Resumo: Este ensaio aborda a exploração animal no turismo, descrevendo a forma como eles são tratados pelos humanos: desde o momento de sua captura, passando pelos maus-tratos a que são submetidos, os sofrimentos que sentem e até os ganhos que existem por trás desta indústria predatória. Ele amplia, através da psicologia profunda, o olhar sobre a projeção da sombra nesses animais. Propõe reflexões a respeito do que queremos capturar, prender, domar e combater interiormente que negamos e passamos a realizar isso do lado de fora. Por fim, são apresentadas sugestões de como ajudar esses animais não humanos.
“Temos que abandonar o antropocentrismo; há muita vida além da gente, não fazemos falta na biodiversidade. Pelo contrário. Desde pequenos, aprendemos que há listas de espécies em extinção. Enquanto essas listas aumentam, os humanos proliferam, destruindo florestas, rios e animais. Somos piores que a covid-19. Esse pacote chamado de humanidade vai sendo descolado de maneira absoluta desse organismo que é a Terra, vivendo numa abstração civilizatória que suprime a diversidade, nega a pluralidade das formas de vida, de existência e de hábitos.” (KRENAK, 2020, p. 81-82)
A exploração animal foi o assunto que abordamos dentro do XI Congresso Junguiano do IJEP, que teve como tema: Ecologia Alquímica. Após meses me preparando para apresentá-lo no congresso, devo confessar que ele ainda reverbera em mim, traz alguns desconfortos e, como Jung instiga, para quê?
Em busca dessa resposta, este ensaio vai tratar da exploração animal no turismo.
A psicologia profunda, muito resumidamente, nos convida a percorrer seu próprio caminho interno e, de mãos dadas com um ego estruturante, amplia-se a consciência, olha para cada persona, confronta complexos, integra sombra, simboliza através das imagens arquetípicas, reconhece a anima ou animus que guiará ao self, e este, alinhado com o ego, se realizará na vida. Essa caminhada não é nada simples nem linear, ela acontece quando há uma disponibilidade e prontidão interna. Um processo individual, único e que levará o tempo que for necessário. Dito isso, entendo que faz todo sentido um tema tão complexo como a exploração dos animais, cheio de camadas, ainda provocar reflexão e não se esgotar em apenas um momento.
A exploração animal abrange diversas práticas onde animais não humanos são tratados como mercadorias ou recursos para benefício humano, violando sua autonomia e senciência. Essas atividades se estendem desde a alimentação até o lazer e a pesquisa, são muitas vezes naturalizadas, mas são consideradas violações de direitos por vários movimentos e pela ética animal (Cf. Wikipedia).
Antes de continuarmos refletindo traremos o conceito de senciência conforme a organização Proteção Animal Mundial, é a capacidade de sentir. Isso inclui estados e emoções positivos e negativos que são bastante complexos, como mágoa, empatia, medo, prazer e alegria.
Ambos os animais sentem, tanto os humanos quanto os não humanos e, com isso, por que o segundo continua sendo explorado de uma forma tão agressiva e cruel como se não sentisse?
Ailton Krenak, líder indígena que defende os povos originários como guardiões da terra e da vida, questiona a exploração animal, em seu livro “A vida não é útil”, criticando a visão antropocêntrica imposta a eles pela lógica ocidental que define a vida pela capacidade de ser útil, uma imposição que desvaloriza o próprio ser.
Podemos considerar esse afastamento do ser e a valorização do ter como influência do espírito da época.
Para Jung:
“Não se deve brincar com o espírito da época, porque ele é uma religião. Ou melhor ainda, é uma crença ou um credo cuja irracionalidade nada deixa a desejar, e que, ainda por cima, possui a desagradável qualidade de querer que o considerem o critério supremo de toda a verdade e tem a pretensão de ser o detentor único da racionalidade. (…) age com soberana força de sugestão sobre todos os espíritos mais fracos de nossa época e os arrasta atrás de si. Pensar diferente do que, em geral, atualmente se pensa, tem sempre o ressaibo de ilegitimidade e de algo perturbador; é considerado mesmo como algo de indecente, doentio ou blasfemo e, por isso mesmo, socialmente perigoso para o indivíduo que deste modo nada estupidamente contra a corrente.” (JUNG, 2012, §652 e 653)
O sistema econômico que predomina atualmente é o capitalismo, podemos dizer que ele faz parte do espírito da época em que as relações comercias são regidas visando à rentabilidade, ao acúmulo e ao poder, independentemente dos danos irreparáveis que possa causar na natureza, especificamente aos animais.
