Nesse artigo trouxe alguns números novos, explorando o Boletim Epidemiológico de HIV/Aids, divulgado por ocasião do dia 1 de dezembro –Dia Mundial de Luta contra a Aids – do ano de 2025.
Segundo Jung, “Faz parte do amor a profundidade e fidelidade do sentimento (…) o verdadeiro amor sempre pressupõe um vínculo duradouro e responsável”. (JUNG.2019, & 231). Nesse sentido, em profundidade de “Alma”, como postula Jung, o termo “fazer amor” nos torna mais próximos dessa afetividade.
A sexualidade é um dos aspectos da dimensão humana, cercada ainda de muita dor e sofrimento, em razão do ocultamento e da aura do pecado, imposto principalmente pela formação judaico-cristã de nossa sociedade ocidental. A cultura do pecado manteve o véu da ignorância e do preconceito em torno do assunto e em razão disso, pouco se fala e se pesquisa sobre o tema, dado os parcos recursos bibliográficos disponíveis. Arrisco a dizer que apenas com o surgimento da AIDS e todas as suas particularidades, principalmente no início da infecção, onde denominada “câncer gay” é que se iniciou a falar sobre sexualidade e a defini-la em seu aspecto mais amplo (biopsicossocial). Foi quando as camadas sociais que se encontravam na sombra coletiva emergiram e a sociedade precisou integrá-las.
Falando-se em epidemia silenciosa, podemos defini-la como aquela epidemia em que existe a transmissão contínua de HIV e ISTs, sem chamar a atenção imediata das autoridades sanitárias, por serem muitos dos casos assintomáticos e subnotificados, prolongando assim o ciclo da infecção e da transmissão. Nesse caso específico, apenas os órgãos midiáticos (IP-imprensa pública.com.br) denominaram como Epidemia silenciosa, na ocasião de divulgação dos dados abaixo, na cidade de Porto Alegre:
De acordo com um estudo em Porto Alegre, Imprensa Pública, 2025, foi identificada uma prevalência de 1,64% de pessoas com HIV na população geral, acima do limite de 1% que a OMS classifica como epidemia generalizada.
No Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde, 2024, 4,5% a mais de casos foram diagnosticados que em 2022. Mortes por AIDS atingiram 3,9 de óbitos por 100 mil habitantes. Esse foi o menor índice demonstrado desde 2013.
No perfil demográfico do mesmo estudo, foi identificado que 70,7% dos casos notificados são em homens, sendo 63,2% em pessoas pretas/pardas, 53,6% em homens que fazem sexo com homens (HSH), numa faixa etária de concentração entre 20 e 29 anos. Desses, foram encontrados 37,1% dos infectados. Prevalece aqui ainda, a juvenilização da infecção por HIV.
O que é mais sério nesse estudo em minha opinião, é a estimativa de que 11% dos indivíduos com HIV desconhecem seu diagnóstico, motivo pelo qual favorece a contaminação em indivíduos promíscuos e que não fazem sexo com proteção.
Os grupos mais vulneráveis identificados são: Homens que fazem sexo com homens, com até 18% de prevalência, população trans/travesti, em mais de 30% e jovens (15–24 anos), onde as novas infecções dobraram entre 2000 e 2015, provavelmente devido à queda no uso de preservativos.
As ISTs (infecções sexualmente transmissíveis) são frequentemente assintomáticas e variam entre sífilis, gonorréia, HPV (papiloma vírus humano), hepatite B e mostram índices de crescimento.
Não ignorando os dados acima, aqui apresento uma síntese atualizada da situação do HIV e da Aids no Brasil, com base no Boletim Epidemiológico de HIV e Aids 2025 do Ministério da Saúde. São abordados dados sociodemográficos, distribuição regional, faixa etária, sexo, formas de transmissão e tendências recentes da epidemia. Também se discute o impacto das estratégias de prevenção combinada, com destaque para a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP), cada vez mais relevante no cenário nacional. Os achados indicam a persistência da epidemia entre homens jovens, particularmente homens que fazem sexo com homens (HSH) e ressaltam a importância de políticas públicas integradas para ampliação da testagem, tratamento e prevenção.
Até setembro de 2025, o Brasil registrou 683.930 casos de infecção pelo HIV desde o início da vigilância, em 1991. A distribuição por sexo demonstra predomínio masculino: 450.922 casos (65,9%) ocorreram em homens e 232.473 (34,1%) em mulheres. Para Aids, desde 1980 foram notificados 1.165.369 casos, dos quais 67,3% entre homens e 32,7% entre mulheres. A razão de sexos tem aumentado ao longo das últimas décadas, indicando maior concentração da epidemia entre homens adultos jovens, com uma faixa etária de 20 a 29 anos o que representa cerca de 37% dos novos diagnósticos, chegando a 41% entre homens, o que deixa clara ainda, a tendência da juvenilização nos casos novos. Em relação à Aids, observa-se que as maiores proporções estão entre pessoas de 25 a 34 anos, o que ainda reforça o impacto da infecção na população economicamente ativa e sexualmente mais ativa.
