Resumo: O presente artigo propõe uma aproximação entre o processo analítico e a construção de uma ética amorosa por meio do confronto com a sombra individual. A partir dos textos de Jung, hooks e Neumann, conclui-se que o envolvimento do indivíduo em seu processo de autoconhecimento favorece uma atitude de alteridade, promovendo uma prática relacional mais amorosa e justa.
A busca por uma sociedade capaz de acolher a vida individual em harmonia com a coletividade atravessa a história da filosofia, da psicologia e da literatura. Carl Gustav Jung (1875–1961) e bell hooks (1952–2021), apesar de trajetórias históricas e intelectuais muito distintas, convergem ao propor que as dinâmicas sociais não podem ser reduzidas à racionalidade ou à normatividade externa. Ambos defendem que uma vida em comunidade exige um processo de transformação, o primeiro a partir do confronto com o inconsciente, de uma transformação que parte do indivíduo para o coletivo, e a segunda pela decisão consciente de amar como prática política e relacional.
Em seu memorando à UNESCO de 1948 (JUNG, 2012, § 1.391), Jung apontou que a mudança das atitudes humanas não poderiam vir apenas de fatores intelectuais ou normativos, mas de um processo dialético no qual se integram razão, sentimento e experiência relacional. O processo em questão é o que conhecemos como análise, concebida como prática colaborativa: analista e analisando se expõem juntos a conteúdos inconscientes e a partir de sua ampliação reconhecem tanto as potencialidades criativas quanto as fragilidades e aspectos sombrios da psique. Em outras palavras, a mudança de atitude parte da compreensão da existência do aspecto inconsciente da psique (e suas instâncias: pessoal e coletiva), e da colaboração entre indivíduos no setting terapêutico.
No âmbito do inconsciente pessoal se dá dois fenômenos psíquicos relevantes para a discussão; a sombra e os complexos.
Em primeiro lugar, a sombra é caracterizada como as partes de uma personalidade que são rejeitadas pelo complexo do ego (eu) com o intuito de se adaptar socialmente. Deste modo, a sombra não necessariamente é definida como a “personificação” das partes negativas de um indivíduo, mas sim como um acúmulo de características que não são favoráveis à consolidação do eu enquanto complexo regente da consciência. No contexto dos sistemas éticos até então concebidos, ou seja, determinados exclusivamente pelo ponto de vista da consciência, aspectos da personalidade em desacordo com o status quo não são permitidos de existir à luz do dia, considerando ainda sua repressão uma prática esperada.
A velha ética, falando psicologicamente, é uma “ética parcial”. Ela é uma ética da atitude consciente, deixando de considerar e avaliar as tendências e efeitos no inconsciente. […] A velha ética exige supressão e sacrifício e, em princípio, permite também a repressão, isto é, ela não olha o estado da psique, a personalidade total, mas contenta-se com a atitude ética da consciência como um sistema parcial da personalidade. Isso favorece coletivamente uma forma ilusória de ética, que se refere unicamente ao agir do ego e da consciência. Esse ilusionismo é, porém, perigoso, porque, na vida em comum do grupo e do coletivo, leva a fenômenos negativos de compensação, nos quais o lado reprimido e recalcado da sombra irrompe no seio da vida comunitária, na forma da psicologia do bode expiatório, e, na vida em comum internacional, nas explosões epidêmicas de reações ativistas de massas, as guerras. (NEUMANN, 1991, p. 54)
O segundo fenômeno psíquico do inconsciente pessoal, determinado como complexos, é um emaranhado de conteúdos inconscientes com grande carga afetiva que não são incorporados ao consciente por debilitar a autonomia do eu, prejudicando radicalmente sua vontade e atuação. Sendo assim, podemos compreender os complexos como entidades que apresentam uma característica coletiva, uma vez que são desenvolvidos a partir de temas universais, como o complexo materno, paterno, de inferioridade, de poder, entre outros. Sua formação se dá em volta deste núcleo arquetípico, ou seja, derivado do inconsciente coletivo, e dos conteúdos do inconsciente pessoal que se aproximam a essas características impessoais e as orbitam.
