Resumo: Este ensaio aborda a relevância do trabalho com os contos de fadas no setting terapêutico de Psicologia Analítica e de Arteterapia. A estrutura narrativa dos contos reflete a jornada de individuação, integrando os aspectos conscientes e inconscientes da personalidade. Nos contos de fadas a psique se manifesta através de formas simbólicas, funcionando como uma projeção do inconsciente coletivo. Os contos de fadas falam sobre a jornada do ser humano, seus dilemas, seus sonhos, seus desafios, seus medos, suas potencialidades e podem ser considerados, como os sonhos, um meio de contatar o inconsciente. O conto possui uma linguagem que todos entendem, por tratar-se de um material que está além das diferenças culturais e raciais, uma linguagem de toda a espécie humana, uma linguagem arquetípica. Os contos de fadas trazem um material simbólico muito rico e estimulante para o desenvolvimento psíquico, sendo capaz de funcionar como catalisador no processo de individuação do analisando.
A ideia deste ensaio surgiu a partir de uma reflexão sobre a relevância e a preciosidade do trabalho com contos na clínica de psicoterapia e de arteterapia.
Podemos observar como em geral somos tocados por histórias de heróis, princesas, fadas, dragões e bruxas, dentre outras personagens presentes nas narrativas. Não é por acaso que as bilheterias dos cinemas superam as expectativas a cada novo filme que contenha qualquer um desses temas, ou todos eles, entre outros temas que nos remetem aos arquétipos que habitam nossa psique desde os primórdios da humanidade. Segundo Carl Gustav Jung, os contos de fadas são manifestações simbólicas do inconsciente coletivo. Eles revelam padrões universais da psique humana — os arquétipos — por meio de narrativas simples e atemporais.
A estrutura narrativa dos contos reflete a jornada de individuação, integrando os aspectos conscientes e inconscientes da personalidade. Os contos de fadas são a expressão mais pura dos processos psíquicos do inconsciente coletivo.
O valor deles para a investigação do inconsciente é muito superior a qualquer outro material, pois eles representam os arquétipos na sua forma mais simples. Nesta forma pura, as imagens arquetípicas fornecem ótimas pistas para a compreensão dos processos que se passam na psique coletiva. O conto possui uma linguagem que todos entendem, por tratar-se de um material que está além das diferenças culturais e raciais, uma linguagem de toda a espécie humana, uma linguagem arquetípica.
Nos mitos e nos contos de fadas, como nos sonhos, a alma fala de si mesma e os arquétipos se revelam em sua combinação natural, como formação, transformação e recriação do sentido eterno.
Os contos de fadas trazem um material simbólico muito rico e estimulante para o desenvolvimento psíquico, sendo capaz de funcionar como catalisador no processo de individuação do analisando, pois o analista pode se valer dos problemas enfrentados pelas personagens dos contos como espelho simbólico para que o analisando encontre eco em sua própria psique, enxergando os próprios dilemas e conflitos refletidos nas histórias narradas e trabalhadas no setting de arteterapia por meio de expressões criativas.
Nesse processo, há a possibilidade de entrar em contato com materiais armazenados no inconsciente e através do diálogo simbólico, consciente X inconsciente, surgir um terceiro elemento, a função transcendente.
Criando, assim, a possibilidade de integração de conteúdos da sombra à personalidade do analisando, o que pode contribuir para potencializar o seu processo de individuação. Segundo Von Franz, o estudo de contos de fadas pode ser um instrumento valioso para o treinamento do analista, pois permite o aprendizado de uma interpretação que segue um método objetivo, dado que não há contexto pessoal e não se tem conhecimento da situação consciente correspondente.
A relação entre a fala das velhas e as histórias parece ligada à própria linguagem e à representatividade da fala das mulheres, como esclarece a etimologia da palavra fada, que, nas línguas neolatinas, tem um significado relacionado ao conto de fadas, porque alude a fata, uma palavra latina, variante rara de fatum (fado), que se remete a uma deusa do destino. As fadas se parecem com essa deusa, porque também conhecem os rumos da fortuna.
