No Brasil, o Dia dos Pais é comemorado anualmente no segundo domingo de agosto. A data foi criada em 1953 pelo publicitário Sylvio Bhering, diretor do jornal O Globo, com o objetivo inicial de homenagear os pais e movimentar o comércio no segundo semestre. O primeiro “Dia dos Pais” ocorreu em 16 de agosto de 1953, dia que coincidia com a festividade de São Joaquim, pai da Virgem Maria e avô de Jesus, considerado um símbolo patriarcal na tradição católica. Nos anos seguintes, a celebração foi transferida para o segundo domingo do mês, para facilitar a reunião das famílias no fim de semana.
Atualmente vivemos sob o signo de um paradoxo avassalador. De um lado, um patriarcado abstrato e onipresente, que governa através do poder tecnológico e dos algoritmos do mercado financeiro dominados por um pai-máquina que tudo controla e nada abraça. De outro, uma ausência de paternagem que deixa um vazio ensurdecedor nos lares. Esta não é apenas a falta de um corpo, mas a do amparo que guia e fortalece. No lugar do pai amoroso, impera a sombra de uma estrutura tirânica que, por sua própria rigidez, gera uma geração de órfãos de pais vivos, com a alma marcada pela tristeza, o abandono e a rejeição.
Há muito tempo se sabe que o exemplo é o melhor dos mestres embora seja também o mais cruel, porque não admite ensaio nem edição de cortes. A criança não lê o nosso roteiro, porque ela assiste ao nosso filme ao vivo, sem filtro, sem legenda, sem classificação indicativa. Por isso, precisamos estar conscientes das referências e exemplos que transmitimos aos nossos filhos, não com palavras bonitas e sábias, que qualquer orador de palanque entoa com maestria, mas tão-somente com o agir e a vida real dos pais e da sociedade.
Neste sentido, importa distinguir concepção de filiação. A primeira é um ato biológico rápido, instintivo, às vezes até acidental. A segunda é um ato social, cultural, espiritual, que é longo, deliberado, exige presença contínua e, sobretudo, coerência. A diferença entre um e outro é a diferença entre plantar uma semente e cultivar uma árvore. Qualquer um pode jogar a semente no chão. Poucos têm paciência de regá-la, podá-la, admirá-la e, principalmente, aceitar que ela cresça num formato diferente daquele que havíamos planejado.
A verdadeira paternidade transcende o ato de prover. É uma semeadura na alma, uma jornada de presença consciente que transforma o cotidiano no mais sagrado dos rituais. Construir um legado invisível e eterno não acontece nos grandes gestos, mas na delicadeza das pequenas ações diárias. É no chão sagrado da vida familiar que os conceitos de amor, respeito e responsabilidade se tornam carne e osso, tecendo a herança viva que deixamos em nossos filhos. Este é um chamado profundo ao pai que anseia ser mais do que um provedor, mas um arquiteto do caráter, um poeta da alma e um guardião do bem-estar emocional de seus descendentes.
As influências do patriarcado, portanto, advêm tanto dos progenitores biológicos ou adotivos quanto das dimensões sociais e culturais, produzindo semelhanças de atitudes e de valores que vão muito além da mera coincidência. O filho herda não apenas as feições e gestos do pai, mas também o seu silêncio. A sua raiva contida. O seu riso nervoso diante de autoridade. A sua dificuldade de pedir desculpas. Herda, sobretudo, aquilo que o pai jamais disse, mas que o seu corpo, o seu tom de voz e o seu olhar gritaram em surdina.
O psiquismo que absorve tudo — inclusive o que escondemos
O psiquismo inconsciente da criança é um oceano sem margens, absorvendo não apenas as correntes emocionais da família, mas também o espírito de nosso tempo. Como delicadas antenas, as crianças captam não o teatro das aparências, mas a verdade silenciosa que pulsa em nosso universo interior. Elas absorvem informações que ultrapassam os limites familiares como uma esponja que desconhece a diferença entre água limpa e água contaminada. Captam o espírito da época, o Zeitgeist internalizando valores, medos e desejos coletivos.
