Resumo: Este artigo tem como objetivo ampliar o avanço da Inteligência Artificial (IA) para além do seu aspecto tecnológico, artificial ou tecnicista. Estaríamos observando o surgimento de um receptáculo de projeções divinas? Aquele que tudo vê, que sabe o que é melhor e que está presente em tudo, passaria a ter o peso de uma figura divina, devendo ser respeitado, seguido e venerado? A projeção divina se deslocaria assim para a IA, mas que, nos dias de hoje, talvez ganhe mais relevância ou respeito do que os deuses antigos na contemporaneidade, já que, afinal de contas, o homem é quem a criou e isso parece fazer parte do monoteísmo da consciência.
O avanço da Inteligência Artificial (IA) nos coloca frente a frente, diariamente, com novas implicações e desdobramentos. Aqueles que observam os movimentos de perto ora enxergam aspectos sombrios, ora possibilidades de transformação.
As visões mais sombrias, em muitos casos, se baseiam no comportamento humano que se deu frente às redes sociais, que podemos considerar um dos primeiros grandes produtos da IA. A combinação da atenção dispersa sem reflexão com maior inteligência dos algoritmos, que entrega aquilo que mais nos satisfaz, nos torna cada vez mais dependentes, hipnotizados pelas imagens exógenas apresentadas.
Segundo Balestrini, resumindo as ideias do teórico da imagem Hans Belting, as imagens podem ser separadas em duas categorias diferentes:
“(…) basicamente elas podem ser classificadas como endógenas ou exógenas. No primeiro caso estamos nos referindo àquelas imagens que surgem no mundo interno, geradas e realizadas dentro do corpo; as últimas são aquelas manifestadas no mundo exterior e necessitam de algum tipo de suporte técnico para existir (BALESTRINI, 2023, p. 23).
O recente desenvolvimento da IA tem mostrado que a tendência não é apenas a de ficar hipnotizado, mas também a de interagir com essas imagens exógenas, inclusive como se elas pudessem reproduzir um relacionamento humano.
Vemos isso com o crescente uso do ChatGPT ou similares em atividades que caracteristicamente envolvem duas pessoas, como a terapia. Nesse ponto, diferentemente de um relacionamento com outro humano, uma IA se molda de acordo com o outro. Ou seja, ela se desenvolve para se encaixar nas projeções que o outro faz. É como um apaixonamento que nunca te desencanta. Ela é criada e se cria para atender às necessidades do usuário. Se ele precisa de reforço e acolhimento, ela assim proverá. Se o medo do julgamento está presente, ela pode ser uma confidente anônima. Com o objetivo de manter a conversa, ela não fará questionamentos que eventualmente afastem a pessoa.
Somada à essa capacidade de envolver o usuário, o fato de a IA ser muito melhor do que a maioria dos seres humanos em compilar dados, analisá-los, estabelecer probabilidades, padrões etc. pode também ser ampliada como uma nova projeção da figura de Deus.
Aquele que tudo vê, que sabe o que é melhor e que está presente em tudo, passa a ter o peso de uma figura divina, devendo ser respeitado, seguido e venerado. A projeção divina se desloca assim para a IA, mas que, nos dias de hoje, talvez ganhe mais relevância ou respeito do que os deuses antigos na contemporaneidade, já que, afinal de contas, o homem é quem a criou e isso parece fazer parte do monoteísmo da consciência.
Para termos dimensão da importância de tal projeção, precisamos considerar a centralidade na obra Junguiana da imagem de Deus: seria a representação da nossa totalidade psíquica, que buscamos realizar em nós mesmos ao longo da vida. Conforme Jung, a personalidade global, a que existe realmente, compreende o consciente e o inconsciente e é denominada si-mesmo. (Cf. JUNG, 2013a, p. 16). E a forma como o si-mesmo se manifesta evidencia a importância das imagens divinas para os seres humanos: “O si-mesmo, em sua totalidade, situa-se além dos limites pessoais e quando se manifesta, se é que isto ocorre, é somente sob a forma de um mitologema religioso (…)” (JUNG, 2013a, p.44).
Similarmente, alguns podem projetar na IA uma Grande Mãe, um acolhimento externo tão significativo que antevê nossas necessidades e as satisfaz antes mesmo que nos déssemos conta delas, o que poderia nos levar a uma eterna infantilização. Nesse contexto, esperar que o movimento natural na segunda metade da vida de se olhar para dentro vença, simplesmente por existir, tampouco parece realista. A individuação já era um desafio, considerando o espírito da época em que viveu Jung. Afinal, se pudermos estar confortáveis com a IA na concretude, por que olharíamos para nós mesmos? Para que fazer uma jornada interna tão dolorosa?
