Resumo: Apoiado na perspectiva da psicologia analítica, este ensaio propõe uma reflexão sobre a evolução da vida e da consciência humana, destacando que, apesar dos avanços civilizatórios, permanecemos intimamente conectados a dimensão coletiva da psique. O artigo discorre sobre como a diferenciação dos pares de opostos, unidos originalmente no pleroma, é condição fundamental para o surgimento da individualidade, da consciência e do próprio desenvolvimento psíquico e da vida.
Nesse sentido, a tensão entre polaridades não deve ser eliminada ou rechaçada, mas sustentada como um campo criativo e autorregulador, capaz de promover transformação e ampliação da consciência através de uma compreensão mais integrada da existência. Assim, uma importante tarefa evolutiva do ser humano consiste em evitar as fixações unilaterais, mantendo o diálogo entre opostos e resgatando a conexão com a unidade essencial que sustenta e integra toda a vida.
Inspirada pelo XI Congresso Junguiano do IJEP, com o tema “Ecologia Alquímica – Transmutar a Consciência para Regenerar a Terra”, venho costurando algumas reflexões sobre a origem da vida, desenvolvimento da individualidade, a premência da diferenciação e conquista da alteridade e o ser humano como Homo Symbolicus1. Esse recorte começou a querer ganhar mais forma, encontrando expressão neste artigo, e uma certa “vida própria”. Quero trazer, aqui, algumas ampliações e profundidades sobre a questão dos opostos na experiência humana e o que isso tem a ver com nossa tarefa evolutiva.
A jornada biológica no planeta se iniciou há bilhões de anos, sendo que a humanidade moderna surgiu apenas recentemente.
Nossos ancestrais diretos apareceram há, mais ou menos, 400 mil anos e, sob uma perspectiva histórica, a civilização, como a conhecemos, constitui um evento tardio na cronologia da humanidade. A vida vem ganhando cada vez mais complexidade, assim como a consciência humana, com sua curiosidade e apreço pelo conhecimento, foi gerando cada vez mais desenvolvimento intelectual e científico.
Em meio a tantos avanços, um importante aspecto tem ficado para trás: a lembrança da existência de uma base comum e universal que conecta todos nós e da qual apenas apartamos ilusoriamente.
Quando refletimos sobre a evolução na natureza, podemos apreender que a totalidade da psique humana é muito mais primitiva que civilizada. A palavra primitiva, aqui, não carrega nenhum juízo de valor ou depreciação, pelo contrário, tem a função de apontar para as camadas mais profundas, ancestrais e fundantes da nossa humanidade, que contém registros de nossa origem, tanto o desenvolvimento biológico quanto o simbólico do ser humano. Trata-se do inconsciente coletivo, essa dimensão essencial de onde nasce a individualidade e através da qual seguimos unidos.
No volume 10/3 das obras completas, Civilização em Transição, Jung observa o seguinte:
“(…) como homens civilizados, temos uma idade de aproximadamente dois mil e quinhentos anos. Antes disso houve um período pré-histórico de duração muito maior, mas imprecisa, durante o qual se alcançou mais ou menos o nível cultural dos índios Sioux. E antes ainda se passaram centenas de milhares de anos da mera cultura da pedra que recua a uma época provavelmente muitíssimo mais longa, ocorrendo nela a passagem do animal para o homem. Há umas cinquenta gerações éramos, por assim dizer, simplesmente primitivos. A camada de cultura, esta simpática pátina, seria, portanto, extraordinariamente fina e tênue, comparada às camadas primitivas da psique, poderosamente desenvolvidas. Mas são estas camadas que formam o inconsciente coletivo, juntamente com os vestígios da animalidade que se perdem nos infindos e nebulosos abismos do tempo”. (Jung, 2013a, p. 16)
Há uma base comum para todos
O inconsciente coletivo é de natureza suprapessoal, atemporal e nos acompanha desde o início dos tempos. Trata-se do substrato psíquico coletivo que contém todas as potencialidades do desenvolvimento humano; o rizoma da vida psíquica e biológica, com os gérmens do porvir e, também, com os registros da nossa evolução ao longo da história. Contém representações psíquicas, formas de comportamento e impulsos que estão em toda parte e em todos os indivíduos, uma “(…) herança imemorial de possibilidades de representação, não é individual, mas comum a todos os homens e mesmo a todos os animais, e constitui a verdadeira base do psiquismo individual” (Jung, 2013b, p. 321).
