógnita do mundo e da existência humana, assim também o homem adulto recua assustado diante da segunda metade da vida, como se o aguardassem tarefas desconhecidas e perigosas, ou como se sentisse ameaçado por sacrifícios e perdas que ele não teria condições de assumir, ou ainda como se a existência que ele levara até agora lhe parecesse tão bela e tão preciosa, que ele já não seria capaz de passar sem ela.” (JUNG, A natureza da psique, OC 8/2, §777)
O sofrimento, nesse contexto, surge pela resistência à transformação psíquica.
Jung foi muito claro ao afirmar que é a recusa em aceitar a mudança, em atender ao chamado do Self, que traz sofrimento. Segundo ele, “para o homem que envelhece é um dever e uma necessidade dedicar atenção séria ao seu próprio si-mesmo. Depois de esbanjar luz e calor sobre o mundo, o Sol recolhe seus raios para iluminar a si-próprio.” (JUNG, 2013)
No entanto, é muito comum vermos essa recusa perdurar até depois da metanoia, que costuma acontecer por volta dos 40 anos. Importante deixar claro que o envelhecimento, não leva necessariamente ao amadurecimento psíquico. Para que isto ocorra, o indivíduo deve aceitar esse chamado com consciência e confiança. O processo de amadurecimento pode acontecer tardiamente, ou até mesmo, nunca acontecer. E se assim for, se vive uma velhice sem sentido, em profunda depressão, acompanhado somente das lembranças do passado.
O renascimento psíquico
A recusa em viver o envelhecimento sem sentido pode levar as pessoas ao processo do renascimento psíquico. Jung se debruçou sobre esse tema, considerando-o como um arquétipo. Isso porque a ideia de renascimento está presente na história da humanidade e amplamente difundida por meio de mitos em diferentes culturas. O renascimento pode ser ocasionado por um evento externo, como por exemplo, uma doença ou a morte de um ente querido, ou interno, como o caso da metanoia.
Renascimento, portanto, não equivale a recomeçar a vida nem a buscar uma juventude tardia. Trata-se de uma morte simbólica de antigas identificações egóicas, acompanhada de desorganização do ego e da emergência de novas imagens orientadoras do Self. Jung descreve diferentes formas de renascimento: a renovatio, na qual funções psíquicas são fortalecidas sem alteração essencial da personalidade; a transformação no sentido de ampliação, a possibilidade de modificação da personalidade; e o renascimento indireto, pela participação em processos ou ritos de transformação (JUNG, 2014). Na maturidade, é frequentemente a transformação que se impõe.
Esse processo não é confortável. Ele envolve perda de certezas, desorientação e espera. O ego perde centralidade, e o Self passa a orientar a vida psíquica. Novas imagens e valores emergem do inconsciente, exigindo elaboração simbólica e ética.
Partejar a si mesmo
O renascimento desejado na maturidade é, portanto, um processo consciente, ou seja, de ampliação de consciência. E exige muito trabalho e dedicação. É nesse campo que se insere a imagem simbólica de “partejar a si mesmo”. Partejar a si mesmo não é um projeto de autoaperfeiçoamento; é responder ao chamado do Self. É uma experiência psíquica: o nascimento de algo novo.
Como todo parto, trata-se de um processo marcado por dor, tempo próprio e impossibilidade de controle. O novo não nasce por decisão racional; ele nasce apesar do ego. Partejar a si mesmo é suportar os lutos inerentes à maturidade: deixar morrer personas que garantiam pertencimento, abandonar ideais de onipotência, integrar aspectos sombrios da personalidade que permaneceram dissociados durante a vida produtiva. O que nasce não é um “novo eu” idealizado, mas uma nova relação entre ego e Self.
Para partejar a si mesmo, é necessário um ego suficientemente flexível, capaz de sustentar a tensão com o inconsciente, sem colapsar nem se defender rigidamente. Esse processo ocorre no tempo do kairós, o tempo da alma, e não no tempo cronológico.
A transformação psíquica exige tomada de consciência.