A indústria do turismo explora os animais para entreter e divertir, através de discursos de marketing enganosos, faze os turistas acreditarem que estão apoiando a conservação, quando, na verdade, estão financiando a exploração.
O entretenimento com animais parece não ter limites e, para que isso ocorra, eles precisam ser removidos da natureza, arrancados de suas mães ainda pequenos, o que contribui para o tráfico de espécies, podendo desequilibrar os ecossistemas locais. Eles são frequentemente submetidos a estresse físico e psicológico. Devido ao manejo inadequado e às condições de cativeiro, lesões e doenças se manifestam, comprovando o resultado de maus-tratos e sofrimento.
A procura por esse tipo de lazer e atrações continua alta, há muitas pessoas dispostas a pagar para verem esses animais performando em shows, sendo usados como meios de transporte e servindo como cenários em selfies, dentre outras performances, ou seja, tudo para satisfazer o cliente.
Para quê tanto abuso? O que leva milhares de pessoas a agirem como se fossem donos de tudo? Será que há consciência de que os animais devem ser tratados com alteridade? Penso que eles nasceram para ser livres e essa é a maneira como eles deveriam estar no mundo.
Fazendo uma ampliação em que os animais simbolizam os instintos e, segundo a psicologia profunda, se encontram no inconsciente coletivo, pretendemos neste artigo compreender o motivo de os instintos estarem sendo presos, controlados e domados, em vez de reconhecermos que em nós existe algo primitivo que deve ser olhado e integrado à nossa vida, e não eliminado.
Jung escreve:
“A inconsciência dos impulsos instintivos baseia-se em duas razões: uma é a inconsciência geral, da qual todos participam em maior ou menor grau; a segunda é uma inconsciência secundária consequente à repressão de conteúdos incompatíveis. Este fenômeno não é causa, mas já sintoma de uma atitude neurótica que prefere ignorar certos fatos desagradáveis e não hesita em trocar uma pequena vantagem no presente por toda uma cadeia de sintomas doentios.” (JUNG, 2021, §262)
Sendo assim, afirmamos que exploração dos animais no turismo é um sintoma doentio. De acordo com a filosofia hermética, tudo que se encontra do lado de fora, encontra-se do lado de dentro (Cf. JUNG, 2011, p.579).
Podemos fantasiar várias respostas às perguntas feitas. O medo dos animais soltos pode fazer com que as pessoas se sintam seguras ao se aproximarem deles presos, pois há a certeza de que eles não as machucarão. O controle do outro traz um conforto para algo interno em nós, controlo no outro aquilo que nego em mim, na psicologia junguiana chamamos isso de projeção. Projetamos conteúdos que estão na nossa sombra pessoal e com os quais evitamos ter contato, no caso, nos animais, em vez de nos aproximarmos do medo, confrontando-o e integrando-o à nossa consciência.
Jung corrobora: “Seja qual for a coisa que ande mal no mundo, este homem sabe que o mesmo acontece dentro dele, e se aprender a arranjar-se com a própria sombra, já terá feito alguma coisa pelo mundo.” (JUNG, 2012, §140)
Entendemos que o senso comum é regido pelo espírito da época e nos parece que ele tem a certeza de que os animais não humanos existem para nos servir; assim continuamos prendendo aquilo que não queremos que seja livre e, consequentemente, também não nos libertamos das crenças que nos aprisionam. Nadar contra a corrente, como disse Jung, é perigoso socialmente, mas nadar a favor da corrente nos mantém presos, sufocados, engessados naquilo que não somos.