Importante aqui chamar a atenção para um melhor entendimento, de que existe uma diferença entre “pessoas vivendo com HIV e doentes de Aids”. A primeira refere-se a pessoas contaminadas com HIV e que ainda não desenvolveram a doença e a segunda, refere-se a pessoas com infecções oportunistas e que já desenvolveram a doença.
A epidemia apresenta marcantes desigualdades regionais. Em 2023, a maior proporção de novos casos de HIV foi registrada no Sudeste (34,7%), seguido pelo Nordeste (26,9%), Sul (16,4%), Norte (12,8%) e Centro-Oeste (9,3%). Considerando o total de pessoas vivendo com HIV/Aids desde 1980, o Sudeste concentra quase metade dos casos (47,3%). Grandes centros urbanos como São Paulo, Rio de Janeiro, Manaus, Fortaleza e Salvador permanecem como epicentros da epidemia devido à densidade populacional, desigualdades socioeconômicas e maior acesso à testagem.
A transmissão sexual continua sendo a principal via de infecção no Brasil. Entre os casos de Aids notificados em 2024, 43,9% ocorreram entre homens que fazem sexo com homens (HSH), categoria que historicamente concentra altas taxas de incidência e que infelizmente, a meu ver, denota uma falha na prevenção primária e a necessidade do desenvolvimento de maiores ações preventivas dessa categoria. Outro aspecto que chama a atenção é o motivo pelo qual essa categoria específica da população não está se prevenindo efetivamente e no caso, se existem falhas nesse processo de prevenção, quais seriam?
Outras modalidades de transmissão incluem relações heterossexuais, uso de drogas injetáveis e transmissão vertical, embora esta última tenha diminuído significativamente devido à eficácia das estratégias de prevenção da transmissão materno-infantil.
Apesar do aumento no número de diagnósticos de HIV influenciado pela ampliação da testagem, a mortalidade por Aids atingiu seu menor valor desde 2013 (3,9 óbitos por 100 mil habitantes em 2023). Esse avanço está diretamente relacionado ao acesso universal à terapia antirretroviral (TARV) e ao fortalecimento da rede de cuidados contínuos.
A epidemia atual do HIV no Brasil é caracterizada por uma dinâmica complexa, marcada pela concentração crescente entre homens jovens e entre HSH. Esses dados reforçam a urgência de estratégias de prevenção mais direcionadas e efetivas.
A prevenção combinada, preconizada pelo Ministério da Saúde, integra múltiplas estratégias, como a educação em saúde para a promoção da sexualidade segura, o uso consistente de preservativos (gratuitos no SUS), a testagem regular para a ampliação do diagnóstico, tratamento como prevenção (TASP), uma vez que pessoas em tratamento e com carga viral indetectável não transmitem o HIV, profilaxia pós-exposição (PEP), e a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP), todas disponíveis no sistema público de saúde.
Entretanto, a efetividade da PrEP depende de fatores que extrapolam a dimensão biomédica. Barreiras relacionadas ao estigma, à desinformação, à dificuldade de acesso a serviços, bem como desigualdades sociais e regionais, ainda limitam sua plena implementação. Além disso, a concentração da epidemia entre populações já historicamente vulnerabilizadas revela a necessidade de políticas intersetoriais que integrem saúde, educação, direitos humanos e combate às desigualdades.
O que penso ser importante nesse sentido é que apesar dos desafios, a diminuição da mortalidade por Aids e o aumento da testagem são indicativos de melhorias na resposta brasileira à epidemia. O fortalecimento das estratégias de prevenção combinada, aliado à ampliação da PrEP e da TARV, constitui o eixo central para o controle da epidemia no país, segundo o Ministério da Saúde, por meio do Programa de Aids.
Ainda falando-se em sexualidade e tentando linkar a transmissão sexual do HIV/Aids e as ISTS (infecções sexualmente transmissíveis) , podemos afirmar que é na dimensão psicossocial da sexualidade, onde inclui-se também os fatores psicológicos, como emoções, pensamentos e personalidade, combinados a elementos sociais, como por exemplo, o modo como as pessoas interagem, que compreendemos os vários distúrbios sexuais e seria também nessa dimensão onde poderemos compreender alguns dos aspectos importantes da exposição à transmissão do HIV e das ISTs. É aqui que introjetamos as informações recebidas por nossos pais, professores e companheiros, herdando também os mitos, crendices e tabus sexuais, que muito influenciam no desenvolvimento saudável ou não da sexualidade e assimilamos determinadas “normas de comportamento sexual”.