Necessitamos olhar para dentro dessa dimensão se quisermos compreender mais profundamente a questão dos opostos na psique.
Faço um parêntese aqui para trazer a imagem de um sonho que tive a oportunidade de analisar, que pode nos ajudar a entrever o mistério e numinosidade dos recônditos do inconsciente coletivo e da força arrebatadora da dimensão arquetípica.
O sonhador mergulhava em águas profundas, paramentado com um pesado escafandro, que parecia ser o mais seguro e indicado para a jornada. Esse traje dispõe de uma longa mangueira conectada ao capacete, através da qual o ar fresco é bombeado da superfície. O duto era como um guia, uma espécie de referência para que o sonhador não se perdesse, podendo, a qualquer momento, retornar à terra orientado por ele. Mergulhava cada vez mais em direção ao fundo e à escuridão, até que toda luz se apagou. A única forma de ver, minimamente, o entorno era através de uma pequena lanterna, talvez a pequena luz de consciência autorizada a estar ali naquele momento. O sonhador havia sido instruído a não tocar em nada, ou poderia levar um forte choque e até morrer. Nadou por entre estruturas gigantes, sentiu-se hipnotizado em alguns momentos e pôde retornar seguro.
Talvez esse escafandro seja uma boa imagem quando refletimos sobre o pleroma. Trata-se de uma palavra grega que significa plenitude e que, na psicologia analítica, representa a metáfora do inconsciente coletivo em seu estado germinal (primordial), anterior à criação, indistinto, onde os opostos ainda se encontram unidos: não há individual, não há o dois, existe apenas unidade, a totalidade indiferenciada. Em sua obra “os sete sermões aos mortos” (produzida a partir de uma exploração e vivência intensa de contato com o inconsciente), Jung discorre sobre o pleroma referindo-se a ele como o tudo e o nada, o vazio e o cheio, um infinito e um eterno que não tem propriedades por contê-las todas.
A criatura (e a criação) surge do pleroma a partir da diferenciação, que se dá pela distinção dos pares de opostos. Estes são qualidades do pleroma ao mesmo tempo que não o são, já que no pleroma tudo se torna unidade. Porém, à medida que a criação/criatura se manifesta, os opostos surgem como fatores através dos quais será possível a particularização, a discriminação e a identidade.
Jung observa que “o pleroma é, simultaneamente, o começo e o fim dos seres criados” (Jung, 2021, pag.378): a singularização é possível porque os pares de opostos surgem. Porque a distinção é possível, toda a criação se complexifica, diversifica e nós podemos existir enquanto indivíduos. Sem a separação dos opostos, tudo seria indiferenciado, tudo seria unidade sem especificação e cairíamos na matriz pleromática, em um estado de fusionamento e onde a individualidade se dissolveria. Com isso, pode-se observar que a dinâmica opositiva é uma condição indispensável para a existência do indivíduo e do todo manifesto. Enquanto criaturas, nossa natureza é a própria distinção.
Emergimos dessas profundezas
É desse pleroma que nascemos e, pela diferenciação, a singularidade começa a se formar. A consciência humana emerge do inconsciente coletivo e vai, aos poucos, se individualizando. Assim que nasce, nos primeiros meses e anos de vida, a criança ainda está envolta por essa dimensão coletiva. Vive imersa na atmosfera psíquica dos pais, altamente conectada e afetada pelo inconsciente familiar, especialmente o materno. A psicologia analítica explica esse fenômeno através do conceito de participation mystique, um estado de indiferenciação entre sujeito e objeto, onde ainda não está clara a separação entre o eu e o outro:
“Lembremo-nos, porém, que a psicologia da consciência provém de um estado original de inconsciência e de indiferenciação. A este estado Lévy-Bruhl chama de participation mystique. Por conseguinte, a consciência da diferenciação constitui uma aquisição tardia da humanidade; provavelmente ela é um recorte relativamente pequeno no campo incomensurável da identidade original. A diferenciação é a essência, a conditio sine qua non da consciência. Todo inconsciente é indiferenciado e tudo quanto ocorre inconscientemente parte desta base da indiferenciação. (…) É impossível estabelecer a priori se me concerne, ou se concerne a outro, ou a ambos”. (Jung, 2015, p. 329)
A distinção acontece ao longo do processo de amadurecimento, com o desenvolvimento saudável da consciência e estruturação do ego (complexo funcional gestor da dimensão consciente). Criar consciência é, portanto, diferenciar-se, e diferenciação é discernir, separar para ver melhor.