Com isso, mesmo um pai honrado, que na sua intimidade não se sinta realizado, esteja infeliz ou abrigue sentimentos e desejos obscuros, poderá passar essas informações a seus filhos. Pais que sorriem por fora, mas carregam a infelicidade por dentro, legam essa dissonância a seus filhos. Portanto, o caminho para o bem de um filho começa na jornada de um pai em direção a si mesmo. O maior presente que se pode dar é a própria inteireza, o compromisso inabalável com a própria realização e felicidade.
Isso porque a alma coletiva está espalhada por toda parte, não como uma nuvem etérea e romântica, mas como uma rede invisível de afetos, preconceitos e angústias que atravessa gerações como herança maldita. A criança percebe não apenas os condicionamentos mais profundos dos pais ou da sociedade, mas também, num âmbito mais extenso, tanto o bem quanto o mal existentes nas profundezas da natureza humana. Ela sente a hipocrisia antes de saber nomeá-la. Pressente a violência antes de presenciar a agressão. E, principalmente, registra tudo, absolutamente tudo, no inconsciente, de onde nada se apaga, apenas se reprime, adormece ou, mais tarde, explode.
O homem brutalizado e a fábrica de filhos à sua imagem
O homem contemporâneo, cada vez mais brutalizado pelo excesso de competição e pela negação das dimensões espirituais, naturalmente está formando filhos competitivos, acometidos por depressão, hiperatividade, agressividade e vários tipos de compulsões. Filhos de pais que não conseguem parar, que trabalham como autômatos e como se a vida fosse uma roda de hamster sem fim, tornam-se adultos que também não sabem parar. E o ciclo se repete com uma fidelidade trágica.
Precisamos repensar nosso estilo de vida e o que desejamos transmitir para nossos descendentes. Da mesma forma, todo adulto, de qualquer gênero, deve começar a ser responsável, conscientemente, pelo arquétipo paterno, não apenas os pais biológicos, mas qualquer pessoa que ocupe um papel de referência, autoridade ou cuidado. É urgente iniciarmos mudanças nos sistemas familiar, social e cultural, objetivando um futuro viável e melhor, com menos exclusão, mais amorosidade e respeito humano e ecológico. Porque nossas atitudes estão colocando em risco todo o planeta, e isso não é metáfora, é realidade ambiental. Toda ação tem reação, e a Terra já está nos cobrando a fatura com juros compostos.
A cura reside na integração amorosa dos princípios masculino e feminino. É preciso iniciar uma mudança que floresça de dentro para fora, nos sistemas familiar, social, cultural e espiritual.
A ausência que grita e a presença que oprime
Aqui chegamos a um dos paradoxos mais dolorosos do nosso tempo: a crescente ausência paterna convive com a presença abusiva, invasiva, sectária, patrimonialista e misógina de um sistema patriarcal retrógrado que se traveste de conservadorismo.
Nunca se falou tanto em “valores familiares” e nunca se abandonou tanto a família com tanta eficiência burocrática.
Os números não mentem, pois são números. No Brasil, cerca de 6,7% dos nascimentos ocorridos entre 2023 e 2024 foram registrados sem o nome do pai. Em 2025, o país registrou 172 mil certidões de nascimento sem o nome do pai. Mais de cem mil crianças entraram no mundo sem sequer ter um nome masculino escrito em sua certidão. É como se o país inteiro dissesse a essas crianças: “Bem-vinda ao mundo. Metade da tua origem é um espaço em branco.”
Adicionalmente, dados do Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam que 49,1% das famílias brasileiras são chefiadas por mulheres, o que pode indicar um número significativo de lares sem a presença de uma figura paterna ou masculina como principal responsável. Não se trata de questionar a competência feminina, que é sobejamente heróica, mas de reconhecer que a ausência de um princípio paterno saudável cria um vazio que a mãe, por mais que se dedique, não pode preencher sozinha, porque a função arquetípica paterna é estruturalmente distinta da materna.
