Resumo: A supervisão ocupa um lugar fundamental na formação e na prática do analista junguiano, oferecendo um espaço de reflexão, aprendizado e amadurecimento clínico. Neste texto, exploramos a figura do Mentor como metáfora para o papel do supervisor, aquele que orienta sem substituir e favorece o desenvolvimento da autoridade interior do supervisionando. Em contraponto, o mito de Pigmalião nos alerta para os riscos de uma supervisão atravessada pelo narcisismo, na qual o supervisor tenta moldar o outro à sua própria imagem. Entre esses dois polos, propomos pensar a supervisão como um espaço ético de troca, no qual conhecimento, experiência e singularidade podem se encontrar para favorecer o florescimento de cada analista.
A clínica pode ser uma jornada solitária se tentarmos carregar sozinhos o peso das projeções e os mistérios inconscientes que emergem no encontro terapêutico. Ter ao lado um olhar experiente para dialogar sobre o manejo, clarear pontos cegos e estruturar hipóteses clínicas é o que transforma a prática em um processo contínuo de amadurecimento e segurança profissional. Seja individual ou em grupo, a supervisão é uma importante instância da formação e da atuação do analista junguiano.
O papel da supervisão é o de ser um espaço para aprendizado aos novos analistas e auxiliar aqueles já em atuação a ver possíveis pontos cegos do manejo clínico e da relação terapêutica. A supervisão não é a mesma coisa que terapia individual, mas pode ser realizada pelo mesmo profissional, em momentos diferentes. Neste artigo vamos explorar a importância e riqueza dessa atividade na formação e na atuação do analista junguiano.
O supervisor e a figura do Mentor
Lionel Curbett em Kugler (2023) atribui ao supervisor o papel de mentor. A palavra mentor tem por significado pessoa experiente que guia, orienta, dá conselhos e auxilia no desenvolvimento de outra (Dicio, s.d). A origem da palavra vem da Odisseia de Homero, referente ao personagem Mentor (Méntor), nobre de Ítaca e ao qual Ulisses deixou os cuidados de sua casa e família durante sua ausência (Lírio Católico, s.d), seu nome tem como raiz o termo men que significa lembrar, pensar ou aconselhar (Kugler, 2023).A palavra mentor deu origem ao termo mentoria, hoje muito comum com jargão corporativo, referente a atividade de desenvolver os mais jovens e inexperientes (Dicio, s.d).
Para nós que estudamos Jung e temos interesse nos mitos e figuras mitológicas, a figura do Mentor em Homero é mais interessante, pois este acaba se tornando instrumento de Atena no processo de desenvolvimento e amadurecimento de Telêmaco, filho de Ulisses (Brandão, 1986). O nobre, inspirado por Atena, guia e inspira o jovem Telêmaco na busca por seu pai.
Para Kugler (2023) a inspiração de Atena, que assume a forma e a voz de Mentor, dá início ao processo de amadurecimento de Telêmaco, que parte em sua própria jornada em busca de seu pai. Mentor atua como bússola espiritual e tutelar, mas sem tomar para si o papel do pai, tampouco se colocar em papel de par ou lateral. O papel do mentor é o de ser uma figura experiente, semelhante, mas não substituta da figura parental. A inspiração de Atena nos remete a uma figura que carrega suas qualidades como sabedoria e justiça.
Curbett (2023) destaca a importância e papel da figura do mentor, que ocupa um papel relacional de transição entre pai/mãe e pares.
O autor traz um trecho de Burton que diz que o mentor aparece em momentos e transição na vida, sendo uma espécie de modelo de personalidade. O mentor ocupa uma posição intermediária, pois não é pai ou mãe, sob o risco de infantilizar o mentorado, nem um par, pois é mais experiente e precisa ocupar o lugar de maturidade. Em nossa prática, cabe ao supervisor esse papel.
O termo supervisão é recente, no passado era chamada de análise de controle. Adotada pela escola freudiana em 1918 e inclusa como requisito de formação em 1925. Na linha junguiana aparece pela primeira vez registrada em 1948 como requisito de formação no Instituto de Zurique, sob a alcunha da “análise de controle sob supervisão de um analista didata” (Mattoon, 2023).
A supervisão em si consiste na apresentação de casos, diante de colegas (sob a supervisão de um analista didata) ou a apresentação do caso diretamente ao didata em sessão individual.
A partir daí prossegue-se a análise de questões que podem estar envolvidas na análise do cliente. Mattoon (2023) considera que é difícil traçar uma linha entre supervisão e análise individual, e que o analista pode oferecer uma visão mais profunda das questões contra transferenciais, no entanto, a análise pessoal não deve ser usada amplamente como supervisão de casos.
A supervisão com o próprio analista não é algo a ser rechaçado, no entanto, pode ser que se torne uma extensão da própria análise. Por isso é recomendável ao profissional que procure supervisão com uma pessoa além do seu próprio terapeuta, buscando novos pontos de vista, conhecimentos diferentes e uma orientação que não seja enviesada ou acabe caindo na análise pessoal.
No livro de Kugler (2023, p. 229), Mario Jacoby apenas menciona o risco do complexo de Pigmalião, onde o supervisor tenta tornar o supervisionando em uma cópia de si. Jacoby não se aprofunda na descrição desse complexo. É essa leitura que pretendemos ampliar em seguida.
O complexo de Pigmalião e a armadilha narcísica do supervisor
Pigmalião é um personagem mitológico apresentado por Ovídio[1] em sua obra Metamorfoses[2]. Trata-se do rei de Chipre, chocado com as Propétides: as primeiras mulheres a prostituir sua beleza e seus corpos, perdendo todo o pudor e que são transformadas em pedra por Vênus, decide viver em celibato e em isolamento.
