Resumo: Em nossa civilização, muitas vezes, tristeza, dor e sofrimento são patologizados. Mas a criação humana anda de mãos dadas com os infortúnios e, psicologicamente, talvez não haja alquimia mais poderosa do que transmutar tristeza em alegria. A partir do mito tupi da gênese da Serra da Mantiqueira, a “serra que chora”, faço, neste ensaio, uma reflexão sobre o poder da dor no processo criativo, no desenvolvimento da personalidade, na inspiração para o belo e para uma nova-velha concepção de felicidade.
Mantiqueira, palavra que se refere à serra que se ergue e se estende do nordeste paulista até parte do território de Minas Gerais e Rio de Janeiro, é uma corruptela da língua portuguesa para o termo tupi Amantikir, que significa: “serra que chora”.
Nascente de rios importantes do Sudeste do País, que, em muitos casos, ao se unir a outros cursos d’água, chegam a mais regiões do nosso território e até mesmo do continente sul-americano, a Serra da Mantiqueira guarda em seu nome um mito dos tupis que habitaram a região.
A lenda (2021), pelo menos como se conta em nossos dias, fala de uma “princesa” que se apaixona pelo Sol e pela qual, em razão de sua paralizante beleza, o Sol também se apaixona. A paixão entre a humana e Guaraci, nome tupi para o astro-rei, embora genuína e bela, como costumam ser as paixões, põe em risco a existência do mundo. Afinal, o Sol, diante da bela princesa, nega-se a seguir seu curso e faz de todas as horas meio-dia.
O mundo fica sem sombras nem noite e, se não bastasse parar no centro do céu, o Sol se achega à Terra para poder ver sua paixão de perto.
Assim, esse amor, literalmente, queima. Os homens pouco podem com o Sol. Nem protestos nem pedidos fazem com que Guaraci lhes restitua uma existência que respeite os ciclos vitais. É preciso que outro ente celestial e com poderes divinos intervenha. Assim, é Jaci, a Lua, enciumada, ferida em seu orgulho e desejosa por poder voltar a se erguer no firmamento da noite, quem recorre a Tupã e lhe pede que faça algo para reaver a cósmica ordem ao luminoso e quente caos que aquela paixão instaurou.
Tupã, então, ergue uma cadeia de montanhas repleta de relva densa e esconde do Sol, em seu verdor sombrio, a princesa. O Sol singra o céu procurando-a, mas não a encontra. Assim, ao se deitar no horizonte, perdendo-se no mar e na noite, Guaraci sangra o poente pela perda que sente. A princesa consegue vê-lo entre as folhas das árvores, mas não pode mais ser vista. Chora, no alto das montanhas, fazendo correr serra abaixo sua tristeza que irrigará de vida a terra do seu e de outros povos. Assim, ela vira Amantikir.
A Lua, que sempre amou o Sol, mesmo enciumada, pranteia o sofrimento do seu amado e prateia o céu noturno com suas lágrimas que fazem nascer as estrelas.
O poder criador da tristeza
Um mito, como um poema, não precisa ser explicado, mas dentre as possíveis ampliações desta história, me atravessa o poder criador da tristeza.
A palavra paixão vem do grego antigo pathos, que significa, grosso modo, sofrimento, dor. A palavra paciente, comum para quem passa por algum processo de cuidado, vem do latim patiens, sendo pati- (sofrer) e o sufixo -ens (aquele): “aquele que sofre”, “aquele que suporta”. Ser paciente, então, é suportar e superar a dor. Quem não precisa ser paciente na vida? É na paciência para viver e digerir, na alma, os infortúnios das paixões frustradas que novos mundos são criados e velhos mundos são curados.
A arte é prodigiosa em exemplos de como fazer das lágrimas estrelas ou rios de vida nova.
Lá pelos 17 anos, costumava dizer que as paixões frustradas — no caso, eram sobretudo as românticas, mas também podemos nos apaixonar por ideias, atividades etc. — se curavam em versos. Ou seja, se o “fora” virasse poema, era sinal de que eu estava cicatrizando. Afora a bravata, típica da juventude, há um bom tanto de verdade. Os poemas eram curativos que, combinados ao tempo, me ajudavam a transcender ou superar, parafraseando Jung, o inferno das minhas paixões. Aliás, no trecho referido da paráfrase, Jung (2016, p. 243) escreve: “O homem que não atravessa o inferno de suas paixões também não as supera. Elas se mudam para a casa vizinha e poderão atear o fogo que atingirá sua casa sem que ele perceba.”
De alguma maneira, esse pensamento dialoga com o que nos oferece López-Pedraza (2002, p. 54): “Creio que há uma diferença muito importante entre a experiência de conectar-se com o próprio sofrimento e simplesmente sofrê-lo”. Para López-Pedraza (1995), conectar-se com o sofrimento é um ato dionisíaco, é tirá-lo para dançar, fazer dele expressão de beleza, como fazem os atores de tragédias em um palco de teatro, como fazem os poetas com seus versos sacromundanos. Manoel de Barros, em um metapoema sem título, escreve que, ao começar um poema:
[…] convém se vestir roupa de trapo.
Há quem se jogue debaixo de carro
nos primeiros instantes.
Faz bem uma janela aberta
uma veia aberta.
Pra mim é uma coisa que serve de nada o poema
enquanto vida houver.
Ninguém é pai de um poema sem morrer.