E, no entanto, o mesmo sistema que falha em garantir a presença paterna real, afetiva, cotidiana e encarnada, não falha em exercer a sua presença patriarcal simbólica: a que dita corpos, controla autonomias, criminaliza diferenças, patrimonializa a fé e confunde conservação de valores com conservação de privilégios. Um sistema que se diz protetor da família, mas que, na prática, protege apenas a si mesmo, como aquele pai que diz “isto é para o seu bem” enquanto pratica o contrário do bem.
A ausência do pai que ama não deveria jamais ser confundida com a presença do sistema que domina. Um é falta. O outro é excesso. E ambos ferem.
Fogo e água — a dança dos princípios
Embora devamos considerar as configurações familiares contemporâneas, que vão muito além do modelo nuclear heteronormativo, os princípios materno e paterno são essenciais para o desenvolvimento saudável das crianças, independentemente do gênero ou da orientação sexual de seus cuidadores. A mãe simboliza o cuidado e a nutrição -água e terra, o princípio Yin. O pai representa a proteção, os limites e os desafios – ar e fogo, o princípio Yang. O equilíbrio entre esses elementos é vital, pois em harmonia sustentam o crescimento, mas em desarmonia causam danos. Assim como muita água apodrece e pouca fenece, ou como muito sol queima e pouco estagna.
Na linguagem da psicologia analítica de Jung, esses dois princípios correspondem às dimensões que M. Esther Harding, em The Way of All Women, designa como Eros e Logos. Eros é o princípio da relacionalidade, do sentimento, da conexão, é a capacidade de estabelecer vínculos, de sentir o outro, de criar intimidade. É a dimensão tradicionalmente associada ao feminino, à mãe, ao princípio materno que acolhe, nutre e envolve. Logos é o princípio da razão, do julgamento objetivo, da discriminação, da lei, é a capacidade de estabelecer limites, de sustentar a frustração, de dizer “não” com firmeza e de abrir caminho para a separação e a individuação. É a dimensão tradicionalmente associada ao masculino, ao pai, ao princípio paterno que ordena, protege e desafia.
Quando Eros se expressa de modo saudável, manifesta-se como calor humano, empatia profunda, capacidade de nutrir vínculos autênticos, sensibilidade estética e espiritualidade relacional. A mãe que expressa um Eros consciente oferece à criança a experiência fundamental de ser amada não pelo que faz, mas pelo que é. Um amor incondicional que constitui a base da segurança emocional. Quando, porém, Eros se manifesta de modo não saudável, e é aqui que a ausência do princípio paterno se torna particularmente devastadora, ele degenera em reatividade, histeria, fusão indiferenciada, possessividade e identificação inconsciente com o filho. A mãe que carrega sozinha o peso da criação, sem a contrapartida de uma presença que sustente a dimensão do Logos, corre o risco de ser engolida pela própria dimensão Eros que, sem o contraponto organizador do Logos, se torna um mar sem margens. A criança, por sua vez, absorve não apenas o amor, mas também a angústia, o ressentimento e a exaustão materna pois, como Jung e Harding observam, existe uma participation mystique, uma identificação inconsciente profunda entre mãe e filho, através da qual os problemas psicológicos não resolvidos da mãe afetam diretamente a saúde e o comportamento da criança.