Os opostos geram vida
Assim, do inconsciente coletivo emerge a consciência e ambos passam a integrar um par de opostos. De um lado, o eu, o que nos faz ver e conhecer, capaz de julgar, escolher lados, discriminar. Do outro, temos o inconsciente, desconhecido, misterioso, atemporal, com um funcionamento psíquico próprio. Ambos se encontram em oposição e é no âmago da oposição que reside o potencial energético para a criação e transcendência.
Para a psicologia analítica, os processos energéticos da psique são, por natureza, antinômicos e se manifestam como dinâmicas onde consciente e inconsciente se compensam e se complementam, funcionando como um mecanismo de autorregulação do sistema psíquico, com vista a formar uma totalidade. Tanto na psique como na natureza concreta, é através da troca energética e da diferença de intensidade gerada pela tensão opositiva que o movimento é criado, possibilitando a relação e o intercâmbio entre os pares de opostos capazes de promover transformação:
“Os opostos são qualidades extremas de um determinado estado, graças às quais este estado pode ser percebido como algo de real, pois formam um potencial energético. A psique consiste em processos cuja energia pode se originar do equilíbrio entre os mais diversos tipos de opostos”. (Jung, 2013b, p. 407)
Então, a relação e tensão criada entre os pares de opostos são necessárias para que a individualidade e a diversidade surjam.
Essa tensão tem a ver com a vitalidade do movimento criativo, ou seja, a vida surge exatamente desse processo relacional, desse jogo entre as diferentes polaridades, e se diversifica. Segundo Jung, “a identidade não possibilita a consciência. Somente a separação, o desligamento e o confronto doloroso através da oposição pode gerar consciência e conhecimento” (2014a, p. 289).
Para a psique, essa tensão não significa incompatibilidade e nem desconexão, mas compensação e complementação à serviço do desenvolvimento pessoal, que pode acontecer por meio do aprendizado criativo e amadurecimento pela superação do conflito, possibilitando o surgimento de novas atitudes mentais e afetivas. Diferenciação é discernimento, não exclusão: às vezes o que parece ser um vilão para a consciência é aquilo que pode compensá-la e produzir a transformação que a alma pede.
Os opostos existem como fatores distintos em nossa totalidade psíquica, mas sempre em relação mútua.
Jung oferece uma chave para ficarmos próximos à nossa essência, que é nos mantermos fiéis a nossa natureza da distinção. Ele comenta que “o eu só conserva sua independência se não se identificar com um dos opostos, mas conseguir manter o meio-termo entre eles. Isto só se torna possível se ele permanece consciente dos dois ao mesmo tempo” (Jung, 2013b, p. 425). Ou seja, se nos esforçamos demasiadamente para alcançar algo específico através da atitude consciente, seu polo oposto emerge com a mesma intensidade no inconsciente. Assim, quanto mais tentamos controlar, mais o descontrole nos pega; quanto mais tentamos perseguir o belo, mais nos deparamos com o feio em nós; muitas vezes ganhamos a razão e perdemos o que realmente importa, ou quanto mais almejamos agradar, mais risco de vivermos desagradados, e por aí vai.
Nossa tarefa: escolher a postura com a qual nos relacionamos
Os opostos interagem, numa relação paradoxal de atração e repulsão, para que possamos existir como singularidades e evoluir. A identificação com uma única qualidade pode ser vivenciada pelo ego como uma fantasia de coesão (até de unidade), mas, na verdade, é uma rigidez e fixação unilateral que retira a pessoa da interação e do diálogo com sua própria completude e particiona o ser e a psique, tornando o indivíduo inconsciente da sua natureza e à mercê do arriscado território da repressão e da sombra.
Enquanto coletividade e, também, pessoalmente, podemos repensar a postura de como temos enfrentado a questão dos opostos.
Tudo o que foi trazido até aqui pode servir como uma espécie de pedagogia das relações (inclusive nos orientando para dentro), ajudando-nos a reconhecer o valor das diferenças e lidar com os conflitos de oposições por uma perspectiva colaborativa e unificadora, ampliando diálogos, vínculos e um questionamento construtivo para a evolução e refinamento da própria experiência de vida.