Esse processo só se torna possível por meio daquilo que Jung denominou função transcendente – um processo que emerge da tensão entre consciente e inconsciente: passado e futuro, vida externa esvaziada e exigência interna ainda informe. Quando o ego suporta essa tensão sem repressão ou identificação inflacionada, surgem símbolos vivos — sonhos, imagens, sintomas significativos — que mediam a transformação psíquica. Jung afirma que, nesse movimento, conteúdos inconscientes são assimilados pela consciência, ampliando-a e produzindo uma nova atitude diante da vida (JUNG, 2013).
Ninguém que haja passado pelo processo de assimilação do inconsciente poderá negar o fato de ter-se emocionado profundamente e de ter-se transformado.
JUNG, O eu e o inconsciente, OC 7/2, §361
Nesse momento da vida, as perguntas que se impõem não dizem mais respeito ao que foi conquistado ou desempenhado externamente, mas à verdade psíquica que sustenta — ou não — essa trajetória.
“As personas (máscaras sociais) que desempenhei durante toda minha vida estão conectadas aos valores do Self?”
“Reconheço minhas partes reprimidas da personalidade (sombras), aqueles piores defeitos ou então aquela potencialidade que não tive coragem de assumir?”
“Quem eu sou para além da história e dos papeis que representei?”
A recusa da espera da morte
Sob essa perspectiva, o envelhecimento pode ser compreendido como um portal iniciático. A perda de valor da persona social não é um empobrecimento, mas uma convocação à interiorização. A recusa em “esperar a morte” — tão frequente em culturas que associam valor à produtividade — pode ser lida como resposta do Self à estagnação psíquica.
Como imagem contemporânea desse processo temos o filme Azul Profundo. O filme acompanha uma mulher idosa que, após a aposentadoria forçada, se vê retirada do mundo produtivo e confrontada com a expectativa social de recolhimento e espera passiva da morte. Em vez disso, a personagem recusa essa morte psíquica antecipada e inicia um movimento de reinvenção subjetiva, ainda que marcado por solidão, estranhamento e conflito. A crise vivida pela protagonista não se configura como depressão, mas como desorientação existencial: aquilo que antes estruturava o cotidiano já não existe, e nada ainda ocupou o lugar deixado por essa perda. A personagem não “se reinventa”; ela atravessa uma morte simbólica. A recusa em simplesmente “esperar a morte” não se expressa como rebeldia, mas como persistência em permanecer viva psiquicamente.
Jung observa que, quando o desenvolvimento psíquico é interrompido, a vida perde sentido e o indivíduo adoece não por envelhecer, mas por deixar de se transformar (JUNG, 2013).
O filme encarna essa afirmação ao mostrar que a velhice, quando reduzida à inutilidade social, torna-se insuportável; mas quando vivida como território de escuta e transformação, pode adquirir outro estatus simbólico.
Nesse sentido, o filme ilustra com precisão a imagem de “partejar a si mesmo”: algo precisa morrer, algo ainda não tem forma, e o ego — despojado de seus antigos papéis — precisa suportar a dor, o tempo e a incerteza desse processo. O novo sentido, se surgir, não virá como conquista do ego, mas como resposta silenciosa do Self à coragem de não viver de forma falsa.
Como disse Jung: “a vida tem de ser conquistada sempre e de novo” (JUNG, 2013). Quando a vida externa já não oferece sentido, a psique não está falhando. Ela está exigindo transformação. Nem todo envelhecimento conduz à individuação; mas sem atravessar a crise, ela não ocorre.
Partejar a si mesmo não é escolha confortável, nem promessa de plenitude. É seguir o chamado da alma, quando já não é mais possível viver de outra forma. Em última instância, é responder à pergunta que inaugura a maturidade: quem sou eu quando já não sou quem fui?
Ana Paula Pessanha Lima – Membro Analista em formação IJEP
Ana Paula Maluf – Analista Didata IJEP
Referências:
JUNG, C. G. (2015). O eu e o inconsciente (OC 7/2). Petrópolis: Vozes.
JUNG, C. G. (2013). A natureza da psique (OC 8/2). Petrópolis: Vozes.
JUNG, C. G. (2014). Os arquétipos e o inconsciente coletivo (OC 9/1). Petrópolis: Vozes.
JUNG, C. G. (2013). Desenvolvimento da Personalidade (OC 17). Petrópolis: Vozes.