Quando Logos se expressa de modo saudável, manifesta-se como proatividade, clareza de pensamento, firmeza consistente, capacidade de estabelecer limites que protegem sem aprisionar, e sobretudo como a disposição de sustentar a frustração do filho, aquela qualidade essencial que permite à criança aprender que nem todo desejo deve ser imediatamente satisfeito, que a realidade tem contornos, que existem outros além de si mesmo. A paternagem que encarna um Logos consciente oferece à criança a experiência do mundo como estrutura legível, não como caos indiferenciado. É ele quem, tradicionalmente, introduz a criança no mundo da lei, das regras, da justiça e da competição sadia. Quando, porém, o Logos se manifesta de modo não saudável, ou quando está simplesmente ausente, o vazio que se instala não é neutro. A ausência de Logos deixa a criança sem a experiência internalizada do limite, da frustração tolerável e da autoridade amorosa. Sem essa estrutura, a criança tende a desenvolver dificuldades em lidar com a frustração, em respeitar regras sociais, em conter impulsos e em estabelecer metas que exigem disciplina. E a mãe, por mais dedicada que seja, quando precisa exercer simultaneamente as funções de Eros e de Logos, de nutrir e de limitar, de acolher e de desafiar, de envolver e de separar, frequentemente se vê diante de uma exigência psicológica que ultrapassa as suas possibilidades, não por incompetência, mas porque essas duas funções exigem modos de ser qualitativamente diferentes, e a alternância constante entre elas pode gerar inconsistência, exaustão e culpa.
A mãe que se identifica excessivamente com o papel materno, tornando-se “toda mãe”, cria fixação e impede a independência do filho. É a arquetípica mãe devoradora que consome a individualidade da criança. Por outro lado, a mãe que, sobrecarregada pela necessidade de suprir também a função paterna, se torna excessivamente dura, burocrática ou controladora, corre o risco de reprimir seu próprio Eros, sua capacidade de sentir, de se conectar, de fluir e de transmitir ao filho a mensagem de que o mundo é um lugar de exigências sem acolhimento. O dilema é real e doloroso: como exercer, ao mesmo tempo, a função que envolve e a que separa, a que une e a que delimita, sem que uma destrua a outra?
Assim como, o pai que ensina o filho a respeitar a lei mas desrespeita a mãe em casa não está ensinando lei, está ensinando hipocrisia com pedigree. E o pai que se ausenta sob a alegação de que “está trabalhando para prover” pode estar, na verdade, provendo tudo menos aquilo de que o filho realmente precisa, sua presença.
A mulher que precisa ser pai e mãe: o dilema contemporâneo
Harding descreve três estágios de consciência feminina: o ingênuo, em que a mulher opera por instinto e sem reflexão; o sofisticado, em que desenvolve ego-consciência e busca controle; e o consciente, em que transcende o ego e reconhece um valor suprapessoal que orienta sua vida para além dos papéis biológicos e sociais. A mulher que, sozinha, precisa exercer maternagem e paternagem é frequentemente empurrada para o estágio sofisticado, aquele em que o ego se sobrecarrega, em que a eficiência substitui a presença, em que a sobrevivência se torna o modo de vida. O risco é que essa mulher, esgotada pela exigência de ser tudo para todos, perca o contato com sua própria profundidade, com o Eros que, quando consciente, é fonte de sabedoria relacional, e com o Logos que, quando integrado, é fonte de discernimento e não de mera rigidez.
Ela argumenta que o objetivo profundo, e frequentemente inconsciente, da emancipação feminina não era apenas a independência econômica, mas a criação da possibilidade de uma relação psicológica mais consciente entre os sexos, baseada tanto em Eros quanto em Logos. O que vemos hoje, porém, é frequentemente o contrário: a mulher que se torna tudo, mãe, pai, provedora, educadora e terapeuta, não porque escolheu a integração consciente de ambas as dimensões, mas porque foi abandonada à sua própria sorte por um sistema que produz ausência paterna em escala industrial. A questão não é que a mulher seja incapaz de desenvolver Logos, certamente ela não apenas pode como deve, mas que o desenvolvimento consciente do Logos pela mulher é um processo psicológico longo e deliberado, que exige condições internas e externas que a sobrecarga da maternidade solo dificulta enormemente.