Em virtude da origem etimológica da palavra fada, alguns estudiosos e contadores de histórias atualmente se referem ao gênero como contos de fada, no singular, pois seriam histórias que contam o destino da personagem principal, ainda que não apareçam fadas na história. Apesar dessa forma de pensar, podemos continuar a falar contos de fadas, no plural, considerando que esses contos apresentam cinco pontos invariáveis encontrados nesse tipo de narrativa: a aspiração, a viagem, os obstáculos, o mediador, a conquista e o objetivo.
Apesar de os contos de fadas estarem vinculados à educação infantil, desde a antiguidade, nem sempre o público-alvo foram as crianças.
Na Idade média, ouvir histórias era a diversão dos camponeses durante as longas noites de inverno. Quem pensa que “Chapeuzinho Vermelho”, “A Bela e a Fera” ou “Os Três Porquinhos” são histórias datadas e presas a formas antiquadas e patriarcais de ensinar moralidade às crianças, pode se surpreender ao descobrir como essas narrativas sobrevivem entre roteiristas e criadores até os dias atuais. Um exemplo é a “jornada do herói”, conceito de Joseph Campbell na obra “O Herói de Mil Faces”, que continua um forte modelo na construção de histórias modernas.
Os contos, assim como os mitos e as lendas, podem ser utilizados para a amplificação dos símbolos que emergem nas atividades criativas propostas aos analisandos no setting terapêutico da Arteterapia e da Psicologia analítica de Carl Gustav Jung. Entrar em contato com as narrativas mitológicas e com os contos de fadas permite-nos sair um pouco do mundo da matéria e do monoteísmo da razão, para ingressarmos no universo metafórico e simbólico, para que a dimensão espiritual possa se apresentar.
A arte de contar histórias é muito mais antiga do que a psicologia.
As histórias conferem movimento à nossa vida interior, e isso se torna ainda mais importante quando percebemos que a vida interior está assustada, presa ou encurralada. As histórias atuam como bálsamos medicinais. Elas têm força e não exigem que se faça alguma coisa, que aja de determinado modo. Basta estar atento. A cura para qualquer dano ou para resgatar algum impulso psíquico perdido pode estar escondida nas histórias. Elas despertam interesse, sentimentos, questões, anseios e compreensões que fazem aflorar os arquétipos adormecidos. As histórias contêm instruções a respeito da complexidade da vida. Elas nos permitem entender a necessidade de restaurar um arquétipo esquecido, assim como os meios de realizar essa tarefa.
A essência da alma humana guarda elementos carregados de símbolos que estão armazenados no inconsciente, aguardando o momento de serem libertados.
Nos contos de fadas, esses elementos arquetípicos são representados pelas mais variadas personagens, desde animaizinhos bem pequeninos até as feras devoradoras, por duendes, bruxas, heróis, fadas, príncipes e princesas. Os contos de fadas, por meio da sua linguagem simbólica, falam-nos da nossa trajetória arquetípica, da busca do herói pela sua individuação, permitindo maior compreensão, em um sentido mais profundo da totalidade psíquica.
Na Psicologia Analítica e na Arteterapia os contos, assim como os mitos e as lendas podem ser utilizados na amplificação dos símbolos que emergem nas atividades criativas desenvolvidas pelos analisandos. Os contos também podem ser narrados e os pacientes podem traçar um paralelo com a sua própria história de vida, buscando novas saídas ou o mesmo conforto trazido pelas velhas contadoras de histórias, das quais Apuleio, Charles Perrault, os irmãos Grimm, Câmara Cascudo, Monteiro Lobato e tantos outros nos falam em suas obras. Os contos também podem ser utilizados como meio sensibilizador para propostas de vivências terapêuticas.
Segundo Von Franz, todos os contos de fadas tentam descrever apenas um fato psíquico, mas este fato é tão complexo, difícil e distante de se representar em seus diferentes aspectos, que centenas de contos e milhares de versões, bem como variações musicais, são necessários até que esse fato desconhecido penetre na consciência. Este fato desconhecido é o que Jung chama de SELF, que é a totalidade psíquica de um indivíduo e, paradoxalmente, também o centro regulador da psique. Cada indivíduo tem sua própria forma de experienciar esta realidade psíquica.