No tocante ao comportamental, esse aspecto da sexualidade permite-nos não somente verificar o que as pessoas fazem, mas a forma com que o fazem e porque o fazem. Assim, é importante que evitemos “julgar” o comportamento sexual de outras pessoas a partir dos nossos próprios valores e experiências, por vezes baseado em normoses ou ainda por conceitos religiosos individuais. Ora, o que é normal para mim, muitas vezes não o é para o outro, pois esse julgamento é baseado por nossos próprios valores, crenças, mitos e tabus, herdados em toda a dimensão do aprendizado de vida do indivíduo.
De acordo com Cavalcanti & Cavalcanti, na dimensão clínica da sexualidade, podemos observar que embora o sexo seja uma função natural do ser humano, algumas coisas podem afetar essa espontaneidade das atividades sexuais, como as doenças físicas, violência e abusos sexuais, lesões e uso de drogas que podem comprometer esse padrão de resposta sexual. Entram aqui também, sentimentos como ansiedade, culpa, medo, depressão e conflitos interpessoais, que podem coibir ou mesmo alterar a vivência saudável da sexualidade.
No tocante à contemporaneidade e em toda essa questão biológica da sexualidade, infelizmente a mais importante para os padrões sexuais atuais, pouco se aborda a importância emocional do contato humano. Percebemos que esse culto ao corpo, ao consumismo, à performance e à persona sexual, sem a preocupação com o outro, com a afetividade e com os aspectos da alma, como bem fala Jung, tem trazido inúmeros sintomas físicos e mentais, gerando patologias e disfunções sexuais, entre outros distúrbios.
A palavra Promiscuidade deriva do latim promiscuus, que significa “misturado” ou “comum a muitos”. No contexto sexual, refere-se à prática de manter relações sexuais, com vários indivíduos, comumente de forma casual, sem vínculo afetivo, compromisso ou exclusividade.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS.2003) e Manuais Epidemiológicos de Vigilância de ISTs (infecções sexualmente transmissíveis), a promiscuidade é considerada um fator de risco comportamental para a transmissão de infecções sexualmente transmissíveis e é frequentemente definida por : ter três ou mais parceiros sexuais em um período de 12 meses ou ter mais de um parceiro sexual no mesmo período sem proteção, o que pode denotar um comportamento sexual baseado em sexo casual, com muitas parcerias ao longo do tempo, sem se limitar a um único relacionamento ou parceria estável.
Importante salientar que a OMS tem um foco na promoção da saúde sexual e reprodutiva, enfatiza o sexo seguro e a prevenção das ISTs (infecções sexualmente transmissíveis) e que a ideia de promiscuidade e número de parcerias sexuais podem variar de acordo com a cultura, o contexto social e as crenças individuais. Considera ainda, que a saúde sexual é um direito fundamental e que a prática e a orientação sexual da pessoa devem ser respeitadas, desde que não causem danos a si mesmo ou a outrens.
Nesse sentido, a procura demasiada e inconsciente de satisfação emocional por meio de sexo sem envolvimento de Alma, pode denotar uma necessidade de suprir uma carência afetiva, uma negação rígida do desejo, ou ainda, a constelação de algum complexo. Ao mesmo tempo em que a sociedade condena tal comportamento, ela pode alimentá-lo por fenômenos como mídia hiper erótica, cultura de corpos disponíveis e sexo exclusivamente como via de fuga, o que pode ser considerado uma projeção da sombra coletiva.
Sombra é para mim a parte “negativa” da personalidade, isto é, a soma das propriedades ocultas e desfavoráveis, das funções mal desenvolvidas e dos conteúdos do inconsciente pessoal.
JUNG.2019, p.77
De acordo com Jung, do ponto de vista do indivíduo, a sombra é pessoal, formada pelos conteúdos do inconsciente pessoal, mas a sombra também é coletiva e pode compreender os aspectos reprimidos por uma cultura que não reconhece sua própria dimensão obscura. Isso inclui desejos e impulsos sexuais, que ao serem negados, podem retornar de forma distorcida e inconsciente, influenciando padrões de comportamento como a promiscuidade sexual que também pode ser vista como manifestação da sombra coletiva e dessa sexualidade reprimida e inconsciente.