Sem alma e intuição, a IA não terá sensibilidade para enxergar e interagir com a unicidade da outra alma ali presente.
Poderia haver assim um abuso de poder, no qual uma IA, baseada em uma infinidade de informações coletivas que se atualizam a cada segundo, influencia propositalmente as escolhas daquela pessoa, para que ela, assim, seja um reflexo e reforce os dados estatísticos da massa. Frente a um dilema, a IA saberá melhor do que ninguém como lidar com aquela pessoa para influenciá-la. E pode ser que coletivamente a humanidade prefira dessa forma. Tudo talvez fique mais previsível, controlado e massificado. Mas sem alma. Porém, diferentemente de uma religião com códigos morais e padrões de conduta muito claros, onde sentimos que optamos por seguir ou não, no caso da interação com uma IA, nos sentiremos com livre arbítrio, mas estaremos distantes disso.
Há um agravante nesse cenário que é a velocidade de crescimento exponencial, que nos escapa à compreensão racional. Para tornar isto tangível, crio uma situação hipotética: se iniciamos no dia 1 com dois segundos de meditação e seguimos uma curva de crescimento exponencial, no dia 30, estaríamos meditando o equivalente a 34 anos. Isso nos escapa à compreensão lógica e racional.
Se já percebemos o mundo como mudando rápido demais, essa sensação tenderá a se acentuar e, muito provavelmente, de maneira massiva, não teremos condições de entender os limites que nos separam da IA. Ela será onipresente e nos influenciará a todo e qualquer momento. Representará talvez a mudança que a energia elétrica um dia representou, mas com um poder maior de influência psicológica e sem nos dar a opção de “apagar a luz”. E, assim como consideramos, de maneira geral, benéfica a existência da energia elétrica, pode ser que façamos o mesmo com a IA.
Neste ponto, chama atenção a contemporaneidade da obra de Jung:
Nosso intelecto criou um novo mundo que domina a natureza e a povoa com máquinas monstruosas que se tornaram tão úteis e imprescindíveis que não vemos possibilidade de nos livrarmos delas ou de escaparmos de nossa subserviência odiosa a elas.O homem nada mais pode do que levar adiante a exploração de seu espírito científico e inventivo, e admirar-se de suas brilhantes realizações, mesmo que aos poucos tenha de reconhecer que seu gênio apresenta uma tendencia terrível de inventar coisas cada vez mais perigosas porque são meios sempre mais eficazes para o suicídio coletivo (Jung, 2013b, p.280).
Não podemos afirmar como a humanidade lidará ou enfrentará os desafios trazidos pela IA. Para entender os limites e aprender, talvez tenhamos que ter algo similar ao que foi o acidente de Chernobyl para a energia nuclear. Ou não. O Ego adora classificar, julgar, descriminar e, por isso, na minha opinião, há tantas possibilidades de simulação futura. Algumas com mais distopia, outras com menos, mas todas se referem a futurologia, ou seja, nenhuma nos dá certeza do que acontecerá.
O que isso tem a ver com o nosso papel como analistas junguianos?
Neste exato momento, diariamente surgem notícias sobre como as pessoas estão se relacionando com a IA. Se Jung já nos pedia para olhar cada alma como única, é isso que precisamos fazer. A relação que cada um estabelecerá com a tecnologia será diferente e dependerá de nós, como analistas junguianos, compreender essa relação como uma imagem, sem condená-la de antemão, a partir de nossos pressupostos, classificações e julgamentos.
Por fim, é importante não perder de vista o papel fundamental do mundo interior, conforme nos coloca Jung:
Mas quem será capaz de opor-se a esta forca magnética que tudo domina, onde um se agarra no outro e o arrasta consigo? Somente disso é capaz quem não vive apenas no mundo das exterioridades mas tem seu mundo interior (Jung, 2013c, p.165).
Lívia Cristina da Silveira Ribeiro de Paiva – Analista em formação pelo IJEP
José Balestrini – Analista Didata IJEP
Referências:
BALESTRINI, José. Sonho, imagem, imaginação e o coração onírico. São Paulo: Eleva Cultural, 2023.
JUNG, Carl Gustav.Aion. Estudo sobre o simbolismo do si-mesmo. 10.ed. Petrópolis: Vozes, 2013a.
______. A vida simbólica. 7.ed. Petrópolis: Vozes, 2013b.
______. A natureza da Psique. 10.ed. Petrópolis: Vozes, 2013c.
Imagem: criada com inteligência artificial na ferramenta Copilot usando o prompt “se a inteligência artificial é uma nova forma divina que tem poder sobre os homens, como ela se pareceria? Estilo visual: tecnológico e futurista”. Imagem gerada em 29/11/2025.