O confronto com o inconsciente, em especial com as duas instâncias citadas, longe de ser um percurso simples, é o caminho para a ampliação da consciência. Essa jornada de autoconhecimento implica reconhecer as próprias limitações, integrar polaridades internas e assumir responsabilidade por escolhas e renúncias que ultrapassam o nível individual, tocando o coletivo. Nesse sentido, o processo analítico leva a atitudes éticas que se iniciam no reconhecimento da própria sombra e se expandem em direção ao outro.
A neurose está intimamente entrelaçada com o problema do próprio tempo e representa uma tentativa frustrada do indivíduo de resolver dentro de si um problema universal. A neurose é uma cisão interna. Na maioria das pessoas, essa cisão representa uma ruptura entre o consciente, que desejaria manter-se fiel a seu ideal moral, e o inconsciente, que é atraído por seu ideal imoral (no sentido atual da palavra) e que a consciência tudo faz para desmentir. (JUNG, 2014a, p. 31 § 18)
Durante o processo de análise, o confronto com a sombra é o primeiro grande encontro com o inconsciente.
Nesta situação é muito desafiador para o eu a compreensão de que suas afetações para com o ambiente externo muitas vezes se enquadram no que conhecemos como projeção. A projeção surge a partir de um alto grau de dissociação com uma característica inconsciente do indivíduo. Para conseguir reconhecê-la a pessoa precisa – inconscientemente – materializar seus aspectos no mundo exterior através da projeção, seja em outros indivíduos, seja em objetos inanimados. A partir deste encontro com algo que considera “estranho” à sua natureza consciente e sua disposição social, inicia-se uma relação distorcida com este objeto, ou seja, uma paixão com características negativas ou positivas.
É fundamental uma reflexão crítica sobre a projeção, uma vez que os afetos mobilizados por estes conteúdos são exatamente promovedores de conflitos com o outro em pequena e grande escala.
Os conteúdos inconscientes são de natureza pessoal quando podemos reconhecer em nosso passado seus efeitos, sua manifestação parcial, ou ainda sua origem específica. São partes integrantes da personalidade, pertencem a seu inventário e sua perda produziria na consciência, de um modo ou de outro, uma inferioridade. A natureza desta inferioridade não seria psicológica como no caso de uma mutilação orgânica ou de um defeito de nascença, mas o de uma omissão que geraria um ressentimento moral. O sentimento de uma inferioridade moral indica sempre que o elemento ausente é algo que não deveria faltar em relação ao sentimento ou, em outras palavras, representa algo que deveria ser conscientizado se nos déssemos a esse trabalho. O sentimento de inferioridade moral não provém de uma colisão com a lei moral geralmente aceita e de certo modo arbitrária, mas de um conflito com o próprio si-mesmo (Selbst) que, por razões de equilíbrio psíquico, exige que o déficit seja compensado. Sempre que se manifesta um sentimento de inferioridade moral, aparece a necessidade de assimilar uma parte inconsciente e também a possibilidade de fazê-lo. […] Poderia acrescentar que esta “ampliação” se refere, em primeiro lugar, à consciência moral, ao autoconhecimento, pois os conteúdos do inconsciente liberados e conscientizados pela análise são em geral desagradáveis e por isso mesmo foram reprimidos. (JUNG, 2015a, p. 24 §218)
O princípio da colaboração surge aqui como núcleo ético: a análise é o diálogo entre duas subjetividades que, no encontro, transformam-se mutuamente.
Essa experiência de escuta e confronto possibilita um deslocamento de uma atitude egoísta – de inflação e unilateralidade – em direção à alteridade, pois o reconhecimento de aspectos inconscientes abre espaço para acolher aquilo que é estranho, tanto em si quanto no outro.
bell hooks, em Tudo sobre amor (2020), também propõe uma ética que não se restringe à normatividade ou ao dever imposto de fora. Para ela, o amor é uma prática consciente, que envolve cuidado, respeito, responsabilidade e compromisso. Amar é escolher a verdade e a justiça como princípios das relações interpessoais e sociais.
A autora denuncia a naturalização da dominação nas culturas patriarcais e recorda, em diálogo com Jung, que onde o desejo de poder é imperioso, o amor estará ausente.
Não há amor em relações baseadas na opressão. O amor, enquanto prática ética, rompe a lógica do poder e recoloca no centro da vida comunitária a colaboração, a solidariedade e o cuidado mútuo.
