Resumo: Este texto propõe um olhar sobre as diversas formas de exploração animal na contemporaneidade, como a pecuária, a moda e o entretenimento, investigando, a partir da psicologia analítica de Carl G. Jung, quais dinâmicas psíquicas as sustentam. A hipótese central é a de que essa exploração expressa uma cisão entre o humano e sua própria natureza instintiva, alimentada por mecanismos de projeção e dissociação que atravessam a cultura como um todo. A pecuária, por sua escala e profunda naturalização, recebe uma atenção mais ampliada, justamente por ser o campo onde a violência mais se organiza como sistema e menos se apresenta como tal. Um convite a olhar para aquilo que a normalidade cultural aprendeu a não ver.
Este texto propõe uma reflexão, a partir da psicologia analítica, sobre os processos psíquicos e culturais que sustentam a naturalização da exploração animal na contemporaneidade. Essa inquietação surge diante da pergunta: como se torna possível, do ponto de vista psíquico, que uma cultura inteira normalize a exploração sistemática de vidas sencientes?
A proposta é abordar a exploração animal não apenas como um fenômeno externo, mas como expressão de uma dinâmica interna: um sintoma que revela algo da relação do humano com sua própria natureza, com sua dimensão instintiva e com a alteridade.
Na perspectiva da psicologia analítica, os fenômenos coletivos não podem ser compreendidos apenas em seus aspectos históricos, sociais ou econômicos. Eles são também configurações simbólicas, atravessadas por conteúdos inconscientes, por imagens arquetípicas e por projeções que estruturam a experiência.
Dessa forma, a hipótese que orienta esta reflexão é a de que a exploração animal contemporânea pode ser compreendida como expressão de uma cisão psíquica: uma ruptura na relação simbólica entre o humano e a natureza, acompanhada pela projeção de conteúdos sombrios sobre os corpos não humanos. Buscaremos investigar quais dinâmicas psíquicas sustentam essa cisão, de que maneira a cultura participa de sua manutenção e quais são as implicações dessa relação para o processo mais amplo de desenvolvimento e criação de consciência.
Trata-se, portanto, de deslocar o olhar do ato em si para o campo que o torna possível, da prática visível para a estrutura invisível que a sustenta.
Jung, em diálogo com Lévy-Bruhl, descreve formas mais arcaicas de consciência a partir da noção de participation mystique. Trata-se de um modo de experiência em que a separação entre o indivíduo e o mundo ainda não está claramente estabelecida. Não porque não exista distinção, mas porque ela ainda é pouco diferenciada. A relação com o mundo ocorre mais como fusão do que como encontro, o que limita a possibilidade de consciência e reconhecimento da alteridade.
A diferenciação é uma condição necessária para que o outro possa ser reconhecido como outro.
A questão surge quando esse processo não é acompanhado por elaboração simbólica, resultando não em ampliação da consciência, mas em novas formas de dissociação, podendo resultar em uma relação empobrecida com o mundo externo e, simultaneamente, em um afastamento da própria dimensão instintiva.
“Participation mystique. Termo que provém de Lévy-Bruhl, significa uma espécie singular de vinculação psicológica com o objeto. Consiste em que o sujeito não consegue distinguir-se claramente do objeto, mas com ele está ligado por relação direta que poderíamos chamar identidade parcial. Esta identidade se baseia numa unicidade apriorística de objeto e sujeito. A participação mística é, portanto, um resíduo desse estado primitivo”.(JUNG, 2015, §871)
Na cultura ocidental, esse processo de diferenciação tende a se intensificar a partir da valorização progressiva da racionalidade e da centralidade humana, configurando uma visão antropocêntrica na qual o humano passa a se colocar em uma posição de superioridade em relação à natureza e às outras espécies. O especismo antropocêntrico é a discriminação de seres sencientes baseada exclusivamente no fato de eles não pertencerem à espécie humana.