A sombra age como um sistema imunológico psíquico, definindo o que é eu e o que é não eu (…). Por exemplo, alguns permitem a expressão da raiva ou da agressividade; a maioria, não. Alguns permitem a sexualidade, a vulnerabilidade ou as emoções fortes; muitos, não.
ZWEIGA.2024, p.16
Segundo Jung, o amor é uma função da totalidade psíquica, e não se reduz ao desejo físico ou à paixão passageira. Para ele, o amor autêntico exige a integração da Anima ou do Animus, ou seja, das dimensões femininas e masculinas inconscientes que habitam cada ser. Sem essa integração, o sujeito se relaciona de forma projetiva e inconsciente, buscando no outro a completude que falta em si, o que pode gerar relações marcadas pela compulsividade, promiscuidade ou idealização perigosa.
Assim, o comportamento sexual de risco pode ser visto como expressão da fuga da consciência de si, uma tentativa de resolver no outro um vazio interno, uma carência de sentido ou amor-próprio. O comportamento de risco, então, pode ser uma tentativa inconsciente de confronto com a sombra em que o indivíduo desafia a morte, a doença, a moral, porque precisa sentir algo autêntico, mesmo que destrutivo. Alguns relatos clínicos que ouvi, pessoas com HIV relataram que o momento do diagnóstico foi o primeiro encontro real consigo mesmas ou um “chamado à alma”, para o autoamor e o autocuidado.
A sexualidade vivida de forma compulsiva e promíscua, sem proteção, pode estar ligada ao desejo inconsciente de morte (mesmo simbólica) de muitos aspectos sombrios. Muitos jovens hoje romantizam relações marcadas por riscos, com falas como “não gosto de camisinha” ou “sexo é bom com perigo”, mostrando uma fusão inconsciente entre prazer e morte.
Essa dinâmica é observável na ascensão de casos de HIV entre jovens homossexuais e bissexuais, que apesar de terem informação e acesso à PrEP (profilaxia pré-exposição) muitas vezes, optam por relações desprotegidas, fenômeno descrito como “bug chasing” (busca deliberada por infecção), que pode ser interpretado, à luz de Jung, como um desejo de iniciação arquetípica pela dor.
A saúde pública tradicionalmente atua sobre o comportamento e o corpo, mas ignora a subjetividade e o inconsciente. Uma abordagem mais integrativa exigiria reconhecer que a prevenção de HIV e ISTs não é só técnica, mas também simbólica, emocional e espiritual.
Como bem diz:
Já não é possível hoje em dia passar por cima da importante realidade psicológica da sexualidade com ar de deboche ou com indignação moral. Começa-se a incluir a questão sexual no círculo dos grandes problemas e a discuti-la com a seriedade que sua importância merece.
JUNG 2019, p. 112, & 212
“O confronto com a nossa própria alma, com a anima e o animus, com o feminino e o masculino, pode ter uma forma sexual, O amor por si mesmo e o amor pelos outros são experimentados corporalmente na sexualidade, seja através de fantasias ou de atividades. Em nenhum outro lugar a união de todos os opostos, a unio mystica, o mysterium coniunctionis, expressa-se de modo mais impressionante que na linguagem do erotismo.” (Guggenbuhl-Craig.2024,p.119)
Maria Ivanilde Ferreira Alves Membro – Analista em formação pelo IJEP
Dra. E. Simone D. Magaldi – Analista Didata IJEP
Referências Bibliográficas:
Direção-Geral da Saúde. 2022. Serviço Nacional de Saúde. Site do Serviço Nacional de Saúde Português. [Online] 25 de Novembro de 2022. https://www.sns24.gov.pt/tema/saude-sexual-e-reprodutiva/comportamentos-sexuais-de-risco/.
Jung, Carl Gustav. 2013.Obras Completas 10/3 – Civilização em Transição. Petrópolis : Vozes, 2013.
Jung, Carl Gustav. Obras Completas 8/2 – A Natureza da Psique. Petrópolis: Vozes, 2019.
Jung, Carl Gustav.Obras completas 7/2 – O Eu e o Inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2019.
CAVALCANTI, R; CAVALCANTI, M. – Tratamento Clínico das Inadequações Sexuais. 5.ed. Payá, 2022
Zweig, Connie et all – Ao Encontro da Sombra- O potencial oculto do lado escuro da natureza humana. Cultrix, 2024
Boletim Epidemiológico HIV/AIDS 2023. Ministério da Saúde.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento de HIV, Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e Infecções Sexualmente Transmissíveis. Boletim Epidemiológico HIV e Aids – Número Especial 2025. Brasília: Ministério da Saúde, 2025.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Brasil registra menor mortalidade por Aids da série histórica. Brasília, 2024.