Voltando ao turismo animal, supomos que os turistas se divirtam ou sintam prazer na dominação e em sua superioridade perante os animais que estão em condições de subserviência aos humanos. Queremos lembrar que essa relação de dominação acontece ao longo de séculos de história de abusos, onde a maldade a que eles foram e estão sujeitos, se tornou “normal”. Há também uma sombra coletiva em não reconhecer o grande mal que fizemos aos animais quando colocados próximos aos humanos para serem treinados e condicionados a fazerem somente o que os homens querem para servi-los.
Jung diz:
“(…) a figura da sombra coletiva, uma soma de todos os traços de caráter inferior. Uma vez que a sombra individual é um componente nunca ausente da personalidade, a figura coletiva é gerada sempre de novo a partir dela. Mas nem sempre isso ocorre sob forma mitológica, mas nos tempos mais recentes e devido a repressão crescente dos mitologemas originários, ela é projetada sobre outros grupos sociais e outros povos.” (JUNG, 2024, §484)
Completando a frase de Jung, essa sombra acaba sendo projetada sobre os animais.
No final de novembro de 2025, um jovem de 19 anos invadiu a jaula de uma leoa e foi morto devido ao choque hemorrágico provocado por lesões vasculares na região do pescoço devido à mordida. O caso ocorreu no Parque Zoobotânico Arruda Câmara, em João Pessoa, Paraíba. Ele sofria de transtornos psiquiátricos, incluindo esquizofrenia, e tinha uma obsessão por leões, com o sonho relatado de “domá-los”. O jovem tinha 16 passagens pela polícia e já havia tentado se esconder no trem de pouso de um avião com destino à África no passado. A administração do zoológico descartou o sacrifício do animal, afirmando que ela agiu por instinto territorialista de proteção, sendo uma reação natural a um invasor em sua jaula. O zoológico foi fechado temporariamente para investigações, mas as autoridades afirmaram que o recinto seguia as normas técnicas de segurança exigidas pelo IBAMA (Cf.CBN Brasil, 2025).
Podemos dizer que o rapaz citado acima agiu literalmente. Ele projetou na leoa o animal feroz que habitava dentro dele, o qual muito provavelmente o perturbava demais com seus rugidos, seus ataques e sua natureza instintiva, imaginamos. O jovem não sabia e/ou não conseguia lidar com seu bicho interno e por isso foi tentar domá-lo externamente, o que não resolveria seus desconfortos porque ele manteria o animal ativo dentro dele e na sombra. Talvez se ele reconhecesse a leoa que o habitava internamente, criando a consciência de sua existência, e de uma forma simbólica a domasse, fazendo com que ela saísse de sua sombra e deixasse de ter tanta energia psíquica, sua história poderia ter acontecido de outra forma.
Jung acrescenta:
“Em lugar da segurança dos instintos aparece insegurança, e com isso surge a necessidade de uma consciência que reconhece, avalia, escolhe e decide. Se este consegue compensar eficientemente a segurança instintiva, ele substituirá cada vez mais a atuação instintiva e o pressentimento instintivo por regras e normas de condutas seguras. Com isso aparece por fim o perigo oposto de que o consciente se afasta de sua base instintiva e coloca a vontade consciente no lugar dos impulsos naturais” (JUNG, 2021, §673).
A ilusão de que os instintos foram substituídos e assim deixaram de existir causa um sofrimento, por vezes inconsciente, nos animais humanos.
Queremos refletir o quanto as companhias de turismo controlam e manipulam não somente os animais. Os turistas empolgados em seus passeios e férias não prestam atenção que estão presos aos pacotes de viagens, o quanto se deixam levar pela falsa percepção de estarem se aproximando, de forma inocente e sem consequências ou prejuízos, dos animais, mas também podem fantasiar uma sensação de controle e superioridade em relação aos animais que estão presos. Na verdade, o público paga pelos serviços prestados por essas companhias, ficando aos cuidados das mesmas, que, no fim, aprisionam tanto os animais não humanos como os humanos em nome do lucro, da ganância e do poder.