Se nos relacionarmos com a questão dos opostos por aquele ponto de vista complementar e compensatório, tomando cuidado para não nos identificarmos e fixarmos em nenhuma unilateralidade, nos conectaremos com essa unidade que nos sustenta desde sempre e todo o tempo. Lembremos que somos criaturas nascidas de uma base comum e seguimos ligadas a essa Totalidade, quer percebamos ou não. Sem fonte, somos fome. Essa é a verdadeira ecologia, a casa que precisamos conhecer para cuidar e que habitamos todos juntos.
Nesse momento, gostaria de entregar para os leitores duas citações de Jung que falam por si e esclarecem uma boa parte da estrada a se trilhar para entender uma das mais importantes tarefas do ser humano que deseja, genuinamente, se tornar responsável:
“As pessoas, quando educadas para enxergarem claramente o lado sombrio de sua própria natureza, aprendem ao mesmo tempo a compreender e amar seus semelhantes; pelo menos, assim se espera. Uma diminuição da hipocrisia e um aumento do autoconhecimento só podem resultar numa maior consideração para com o próximo, pois somos facilmente levados a transferir para nossos semelhantes a falta de respeito e a violência que praticamos contra nossa própria natureza”. (Jung, 2014b, p. 28)
“(…) Mas não se deve esquecer a seguinte regra: o inconsciente de uma pessoa se projeta sobre outra pessoa, isto é, aquilo que alguém não vê em si mesmo, passa a censurar no outro. Este princípio tem uma validade geral tão impressionante que seria bom se todos, antes de criticar os outros, se sentassem e ponderassem cuidadosamente se a carapuça que querem enfiar na cabeça do outro não é aquela que se ajusta perfeitamente a eles”. (Jung, 2013a, p. 39)
O ser humano vai se formando e se situando entre o que existe dentro e fora de si, entre a luz e a sombra, alma e corpo, bem e mal e o que ele escolher fazer diante disso, como se posicionará é, ao mesmo tempo, tarefa e legado. Ora, se escolher e diferenciar são atributos da consciência, é tarefa evolutiva do indivíduo consciente discernir sobre como lidar e cuidar de si, de suas projeções e de seu entorno.
O ato de diferenciar pode levar à armadilha da sentença, da discriminação preconceituosa e sombria, da exclusão e desigualdade. Mas lembremos que diferenciar não é cortar, muito menos exterminar: é constituir relação. Trata-se de eleger o caminho da dialética, que promove o encontro responsável e que se baseia na superação de contradições, onde ideias opostas (tese e antítese) convergem para um novo entendimento superior (síntese) em um processo contínuo de caminhar entre possibilidades com vistas a promover integração e transformação. Talvez se trate de apoiar-se em uma cosmovisão capaz de enxergar a totalidade, a unidade, e conectar tanto as coisas da terra quanto às do céu.
Como Jung nos presenteia:
“(…)Também a questão da relação entre consciente e inconsciente não é uma questão especial e sim algo que tem a ver intimamente com nossa história, com nosso tempo atual, com nossa cosmovisão. Muita coisa só se torna inconsciente porque nossa concepção do mundo não lhe dá espaço, porque nossa educação e formação jamais lhe deu estímulo e, se alguma vez apareceu no consciente como eventual fantasia, foi imediatamente reprimida.
Os limites entre consciente e inconsciente são em grande parte determinados por nossa cosmovisão. Por isso devemos falar de problemas gerais se quisermos tratar adequadamente do conceito de inconsciente. Se quisermos compreender a natureza do inconsciente, não podemos nos ocupar somente com os problemas atuais, mas também com a história do espírito humano em geral.” (Jung, 2013a, p. 47)
Daniella Schmidt – Analista em Formação pelo IJEP
José Luiz Balestrini Junior – Analista Didata IJEP
Referências Bibliográficas:
Imagem: Colagem feita pela própria autora.
JUNG, Carl Gustav. Civilização em transição. Petrópolis: Vozes, 2013a.
JUNG, Carl Gustav. A Natureza da Psique. Petrópolis: Vozes, 2013b.
JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes, 2014a.
JUNG, Carl Gustav. Psicologia do inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2014b.
JUNG, Carl Gustav. O eu e o inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2015.
JUNG, Carl Gustav. Memórias, sonhos, reflexões. Nova Fronteira, 2021.


