RESUMO: A propaganda atual, para o caminho da felicidade, é: quanto mais conforto, melhor. As dificuldades são colocadas como inimigas a serem evitadas. Cada vez mais, somos ensinados a termos o que desejamos, sem limites. A nossa capacidade de suportar as contrariedades, saber esperar e conviver com os obstáculos é cada vez menor. Ficamos mais frágeis e impacientes. A insatisfação aumenta. Neste breve artigo, discorro sobre a resiliência e sua importância para o caminho de autoconhecimento. E as consequências de sua falta, nas pequenas coisas cotidianas corriqueiras, nas relações, no processo de autodesenvolvimento espiritual e no caminho da individuação.
Houve uma época, não há tanto tempo, em que costumávamos morar com família grande, dividir o quarto com irmãos, um banheiro para a turma toda. Tv pequena na sala, um telefone fixo, ar condicionado? não havia. Mesmo assim, as coisas funcionavam. O coletivo tinha mais força do que o individual. Tínhamos menos escolhas. A comida era a que tinha na geladeira, a mesma para todos, sem aplicativos para satisfazer os desejos imediatos. Precisávamos dividir, compartilhar, suportar a espera, as pequenas contrariedades, as impossibilidades.
Os pequenos desconfortos sempre funcionavam como treino para os maiores. Quando não convivemos mais com eles, qualquer coisa nos tira do eixo, incomoda, apavora… Hoje, uma minoria privilegiada não sabe o que é viver sem uma suíte, uma tv e um celular individual, com wi-fi ilimitado. Sempre em busca de produtos exclusivos, para os especiais.
Como já tratado no meu artigo anterior deste blog do IJEP: “Nossa época sem limites”, a falta de resiliência emerge junto com a falta de limites. Um retroalimenta o outro. Segundo o dicionário, “resiliência” significa, entre outras coisas: “capacidade natural para se recuperar de uma situação adversa, problemática; superação. Capacidade de quem se adapta às intempéries, às alterações ou aos infortúnios; estoicismo” (RIBEIRO, 2019).
Numa era em que o conforto e os prazeres ilimitados são os objetivos, não podemos suportar qualquer contrariedade ou infortúnio, proveniente do mundo aparente externo e interno. Como lidar com o coletivo? Como acolher os complexos afetivos que nos invadem insistentemente? Como suportar os “seres” (de dentro e de fora) que ficam nos “testando” o tempo todo?
O valor do individualismo e da satisfação dos desejos egóicos nunca estiveram com tanta importância.
Quando o indivíduo, sua consciência e vontades, estão sempre no centro, o convívio com o outro fica mais penoso. O coletivo importa menos. A conversa com o diferente, mais difícil. O mundo é ameaçador, qualquer um que atrapalhe MEU conforto e MINHA satisfação vira inimigo. A falta de tato na lida com o coletivo congela a pessoa no seu próprio mundo confortável, numa redoma segura, solitária, climatizada e infeliz.
Aliás, a impressão que dá é que a segurança, o controle e a anestesia nunca foram tão prescritos por aí, inclusive pelos profissionais da saúde. Precisamos garantir que não vamos passar mal, que tudo vai dar certo. Passamos a vida na esperança de termos o que queremos de forma garantida, que vamos ser saudáveis e felizes sempre. Melhor fazermos check-up, seguro de vida, garantir trabalho estável, aposentadoria e tomar um remédio para dormir logo. Não é mesmo? Evitamos o contato com a angústia, num tempo em que é muito mais importante controlar do que arriscar. A dúvida é ameaçadora. O encontro com o vazio ou com o outro tornam-se inseguros e o diálogo perigoso.
As crianças já não aprendem mais como suportar o coletivo e seus limites. São ensinadas e estimuladas a terem o que e quando quiserem. Não podem esperar. Temem o tédio.
Comem na frente da tela, andam de carro climatizado, falam com os pais quando quiserem com seus smartphones modernos. Tem escola por aí em que os pequenos podem até se alimentar durante a aula; já pensou se eles passarem fome até o intervalo? Vivemos numa era em que confundimos desejo com necessidade.