Há uma projeção das prisões internas nas prisões externas dentre as várias relações humanas. Os complexos de vítima e algoz aparecem, há quem domina e quem é dominado. Quando acompanhamos o Big Brother Brasil (BBB) podemos ver pessoas presas em uma casa, que podem ser vigiadas e observadas durante 24horas, por um período de 3 meses, e que agem conforme o público decide. Por público entendemos os telespectadores, os donos da emissora e as empresas que patrocinam. Nesta casa ocorrem maus-tratos de forma velada, por parte de quem tem a liderança dentro da casa e de quem tem o dinheiro fora dela. A manipulação acontece sobre aqueles que “obedecem” seguindo as regras de quem as faz: os donos do programa, os donos do capital. Qual o ganho psíquico de tudo isso?
Se animais humanos ficam presos em nome do poder, lucro e prazer, o que falar dos animais não humanos?
Eles matam, se alimentam e defendem seus territórios instintivamente, por uma questão de sobrevivência, de preservação da sua espécie e por serem assim. Sem pessoas que os protejam, falem em seu nome e interrompam o ciclo de violência e abuso que sofrem, os animais não conseguem se defender sozinhos. Essa proteção deve ocorrer por meio de leis que combatam as agressões causadas pelo turismo predatório. São seres vivos que não possuem voz, mas sim um grande sofrimento quando são retirados e mantidos longe de seus habitats naturais.
A cultura indígena vê os animais não como seres inferiores ou meros recursos, mas como sujeitos ativos, portadores de sabedoria e integrantes essenciais da comunidade da Terra, que criam mundos e sentidos próprios. Ela critica e defende uma convivência baseada no afeto e na diversidade.
Outra forma de proteger os animais é realizar um turismo consciente que seja responsável, apresente alternativas éticas e experiências que respeitem o bem-estar animal.
A defesa dos animais também passa pelo consumidor. Pode-se combater a exploração não financiando os maus-tratos, denunciando crimes, adotando em vez de comprar e apoiando o trabalho de ONGs.
Se quiserem ajudar, seguem abaixo algumas instituições:
- Ibama – atua na fiscalização e combate ao tráfico de animais silvestres;
- Departamento de Proteção, Defesa e Direitos Animais (DPDA) – vinculado ao Governo Federal e criação de políticas públicas;
- Mercy For Animals – focada em animais de consumo;
- Instituto Luisa Mell (atual Instituto Caramelo);
- UIPA (União Internacional Protetora dos Animais);
- Proteção Animal Mundial – trabalha com denúncias, resgates e campanhas de conscientização;
- Vozes pelos Animais – do Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal, une a sociedade para votar e propor políticas eficazes.
Fabiana Theodoro Cruz – Membro Analista em Formação do IJEP
José Balestrini – Analista Didata IJEP
Referências:
Imagem: Produção da autora
BEZERRA, Guilherme. Homem atacado por Leoa morreu após mordida no pescoço, mas animal não comeu corpo, revela IML. CBN Brasil. 02/12/2025. Disponível em: https://cbn.globo.com/brasil/noticia/2025/12/02/homem-atacado-por-leoa-morreu-apos-mordida-no-pescoco-mas-animal-nao-comeu-corpo-revela-iml.ghtml Acesso em: 05 fev. 2026.
JUNG, C. G. Seminários sobre sonhos de criança. Sobre o método da interpretação dos sonhos. Interpretação psicológica de sonhos de crianças. 1ª.ed. Petrópolis: Vozes, 2011.
__________ A natureza da psiquevol. 8/2. 9.ed. Petrópolis: Vozes, 2012.
__________ Psicologia e religião vol. 11/1. 11.ed. Petrópolis: Vozes, 2012.
__________ Símbolos da transformação vol. 5. 9.ed. Petrópolis: Vozes, 2013.
__________ Os arquétipos e o inconsciente coletivo vol. 9/1. 11.ed. Petrópolis: Vozes, 2014.
KRENAK, Ailton. A vida não é útil. 1ª.ed. São Paulo: Companhia Das Letras, 2020.
Proteção Animal Mundial. Senciência animal. Disponível em: https://www.worldanimalprotection.org.br/o-que-nos-fazemos/senciencia-animal/ Acesso em: 05 fev. 2026.
WIKIPEDIA. Animal explotation. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Animal_exploitation Acesso em: 05 fev. 2026.