Quando a mãe é levada a exercer, por necessidade e não por escolha consciente, a função paterna, três dinâmicas psicológicas podem se instalar. Primeiro, a fusão sem a presença de uma figura que represente o princípio da separação, a participation mystique entre mãe e filho se intensifica, e a criança tem dificuldade de se diferenciar como indivíduo. Segundo, a inconsistência, a mesma pessoa que acolhe é a que limita, e essa ambiguidade confunde a criança, que não sabe se a autoridade que a frustra é a mesma que a nutre, gerando ansiedade e desconfiança em relação ao cuidado. Terceiro, a idealização, a criança privada do pai real constrói uma imagem idealizada do pai ausente, uma espécie de projeção do animus, e essa fantasia impede que ela desenvolva relações realistas com figuras masculinas no futuro, pois nenhum homem real conseguirá corresponder à perfeição do pai imaginário.
E aqui chegamos à pergunta mais angustiante de todas: como será o futuro dos filhos que crescem sem a intimidade cotidiana com uma presença masculina saudável?
A criança que não experimentou, no cotidiano, o que significa ser vista por um olhar masculino amoroso e firme, um olhar que simultaneamente acolhe e desafia,terá dificuldade em internalizar o arquétipo paterno de modo saudável. Ela terá dificuldade em sustentar frustrações, em respeitar limites que não sejam impostos pela força, em reconhecer a autoridade legítima quando ela não vem acompanhada de afeto. E, no caso dos meninos, a ausência de um modelo masculino encarnado, não idealizado, não virtual, mas real e cotidiano, com suas qualidades e suas falhas, dificulta enormemente o processo de identificação masculina saudável, aquele que permite ao menino tornar-se homem sem precisar renegar a sua dimensão sensível, sem precisar endurecer-se para provar que é forte. No caso das meninas, a ausência do pai real alimenta a fantasia do Amante Fantasma, aquele homem idealizado e irreal como projeção do animus inconsciente, que persegue a imaginação feminina e a afasta da realidade dos relacionamentos autênticos.
O complexo paterno: quando a lei encontra o afeto
O complexo paterno é um dinamismo psíquico que, no desenvolvimento da personalidade, fica mais atuante dos sete até aproximadamente os catorze anos. Neste momento a criança passa a viver o mundo do pai, o período do patriarcado, mesmo que não tenha relação com nenhuma pessoa do sexo masculino. É uma fase caracterizada pelo amadurecimento do cérebro límbico, maior capacidade de inibição dos instintos e consolidação dos valores culturais, sociais e religiosos. O jovem começa a estabelecer relações intersubjetivas mais abrangentes, vinculando-se a grupos, times, torcidas ou outras agremiações, formando referências hierárquicas. É nesse momento que as regras, as leis e a justiça são internalizadas.
E é exatamente aqui que reside o perigo e a oportunidade: se o modelo de autoridade que a criança internaliza for tirânico, ela aprenderá que poder é sinônimo de crueldade. Se for ausente, aprenderá que lei é sinônimo de vazio. Se for amoroso e firme, aprenderá que limite é sinônimo de cuidado e que respeito não se exige, se inspira. Quando a figura paterna real está ausente, a criança buscará o arquétipo paterno em outros lugares, no professor, no tio, no treinador, no líder de comunidade, e, cada vez mais, em figuras virtuais e influenciadores digitais ou lideranças religiosas que, na maioria das vezes, encarnam exatamente a versão mais patológica do Logos que é poder sem responsabilidade, força sem vulnerabilidade, sucesso sem ética. A criança que não tem um pai presente para internalizar como modelo de Logos saudável fica à mercê de pseudopais coletivos que não a conhecem, não a amam e não se responsabilizam por ela.
Os quatro pilares da paternidade consciente
Para que essa internalização seja saudável, é preciso que o pai, ou quem exerça a função da paternagem, cultive quatro pilares fundamentais:
1. A Presença Consciente: Este é o maior presente. Exige uma entrega intencional, uma desconexão das distrações que fragmentam a alma. É a arte da escuta empática, que ouve o coração por trás das palavras. É o tempo de qualidade, onde os rituais de afeto fortalecem os laços anímicos. É o silêncio dos dispositivos eletrônicos para que o contato visual possa comunicar: “você é minha prioridade”.