Não muito antigamente, tínhamos que ficar na fila no banco ou no ponto de ônibus e simplesmente esperar, conviver com o tédio, sem aplicativos para preencher aqueles minutos. Antes dos celulares, era comum ser impossível falar com as pessoas até que voltassem para casa no fim do dia. Para telefonar da rua, treinávamos paciência na fila no orelhão. Tínhamos mais tempo ocioso, tedioso, criativo…
Hoje, vamos sendo ensinados que temos que evitar qualquer tipo de sofrimento rapidamente, não podemos esperar, cada segundo precisa ser preenchido e útil. E paradoxalmente, nesta sociedade ansiogênica, nunca se ouviu tanto a frase: “eu não tenho tempo para nada”. Parecer super ocupado passou a ser associado à uma sensação de auto importância e orgulho.
O sintoma/desconforto, quando aparece, deve ser suprimido o mais rapidamente possível. Seja tédio, insônia, tristeza, calor ou dor de estômago. A saúde, cada vez mais, confunde-se com anestesia e capacidade de produtividade. O bem-estar, com ausência de dor.
Estimulados por uma indústria farmacêutica bilionária, tomamos remédios a cada incômodo que aparece. E esquecemos da Lei de Lavoisier: “na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma” (apud PINCELI). Quando usamos spray para nariz escorrendo, pode aparecer falta de ar ou insônia. Quando tomamos benzodiazepínicos de noite, apagamos; mas ficamos esquecidos, ansiosos e deprimidos no dia seguinte. Nunca consumimos tantos medicamentos psicotrópicos, drogas, séries e redes sociais, para fugirmos do tédio, da falta e da angústia onipresente. Mantemo-nos sempre ocupados.
A escolha hegemônica de nos anestesiar, assim que a dor surge, e sustentar o prazer ao máximo, com infinitas pílulas de dopamina durante o dia, como nas redes sociais, transforma o dia-a-dia numa roda de ramster, num scroll infinito, em que nunca é suficiente. O buraco se aprofunda, a angústia cresce, a necessidade de antidepressivos, ansiolíticos, álcool e drogas aumenta. A resiliência diminui.
O “padrão ouro” para aprimorar uma habilidade é o treino e a persistência. O que será que estamos nos habituando, nesta sociedade que teme o desconforto e a pausa, em que os principais valores são o desempenho individual e a aparência de estar sempre alegre? Será que abrimos espaço para conviver com a tristeza e qualquer outra emoção perturbadora? Mesmo os bons sentimentos, será que damos o tempo à fruição?
O constante preenchimento da vida com passatempos não permite o treino de estar consigo mesmo e com presença verdadeira nas relações. Não sobra espaço para conviver e sustentar o confronto do ego com os contrapontos que o incomodam. Não queremos nem podemos sentir o quanto somos incompletos e imperfeitos. Em “Presente e Futuro”, Jung nos chama a atenção: “o reconhecimento das sombras conduz à modéstia fundamental de que precisamos para admitir imperfeições. Esse reconhecimento e constatação conscientes devem sempre acompanhar as relações humanas” (JUNG, 2024. p. 63).
Abrir espaço para, eventualmente, sentirmos o desconforto nas relações pode complementar-nos, convidar-nos a transformações e trazer compensações, assim como o inconsciente faz com a consciência. Jung, insistentemente, nos lembra que quanto mais unilateral, mais fixado e mais congelado numa certeza garantida ou numa ideia inquestionável, fixa e solitária, maior a irrupção e invasão do outro lado negado, através das antinomias, dos polos complementares: “quanto mais capazes formos de nos afastar do inconsciente por um funcionamento dirigido, tanto maior é a possibilidade de surgir uma forte contraposição, a qual, quando irrompe, pode ter consequências desagradáveis” (JUNG, 1984, p. 3).
No contexto atual, almejamos cada vez mais controle das situações pela consciência, com apego ao que é confortável e previsível.
