RESUMO: Este artigo propõe uma reflexão, sobre as chamadas “conversas difíceis”, compreendidas aqui como diálogos que mobilizam conteúdos inconscientes e ameaçam a imagem consciente que o sujeito sustenta de si mesmo. A partir dos conceitos de complexo, sombra e ampliação da consciência de Carl Gustav Jung, discute-se a dificuldade contemporânea de sustentar conflitos, diferenças e tensões relacionais. O texto aborda ainda o papel do outro como espelho psíquico e a importância da reflexão como possibilidade de elaboração simbólica dos afetos mobilizados nas relações humanas. Conclui-se que as conversas difíceis, embora frequentemente evitadas, podem constituir importantes oportunidades de transformação psíquica e desenvolvimento da consciência.
INTRODUÇÃO
Em um desses dias comuns, enquanto tomava banho e me encontrava distante do estado de presença, completamente atravessada pelo espírito da época da produtividade e constante sensação de não poder perder tempo, comecei a pensar sobre qual seria a temática do meu próximo artigo para o IJEP. Inspirada pelo último atendimento do dia, no qual conversei com o cliente sobre a importância das conversas difíceis, pensei imediatamente: “pronto, este será o tema do meu novo artigo”.
Logo em seguida, porém, surgiu uma inquietação: será que todos compreendem a expressão “conversas difíceis” da mesma maneira que eu e o meu cliente? A partir dessa pergunta, procurei me desvencilhar, ainda que momentaneamente, da minha própria cosmovisão acerca do termo. Para isso, recorri a uma estratégia que aprendi em um livro infantil, no qual um extraterrestre recém-chegado à Terra tentava compreender o mundo humano a partir de seu olhar completamente novo.
Sob essa perspectiva, “conversas difíceis” poderia significar, por exemplo, uma conversa em um idioma que pouco domino; uma discussão sobre regras de futebol, tema sobre o qual nada entendo; ou até mesmo falar sobre comida em um momento de tentativa de dieta. Percebi, então, que a expressão pode assumir diferentes significados a depender da experiência subjetiva de cada indivíduo. Tornou-se necessário, portanto, delimitar o conceito que utilizarei neste artigo, a fim de tornar mais clara a abordagem que pretendo desenvolver ao longo desta reflexão.
CONVERSAS DIFÍCEIS
As conversas difíceis às quais me refiro neste artigo não são aquelas que carecem de vocabulário ou de conhecimento técnico específico sobre determinado assunto. Refiro-me, às conversas que mobilizam conteúdos inconscientes; aquelas que evitamos porque ameaçam a imagem consciente que sustentamos de nós mesmos.
Trata-se daquele assunto que sabemos ser necessário, mas que, por algum motivo, evitamos e algo em nós resiste. Surge um incômodo difícil de nomear, uma tensão interna, uma vontade de adiar, silenciar ou fugir. E justamente por mobilizarem afetos mais profundos, essas conversas impactam conteúdos psíquicos pertencentes aos nossos complexos, definidos por Jung como:
O que é, portanto, cientificamente falando, um “complexo afetivo”? É a imagem de uma determinada situação psíquica de forte carga emocional e, além disso, incompatível com as disposições ou atitude habitual da consciência. Esta imagem é dotada de poderosa coerência interior e tem sua totalidade própria e goza de um grau relativamente elevado de autonomia, vale dizer: está sujeita ao controle das disposições da consciência até um certo limite e, por isto, comporta-se, na esfera do consciente, como um corpus alienum (corpo estranho), animado de vida própria. Com algum esforço de vontade pode-se, em geral, reprimir o complexo, mas é impossível negar sua existência, e na primeira ocasião favorável ele volta à tona com toda a sua força original […]. (JUNG, 2014, § 201)
Neste contexto, fugir das conversas difíceis é, de certa forma, fugir de aspectos de nós mesmos que clamam por reconhecimento e espaço na consciência.
Quanto mais evitamos determinados diálogos, mais os conteúdos psíquicos a eles relacionados tendem a permanecer relegados à sombra, fortalecendo-se no inconsciente e encontrando outras formas de manifestação. Aquilo que não é elaborado conscientemente frequentemente retorna, invadindo-nos por meio de reações desproporcionais, ressentimentos, sintomas ou conflitos recorrentes.
Dessa forma, as conversas difíceis tornam-se extremamente necessárias, pois, sob a perspectiva da Psicologia Analítica, uma das principais tarefas do ser humano consiste no processo de autoconhecimento que requer a ampliação da consciência. Tal processo implica, inevitavelmente, no confronto e na integração dos aspectos sombrios da personalidade, ou seja, daqueles conteúdos que o ego tende a rejeitar, negar ou evitar reconhecer em si mesmo. Sobre essa questão, Carl Gustav Jung dispõe:
Infelizmente, não se pode negar que o homem como um todo é menos bom do que ele se imagina ou gostaria de ser. Todo indivíduo é acompanhado por uma sombra, e quanto menos ela estiver incorporada à sua vida consciente, tanto mais escura e espessa ela se tornará. Uma pessoa que toma consciência de sua inferioridade, sempre tem mais possibilidade de corrigi-la. Essa inferioridade se acha em contínuo contacto com outros interesses, de modo que está sempre sujeita a modificações. Mas quando é recalcada e isolada da consciência, nunca será corrigida. E além disso há o perigo de que, num momento de inadvertência, o elemento recalcado irrompa subitamente […] (JUNG, 1978, § 131)
O OUTRO COMO ESPELHO
Em nossos relacionamentos diários, com o cônjuge, pais, filhos, amigos, gestor, subordinado ou em qualquer outra forma de relação, surgem constantemente oportunidades para as conversas difíceis. Isso ocorre porque, enquanto seres humanos, temos fragilidades, potencialidades, desejos, valores e singulares pontos de vista.