(BARROS, 2015, p. 55)
Do grão à pérola, é preciso paciência
Este texto não é uma ode ao sofrimento por si só. Nem se busca, aqui, negar o desejo natural e humano de nos livrar da dor. É apenas o reconhecimento do valor do sofrimento, do qual só podemos nos livrar quando somos capazes de fazer a alquimia que lhe dará sentido e significado. Afinal, a dor é parte indissociável da vida.
Não é incomum que as pessoas busquem a análise com a finalidade de extinguir a tristeza. Mas a cura na psicologia analítica não é a aniquilação dos sintomas desagradáveis.
O fim da tristeza e do sofrimento não é o fim, mas a transformação e só o que tem significado transforma. Jung (2013, §185) escreveu que: “o objetivo mais nobre da psicoterapia não é colocar o paciente num estado impossível de felicidade, mas sim possibilitar que adquira firmeza e paciência filosóficas para suportar o sofrimento”.
É importante, aqui, retornar à palavra paciência. Ela é especialmente necessária quando ainda falta o significado, o que acontece na maior parte do tempo, porque o significado não se alcança quando se quer, por vontade, de forma lógica e racional. O significado se alcança quando se é capaz de se conectar ao sentimento, de reconhecê-lo, considerá-lo, vivê-lo no corpo e expressá-lo.
Há um trecho bíblico, que me chama a atenção, em Mateus (13, 45-46) de forma especial. Ele diz: “O Reino dos céus é ainda semelhante a um negociante que procura pérolas preciosas. Encontrando uma de grande valor, vai, vende tudo o que possui e a compra.” É curioso pensar em um negociante abrindo mão de tudo o que tem por uma pérola. Que valor tem uma pérola senão permitir que se compre algo com ela? Destituída dessa função mercantil, o que lhe resta?
Justamente o seu real valor, que não é a beleza, pura e simplesmente. É a beleza como fruto de uma dor transcendida, de um sofrimento com sentido e capaz de dar significado a uma vida.
Talvez Cristo, segundo Mateus, tenha usado esse exemplo para dizer que, na vida, o que tem valor é justamente a nossa capacidade de fazer da ferida beleza, de transformar o sofrimento em um presente que ilumina de sentido nossa história. Afinal, a pérola se faz a partir de grãos de areia que a invadem e fustigam o interior da ostra. Para vencer a dor, ela, por anos, erige, com doses microscópicas de nácar (madrepérola), uma proteção que faz do grão cortante uma esfera brilhante e lisa.
Uma outra perspectiva da felicidade
A palavra felicidade se origina do latim felicitas que, por sua vez, vem de felix, que, em seus primórdios, significava fértil, fecundo, frutífero. É importante fazer uma distinção entre alegria e felicidade. A meu ver, a tristeza e o sofrimento cabem na felicidade, assim como a alegria, porque a felicidade é um terreno amplo e acolhedor que permite frutificar diversas e distintas sementes emocionais.
A alegria tem outra história. Vem do adjetivo latino alacer, que significa vivaz, ágil, rápido, esperto. Tem a ver com leveza, algo que facilita o movimento. O antônimo de tristeza, do latim tristitia, seria, então, a alegria, já que a tristeza carrega um peso, é densa, como um céu carrancudo; é difícil de engolir, como algo amargo, como uma decepção. Tristeza não é sinônimo de, mas pode ser um convite à introspecção. A alegria, por outro lado, nos empurra para fora.
Nesse contexto, a felicidade é o terreno fértil onde coexistem e frutificam, a um só tempo, tristeza e alegria.
A felicidade seria assim, uma atitude, seria a causa e não a consequência. Seria a nossa disposição para saber que, seja qual for a experiência, cômica ou trágica, haveremos de, a partir dela, gerar um fruto que nos dará sentido. Psicologicamente, a felicidade é um solo fértil sem o qual não é possível conferir significado ao sofrimento, nem nos curar das neuroses, nem transmutar a tristeza em algo que nos deixe, em alguma medida, um gosto de alegria.
Assim, é preciso e possível imaginar a ostra feliz com seu fruto madrepérola, imaginar Amantikir feliz em ver que suas lágrimas nutrem de vida um vasto território, o sol feliz em se pôr, mesmo que sangre (ou porque sangra), e a lua, com o mesmo sentimento, na companhia das estrelas que suas lágrimas deram à luz.
Wagner H P Borges — Membro Analista em Formação pelo IJEP
Dra. E. Simone Magaldi — Membro Didata pelo IJEP
Bibliografia:
Fotografia – imagem de capa: autoria própria
A LENDA DE AMANTIKIR. Parque Amantikir, 2021. Disponível em: https://parqueamantikir.com.br/conheca/. Acesso em: 23/09/26.
BARROS, Manoel de. Meu quintal é maior do que o mundo. São Paulo: Objetiva, 2015.
BÍBLIA. Bíblia Sagrada. Tradução de Monges de Maredsous. 150ª ed. São Paulo: Ave-Maria, 2002.
HOLLIS, James. A passagem do meio — da miséria ao significado da meia-idade. São Paulo: Paulus, 1995.
JUNG, C. G. A prática da psicoterapia. 16ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013.
_________. Memórias, Sonhos e Reflexões. 35ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2021.
LÓPEZ-PEDRAZA, Rafael. Dioniso exilado — sobre a repressão da emoção e do corpo. São Paulo: Paulus, 2002

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