A dominação não pode existir em qualquer situação social em que prevaleça uma ética amorosa. É importante lembrar a percepção de Jung, de que, se o desejo de poder predomina, o amor estará ausente. Quando o amor está presente, o desejo de dominar e exercer poder não pode ser a ordem do dia. […] A preocupação em relação ao bem coletivo de nosso país, de nossa cidade ou vizinhança, baseada em valores amorosos, faz com que todos busquemos nutrir e proteger esse bem. Se todas as políticas públicas fossem criadas no espírito do amor, não teríamos que nos preocupar com o desemprego, as pessoas em situação de rua, o fracasso de escolas em ensinar às crianças ou os vícios. (hooks, 2020, p. 117)
hooks também descreve em seu texto sua própria experiência com processos de terapia e seu percurso de autoconhecimento como fundamentais para sustentar uma ética amorosa. Reconhecer a própria vulnerabilidade, confrontar a dor e a sombra, abrir-se para o inconsciente: todos esses movimentos, que se apresentam como árduo desafio para o ego, favorecem a vivência do amor de forma plena e transformadora.
A aproximação entre Jung e hooks permite vislumbrar uma concepção de ética enraizada no autoconhecimento e na relação com o outro.
O confronto com o inconsciente, com aquilo que é estranho a nós mesmos, torna-se condição para ampliar a consciência e, assim, reconhecer a humanidade do outro em suas dificuldades e resistências.
A assunção da sombra é um amadurecimento rumo ao profundo da própria origem, e, com a perda da ilusão flutuante de um ideal do ego, logra-se novo aprofundamento, enraizamento e firmeza. (NEUMANN, 1991, p. 75)
A alteridade parte justamente da aceitação das próprias contradições, favorecendo a capacidade de convivência com as contradições alheias. Assim, a ética deixa de ser uma obediência cega à normas externas, mas uma escolha consciente de integrar aspectos conflituosos e de reconhecer o processo de autoconhecimento do outro.
Jung e hooks apontam para um horizonte comum; sem autoconhecimento não há ética, e sem amor não há convivência justa.
O princípio da colaboração, presente tanto na análise junguiana quanto na ética amorosa, constitui o eixo de uma vida que busca sentido. A ética, neste contexto, nasce do diálogo entre consciente e inconsciente, e se realiza na prática do cuidado e do amor como resposta ao outro que me é estranho.
A ética precisa ser compreendida como processo interno que parte do reconhecimento das próprias polaridades e contradições e que se concretiza na atitude consciente de se confrontar com aspectos inconscientes da própria psique. A realização plena da vida não se encontra na supremacia da razão, mas na abertura ao simbólico, ao afetivo e ao relacional, dimensões que Jung e hooks recolocam no centro do debate ético e da transformação social.
Carolina Diniz Bastos – Analista em Formação
José Luiz Balestrini – Analista Didata
Referências:
HOOKS, bell. Tudo sobre amor: novas perspectivas. Tradução de Ana Ban. 1. ed. São Paulo: Elefante, 2020.
JUNG, Carl Gustav. A vida simbólica. Escritos diversos. 4. ed. Petrópolis: Vozes, 2012.
______ Tipos psicológicos. 7. ed. Petrópolis: Vozes, 2013a.
______ A energia psíquica. 14. ed. Petrópolis: Vozes, 2013b.
______ A natureza da psique. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 2013c.
______Psicologia do inconsciente. 24. ed. Petrópolis: Vozes, 2014a.
______O eu e o inconsciente. 27. ed. Petrópolis: Vozes, 2015a.
NEUMANN, Erich. Psicologia profunda e nova ética. São Paulo: Edições Paulinas, 1991.
Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa – IJEP
Matrículas abertas: Psicologia Junguiana – Psicossomática – Arteterapia:

Resumo do Blog:
- O artigo analisa a conexão entre o autoconhecimento e a construção de uma ética amorosa através do confronto com a sombra individual.
- Baseando-se em Jung e hooks, conclui-se que a transformação pessoal promove relações mais justas e amorosas.
- O processo analítico, ao integrar inconsciente e consciente, permite o reconhecimento da própria sombra e favorece a alteridade.
- A ética proposta não é apenas uma obediência a normas, mas uma escolha consciente que envolve responsabilidade e cuidado.
- Sem autoconhecimento não existe ética, e sem amor não há convivência justa, enfatizando o papel da colaboração em relações saudáveis.