Cada indivíduo constrói sua maneira de perceber a realidade a partir de múltiplos fatores: sua ancestralidade, a forma como foi criado, a cultura em que está inserido, o gênero, orientação sexual, raça, contexto social, e, sobretudo, suas experiências emocionais ao longo da vida. Todos esses elementos participam da constituição da subjetividade e moldam a maneira como cada sujeito interpreta os acontecimentos, os relacionamentos e a si mesmo.
Nesse sentido, a conversa difícil com o outro nos convida a entender que nossa percepção de mundo não é absoluta nem universal. O relacionamento humano nos obriga, muitas vezes, a lidar com perspectivas diferentes das nossas, o que pode despertar frustrações, inseguranças, feridas narcísicas e reações emocionais intensas. Aceitar que o outro possui uma experiência de mundo distinta da nossa, e que tal diferença não representa necessariamente uma ameaça, não é uma tarefa simples.
A dificuldade em sustentar conversas difíceis não implica, necessariamente, ausência de conflitos, mas revela, muitas vezes, uma limitação na capacidade de elaboração consciente das tensões e diferenças. Assim, conteúdos emocionais que não encontram espaço simbólico de expressão tendem a emergir de forma polarizada, defensiva ou violenta, aspectos amplamente perceptíveis na sociedade brasileira contemporânea.
O PODER DA REFLEXÃO
Talvez, um dos aspectos mais importantes da psique humana seja o instinto de reflexão, ele permite ao sujeito interromper, ainda que momentaneamente, o fluxo imediato de suas emoções e impulsos, possibilitando maior elaboração psíquica diante de uma conversa difícil. Sobre isso, Carl Gustav Jung afirma:
O instinto de reflexão talvez constitua a nota característica e a riqueza da psique humana. A reflexão retrata o processo de excitação e conduz o seu impulso para uma série de imagens que, se o estímulo for bastante forte, é reproduzida em nível externo. Esta reprodução concerne seja a todo o processo, seja ao resultado do que se passa interiormente, e tem lugar sob diferentes formas: ora diretamente, como expressão verbal, ora como expressão do pensamento abstrato, como representação dramática ou como comportamento ético, ou ainda como feito científico ou como obra de arte.
Graças ao instinto de reflexão, o processo de excitação se transforma mais ou menos completamente em conteúdos psíquicos, isto é, torna-se uma experiência; um processo natural transformado em um conteúdo consciente. A reflexão é o instinto cultural par excellence, e sua força se revela na maneira como a cultura se afirma em face da natureza. (JUNG, 2014, §§ 242-243)
A reflexão, portanto, possui um papel fundamental nas conversas difíceis, pois possibilita que conteúdos emocionais inicialmente vividos de forma impulsiva possam ser observados, nomeados e elaborados conscientemente. Sem reflexão, o sujeito tende apenas a reagir. Com reflexão, surge a possibilidade de compreender o que determinada situação despertou internamente, favorecendo uma relação menos automática e mais consciente consigo mesmo e com o outro.
Entretanto, refletir exige pausa. Exige um movimento contrário ao ritmo acelerado da contemporaneidade, que frequentemente estimula respostas imediatas, posicionamentos rápidos e pouca tolerância ao desconforto emocional. Em uma sociedade marcada pelo excesso de estímulos, pela produtividade constante e pela necessidade de opiniões instantâneas, torna-se cada vez mais difícil sustentar e realizar as conversas difíceis.
CONCLUSÃO
Ordenar os conteúdos psíquicos e colocá-los em campo reflexivo torna-se, portanto, essencial para a prática das conversas difíceis. Não se trata apenas de falar, mas de desenvolver a capacidade de escutar simbolicamente aquilo que determinada situação desperta em nós. Muitas vezes, o sofrimento presente em um conflito não decorre exclusivamente do acontecimento atual, mas do fato de que ele toca experiências anteriores ainda não elaboradas.
Sob essa perspectiva, o processo terapêutico configura-se como um importante espaço para o exercício das conversas difíceis, justamente porque oferece um lugar seguro para que determinados conteúdos possam emergir à consciência e serem elaborados simbolicamente.
A reflexão transforma a experiência em aprendizado psíquico. Sem ela, o sujeito tende a repetir padrões de forma automática; com ela, surge a possibilidade de transformação. Talvez seja justamente aí que resida a potência das conversas difíceis: não apenas na resolução de conflitos externos, mas na oportunidade de produzir maior consciência sobre si mesmo e sobre a maneira como nos relacionamos com o mundo e com o outro.
Carolina Held dos Santos – Analista em Formação IJEP
Lia Romano – Analista Didata IJEP
REFERÊNCIAS:
JUNG, Carl Gustav. Psicologia e Religião. Ed. Digital. Petrópolis: Editora Vozes,1978
______ A natureza da psique. Ed. digital. Petrópolis: Editora Vozes, 2014