O verdadeiro processo de individuação inicia-se em geral infligindo uma lesão à personalidade, que traz sofrimento ao eu, que se sente tolhido nas suas vontades ou desejos e projeta esta frustração sobre qualquer objeto exterior.
Algumas vezes tudo parece bem externamente, mas no íntimo a pessoa está sofrendo. Muitos mitos e contos de fadas descrevem simbolicamente este estágio inicial do processo de individuação, quando contam histórias de um rei que ficou doente ou envelheceu. Outras histórias características são a do casal real estéril; ou a do monstro que rouba mulheres, crianças, cavalos e tesouros de um reino; ou a do demônio que impede o exército ou a armada de algum rei de seguir sua rota; ou a da escuridão que cobre todas as terras, e ainda histórias sobre secas, inundações, geadas etc.
O encontro inicial com o Si-mesmo lança assim uma sombra sobre o futuro e nos contos de fadas a cura acontece por um ato de magia ou o uso de um talismã.
Seja qual for a solução, o remédio para afastar o mal é sempre único e difícil de ser encontrado. Acontece exatamente o mesmo na crise inicial que marca a vida de um indivíduo. Procura-se por algo impossível de achar ou a respeito do qual ninguém sabe. Em tais momentos, qualquer conselho bem-intencionado e sensato é completamente inútil. Só há uma atitude que parece alcançar algum resultado: voltar-se para as trevas que se aproximam, sem nenhum preconceito e com muita simplicidade, tentar descobrir qual o seu objetivo secreto. O propósito destas trevas que se avizinham geralmente é tão especial e inesperado que, normalmente, só se consegue percebê-lo por meio dos sonhos e das fantasias que brotam do inconsciente. Se focalizarmos nossa atenção sobre o inconsciente sem suposições precipitadas ou rejeições emocionais, o propósito há de surgir num fluxo de imagens simbólicas.
Ao entrarmos no terreno dos contos de fadas, caminhamos pelas terras férteis da psique e pelo atalho de bosques e florestas, onde encontramos um espaço protegido por árvores, galhos, frutos, luz, sombra e pelo mistério, pelo desconhecido que nos assusta e encanta ao mesmo tempo. Nesse caminho, entramos em contato com a matéria-prima em que repousam os segredos básicos da existência humana, retomamos o contato com as forças da natureza, representantes de nossas forças interiores, e trilhamos a jornada que leva ao crescimento e à transformação, essenciais para a individuação.
A estrutura narrativa dos contos reflete situações vividas pelos seres humanos desde os primórdios da humanidade, representando, na maioria das vezes, a jornada de individuação, integrando os aspectos conscientes e inconscientes da personalidade.
Os contos de fadas representam a expressão mais pura e simples dos processos psíquicos do inconsciente coletivo e o seu valor para o acesso ao conteúdo do inconsciente supera qualquer outro material, por simbolizarem os arquétipos na sua forma mais simples. O diálogo entre o eu e aspectos inconscientes despertados pelo simbolismo dos contos de fadas, possibilita o surgimento de um terceiro elemento, a função transcendente, criando a possibilidade de integração de conteúdos sombrios à personalidade, o que contribui para o processo de individuação.
Karla Angelica Alves de Paula – Analista em Formação do IJEP
Waldemar Magaldi Filho – Analista Didata IJEP
Referências:
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ESTÉS, Clarissa Pinkola. Mulheres que correm com lobos. Mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem. 2. Rio de Janeiro: Rocco, 2018.
FRANZ, Marie-Louise Von. A Interpretação dos contos de fada. São Paulo: Paulus, 1990.
JUNG, Carl Gustav. Aion. Estudo sobre o simbolismo do Si-mesmo. 10. Ed. Petrópolis: Vozes, 2013a.
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______ O eu e o inconsciente. 27. ed. Petrópolis: Vozes, 2015.
______ O homem e seus símbolos. 5. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1964.
MAGALDI, Waldemar (org). Fundamentos da psicologia analítica. São Paulo: Eleva Cultural, 2022