A ampliação da consciência racional e a diferenciação entre humano e natureza fazem parte do processo civilizatório e do desenvolvimento da consciência. Entretanto, quando esse movimento ocorre de maneira excessivamente unilateral, a razão passa a negar, reprimir ou desvalorizar os instintos em vez de estabelecer uma relação simbólica com eles.
O animal, que anteriormente participava de um campo de significado, passa a ser percebido predominantemente sob a lógica de sua função. Entretanto, os conteúdos psíquicos associados a essa dimensão não desaparecem. Eles permanecem ativos no inconsciente, ainda que não reconhecidos, e tendem a encontrar expressão indireta na relação com o mundo.
“Aquilo a que chamamos consciência civilizada não tem cessado de afastar-se dos nossos instintos básicos. Mas nem por isso os instintos desapareceram: apenas perderam contato com a consciência, sendo obrigados a afirmar-se de maneira indireta. Podem fazê -lo através de sintomas físicos (no caso de uma neurose) ou por meio de incidentes de vários tipos, como humores inexplicáveis, esquecimentos inesperados ou lapsos de palavra. O homem gosta de acreditar-se senhor da sua alma. Mas enquanto for incapaz de controlar os seus humores e emoções, ou de tornar-se consciente das inúmeras maneiras secretas pelas quais os fatores inconscientes se insinuam nos seus projetos e decisões, certamente não é seu próprio dono. Estes fatores inconscientes devem sua existência à autonomia dos arquétipos.” (JUNG, 2016, p.104)
Dessa forma, a exploração animal pode ser compreendida, em um nível mais profundo, como expressão dessa dissociação: não apenas como uma prática dirigida ao exterior, mas como efeito de uma relação não elaborada com aquilo que, tendo sido separado da consciência, não foi integrado psiquicamente.
Assim, a cisão entre humano e natureza não se reduz a um processo histórico, mas se apresenta como uma dinâmica viva, que atravessa tanto a forma como o humano se relaciona com os animais quanto a maneira como se relaciona com sua própria vida instintiva, tornando-se possível articular de forma mais precisa a relação entre a projeção de conteúdos instintivos não integrados e a dificuldade de reconhecimento da alteridade na relação com o animal.
Quando aspectos fundamentais da psique, especialmente aqueles ligados à dimensão instintiva, não são reconhecidos como pertencentes ao próprio sujeito, eles tendem a ser vividos de forma indireta, através da projeção. Nesse processo, o animal ocupa no imaginário humano, uma dimensão instintiva que a consciência moderna frequentemente mantém à distância. O animal passa a ser percebido como portador daquilo que foi excluído da própria experiência consciente. Ele é investido de características como brutalidade, impulsividade ou inferioridade, que, embora lhe sejam atribuídas, dizem respeito, em grande medida, a conteúdos não integrados da psique humana.
De um lado, observamos a intensificação e sofisticação das formas de exploração animal, em larga escala, muitas vezes naturalizadas e invisibilizadas. De outro, assistimos a um movimento igualmente crescente de humanização dos animais de companhia que passam a ocupar lugares afetivos cada vez mais centrais. Não se trata de fenômenos opostos, mas de expressões simultâneas de uma mesma dinâmica psíquica. A mesma cultura que explora de forma massiva determinadas formas de vida é aquela que, também estabelece com alguns animais relações de intensa proximidade emocional, que podem ser saudáveis ou patológicas.
Esse desdobramento revela um paradoxo: o animal é, ao mesmo tempo, radicalmente desconsiderado em sua condição de ser senciente e profundamente valorizado enquanto objeto de investimento afetivo. Em um caso, ele é reduzido à função; no outro, pode ser elevado à condição de quase humano. Em ambos, algo de sua alteridade permanece não percebido.