2. Limites como um Abraço de Amor: Limites, quando estabelecidos com amor e firmeza, não são jaulas, mas as margens seguras que permitem ao rio da vida infantil fluir com propósito. A ausência de limites gera um mar de ansiedade. Uma estrutura paterna saudável, em harmonia com a nutrição materna, oferece essa segurança por meio da clareza, da consistência e do diálogo. A firmeza corrige o comportamento, mas sempre reafirma o amor incondicional pela essência da criança. É o Logos a serviço do Eros, a lei que protege o amor, e não o amor que se submete à lei.
3. A Vulnerabilidade como Força: A transição de um modelo de poder para um de alteridade começa em casa. É ali que a criança aprende a empatia e o respeito. Isso acontece quando o pai modela a vulnerabilidade: quando admite seus erros, pede desculpas e demonstra que a verdadeira força não reside na infalibilidade, mas na coragem de ser humano, de aprender e de se reparar. Um pai que integra sua própria sombra e que reconhece suas falhas sem se destruir pela culpa, ensina ao filho que a integridade não é perfeição, mas consciência.
4. A Cooperação como Vitória da Alma: Incentivar a colaboração em vez da competição, validar a perspectiva do outro e partilhar responsabilidades ensina que o cuidado com o espaço comum é um dever sagrado de todos. Ensina que o triunfo coletivo é a mais gratificante das vitórias.
O presente que os filhos nos dão
Como estamos nos aproximando da comemoração do Dia dos Pais, que em 2026 cai em 9 de agosto, acredito que o melhor presente que os filhos possam nos dar é a sua presença, exigindo-nos coerência e consistência das nossas atitudes com os nossos valores. Sim, você leu corretamente: o presente é deles para nós. Porque a presença de um filho que olha nos olhos do pai e diz “seja o que você ensina” é o maior espelho que um homem pode enfrentar.
E nós, pais, devemos refletir a respeito das nossas prioridades, exigindo e estimulando o cumprimento das leis, o respeito aos direitos humanos e maior consciência e transparência sobre nossa real condição existencial. Só assim poderemos sonhar com um mundo livre das tiranias que se alimentam do abandono, um mundo onde um patriarcado curado, forte e comprometido com o futuro, caminhe de mãos dadas com o matriarcado. Juntos, em alteridade, ensinam cada ser a conhecer seu limite e sua responsabilidade, pois aprenderam a arte mais sublime de todas que é o respeito, a capacidade de olhar e se deixar ser olhado com os olhos do amor.
A alteridade não é o fim do pai. É o seu amadurecimento. É o momento em que o pai pode finalmente dizer: “Cresce. Eu já plantei. Agora floresce no teu próprio jeito.”
O futuro que desejamos para nossos filhos não é uma abstração a ser erguida amanhã. Ele é forjado no agora, em cada interação, em cada escolha, em cada momento de presença consciente que tece a estrutura interna para uma vida plena, justa e com significado.
Com isso, o princípio paterno será internalizado, fazendo com que disciplina, limites, regras, proteção e referência de autoridade amorosa contribuam para o futuro saudável de todos. Porque, no fim das contas, o que a criança precisa não é de um pai perfeito, porque seres perfeitos só existem em campanhas publicitárias de Dia dos Pais, mas de um pai presente, consciente e humano o suficiente para reconhecer os próprios erros e corrigi-los diante dos filhos. Isso é paternidade. O resto é performance.
Feliz Dia dos Pais!
Que seja não apenas uma data de presente e abraço, embora ambos sejam indispensáveis, mas um dia de autoconsciência paterna. Que cada pai, cada mãe, cada adulto que exerce a função paterna, se pergunte: que espelho tenho sido para os filhos que herdarão não apenas o meu nome, mas a minha luz e a minha sombra, e que farão, daquilo que eu lhes transmitir ou lhes negar, o material bruto com que construirão o próprio destino? E que a resposta, por mais desconfortável que seja, seja o começo de uma nova herança.