O “eu”, rígido nas próprias convicções, vai perdendo a prontidão necessária para entrar em contato com o “outro” que o ameaça, com o inconsciente e seus contrapontos incertos e perigosos. Como suportar então, com esta insegurança, o risco do diálogo com o polo oposto? E se nossos ideais, convicções e certezas forem abalados? E como realizar a função transcendente, se o ego não pode ser questionado ou contrariado?
O caminho de individuação é baseado na escuta e diálogo com o diverso, com o que muitas vezes incomoda o ego e o arranca da zona de conforto.
É preciso coragem para o desenvolvimento e a possibilidade de trilhar uma terceira via, a priori desconhecida e por isso insegura,num caminho não dado, que só pode ser apreendido se deparando com o risco inerente do novo. Quanto maior a unilateralidade da consciência e sua tentativa de controle, menor a resiliência em sustentar a dúvida, com o desconhecido. Isto aumenta, portanto, a dificuldade para sair dos mesmos padrões seguros, congelados, confortáveis, conhecidos, e muitas vezes, infelizes.
O que é estar bem? Será a ausência de sintomas e incômodos? Uma relação saudável não pode ter conflitos? Estar em paz é sinônimo de não sentir angústia?
A falta de resiliência tende à uma busca incessante por algo que nos preencha. Quando vem a falta e a angústia, suportamos cada vez menos. Trocamos de objeto, de relação. Não serve mais. Tudo é descartável. A pressa em passar rapidamente para a próxima tela, notícia ou namorada deixa-nos inquietos, distraídos, desatentos, ansiosos, com déficit de atenção e insônia. Precisamos consumir, devorar. Falta contemplação. Vamos tirando centenas de fotos e nos esquecemos de ver. Parece que tudo vai ficando armazenado só no HD externo. As coisas vão ficando menos significativas e são esquecidas. Temos a impressão de que o ano passou muito rápido. E quem nos tornamos? O que sentimos? Será que nos desenvolvemos neste ano?
A verdadeira fruição do momento é demorada, toma tempo para degustar, precisa de pausa.
A psicologia analítica de Jung traz a ideia de sustentar os estados aflitivos. Propõe que possamos abrir espaço-tempo para conviver com a dor, a dúvida, os riscos, os caminhos incertos. Para ouvirmos e dialogarmos com as entidades em nós, os complexos afetivos, que não estão ali para nos deixar sempre confortáveis. Num cenário em que a resiliência e a espera, sem soluções e desfechos prontos, são condições para o autodesenvolvimento. Esta capacidade requer que aprendamos com os hábitos, precisamos ser capazes de treinar a partir das pequenas coisas, suportar primeiro os desconfortos menores do cotidiano, para podermos acolher as grandes angústias. Em “A natureza da psique”, Jung nos lembra que: “é sumamente improvável que haja uma terapia que elimine todas as dificuldades; elas são necessárias à sua saúde. E somente a sua excessiva quantidade nos parece desnecessária” (JUNG, 1984, p. 5).
Encarar as próprias sombras demanda tempo. O movimento de regressão para o mundo interno, o contato com a nigredo alquímica, a parte desagradável, feia e suja em nós, é parte do processo e também demanda resiliência e coragem, sem pressa. Para que possa surgir um novo caminho de progressão para o mundo “externo’, de forma mais autêntica, para contribuir com o entorno, com a integração dos próprios potenciais descobertos. Como numa sístole e diástole, ou numa melodia ritmada em que a pausa é condição fundamental.
João Herck – Analista em Formação – IJEP
Waldemar Magaldi – Analista Didata IJEP
REFERÊNCIAS
JUNG, C. G. A natureza da psique. Petrópolis: Vozes, 1984.
__________ Presente e futuro. Petrópolis: Vozes, 2024
RIBEIRO, Débora (2019). Dicionário online de português. Disponível em: https://www.dicio.com.br/resiliencia/ Acesso em 13 mai. 2026.
PINCELI, Carlos Ricardo. Disponível em: https://sites.fem.unicamp.br/~em313/paginas/person/lavoisie.htm Acesso em 14 mai. 2026.