A humanização dos pets, embora possa representar uma ampliação da sensibilidade e da capacidade de vínculo, também pode operar como uma forma de mediação que evita o encontro com o animal em sua diferença. Ao ser aproximado da imagem humana, o animal torna-se mais reconhecível, mais assimilável, mas também, em certa medida, menos outro. Assim, a cisão que marca a relação com o animal não se expressa apenas na exploração, mas também na forma como o cuidado e o afeto se organizam. Entre a objetificação e a humanização, o que se evidencia é a dificuldade de sustentar o animal como um outro que não pode ser plenamente reduzido nem à função, nem à identificação. No entanto, essa dinâmica não se limita à projeção de conteúdos. Ela implica também uma transformação na própria forma de relação com o outro.
A dificuldade de reconhecer o animal em sua alteridade está, portanto, diretamente ligada à dificuldade de reconhecer certos aspectos da própria psique. Aquilo que não pode ser sustentado internamente tampouco pode ser reconhecido.
Dessa forma, a exploração animal não se apresenta apenas como um problema de ordem prática ou moral, mas como expressão de uma configuração psíquica mais profunda. Ao reduzir o animal à função, seja como recurso, espetáculo ou objeto descartável, a consciência não apenas o instrumentaliza, mas também evita o confronto com aquilo que ele simbolicamente representa.
Assim, a exploração animal revela-se como um campo no qual projeção e falha na relação com a alteridade não apenas coexistem, mas se sustentam mutuamente: quanto menos o sujeito reconhece em si aquilo que projeta, menos é capaz de reconhecer o outro em sua autonomia; e quanto mais o outro é reduzido à função, mais os conteúdos projetados permanecem fora do campo da consciência. Nesse sentido, a exploração animal pode ser compreendida como manifestação da sombra coletiva, assumindo diferentes configurações conforme o contexto cultural. Entre elas, destacam-se a pecuária, entretenimento e lazer, moda, testes, abandono e os maus-tratos.
A vida reduzida à produção
Na pecuária, a sombra coletiva se manifesta de forma sistematizada e institucionalizada. Os animais de consumo revelam uma dimensão particularmente complexa da exploração animal: aquela que não é percebida como tal. Diferentemente de formas explícitas de violência, sua utilização está profundamente naturalizada, sendo sustentada por práticas culturais e econômicas que a tornam invisível à consciência. Nessa dinâmica, não se trata apenas de uma dissociação pontual, mas da expressão de uma configuração mais ampla da consciência contemporânea. A lógica que organiza a pecuária moderna está profundamente alinhada a um modelo de funcionamento psíquico marcado pela unilateralidade: uma ênfase predominante em valores como produtividade, eficiência, controle e intensificação de resultados.
Na perspectiva da psicologia analítica, toda unilateralidade implica uma compensação inconsciente. Quando a consciência se organiza de forma excessivamente orientada pelo logos, pela racionalização e literalidade excessiva, outros aspectos da psique, especialmente aqueles ligados ao eros, à relação, ao vínculo e à sensibilidade, tendem a ser desvalorizados ou excluídos do campo da consciência.
“A unilateralidade é uma característica inevitável, porque necessária, do processo dirigido, pois direção implica unilateralidade. A unilateralidade é, ao mesmo tempo, uma vantagem e um inconveniente, mesmo quando parece não haver um inconveniente exteriormente reconhecível, existe, contudo, sempre uma contraposição igualmente pronunciada no inconsciente, a não ser que se trate absolutamente de um caso ideal em que todas as componentes químicas tendem, sem exceção, para uma só e mesma direção.” (JUNG, 2013, § 138)
É nesse contexto que a pecuária pode ser compreendida não apenas como sistema econômico, mas como expressão simbólica de uma consciência que privilegia a produção em detrimento da relação.
O animal, nesse campo, deixa de ser encontrado como um outro portador de vida própria e passa a ser percebido como recurso. Sua existência é organizada em função de parâmetros produtivos, trata-se de uma redução da vida à sua utilidade.
Essa lógica encontra ressonância na estrutura da sociedade capitalista contemporânea, na qual o valor tende a ser atribuído prioritariamente àquilo que produz, gera lucro ou pode ser explorado como recurso. No entanto, do ponto de vista psicológico, essa organização externa reflete e reforça uma determinada atitude da consciência.