O rei era um habilidoso escultor e, privado de companhia humana, esculpe uma imagem feminina realista em marfim, cuja perfeição e forma nenhuma mulher mortal seria capaz de possuir, e acaba se apaixonando por ela. Pigmalião passa a tratar a estátua como viva, acariciando-a, dando presentes como joias e roupas. Durante as festividades de Vênus, o rei escultor sabe que não deve pedir à deusa que sua estátua ganhe vida, então pede que sua esposa seja semelhante à sua criação, no entanto, a deusa percebe o pedido subentendido e concede o desejo: a estátua ganha vida quando Pigmalião a toca (beija) ao chegar em casa.
As consequências desse ato se apresentam no futuro da linhagem de Pigmalião: sua bisneta Mirra se apaixona pelo pai e o engana, ficando grávida dele. Ao ser descoberta, para não ser assassinada pelo pai, foge para a floresta e se torna a árvore de mirra, com cascas grossas e imperfeitas, ao contrário da perfeição esculpida por Pigmalião em sua esposa. Mirra gera Adônis, rapaz de extrema beleza que se torna o centro de uma disputa divina entre Vênus e Ártemis, e seu destino é ser destroçado por um javali.
Na supervisão um dos grandes desafios é oferecer ao supervisionando desenvolver seu estilo e habilidades de analista.
A tentação do supervisor é se tornar um Pigmalião, desgostoso e chocado com a imperfeição do mundo pretendendo se relacionar apenas com aquilo que projeta no outro, caindo numa tentação narcísica de tornar o outro uma cópia de si ou a versão que acredita ser a correta do que é um analista. Os frutos da constelação desse complexo são trágicos: o fim da linhagem (libido) destruído por uma disputa de deuses.
Supervisão: espaço de aprendizado e florescimento
Trazendo para nossa conversa Mentor e Pigmalião, podemos refletir que a supervisão é um espaço multifacetado: aprendizado, avaliação e crescimento andam juntos, possibilitando a todos o desenvolvimento de suas habilidades. O conhecimento do supervisionando não deve ser desconsiderado, afinal, a travessia do mesmo pela formação é individual. No papel do mentor, o supervisor apenas insufla o desejo do jovem analista a seguir em sua jornada em busca da autoridade interior, ampara a ansiedade dos primeiros passos e oferece sua sabedoria como nutriente para o florescimento do analista iniciante ou supervisionado.
Longe de ser um tribunal avaliativo ou uma tentativa de moldar o terapeuta à imagem e semelhança do supervisor, a supervisão junguiana ética se propõe a ser um vaso alquímico seguro. É o espaço onde as incertezas do consultório, os nós contra transferenciais, as ressonâncias arquetípicas e a amplificação simbólica dos casos podem ser desdobradas em conjunto — preservando e honrando a singularidade, o estilo e o tipo psicológico de quem atende.
Seja você um recém-formado dando os primeiros passos no consultório particular, um profissional em transição de carreira ou um analista já atuante que busca aprofundar o manejo e a reflexão sobre casos complexos, a supervisão é o solo fértil para esse desenvolvimento. Convido você a compartilhar essa travessia e caminhar lado a lado na construção da sua prática clínica.
Me. Mauro Angelo Soave Junior – Didata em formação pelo IJEP
Dra. Simone Magaldi – Didata e fundadora do IJEP
Vídeo de apresentação:
Referências:
BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega. Volume I. Petrópolis: Vozes, 1986.
DICIO. Mentor. Dicionário Online de Português. [S. l.], [s. d.]. Disponível em: https://www.dicio.com.br/mentor/. Acesso em: 17 ago. 2026.
CURBETT, Lionel. Supervisão e o arquétipo do mentor IN: KUGLER, Paul (org.). Perspectivas junguianas sobre supervisão clínica. Tradução de Gentil Avelino Titton. Revisão técnica de Viviane Richardson. Petrópolis: Vozes, 2023. (Coleção Reflexões Junguianas) pp. 77-104.
KUGLER, Paul (org.). Perspectivas junguianas sobre supervisão clínica. Tradução de Gentil Avelino Titton. Revisão técnica de Viviane Richardson. Petrópolis: Vozes, 2023. (Coleção Reflexões Junguianas)
LÍRIO CATÓLICO. Mentor, -oris. Dicionário de Latim. [S. l.], [s. d.]. Disponível em: https://www.liriocatolico.com.br/dicionario_latim_ptbr/view/mentor-oris/. Acesso em: 17 ago. 2026.
MATTOON, Mary Ann. Observações históricas IN: KUGLER, Paul (org.). Perspectivas junguianas sobre supervisão clínica. Tradução de Gentil Avelino Titton. Revisão técnica de Viviane Richardson. Petrópolis: Vozes, 2023. (Coleção Reflexões Junguianas) pp. 36-48.
OVÍDIO. Metamorfoses. Tradução e introdução de Rodrigo Tadeu Gonçalves. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2023
[1] Públio Ovídio Nasão (nascido em 43 a.C., em Sulmona, Itália), nascido em uma família de classe equestre, foi enviado a Roma para estudar retórica com o objetivo de seguir carreira pública. No entanto, para o desgosto de seu pai, ele rejeitou as ocupações tradicionais dos cidadãos romanos (a política, a oratória e a guerra) para se dedicar inteiramente ao otium da poesia
[2] As Metamorfoses constituem um poema épico monumental composto de quase 12 mil versos em hexâmetro datílico, divididos em 15 livros que entrelaçam cerca de 250 narrativas mitológicas.