Quando a vida passa a ser avaliada predominantemente por sua capacidade de produzir, algo fundamental se perde: sua dimensão intrínseca, essencial. Esse empobrecimento da relação com a vida não se limita ao modo como tratamos os animais, mas atravessa também a forma como o humano se relaciona consigo mesmo. Nesse sentido, a exploração animal na agropecuária pode ser compreendida como um campo privilegiado de expressão de uma consciência orientada pelo poder e pela dominação.
O controle sobre os corpos animais, sua reprodução, alimentação, crescimento e morte, revela uma relação com a vida mediada pela necessidade de domínio.
A natureza deixa de ser presença com a qual se estabelece relação e passa a ser território a ser controlado, organizado e explorado. A ganância, aqui, não precisa ser compreendida apenas em seu sentido moral, mas como expressão de um movimento psíquico de expansão unilateral, que busca constantemente mais produção, mais rendimento, mais lucro, sem que haja, necessariamente, criação de consciência.
Nessa dinâmica, a fragmentação desempenha um papel central. A cadeia que liga vida, morte e consumo é rompida não apenas materialmente, mas psiquicamente. O animal desaparece enquanto imagem concreta se apresenta de forma distorcida e esvaziada de relação simbólica. A carne não aparece como corpo e o couro não aparece como pele. Ele já vem transformado, nomeado e inserido em um sistema que neutraliza sua origem. E, nesse processo, rompe-se a continuidade da experiência. Entre o animal e aquilo que consumimos, a ruptura não é apenas material, ela é psíquica.
A maioria dos indivíduos se orienta por imagens externas, e aqui o animal não é visto em sua essência, a imagem é dissociada, fragmentada ou eliminada. Essa ausência de relação permite que a violência não seja reconhecida como tal. Não porque ela não exista, mas porque foi retirada do campo da experiência consciente.
Sob essa perspectiva, o funcionamento da agropecuária moderna pode ser compreendido como uma forma de sombra coletiva altamente adaptada. Não se trata de uma sombra que irrompe em conflito, mas de uma sombra que se organiza como sistema, que se integra ao cotidiano e que, justamente por isso, se torna mais difícil de ser percebida.
Talvez o ponto mais difícil de olhar não seja aquilo que nos choca, mas aquilo que não nos afeta.
Os animais de consumo não aparecem como problema porque estão completamente integrados à normalidade cultural. Eles não são vistos como animais, mas como alimento, produto, vestuário. É nesse processo que a relação se rompe. O animal desaparece enquanto presença e permanece apenas como função. Há uma fragmentação que impede que a vida do outro seja reconhecida como vida. Nós nos alimentamos sem nos relacionarmos com aquilo que comemos.
Simbolicamente, o ato de se alimentar sempre implicou uma forma de reconhecimento de que algo viveu e, de alguma maneira, continua em nós. Quando esse reconhecimento desaparece, o ato permanece, mas esvaziado de relação. E aquilo que é incorporado sem consciência não se integra simbolicamente. Permanece como algo não elaborado psiquicamente.
A possibilidade de integração talvez não esteja em abandonar as contradições, mas em sustentar a consciência da relação, reconhecer que somos atravessados por esse sistema e que é justamente nesse reconhecimento, e não fora dele, que pode surgir uma outra forma de encontro entre humano, animal e natureza.
A reflexão aqui desenvolvida representa apenas um primeiro movimento de aproximação a um campo que tem muito a ser aprofundado.
Paula Chiavone Telles – Analista em formação IJEP
José Balestrini – Analista Didata IJEP
Referências:
.JUNG, C.G. A natureza da psique. 10ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013.
_____ Tipos psicológicos. Petrópolis: Vozes, 2015. E-book. ISBN 978-85-326-4100-7.
_____ O homem e seus símbolos. 3ª ed.especial. Rio de Janeiro: HarperCollins Brasil, 2016.
Figura: montagem/colagem pela autora a partir de imagens

